O Festival Nacional de
Gastronomia de Santarém, é por direito próprio, o mais antigo e o mais famoso
dos eventos gastronómicos que se realizam de norte a sul do país. Nasceu há já umas
dezenas de anos, assente numa ideia simples, e por isso mesmo condenado ao
sucesso. Pretendeu desde o início, promover a riqueza e variedade das tradições
gastronómicas do país, disponibilizando a quem o visita, disfrutar num único
espaço, desta diversificada oferta. A centralidade de Santarém pela sua posição
estratégica, e a excelente acessibilidade, facilitaram todo o resto. Para além
disso, assume-se como o principal evento da cidade. Por isso não se estranha a veemência
que os escalabitanos põem na sua defesa.
Um evento desta dimensão, e com a
projecção que lhe é reconhecida, terá que ter um impacto considerável na
cidade, quer na sua componente cultural, no plano turístico, quer sobretudo, na
sua vertente económica. Mas será isso que se verifica? Parece-me que não!
Sempre fui muito crítico do
Festival de Gastronomia de Santarém, o que me valeu alguns desaguisados com
muitos amigos escalabitanos, para além da sua incompreensão com tal
sacrilégio. Uma vez mais reafirmo a
minha concordância com ideia que acima referenciei, mas não posso estar de
acordo com a estrutura do festival, sobretudo por pensar que a cidade ganha
muito pouco com a sua realização.
O festival realiza-se num único
espaço, adaptado para uma finalidade, que nada tem a ver com a sua concepção original.
Espaço este que tem fragilidades objectivas no plano da circulação das pessoas
e nas escapatórias, numa eventualidade de emergência. Também não é difícil
imaginar que no plano da segurança alimentar, sobretudo no que diz respeito aos
postos de trabalho, não estão garantidas as condições higio-sanitárias exigidas
para situações semelhantes. Claro que também se pode dizer, que em Santarém não
existe mais nenhuma outra estrutura que pudesse garantir uma alternativa viável.
Mas a utilização de tendas desmontáveis e deslocalizadas, não poderia ser uma
solução? Esta sugestão permitiria (obrigaria) a deslocação dos visitantes por
toda a cidade.
A grande maioria dos que visitam
o Festival, são pessoas que vêm de fora. A pergunta que se impõe é: o que é que
a cidade oferece aos visitantes durante o período de realização deste evento,
fora das paredes do Campo Emílio Infante da Câmara e da Casa do Campino? Eu
resido num local que me permite ver as pessoas chegar pela rua O, estacionarem
no antigo Campo da Feira, dirigem-se ao recinto do festival, provam as iguarias
dos diversos participantes, e pagam a sua despesa (que não fica na cidade, mas
vai para uma qualquer Região de Turismo). No final, fazem exactamente o inverso:
dirigem-se ao automóvel, seguem em direcção à Rua O, e vão às suas
vidinhas. No dia seguinte vão dizer aos
amigos que estiveram em Santarém (?!?!), que comeram uma feijoada à
trasmontana, umas migas alentejanas, uma chanfana, umas lulas algarvias, umas
lapas dos Açores, uns maranhos da Sertã, e talvez, uma massa à barrão. No
final, a cidade pouco lucrou, o que é pena.
Naturalmente que os expositores
fazem despesa: instalam-se nas nossas unidades hoteleiras, adquirem alguns
produtos. Da restauração da cidade quantas unidades estão representadas no evento?
Quantos dos que nos visitam, fazem uma visita aos nossos jardins e monumentos, apreciam
a nossa oferta cultural, compram as nossas especialidades, contactam e conhecem
os nossos usos e costumes, ou simplesmente, falam e conversam connosco?
Sem negar o sucesso do Festival
Nacional de Gastronomia, a oportunidade da sua criação, a sagacidade de quem o
concebeu e estruturou, não posso deixar de reflectir que a cidade muito pouco
ganha, face ao reconhecimento e projecção que ele tem. Por exemplo, este
festival, podia e devia funcionar como um elemento catalisador para o
desenvolvimento e atracção do turismo gastronómico para a cidade. Não me parece
que isto esteja a acontecer.
Lamento finalmente, uma tendência
“gourmet” que parece estar a instalar-se, e a ganhar terreno no
Festival, desvirtuando um pouco o espírito inicial. Há quem diga que é para
atrair um público mais jovem! Não seria mais importante sensibilizá-los para as
tradições gastronómicas, pelo seu valor intrínseco, pelas tradições, pela
originalidade, pela qualidade genuina do seu valor cultural, e da sua
importância gastronómica, e que estiveram na génese do Festival.
Lamento, gostava de um outro
festival em que a cidade se sentisse representada e que beneficiasse muito mais
com a sua realização. Tal não consigo vislumbrar, e é pena.