sábado, 31 de outubro de 2020

TODOS À PROCURA DE UMA GERINGONÇA

Os resultados das últimas eleições açorianas tiveram, entre outras curiosidades, que a possibilidade da formação de uma nova geringonça, se revele peculiar considerando que essa eventualidade, pode materializar-se, quer à esquerda, quer à direita. Para tal era necessário que Vasco Cordeiro e Bolieiro, conseguissem ultrapassar algumas dificuldades que surgem no seu caminho. À esquerda: o PS conseguir, para além do seu parceiro natural(?) BE, uma segunda participação do CDS na formação desse novo executivo. Quanto à direita: Bolieiro, luta com duas dificuldades: por um lado a recusa do IL ao excluir-se dessa possibilidade, e por outro lado o incómodo de negociar com o Chega.

Todos sabemos que, quer de um lado, quer de outro, decorrem intensas negociações e, qualquer que seja a solução encontrada, vai assentar sobre uma previsível instabilidade política, social e económica.

O discurso de Vasco Cordeiro na noite das eleições, parece revelar um certo autismo relativamente à conclusão mais óbvia sobre estes resultados – um cartão amarelo dos açorianos por uma governação autocrática ao longo destas duas décadas de poder socialista. As inúmeras referências de vitória, de todos os participantes é também o normal nestas circunstâncias. Torna-se por isso necessário, olhar para estes resultados com alguma relatividade. Os principais vencedores foram, efectivamente, os partidos mais pequenos (CDS, IL, PPM e Chega) que, embora com uma modesta representação, não será possível menosprezá-los, tendo em conta que, qualquer que seja a solução, ela só será possível se eles o permitirem.

A bola está do lado de Vasco Cordeiro e de Bolieiro. Aparentemente qualquer um deles, e por razões diferentes, estará desejoso de assumir essa responsabilidade. Vistas as coisas nesta perspectiva, Vasco Cordeiro teria muito a ganhar e Bolieiro, tudo a perder. Ou seja, Vasco Cordeiro não quer ficar com o ónus de ter perdido o confronto para o PSD. Bolieiro tem a indisfarçável vontade de, através de si voltar à cadeira do poder que há muito fugiu das mãos dos sociais democratas.

É lícito imaginar-se que que os tempos que se aproximam, não irão ser uma pêra doce para o novo executivo, por razões conjunturais aliadas a um parlamento muito mais colorido e sem maioria absoluta. Os efeitos da pandemia, somados à difícil situação de muitas das estruturas do poder regional (ex: SATA), e do rombo na actividade turística, vão determinar tempos muito complicados. Vasco Cordeiro teria de demonstrar que era capaz de inverter o sentido da sua governação que levou a região a uma situação no mínimo vergonhosa. Bolieiro se resistir à tentação, vai poder assistir comodamente, à mais do que provável deterioração das condições e vida dos açorianos, tendo em conta os tempos espinhosos que se avizinham.

Era bom que, qualquer que venha a ser a solução política encontrada, isso não represente mais um factor de empobrecimento destas ilhas. Pelo contrário, o que se espera é que, de uma vez por todas, se consiga implementar condições de desenvolvimento harmonioso, de uma região muito sacrificada.

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

DO OUTRO LADO DO ESPELHO – As eleições legislativas açorianas

 


As eleições legislativas dos Açores vieram abanar muitas consciências adormecidas. Esta talvez seja a melhor explicação para a redução (muito pequena) dos valores da abstenção, apesar da pandemia. Outra interpretação possível para este fenómeno, será um cansaço da população para um governo autocrático, de muitos compadrios e com alguns laivos de nepotismo.

Numa região pobre, ultraperiférica, todo o poder instituído tende a eternizar-se porque ao longo de muitos anos se criam relações de dependências, entre esse mesmo poder e as benesses que distribui a seu belo prazer. Não deve haver um único açoriano que não tenha um familiar ligado à estrutura da administração regional ou de alguma empresa pública. Não se pense que isto seja uma realidade atribuída, em exclusivo, ao PS e os seus 24 anos no poder. No tempo dos governos do PSD, as coisas seguiram um padrão muito parecido, e, muito provavelmente, se ó não foi maior por não haver tanto para distribuir.

Os resultados eleitorais reflectem, muito provavelmente, este raciocínio: o fim de uma maioria absoluta e o aparecimento de novas forças políticas. No entanto, estamos cientes de que esta realidade deve representar apenas a ponta do iceberg. Ninguém deveria imaginar no passado sábado, o imbróglio que estas eleições viriam criar. O aparecimento de novas forças políticas e com representação inimaginável. São os casos da Iniciativa Liberal e do Chega. Também não deixa de ser indecifrável o desaparecimento do PCP, sabendo-se como se sabe, da enorme capacidade organizativa deste partido. Por outras palavras, todas as soluções governativas podem ser esquematizadas: uma solução entre o PS, PAN e BE, ou uma “geringonça” de direita com os restantes partidos, em que o CHEGA se auto-excluiu. O papel de CDS e do PPM ainda ninguém sabe qual irá ser: se estarão disponíveis para viabilizar uma solução com o PS, ou se irão juntar-se à direita. Ninguém sabe como irão decorrer as negociações, e qual será o arranjo político que irá decidir os destinos da Região na próxima legislatura. Uma coisa é certa, nada será como antes. Estamos certos que com um parlamento mais colorido, as tentações autocráticas não vão passar com a mesma facilidade.

Este fenómeno do surgimento destas novas forças partidárias no espectro político açoriano, mais não são do que a reacção dos eleitores a um crescente enfraquecimento dos factores de desenvolvimento da população. Os índices da pobreza, os baixos índices da escolaridade, a elevada dependência de muitos açorianos do RSI, a situação desastrosa em que se encontram muitas das empresas públicas (o caso da Sata, é paradigmático), são apenas algumas das razões que podem explicar este terramoto eleitoral. 

Um espelho reflecte uma imagem real que está na sua frente, mas não deixa ver o que está por detrás dessa superfície. Esta poderá ser uma figura para explicar a sobranceria como o PS exerceu a sua influência ao longo destas duas décadas, assente na tal teia de dependências. As coisas mudaram. Nada, a partir de agora, será como dantes. Vamos aguardar que a solução que venha a ser encontrada, tenha a capacidade de inverter a forma arbitrária como os Açores foram governados até agora. Vamos a esperar para ver.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

AS CRISE QUE NOS AFLIGEM

 Não bastava a desgraça do COVID, para agora não haver mais nada que tratar do que a crise. E há crises para todos os gostos: a crise sanitária, a crise social, a crise política e a crise económica. Insistentemente refere-se que a crise sanitária, para além de imprevisível, é a justificação para todas as outras. Por razões óbvias, a crise política é a que mais preocupa os nossos responsáveis, pela proximidade de um novo Orçamento do Estado que irá ser discutido brevemente.

É óbvio que, qualquer que seja a perturbação de uma aparente normalidade, traz sempre associada alguma perturbação na vida de cada um de nós. Também é impossível escamotear, que a referência às crises acima referidas, irão ter consequências de monta no nosso futuro colectivo, por um período de tempo que ninguém pode neste momento avaliar. Mas é também nos períodos de crise que se devem tomar as grandes decisões. É também nestas alturas que se impõe a tomada de decisões reformistas, que visem implementar com caracter definitivo, as medidas que possam evitar futuras crises. O momento não é para chorar sobre o leite derramado. Antes porém, talvez seja o momento de arregaçar as mangas e fazer o que tara em ser feito.

O momento político que vivemos há uns anos a esta parte, assenta num equilíbrio instável, entre partidos de esquerda que se vêm na eminência de discutir um OE, que apesar de um considerável contributo de caracter social, se recusam a aprovar a sua componente reformista. Por outro lado, os partidos à direita, tendo sido excluídos à partida a participação nesta discussão, não se encontram disponíveis para a aprovação.

Ou seja, para além de muitas outras justificações de peso, são as razões de ordem política, que põem toda a gente a falar da crise que se avizinha e reconhecem como incompreensível o país viver os próximos tempo por duodécimos e, muito em particular, com a presidência de EU pelo nosso país. Se à crise sanitária, não podemos fazer muito mais do que aquilo que já foi feito. Quanto à crise política, talvez um esforço na busca de entendimentos pudesse ser ultrapassadas muitas divergências, em nome do momento difíceis que se vivemos, e dos sacrifícios que todos nós temos sido submetidos.

Por outro lado, o atirar de culpas uns para os outros não acrescenta nada de bom ao problema. Não podemos esquecer que a Bélgica, passou por uma grave crise política, durante bastante tempo, e o resultado foi uma aparente subida dos partidos mais radicais. Forçar uma posição de inflexibilidade sobre este tema, só pode acrescentar crise à crise. Os portugueses começam a ficar fartos de servirem de cobaias, de experiências políticas (ou partidárias), que têm como consequência, o afastamento dos níveis de desenvolvimento dos nossos congéneres europeus, no que aos padrões de desenvolvimento, dizem respeito.

A(s) crise(s) que nos aflige(m), não parecem ter um fim à vista pelo caminho que as coisas estão a levar. Os culpados são invariavelmente os mesmos, e as vítimas também. Merecíamos mais e melhor.