O processo democrático implantado
em Portugal depois do 25 de Abril, representou, para todos nós, o abrir de
portas à integração num mundo moderno, mais justo, mais fraterno e solidário e
que até então nos tinha sido negado. Com vinte e poucos anos e com pouca
formação política, abraçamos este período com a natural esperança de um futuro
que tinha tudo para ser risonho. O fervor político que esses tempos nos
trouxeram, foram vividos de uma forma intensa e, com alguma frequência, os
debates e as ideias, baseavam-se muito mais em sentimentos espontâneos e
irreflectidos, ao contrário do que o bom senso aconselharia – um pensamento racional
e estruturado.
Esses tempos iniciais, pela memória
recente de uma liberdade reprimida, deram-nos todo o tipo de experiências
políticas, com preocupantes exageros e que iriam terminar em Novembro de 1975,
onde estivemos muito próximo de uma nova ditadura, agora de sinal contrário.
Neste período, surgiram políticos, descomprometidos, com ideologia e que
lutaram para tornar este país moderno e integrado numa Europa, a que pertencíamos
por direito próprio e que até então nos tinha virado as costas. Nomes como
Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, pelo seu exemplo
e convicção, personificavam este desígnio. Defendiam princípios europeístas, a
nossa integração na então designada CEE, a promoção de justiça social, a
economia de mercado, o respeito absoluto pela dignidade da pessoa humana, valores
da liberdade, da igualdade e da solidariedade, apenas para referir aquelas que
mais nos marcaram.
Também é importante relembrar que
foram destes três partidos a responsabilidade da governação nos últimos 40 anos,
fruto de uma natural alternância democrática do poder. O país seguiu o seu
destino, com altos e baixos, e em que se verificou um afastamento dos políticos
de referência e o aparecimento de uma nova geração. Sem convicções, sem
ideologia, mas com uma grande ambição pessoal. Muitos dos políticos com responsabilidades
governativas recentes, não tinham curriculum, não tinham passado fora da
política, a sua formação política provinha da sua filiação nas “juventudes
partidárias” (que em nossa modesta opinião funcionam quase como madrassas islâmicas), e, como os dados
mais recentes confirmam, o que os orienta é uma profunda ambição pessoal. Para
tal estão dispostos a tudo.
A mediocridade atravessa toda a
classe política. A corrupção instalou-se no interior dos partidos, de uma forma
transversal. O favorecimento a grupos e figuras importantes, constitui a moeda
de troca para a sua manutenção no poder. Grassam as nomeações de boys, para os
mais modestos lugares da administração pública, como forma de recompensa da sua
fidelidade partidária. O actual governo é disso prova evidente. Vejam-se as
nomeações apressadas para dirigentes da Protecção Civil, sem curriculum e sem
experiência operacional. Deu no que deu. As políticas erráticas dos sucessivos
governos, conduziram o país a três bancas rotas, com inúmeros sacrifícios da
população. O Governo do Dr. António Costa integra uma série de elementos que
participaram no governo que nos conduziu à última banca rota e, intervenção da
Troika. A composição deste governo é uma autêntica vergonha, pelas inúmeras
nomeações “familiares”, mesmo que a meritocracia tenha sido a pedra de toque
para a sua escolha.
O exercício de cidadania quando
somos chamados a votar, tem vindo a tornar-se na escolha do mal menor e não uma
opção pragmática e consciente, daquilo que é melhor para o país.
Não encontrando nas propostas do
espectro partidário as respostas, na nossa perspectiva, mais adequadas ao país,
ao momento que vivemos. Os inúmeros escândalos envolvendo a classe política, no
seu todo; à incompreensível protecção que é dada a banqueiros, políticos e
outros agentes, a promiscuidade entre a mundo do futebol e a classe política; os
sucessivos conflitos sociais que atravessam os mais variados sectores de
actividade; os inúmeros conflitos laborais estabelecem um preocupante contraponto
com a imagem que o governo nos dá do nosso sucesso económico; a dívida pública
que cresce, apesar disto; o aumento da carga fiscal, etc. Muito seriam os exemplos
das inúmeras questões que nos afastam da lógica eleitoral e nos conduzem a uma
banalização dos actos eleitorais, com índices de abstenção pornográficos. Ou
seja, o sistema eleitoral que deveria traduzir todas as sensibilidades, e equilibrar,
por um lado a governabilidade, por outro a representatividade social do
país, é tudo menos isso. O desinteresse crescente pelo envolvimento do cidadão
nos actos eleitorais, tem, à partida, uma razão conjuntural - este estado de
coisas.
Por outro lado, este desinteresse
acentua-se quando olhamos com mais atenção para o sistema eleitoral e a sua
lógica. Ao contrário do exposto anteriormente. Estas considerações assentam em
dados práticos e objectivos.
Senão vejamos. A sempre adiada questão dos círculos uninominais, afastam os eleitoress
dos eleitos, sem que se vislumbre o mínimo interesse dos partidos numa
discussão séria à volta deste tema. O método
de Hondt que pretende estabelecer
uma representação proporcional entre as diferentes regiões, confere ás minorias
uma importância e representação, que elas objectivamente não a têm. O caso do
PAN é um exemplo paradigmático disto mesmo. As sempre discutidas e acaloradas discussões
partidárias na elaboração das listas
eleitorais, geram, habitualmente, conflitos internos muito acentuados. Na
generalidade dos casos, as opiniões dos órgãos locais são anuladas ou
rebaixadas, por interesses das cúpulas, que pretendem impor a sua vontade, à
revelia de uma escolha de proximidade. Se ainda pensarmos que os eleitos,
sobretudo os das posições mais elevadas, habitualmente, vão ocupar cargos ou
posições que nada ou pouco tem a ver com as regiões que os elegeram, numa
lógica de pagamento de fidelidades. Por isso, a elaboração de listas, não nasce
de uma vontade ou conhecimentos dos eleitores e muitas vezes, à revelia da vontade
dos órgãos locais e nem as suas escolhas são tidas em consideração. Após as
eleições e, conhecidos os resultados, assiste-se a uma dança de lugares desrespeitosa
da vontade do cidadão eleitor, despertando um natural sentimento de menosprezo,
por quem tenta exercer o direito supremo de cidadania, votar. O sistema eleitoral
também desconsidera o eleitor, ao proibir a apresentação de sondagem em vésperas
de actos eleitorais. Não se percebe porquê!
Por todas estas razões defendemos
que o Voto em Branco, faz todo o sentido
a todos os que não se sentem representados, quer no plano ideológico, quer
ainda no plano meramente da governabilidade. Ou dito por outas palavras, quando
admitimos que as propostas ideológicas, não são as mais adequadas à nossa vida
colectiva, ou quando verificamos que os eleitos, não demonstram a qualidade e a
transparência que a as funções exigem. Já para não falar, na sistemática inversão
das propostas, pré e pós-eleições.
O Voto em Branco representa, em nossa modesta opinião, a manifestação
de uma vontade objectiva, de quem não se sente representado pelas razões atrás
expostas e não quer deixar de exercer o seu direito de votar. E, ao contrário
do Voto Nulo, que não determina uma
vontade específica do eleitor e pode ser utilizada pelas mais diversas razões,
por mais sérias que elas sejam, mas não se conseguir perceber a sua intencionalidade.
O Voto em Branco é substantivo. Bem
sei que o grande óbice, é a possibilidade da sua utilização indevida, por alguém
mal-intencionado. Mas bastava colocar, mais um quadrado no boletim de votos.
Assim estes votos podiam ser contados, contabilizados e, porque não, atribuir lugares vazios correspondentes aos
votos em branco apurados.
Tudo justifica que se melhore o
método eleitoral para torná-lo mais participado, mais transparente e mais
rigoroso.