sexta-feira, 9 de abril de 2021

A história do camionista que me faz recordar Sócrates

 



Para melhor percebermos esta história, deixem-me contextualizar. Um camionista que transportava um camião de cimento, para no alto da serra de Rio Maior, para satisfazer uma necessidade fisiológica. Entretanto apercebe-se que o seu camião tinha sido posto a trabalhar e seguia caminho na Nacional 1. Acresce ainda o facto de naquela altura haver uma grave crise de distribuição de cimento, por um surto grevista.

Corria o ano de 1975, e eu desenvolvia a minha actividade profissional na assistência técnica a uma cadeia de integração em suinicultura. Dos vinte e poucos cooperadores visitados por mim, havia um cavalheiro, construtor civil de profissão e que fazia questão em acompanhar-me na visita à sua exploração agrícola. Na semana seguinte ao episódio do camião de cimento, fiz a minha habitual visita de acompanhamento técnico aquela exploração, situada na Benedita. Como de costume acompanhou-me o proprietário, e a primeira coisa que me disse foi:

Tenho uma história gira para lhe contar. No dia x da semana passada, estava eu no café e entra um indivíduo a perguntar se havia algum construtor civil presente, e se estava interessado num camião de cimento.

Camionista - Sabe, eu tenho um irmão que trabalha na cimenteira em Alhandra, e que se eu conseguir lá entrar antes do meio dia, ela arranja-me mais um carregamento. O preço é X, e o pagamento tem que ser em dinheiro vivo, uma vez que esta carga saiu pela porta do cavalo.

Acordei com o homem irmos à obra, e enquanto descarregassem o cimento, passávamos pelo Banco para levantar o dinheiro. Quando saímos, o camionista disse-me que sempre tinha gostado de um automóvel igual ao meu velhinho Mercedes 190 D.

Chegados ao estaleiro, saímos do automóvel, quando a descarga ainda ia a meio.

Camionista – Será que estaria interessado em vender o seu Mercedes, ao que eu respondi que podia pensar no assunto. Quer ver que ainda fazemos negócio, deixa-me experimentar o carro? Ao que eu respondi que sim.

O homem arrancou e nunca mais ninguém o viu. O automóvel foi enconado alguns dias depois, penso que numa localidade da zona Oeste.

Eu estava espantado com toda esta história kafkiana. Mais admirado ainda fiquei com reacção do meu interlocutor quando ele me diz:

Sabe, era um tipo assim que eu queria a trabalhar comigo: um sujeito, que num par de horas, rouba um camião, vende a carga, rouba um automóvel e desaparece sem deixar rasto, tem que ser muito esperto.

Vivemos num país de patos bravos. Ao valorizar a “esperteza” de um gatuno, a vítima torna-se também num “espertalhão”. Igualmente José Sócrates tem toda a sua vida pública associada a uma série de cambalachos. Está a contas com a justiça. Ainda não foi condenado por nenhum dos inúmeros crimes de que é acusado, e temos de presumir a sua inocência, mas sempre que o ouço falar, lembro-me sempre do camionista espertalhão.