domingo, 28 de novembro de 2021

OS LARANJINHAS ESCOLHERAM

 

Rui Rio na sua passagem pela câmara municipal do Porto, granjeou fama de ser um político sério, rigoroso, de contas certas, mas sobretudo teve o desplante de enfrentar o mundo do futebol, e muito especialmente o poderoso Pinto da Costa, a quem todos prestam vassalagem e ninguém ousa enfrentar. Para além disso, não é um político de “futebóis”! Foram estas características, em nossa modesta opinião, os trunfos que o levaram à liderança do PSD.

Muito se esperava que ele trouxesse para o debate político, as qualidades que lhe foram reconhecidas na sua passagem pela edilidade portuense. Tal não aconteceu. Rui Rio adoptou sempre uma postura mais institucional, quer no discurso quer na acção, e muitos não lhe perdoaram a aproximação a António Costa, sobretudo depois de António Costa ter afirmado, na sua habitual arrogância: "No dia em que a sua subsistência depender do PSD, este governo acabou." Mesmo nas suas intervenções parlamentares, ninguém percebeu as muitas cedências que concedeu ao governo, mas sobretudo, a António Costa, e mais ainda quando as sondagens não lhe eram favoráveis. A suspensão dos debates quinzenais, é disso um exemplo incontornável. Não aproveitou este mecanismo regimental para confrontar o seu opositor, com as inúmeras trapalhadas de uma geringonça, que à partida, tinha tudo para não dar certo. Mesmo nos debates em que estiveram em causa, as incongruências e contradições, por exemplo do ministério da saúde, das muitas trapalhadas de Eduardo Cabrita, apenas para citar dois exemplos, Rio teve sempre uma actuação incompreensivelmente frouxa.

Este comportamento fez despoletar um processo de disputa pelo poder interno, liderado por Paulo Rangel. Este processo foi muito semelhante ao que ocorreu no PS, quando António Costa, tentou, e conseguiu, derrubar António José Seguro.

Este fenómeno ocorre numa situação muito especial. O PS tem uma derrota importante nas últimas autárquicas, mais em termos qualitativos, do que quantitativos. Por outro lado, a PSD obtém um resultado autárquico, que ninguém acreditava fosse possível, sobretudo, em municípios emblemáticos. Pouco depois aconteceu o desmoronar da Geringonça, o que abre uma janela de oportunidade para Paulo Rangel tentar a sua sorte. A crise política vem baralhar ainda mais esta confusão, com a exiguidade de tempo disponível para o processo das directas no PSD.

Rui Rangel aparece escudado por muitos passistas, dá corpo a um discurso mais agressivo contra António Costa, e tem o apoio da maioria das direcções partidárias. Por seu lado, Rui Rio tem muitas hesitações e algumas contradições, sem nunca perder o seu comportamento austero e institucional. As inúmeras opiniões que fazem ouvir não reflectem, de forma conclusiva, qual a escolha dos laranjinhas. Pelos comentários que se ouviam por parte de simpatizantes do PS, Rui Rio era o mais desejado, e Rangel era mimoseado com epítetos muito pouco dignos. Vá-se lá saber porquê?

As eleições internas no PSD decorreram de forma pouco comum, sem debates e, deram a vitória ao candidato que a generalidade dos comentadores achava que não teria possibilidades. A vitória de Rio, parece ter sido uma escolha das bases do partido que reflectem mais a opinião do cidadão comum que vota ao centro, do que a das cúpulas dirigentes, muito instalados nas suas capelinhas do poder. Provavelmente, a partir de agora, muitos irão olhar para Rui Rio de uma forma diferente, perdoando-lhe as muitas cedências e aproximações ao PS.

Mas uma questão se pode colocar: será que Rio terá alguma hipótese de ter um bom resultado eleitoral, se não mudar o seu discurso e a sua prática política? Temos que admitir que a diferença nas intenções de votos é enormíssima para, num curto espaço de tempo, tentar inverter o sentido destas intenções. Outra coisa que ainda não se percebeu é que políticas de alianças estará Rio disposto a aceitar. Como irá negociar a inusitada aproximação de António Costa ao centro, no caso de perder as eleições? No caso de vitória, e num caso de necessidade, manterá o que recentemente afirmou, relativamente ao CHEGA?

Qual o papel que estará reservado a Paulo Rangel? Depois de uma “entrada de leão e uma saída de sendeiro”, foi objectivamente prejudicado por um discurso agressivo, e de ter um apoio maciço de muita gente ligado ao tempo da Troika. Isso não invalida que este discurso não tenha agradado a muita gente. O seu futuro imediato, penso que irá voltar a Bruxelas e cumprir o mandato até ao fim, sem fazer muitas ondas.

Este resultado, em vésperas do congresso social-democrata, vai fortalecer Rui Rio e a possibilidade da conquista do poder, vai fazer aparecer muita gente que até agora o criticava. De que forma é que este capital de vitória poderá provocar uma mudança nas próximas legislativas, ninguém sabe, ou pode garantir. Mesmo para aqueles que não querem ver uma mudança de ciclo na política portuguesa, este resultado algo inusitado pode baralhar o pensamento de quem vota ao centro. António Costa já percebeu isso, e já mudou o discurso. Vamos aguardar para ver.

sábado, 20 de novembro de 2021

EDUARDO CABRITA – UM “ABSURDO PROPALADO”

 

Eduardo Cabrita, amigo pessoal de António Costa desde os bancos da faculdade, é um daqueles indivíduos que, por mais bem-intencionados que sejamos, temos de admitir que nada lhe corre bem. É assim uma espécie de Mr. Bean, mas numa versão hard core. São muitos os acontecimentos com que é confrontado, cujas decisões dão, invariavelmente, para o torto. O português comum fica incrédulo com a fidelidade recíproca, entre Cabrita e Costa. Mais ainda, quando Costa considera o seu amigo Cabrita é um ministro excelente! Esta fidelidade não dá para entender, se é um excelente ministro, porque comete tanta asneira? Não será certamente por um karma esquisito que o persegue, só pode ser mesmo por pura incompetência. Esta relação de amizade e a inquebrantável lealdade, ou subserviência que os une, reporta-me para o logotipo da Vitor Records – His Master’s Voice.

Cinco meses depois do acidente que envolveu o ministro, e do silêncio ensurdecedor que paira sobre a investigação, Eduardo Cabrita finalmente decidiu falar. É bom não esquecer que este acidente provocou um morto, e que a primeira reacção após a ocorrência foi um comunicado que afirmava: “Não havia qualquer sinalização que alertasse os condutores para a existência de trabalhos de limpeza em curso”, o que foi prontamente desmentido pela BRISA. Este comportamento, indica o que vulgarmente significa: sacudir a água do capote. Mas o que os jornalistas perguntaram foi: a que velocidade seguia a viatura que transportava do ministro no momento do acidente.

Por mera curiosidade consultei um engenheiro mecânico que já trabalhou na marca, sobre a dificuldade de obtenção daquele valor. A sua resposta foi simples: basta ligar um computador à centralina e dar um comando! Mas o ministro escuda-se no segredo de justiça e afirma que tudo não passam de absurdos propalados! É bom que nos lembremos que o ministro Cabrita, neste caso mentiu, desresponsabilizou-se, e parece nada ter feito para agilizar o processo de averiguações que corre no seu ministério (Núcleo de Investigação Criminal de Acidentes de Viação (NICAV) de Évora da GNR)! Ninguém pode afirmar neste caso, que o ministro tem as mãos sujas de sangue, mas certamente a sua consciência não terá muito sossego, pela responsabilidade que nunca assumiu como responsável máximo entre os passageiros daquele automóvel. Também não sabemos a que velocidade seguia, mas também isso pouco importa para o trabalhador, Nuno Santos tinha pouco mais de 40 anos, era casado e deixava duas filhas sem o principal sustento da família, nem para a família que só ao fim de 6 meses, viu atribuído 246 euros que é o valor que a Segurança Social está a pagar à mulher e às duas filhas do homem atropelado pelo BMW em que seguia Eduardo Cabrita.

Já todos sabíamos da inabilidade de Eduardo Cabrita para lidar com situações de crise. Todos nos lembramos das imensas trapalhadas por ele protagonizadas: a cena dos microfones na Assembleia da República, o caso das golas inflamáveis, do assassinato do cidadão ucraniano por elementos do SEF, das inúmeras broncas do SIRESP, dos festejos do Sporting, dos atrasos nos meios de combate aos fogos, da detenção dos imigrantes em Almoçageme, etc. Ao contrário do rei Midas, Eduardo Cabrita, em tudo o que toca, vira berbicacho. É caso para dizer: o “absurdo propalado” é a continuidade de Cabrita no seu posto, perante a passividade de quem tem responsabilidades de por fim a tanta irresponsabilidade. 


sexta-feira, 19 de novembro de 2021

A GERINGONÇA AÇORIANA

Sempre fui muito crítico da Geringonça do António Costa. Também achei que a solução que José Manuel Bolieiro, enfermava do mesmo erro cometido pelo 1º ministro – salvar o seu futuro político de um resultado eleitoral menos favorável. Mais ainda quando se viram obrigados a negocial com partidos extremistas e com poucas afinidades ideológicas, e que aproveitariam qualquer oportunidade para fazer valer a sua importância relativa.

Os açorianos manifestaram inequivocamente que pretendiam uma mudança. Bolieiro interpretou demasiado à risca os resultados eleitorais, ou a sede pelo poder, toldou-lhe a objectividade. Como o resultado foi “poucochinho”, não lhe restava outra alternativa do que fazer um pacto com o diabo da extrema-direita, tal como António Costa se entregou nas mãos de PCP e BE. Aqui apenas houve uma mudança de sinal. Os dias estavam contados, e na primeira oportunidade, Nos Açores não passou muito tempo e aí estão os resultados, (orçamento insular), o único deputado do CHEGA falou grosso, e de forma magnânima afirmou: “que dará uma última oportunidade ao Governo regional”. Nesta fase do processo, a Bolieiro só lhe resta duas alternativas: ou cede ás exigências de um único deputado, ou assume as consequências do chumbo do orçamento, e a inevitabilidade de eleições antecipadas. Bolieiro escolheu a pior, a cedência.

Muito se fala na crise, e no acrescentar crise à crise já existente. Claro que todos gostariam que os governos cumprissem os seus mandatos até ao fim. Que no parlamento fosse possível encontrar consensos estáveis e duradouros, com vista ao bem-estar de todos nós. Há quem não se canse de apregoar que eleições antecipadas, e com base nas sondagens, que muito pouco se alteraria no equilíbrio de forças. Ninguém é favorável a uma situação de termos de eleições de 6 em 6 meses, como é óbvio. Mas vivermos com ameaças constantes de rupturas nos entendimentos alcançados para a viabilização de minorias e de cedências inaceitáveis, traduz a incapacidade da classe política em exercer o seu trabalho com ética e seriedade, e uma tremenda falta de respeito para com o eleitorado, ou pior ainda, a pura sobrevivência política.

Por essa Europa fora, na generalidade dos países, os eleitores repartem os seus votos de tal forma, que se torna quase impossível governar em maiorias absolutas, como se pretende cá por casa. Os partidos assumem esta condição com naturalidade e procuram arranjos que permitam a governação sem sobressaltos, apesar das muitas diferenças ideológicas. Os políticos assumem a sua responsabilidade e as crises são a excepção. Para além do mais, uma eleição configura a mais digna forma de honrar a democracia, e transfere para o povo a responsabilidade de corrigir as fragilidades das soluções sem sustentabilidade. Qualquer que seja o resultado, é sempre melhor do que o banho-maria que a continuidade da actual situação parece pressagiar.

Exactamente por se empenhar pouca seriedade neste tipo de arranjos, desprestigia os seus subscritores. E é esta realidade de uma abstenção sempre crescente, que pode justificar os argumentos dos abstencionistas.

A ideia peregrina da formação de geringonças, provou ser uma solução pífia e pouco credível. Repetir esta opção num futuro próximo, é teimosia ou masoquismo. Faço votos que esta solução esteja morta e enterrada, para bem de todos nós. Eu prefiro sempre a solução de um sufrágio. Ao menos assim, só nos podemos queixar de nós próprios. Tal não foi o entendimento.

terça-feira, 9 de novembro de 2021

GASTRONOMIA - O FESTIVAL DO NOSSO DESCONTENTAMENTO

O Festival Nacional de Gastronomia de Santarém, é por direito próprio, o mais antigo e o mais famoso dos eventos gastronómicos que se realizam de norte a sul do país. Nasceu há já umas dezenas de anos, assente numa ideia simples, e por isso mesmo condenado ao sucesso. Pretendeu desde o início, promover a riqueza e variedade das tradições gastronómicas do país, disponibilizando a quem o visita, disfrutar num único espaço, desta diversificada oferta. A centralidade de Santarém pela sua posição estratégica, e a excelente acessibilidade, facilitaram todo o resto. Para além disso, assume-se como o principal evento da cidade. Por isso não se estranha a veemência que os escalabitanos põem na sua defesa.

Um evento desta dimensão, e com a projecção que lhe é reconhecida, terá que ter um impacto considerável na cidade, quer na sua componente cultural, no plano turístico, quer sobretudo, na sua vertente económica. Mas será isso que se verifica? Parece-me que não!

Sempre fui muito crítico do Festival de Gastronomia de Santarém, o que me valeu alguns desaguisados com muitos amigos escalabitanos, para além da sua incompreensão com tal sacrilégio.  Uma vez mais reafirmo a minha concordância com ideia que acima referenciei, mas não posso estar de acordo com a estrutura do festival, sobretudo por pensar que a cidade ganha muito pouco com a sua realização.

O festival realiza-se num único espaço, adaptado para uma finalidade, que nada tem a ver com a sua concepção original. Espaço este que tem fragilidades objectivas no plano da circulação das pessoas e nas escapatórias, numa eventualidade de emergência. Também não é difícil imaginar que no plano da segurança alimentar, sobretudo no que diz respeito aos postos de trabalho, não estão garantidas as condições higio-sanitárias exigidas para situações semelhantes. Claro que também se pode dizer, que em Santarém não existe mais nenhuma outra estrutura que pudesse garantir uma alternativa viável. Mas a utilização de tendas desmontáveis e deslocalizadas, não poderia ser uma solução? Esta sugestão permitiria (obrigaria) a deslocação dos visitantes por toda a cidade.

A grande maioria dos que visitam o Festival, são pessoas que vêm de fora. A pergunta que se impõe é: o que é que a cidade oferece aos visitantes durante o período de realização deste evento, fora das paredes do Campo Emílio Infante da Câmara e da Casa do Campino? Eu resido num local que me permite ver as pessoas chegar pela rua O, estacionarem no antigo Campo da Feira, dirigem-se ao recinto do festival, provam as iguarias dos diversos participantes, e pagam a sua despesa (que não fica na cidade, mas vai para uma qualquer Região de Turismo). No final, fazem exactamente o inverso: dirigem-se ao automóvel, seguem em direcção à Rua O, e vão às suas vidinhas.  No dia seguinte vão dizer aos amigos que estiveram em Santarém (?!?!), que comeram uma feijoada à trasmontana, umas migas alentejanas, uma chanfana, umas lulas algarvias, umas lapas dos Açores, uns maranhos da Sertã, e talvez, uma massa à barrão. No final, a cidade pouco lucrou, o que é pena.

Naturalmente que os expositores fazem despesa: instalam-se nas nossas unidades hoteleiras, adquirem alguns produtos. Da restauração da cidade quantas unidades estão representadas no evento? Quantos dos que nos visitam, fazem uma visita aos nossos jardins e monumentos, apreciam a nossa oferta cultural, compram as nossas especialidades, contactam e conhecem os nossos usos e costumes, ou simplesmente, falam e conversam connosco?

Sem negar o sucesso do Festival Nacional de Gastronomia, a oportunidade da sua criação, a sagacidade de quem o concebeu e estruturou, não posso deixar de reflectir que a cidade muito pouco ganha, face ao reconhecimento e projecção que ele tem. Por exemplo, este festival, podia e devia funcionar como um elemento catalisador para o desenvolvimento e atracção do turismo gastronómico para a cidade. Não me parece que isto esteja a acontecer.

Lamento finalmente, uma tendência “gourmet” que parece estar a instalar-se, e a ganhar terreno no Festival, desvirtuando um pouco o espírito inicial. Há quem diga que é para atrair um público mais jovem! Não seria mais importante sensibilizá-los para as tradições gastronómicas, pelo seu valor intrínseco, pelas tradições, pela originalidade, pela qualidade genuina do seu valor cultural, e da sua importância gastronómica, e que estiveram na génese do Festival.

Lamento, gostava de um outro festival em que a cidade se sentisse representada e que beneficiasse muito mais com a sua realização. Tal não consigo vislumbrar, e é pena.