Para melhor percebermos esta
história, deixem-me contextualizar. Um camionista que transportava um camião de
cimento, para no alto da serra de Rio Maior, para satisfazer uma necessidade fisiológica.
Entretanto apercebe-se que o seu camião tinha sido posto a trabalhar e seguia
caminho na Nacional 1. Acresce ainda o facto de naquela altura haver uma grave
crise de distribuição de cimento, por um surto grevista.
Corria o ano de 1975, e eu desenvolvia
a minha actividade profissional na assistência técnica a uma cadeia de
integração em suinicultura. Dos vinte e poucos cooperadores visitados por mim,
havia um cavalheiro, construtor civil de profissão e que fazia questão em
acompanhar-me na visita à sua exploração agrícola. Na semana seguinte ao
episódio do camião de cimento, fiz a minha habitual visita de acompanhamento
técnico aquela exploração, situada na Benedita. Como de costume acompanhou-me o
proprietário, e a primeira coisa que me disse foi:
Tenho uma história gira para
lhe contar. No dia x da semana passada, estava eu no café e entra um indivíduo
a perguntar se havia algum construtor civil presente, e se estava interessado
num camião de cimento.
Camionista - Sabe, eu tenho um
irmão que trabalha na cimenteira em Alhandra, e que se eu conseguir lá entrar
antes do meio dia, ela arranja-me mais um carregamento. O preço é X, e o
pagamento tem que ser em dinheiro vivo, uma vez que esta carga saiu pela porta
do cavalo.
Acordei com o homem irmos à obra,
e enquanto descarregassem o cimento, passávamos pelo Banco para levantar o
dinheiro. Quando saímos, o camionista disse-me que sempre tinha gostado de um
automóvel igual ao meu velhinho Mercedes 190 D.
Chegados ao estaleiro, saímos do
automóvel, quando a descarga ainda ia a meio.
Camionista – Será que estaria
interessado em vender o seu Mercedes, ao que eu respondi que podia pensar no
assunto. Quer ver que ainda fazemos negócio, deixa-me experimentar o carro? Ao
que eu respondi que sim.
O homem arrancou e nunca mais
ninguém o viu. O automóvel foi enconado alguns dias depois, penso que numa
localidade da zona Oeste.
Eu estava espantado com toda esta
história kafkiana. Mais admirado ainda fiquei com reacção do meu interlocutor
quando ele me diz:
Sabe, era um tipo assim que eu
queria a trabalhar comigo: um sujeito, que num par de horas, rouba um camião,
vende a carga, rouba um automóvel e desaparece sem deixar rasto, tem que ser
muito esperto.
Vivemos num país de patos bravos. Ao valorizar a “esperteza” de um gatuno, a vítima torna-se também num “espertalhão”. Igualmente José Sócrates tem toda a sua vida pública associada a uma série de cambalachos. Está a contas com a justiça. Ainda não foi condenado por nenhum dos inúmeros crimes de que é acusado, e temos de presumir a sua inocência, mas sempre que o ouço falar, lembro-me sempre do camionista espertalhão.