sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

AMAZING GRACE

 

“Amazing Grace” (Graça Maravilhosa) é uma música inconfundível e faz parte do repertório de muitos bons e reconhecidos artistas, e tem sido adoptada quase como um hino por várias sensibilidades cristãs. Sempre tive alguma curiosidade em tentar perceber a sua origem e quem a compôs. Ouvi em tempos contar uma história que havia sido trazida por escravos africanos como um lamento à sua condição, e que posteriormente integrada no processo de cristianização americana.

Por aquilo que consegui descobrir, existe algum resquício de verdade, mas que poderá levantar algumas dúvidas. De facto, a melodia parece ter sido composta por um ex-traficante de escravos, de seu nome John Newton. Ou seja, teria ouvido a melodia como um canto de lamento dos escravos, e que mais tarde tenha apenas acrescentado a letra com uma mensagem tão profunda perdão e redenção que toca todos os que a escutam. Penso legítimo aceitar-se que poderá haver algo de verdade nesta última explicação.

John Newton era filho de um capitão da Marinha Britânica e que almejava para o filho uma carreira militar ao serviço da coroa. Na sua adolescência John Newton revelou uma forte rebeldia que obrigou o pai a enviá-lo para um colégio interno em Inglaterra. Esta rebeldia pode ser explicada pelo facto da sua mãe, Elizabeth Seatclife, ter morrido de tuberculose quando ele tinha apenas 6 anos. Pouco tempo depois o seu pai casou-se novamente, e desse matrimónio nasce um filho. John lamentava-se da atenção do pai e da madrasta serem concentradas no seu irmão. Talvez a ausência de um amparo maternal, pode justificar a rebeldia e o inconformismo que ele sempre mostrou. Os seus mestres na adolescência referiam que ele revelava uma “insubordinação recalcitrante”.

Aos 11 anos faz a sua primeira viagem com o seu pai. E até aos 19 anos toda a sua vivência e feita no ambiente e companhia de marinheiros, onde aprendeu a arte de navegar. Findo este tempo é alistado à força na Marinha Britânica. Mais tarde, e após deixar a marinha, ele tomou parte no comércio de escravos. Numa destas viagens uma violenta tempestade fez seu navio bater violentamente e encalhar junto à costa irlandesa. No meio desta tormenta, ele implorou a Deus por misericórdia. Esse momento marcou sua conversão espiritual, mas apesar disso, continuou no comércio de escravos até 1754, quando abandonou definitivamente a vida do mar.

Até este momento crucial nunca tenha revelado qualquer convicção religiosa, mas a partir daí interessou-se por teologia. Cerca de 10 anos depois é ordenado pastor da Igreja Anglicana e começa a compor os seus hinos com o poeta William Cowper. “Amazing Grace” foi composta para ilustrar um sermão. Não existe conhecimento de que a melodia ter sido composta por ele, ou se efectivamente, teria registado de memória a melodia. Em 1835, o compositor americano William Walker deu-lhe a forma que chegou até aos nossos dias. Apesar de ser uma música originariamente inglesa, foi adoptada pelo movimento folk americano, onde ganhou a notoriedade que hoje lhe é reconhecida.

A dúvida sobre a paternidade de tão bonita melodia vai persistir por muito tempo ainda. Talvez seja esta a razão da sua aceitação universal.  Das muitas interpretações que se conhece de "Amazing Grace", as que mais gosto são as de: Aretha Franklin, Elvis Presley, Eta James, Peter Hollens, Diana Ross e Johnny Cash. Escolhi a versão deste último.


quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

O NATAL DA MINHA INFÂNCIA

 

Nesta altura do ano, não há como não sentir a nostalgia que o Natal da nossa infância nos remete. Particularmente o Natal em São Miguel, envolvia uma série de costumes e era marcado por tradições locais, que faziam desta festa, uma verdadeira comunhão familiar. A minha mãe, enquanto foi viva, liderava este acontecimento que envolvia toda a família, já de si muito numerosa e que juntava, para além de nós, os tios e os primos. A preparação da festa propriamente dita compunha-se de uma série de rituais (muitos deles ainda permanecem), para que nada faltasse a um acontecimento que envolvia toda a gente e muito em particular a miudagem.

Pela sua singularidade, gostava de enumerar alguns:

·      OS LICORES – Todas as donas de casa, alguns meses antes procediam à elaboração de licores, que iriam servir ao ritual do “O menino mija?”, bem como todos os eventos natalícios. Eram feitos de velhas receitas passadas de geração em geração. Os licores de leite e de tangerina da minha mãe era uma especialidade;

·      A ÁRVORE DE NATAL – por volta de meados de Dezembro era hábito ir-se ao Mercado da Graça comprar a Árvore de Natal. Escolhia-se sempre uma árvore de criptoméria, o mais bonita possível e com uma altura que quase tocasse o tecto. Era montada num canto da sala e por baixo dela “armava-se” o presépio. A árvore era enfeitada com alguns adereços alusivos e com os postais de Boas Festas que iam chegando.

·      IR AO MUSGO – Pouco antes da feitura dos presépios as crianças iam à procura do musgo, da leiva e de pedra basáltica, elementos essências para “armar” e decorar o presépio;

·      O PRESÈPIO – Tentava-se que fosse bem grande porque eram muitas as representações que tinham forçosamente de aparecer: Com destaque para a Sagrada Família, da gruta de Belém, dos pastores e dos Reis Magos (em que diariamente se iam aproximando da gruta). Estavam representadas também, cenas do quotidiano da vida micaelense como: a matança do porco, o lago feito com um espelho, as cascatas(salto), a procissão, a banda da música, os foliões, os lavradores, as casinhas, os moinhos, as vacas, etc. Todos estes bonecos eram feitos de barro pintado na Lagoa e, posteriormente, eram cuidadosamente embrulhados em papel de jornal para o ano seguinte.

·      DIA DAS MONTRAS – é tradição em Ponta Delgada haver um Exposição e Concurso de Montras pelo comércio micaelense. E era também neste dia que eram inauguradas as iluminações públicas do Natal. A pequenada aproveitava para pedir ao Menino Jesus as prendinhas que gostavam. Era feita uma cartinha e depositada numa papelaria na baixa de Ponta Delgada especializada em brinquedos;

·      O TRIGO E A ERVILHACA – No dia 13 de Dezembro, dia de Santa Luzia, eram feitas “plantações” de sementes de trico e ervilhaca e pequenas taças para atingirem o tamanho ideal e serem dispostos à volta do presépio e em outros locais da casa. Este costume constitui um rito, para que nunca falte pão em casa.

·      O MENINO MIJA? – é uma tradição muito antiga e que basicamente consistia em bater-se à parte dos amigos, vizinhos e familiares, e perguntar: o Menino mija? A dona da casa convida à entrada e na mesa da sala estavam sempre: figos passados e recheados, nozes, alfarroba, amendoins e os já referidos licores. Actualmente esta tradição serve para juntar os amigos para um convívio previamente combinado e muito menos ritualizado.

·      A MISSA DO GALO – Era obrigatório toda a família participar nesta festa religiosa. E só depois é que era servida a ceia de Natal e distribuídos os presentes;

·      A CEIA DE NATAL – Não existia uma tradição rígida sobre a ceia de Natal. O bacalhau com todos era a mais usual. Na minha casa era tradição o peru assado no forno, porque a família era presenteada nesta época com os ditos perus.  Era assado por um profissional amigo da família. Os doces mais vulgares era as fatias douradas, o bolo inglês e o bolo de ananás, as rosas do Egipto, e as malassadas.

·      DIA DE REIS – No dia de Reis, faziam-se deslocar os Reis Magos para junto da Gruta. No dia seguinte procedia-se à desmontagem e acondicionamento de todas as figuras do presépio.

·      CANTAR OS REIS - Acompanhados por instrumentos musicais, grupos de amigos e conhecidos (reiseiros) vão de casa em casa entoando cantigas em que se deseja Boas Festas e um feliz Ano Novo e se pede um donativo. São cantadas quadras alusivas à data e outras enaltecendo os donos da casa;

Nesta altura do ano o espírito natalício perdura, mas as será impossível recriar um Natal como se fazia naqueles tempos. A realidade actual torna mais difícil todo este envolvimento e sentimento de partilha e comunhão. A nostalgia do Natal em São Miguel, está profundamente enraizada nas suas tradições culturais, religiosas e sociais. É uma época para celebrar, recordar tradições antigas e entes queridos. Que este espírito nunca se perca são os meus votos de Umas Festas Felizes a todos os que visitam este Blog.

sábado, 16 de dezembro de 2023

PEDRO NUNO SANTOS ESTARÁ PREPARADO?

 

Pedro Nuno Santos foi a escolha do PS para disputar as próximas eleições marcadas para Março. Sabemos pela sua boca que é oriundo de uma modesta e humilde família de São João da Madeira, cujo avô era um simples sapateiro. Já o pai, um abastado industrial de calçado, não faz muitas referências, apesar de no início da sua actividade política não se coibir de se passear ao volante de um potente Maserati Quattroporte, emprestado pelo papá bem-sucedido. Também parece que comprou, e vendeu à pressa um Porshe 911, por pura incongruência partidária e ideológica.

No seu curriculum político apresenta muitas e variadas qualidades. Entre elas destaca-se a sua competência, inconformismo, combatividade e determinação. Foi também a ele que António Costa recorreu quando necessitou de arranjar uma solução para resolver o seu desaire eleitoral de 2015. Acredito que a formação da geringonça tenha sido uma criação de António Costa, mas o verdadeiro obreiro daquela solução foi Pedro Nuno Santos. Talvez por isso, agora assuma com igual determinação que, se necessitar, será uma solução para repetir. Mas esta colagem à esquerda, não o impede de agora se afirmar social-democrata! Ou não estivessem as eleições aí à porta.

Igualmente são muitos os seus defeitos, talvez até consequência das suas qualidades. Ou seja, a sua natural impulsividade impede-lhe de ter a noção das responsabilidades, e a calma e da ponderação exigidos a um estadista, coisa que manifestamente não é. Veja-se a sua precipitação na escolha da localização do aeroporto, à revelia do primeiro-ministro. Teve de passar pela humilhação pública de ter de dar o dito por não dito. Igualmente a nomeação de Miguel Frasquilho para presidente do Concelho de Administração da TAP, mereceu a reprovação de António Costa, e a decisão teve de ser revertida. A embrulhada que envolveu a demissão de Alexandra Reis (não se lembrava), e a milionária indemnização foi despachada por mensagens de WattsApp! Para alguém de origens humildes, despachar meio milhão de € por mensagem não parece muito razoável. A sua mulher Ana Catarina Gamboa, foi nomeada chefe de gabinete do secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro. Esta nomeação mereceu da parte de PNS a maior indiferença. A compra das carruagens a Espanha (carregadas de amianto), mereceram-lhe o epíteto de ministro “sucateiro”, e a solução foi apresentada como muito boa porque: “A remoção do amianto é um procedimento técnico muito fácil”! A divulgação de uma gravação de uma conversa privada com um alto cargo da Grandforce e os “mimos” trocados com o CEO da Ryanair, são mais alguns aspectos da personalidade de alguém que quer ser primeiro-ministro de Portugal. "O combate à corrupção constitui uma tarefa prioritária indeclinável do Estado", foi uma insistente afirmação de campanha. Caso para perguntar, porque não se empenhou neste combate nos anos que levou como membro do governo, ou mais recentemente como deputado?

Estou convencido que as próximas eleições vão ser disputadas de uma forma muito mediatizada e, deste ponto de vista, PNS não está à vontade num debate olhos nos olhos. Nota-se um repentismo atabalhoado nas suas respostas que lhe irá ser prejudicial nos tempos que agora se avizinham. Será que se vai furtar a debates com os seus oponentes durante a campanha, tal como fez nas eleições internas do PS. Não há intervenção na campanha em que não assuste com o “estafado” cortes nas pensões. Pelo contrário, não pestanejou ao torrar 3,2 MM de euros na TAP. E, já agora, quando os iremos recuperar?

Será que iremos ter um primeiro-ministro que irá despachar os enormes desígnios que o cargo acarreta, da mesma forma que decidiu a localização do aeroporto? Será que os despachos continuarão de ser efectuados por SMS (Short Message Service)?

Quanto ao futuro imediato e naquilo que preocupa os cidadãos: o caos no SNS, as lutas dos médicos e dos enfermeiros, a crise na habitação, o estado de carência da escola pública – NADA! Subitamente mostrou-se disponível para atender à recuperação do tempo de serviços dos professores (!?!) Para rematar, Pedro Nuno Santos também se converteu ao mantra das contas certas. Mas as contas certas que nos deram nos últimos 8 anos, foram conseguidas com as fabulosas cativações que conduziram à falência do tão apregoado Estado Social, apesar de uma conjuntura económica muito favorável, e do conforto de uma maioria absoluta. Ou então vai cumprir a promessa antiga: “… não pagamos. Ou os senhores se põem finos, ou não pagamos!”

É bom que os eleitores pensem nisto quando forem votar. Eu por mim, não tenho qualquer tipo de dúvidas.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Portugal um país de pobres!

 

O jornal Público de hoje, para além da sondagem sobre as próximas legislativas, apresenta um estudo sobre a pobreza em Portugal, que é, no mínimo assustador! Basicamente diz que existem neste momento 2,1 milhões de pobres, e que a taxa de risco de pobreza subiu para 17%. Este risco é particularmente significativo na Área Metropolitana de Lisboa, nos Açores e na Madeira. Este estudo também refere o aumento das desigualdades na distribuição de rendimentos, particularmente nas zonas urbanas. O artigo refere ainda: “Se não fossem contabilizadas as prestações sociais, 41,8% dos residentes do país estariam em risco de pobreza no ano passado.”

Isto é tanto mais preocupante quanto se houve encher a boca com: excedentes orçamentais, com a subida do país no rating da Mody’s, com a convergência com a EU, com as centenas de milhões que são injectados sobre todos os sectores que se queixam, com a subida, nunca vista do salário mínimo nacional. Apesar de tudo, a conclusão a que se chega é que o país pode estar melhor(!?). Mas será que os portugueses vivem melhor?

O estudo não refere as causas mais prováveis para este flagelo que não para de aumentar. A responsabilidade de muitas famílias em fazer face ao aumento brutal dos empréstimos para compra de habitação, à taxa de inflação, ao aumento dos preços dos bens essenciais, e podem muito bem explicar a necessidade de cortar noutros gastos para garantir, pelo menos, um tecto para a família.
As causas naturalmente serão muito mais profundas. Elas são muitas e variadas. Qualquer intervenção que tenha de ser feita para contrariar esta realidade, leva algum tempo a produzir efeito. O que assusta é o padrão sempre crescente de insegurança que os portugueses vivem. Em que cada dia que passa, vêm que os seus rendimentos chegam cada vez para menos, para satisfazer as suas mais elementares necessidades. Temos a geração mais bem preparada de sempre e que já não quer trabalhar em Portugal, exactamente porque não vêm que o esforço que eles e os pais fizeram na sua preparação seja retribuído com uns míseros 1000 euros. Somos cada vez mais um país de velhos, que se arrastam por aí com pensões de miséria, cortando na medicação para que sobre algo para satisfazer a fome. Há dias noticiava um jornal: “Os sem-abrigo aumentaram 78% em quatro anos: são mais de 10 mil, entre homens, mulheres, jovens, idosos, estrangeiros…

Estamos no limiar de comemorar a Revolução dos Cravos. Cinquenta anos depois é preciso reconhecer que temos um país completamente diferente, mas que as esperanças que todos depositaram nesse feito, está muito longe de estar cumprido. Cada vez mais os nossos concidadãos passam necessidades e privações impensáveis para aqueles capitães de Abril quando pensaram o movimento. É triste, mas é verdade.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

ANTÓNIO COSTA - UM AMIGO QUE NINGUÉM QUER

 

António Costa o animal político a quem toda a gente reconhece não ser de todo uma pessoa que alguém, no seu prefeito juízo, pretenda ter como amigo. A sua já longa carreira política foi sempre pautada por um desmesurado vontade de se impor, e por um profundo egoísmo relativamente a tudo e todos. Aqueles que lhe são próximos, apenas são importantes, enquanto servirem para lhe alimentarem a sua vontade e, logo que esta esteja satisfeita, ou aqueles deixarem de lhe interessar, deixa-os cair com uma sepulcral indiferença. Muitos são os casos que se podem enumerar:

António José Seguro – Fez-lhe a vida negra numa disputa interna, perfeitamente legítima, desvalorizando as conquistas de AJS, por serem “poucochinho”. Logo que tomou as rédeas do partido registou uma derrota significativa (nada “poucochinho”), e assumiu os destinos do partido como se essa derrota fosse do seu antecessor.

José Sócrates – Foi a segunda figura do XVII Governo Constitucional como ministro da Ministro de Estado e da Administração Interna. Quando Sócrates caiu em desgraça, nunca reconheceu os erros daquele Governo, e inventou os dois mantras, que até hoje usa ad nauseum: “Sócrates vai lutar pela sua verdade", e “à política o que é da política, e à justiça o que é da justiça”. Nunca foi capaz de ter uma palavra nem em defesa, nem para condenar os desmandos de Sócrates, porque isso naturalmente também o implicava. Tal como Júlio César disse: “Não há frio tão intenso e congelante quanto o da indiferença.”

Diogo Lacerda Machado – Seu amigo e conhecido desde os bancos da faculdade de Direito. Convidou-o para seu padrinho de casamento. Chegou mesmo a declarar publicamente Diogo Lacerda Machado como o seu melhor amigo. A partir daí, recomendou-o para secretário de Estado de Guterres. Já como primeiro-ministro encarregou-o, como seu homem de confiança, de negociar os dossiers do caso dos lesados do BES, do Caso de Isabel dos Santos e da reprivatização da TAP. Algumas destas intervenções com uma incompreensível informalidade. Agora foi indiciado por tentar influenciar em favor dos negócios do Lítio e do Hidrogénio. Este processo onde António Costa também se encontra envolvido em mais de 20 escutas telefónicas, que constam nos autos e que desencadeou o pedido de demissão do primeiro-ministro. Quando as coisas deram para o torto, António Costa com uma decisão Salomónica, deixa cair o padrinho em directo pelas televisões, lamentando-se: "Apesar de eu ter dito, num momento de infelicidade, que ele era o meu melhor amigo, aquilo que é a realidade é que um primeiro-ministro não tem amigos.

Vitor Escária – Foi alguém que esteve sempre muito próximo dos governos socialistas e foi pela mão de José Sócrates que começou a percorrer os corredores do poder e com António Costa chegou a chefe de gabinete. Foi designado para negociar a intervenção da Troika. Esteve envolvido no caso GalpGate. Com um passado que envolveram negócios obscuros, apesar de muito lucrativos com Nicolás Maduro. Alguns trabalhos em Angola são aduzidos como justificação para o aparecimento de 75800 €, disfarçados em envelopes entre livros e numa caixa de vinho no gabinete do António Costa.

É certo que a António Costa não lhe restava outra coisa do que a decisão que tomou, face à gravidade dos relatos vindos a lume. Mas estes colaboradores directos e, particularmente próximos de António Costa foram uma escolha sua e impressiona a frieza com que os deixou cair.

Curiosamente, ou talvez não, o ministro mais polémico do seu Governo - João Galamba, caído em desgraça e agora também demissionário, há já muito tempo consagrou-lhe uma fidelidade que contrasta com a forma como tratou os camaradas atrás referidos. É, no mínimo, curioso!

À semelhança de Pilatos, António Costa também lavou as mãos quando teve de tomar uma decisão importante.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

QUANDO MORREM TODOS ABRAÇADOS

 

Já por diversas vezes aqui abordei a acção política de António Costa, e sempre afirmei as minhas profundas suspeitas da seriedade do nosso ex-primeiro ministro. O meu primeiro escrito neste Blog em que referi António Costa (18/02/2019), intitulava-se – “António Costa um político intelectualmente desonesto”. O decorrer do tempo, e dentro daquilo que eu entendo ser o comportamento de um político, só vem reforçar as minhas convicções daquilo que na altura escrevi. Recordo-me de, por diversas vezes, ter recebido acusações de não respeitar o princípio da presunção de inocência de quem se vê envolvido em processos judiciais não transitados em julgado. O meu entendimento nessa altura e agora, era de que nada nos impede de fazer um julgamento moral de alguém que, por razões mais diferentes atravessam a nossa vida. Da mesma forma que, enquanto educadores recomendamos a um filho de evitar uma má companhia, isso não implica outra coisa que um julgamento moral, sobre os valores que defendemos e que essa ”má companhia” representa com influência negativa.

António Costa revelou-se sempre um político manhoso, truculento, determinado (eu diria casmurro), com uma agenda muito própria, e que se soube rodear sempre de um grupo restrito e obediente de uns amigalhaços, sempre dispostos a dar o peito às balas quando as coisas não correm bem. Há quem veja nisto um gesto nobreza de António Costa na defesa intransigente de muitos dos seus amigos, mesmo quando as evidências apontavam erros grosseiros que não podem ser desculpados. Foram os casos de Constança Urbano de Sousa, Eduardo Cabrita, Gomes Cravinho, Marta Temido e o incontornável João Galamba. Este gesto pode ser visto como nobre e solidários, mas quando as coisas dão para o torto, é como aquele que se atira ao mar para salvar o amigo e acaba por se afogar com ele. Os acontecimentos de hoje são o corolário disto mesmo – vão morrer todos abraçados. As suspeitas sobre os negócios do lítio e do hidrogénio verde, já se arrastam há muito. Os principais protagonistas, ou envolvidos nestes negócios, são os mesmo que hoje foram constituídos arguidos. Desta vez o nome de António Costa foi referido por ter "o conhecimento da invocação por suspeitos do nome e da autoridade do primeiro-ministro e da sua intervenção para desbloquear procedimentos no contexto da extracção de lítio em Montalegre”.

O que me preocupa é que todos os casos e casinhos reconhecido por António Costa, e que acabaram por resultar no terramoto que hoje veio a púbico, é o facto de constituírem um padrão e com os suspeitos do costume. Pior ainda, é que no horizonte as alternativas não abundam, ou que as suas qualidades não auguram tempos melhores para este pobre país que merecia mais e melhor.

sábado, 7 de outubro de 2023

O 25 de ABRIL E O 25 DE NOVEMBRO

 

Quando Carlos Moedas resolveu tomar a iniciativa de festejar este ano, em paridade com os 50 anos do 25 de Abril, o 25 de Novembro, logo se levantaram as vozes habituais a associar estes festejos como uma celebração de uma direita saudosista dos tempos da outra senhora.

Este pressuposto fez-me recordar os tempos tumultuosos que se viveram no Verão quente de 1975. Era eu um jovem que me iniciava na minha vida profissional, enquanto tentava perceber o que se passava com o chamado PREC – Processo Revolucionário em Curso que, teimava em fazer parte das nossas vidas por muito que não gostássemos daquilo que víamos. Tinha rejubilado na recepção aos valentes soldados que saíram de Santarém na madrugada do 25 de Abril, comandados pelo Capitão Salgueiro Maia, com quem tinha tido o privilégio de prestar serviço militar na extinta EPC. Este acontecimento representava a esperança num país mais consentâneo com os valores de uma europa que tinha tido a oportunidade de conhecer recentemente.

Nesta altura tinha responsabilidades numa quinta, em Almoster, nos arredores de Santarém, que tinha como objectivo fornecer reprodutores seleccionados para uma Cadeia de Integração em suinicultura, recentemente criada. A empresa detinha, para além disto, escritórios técnicos no Cartaxo, para onde tinha de reportar a minha actividade frequentemente. Os pouco mais de 8 km que separavam as duas localidades, por aquela altura constituía um doloroso alvário. Logo à saída da tal quinta era parado por um grupo de indivíduos, conectados e identificados com o PCP, empunhando barras e correntes de ferro, que nos obrigavam a parar e sujeitar a uma revista da viatura. Se manifestávamos algum desconforto, eramos imediatamente invectivados de fascista, como mínimo. A cena repetia-se, invariavelmente, mais três vezes (cruzamento de Almoster, entrada do Cartaxo e no centro do Cartaxo). Mesmo quando referíamos que já nos tínhamos sujeitado a uma revista há poucos minutos, invariavelmente perguntavam se tínhamos algo a esconder… Este tipo de situações repetiam-se um pouco por todo o lado.

Na mesma altura ocorriam as ocupações de propriedades agrícolas vizinhas, e todos os dias quando iniciávamos mais um de trabalho, um desfecho deste tipo constituía uma incerteza e uma preocupação. Esta incerteza era vivida por todos os trabalhadores que nos questionavam o que poderíamos fazer, caso tal viesse a acontecer, por forma a garantirem a continuidade dos seus postos de trabalho.

Mas não quero abordar este assunto por uma perspectiva meramente pessoal. O país vivia tempos muito conturbados com: um cerco à Assembleia da República, grande instabilidade no seio das Forças Armadas com a sublevação das tropas paraquedistas; tiros junto do RALIS, ocupação dos estúdios da RTP; saneamento de várias direcções de órgãos de comunicação social, Otelo Saraiva de Carvalho queria meter os portugueses no Campo Pequeno, depois de ter distribuiu alguns milhares de espingardas metralhadoras G-3 a alguns amigos, etc.

Naturalmente que por esta altura vivíamos sob o domínio de um Conselho da Revolução, objectivamente constituído por militares conectados com o PCP, e que tinham uma visão marxista para o futuro do país. Eram muitos os que discordavam do rumo que o país estava a levar, entre os quais eu me incluo. Recordo o corajoso discurso da Fonte Luminosa proferido por Mário Soares nas comemorações do 1º de Maio, e que representou um ponto de viragem nas consciências de muitos portugueses, que não gostavam do que viam e viviam. É natural que este descontentamento tenha sido aproveitado por muita gente de direita, mas uma coisa é certa, o verdadeiro processo democrático só se consolidou depois do 25 de Novembro.

Nesta altura que vejo tanta gente irritada com a comemoração da data, gostaria que me respondessem a uma simples pergunta: que país teríamos se não tivesse havido o 25 de Novembro?

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

TAP - A HISTÒRIA DE UMA COMPANHIA COM A MORTE ANUNCIADA

 

A TAP é uma companhia de aviação portuguesa, com uma história já velhinha, mas que ao longo dos anos prestou um serviço fundamental a todos os portugueses e estrangeiros que a utilizaram. Foi sempre uma companhia que se impôs por duas ordens de razão: uma que tinha a ver com questões operacionais leia-se segurança, conforto, pontualidade e qualidade do serviço prestado; outra que podemos classificar de circunstancial, e que nos remete para a localização do seu hub em Lisboa, que funcionava como uma plataforma de ligação entre as Américas do norte e do sul, e a Europa, funcionando Lisboa como porta de entrada. Não esquecer a ligação privilegiada que a TAP sempre teve com as colónias, quer antes, quer depois do 25 de Abril.

Desde a sua constituição em 1945 até ao 25 de Abril podemos admitir que foi um percurso de sucesso e de crescimento sustentado, ombreando com as suas congénerese ligando a diáspora à terra natal.

Com o advento do PREC e a loucura revolucionária que então se vivia, é nacionalizada em 1975, e aí começa um nunca mais parar de problemas para uma companhia que, até então, atravessava um trajecto de sucesso. Na década de 80 começam a tornar-se evidente graves problemas associados à crise do petróleo, e à concorrência dos voos charter, nessa altura muito em voga.

Desde esta altura existem muitas mexidas na gestão da companhia, mas nunca mais a companhia teve descanso. Em 2011 era primeiro-ministro José Sócrates que leva o país à bancarrota e assume o compromisso, imposto pela Troika, de privatizar a companhia. O processo arrasta-se por algum tempo. Passos Coelho é eleito para cumprir o compromisso assumido por José Sócrates, e com uma TAP a degradar-se de dia para dia, despacha a companhia para um consórcio, liderado por um magnata da aviação, o senhor David Neeleman, com um sócio português.

De então para cá, a situação da companhia continuou a degradar-se, sem que uma medida de fundo pudesse ser capaz de reverter o descalabro. Nos últimos tempos temos assistido, que o caso TAP tem adquirido foros de uma telenovela mexicana de mau gosto.  Pior que tudo é perceber-se que o actual primeiro-ministro, tem alterado a sua posição relativo ao futuro da companhia deste a nacionalização total (as caravelas do século XXI), a uma privatização a 50%, ou ainda uma privatização total. Não esquecer que entretanto, para salvar a companhia, foram lá metidos 2,3 MM €, de dinheiro dos contribuintes, além de uma série de indemnizações milionárias.

Pelos vistos vamos mandar às urtigas “as caravelas do século XXI”.  Muitos não acreditam que possamos vir a recuperar os tais 2,3 MM. Temos uma companhia que foi obrigada a ceder SLOTS do Hub de Lisboa para empresas Low Cost.

Neste momento ninguém é capaz de dizer com verdade qual o valor real da companhia, e quanto, e em que condições, os possíveis compradores estarão dispostos a pagar. Receio bem que se a empresa tivesse sido “oferecida” na altura da Troika, todos teríamos ganho alguma coisa. Ou pelo menos não teríamos perdido tanto. Naturalmente que neste momento já só temos uma TAPzinha, com um valor de mercado depreciado por tantas hesitações. O papel estratégico da localização do Hub de Lisboa irá, fatalmente, ser deslocalizado para outras paragens. Com ela iremos perder uma companhia de bandeira, um orgulho nacional e o transporte aéreo em Portugal vai sujeitar-se as leis de mercado deste sector.

sábado, 9 de setembro de 2023

A DIGNIDADE DO PEDINTE

 

A dignidade do pedinte é um conceito que se refere ao respeito e à consideração que devemos ter pelas pessoas que estão em situação de mendicância ou que pedem esmolas. É importante reconhecer a humanidade e a dignidade de todas as pessoas, independentemente da sua condição socioeconómica ou situação de vida. Enquanto o pedinte quer ajuda para poder inverter a sua condição e poder recuperar e refazer a sua anterior condição de vida. Fácil é perceber que a simples esmola, invariavelmente não resolve o problema estrutural, antes perpétua a sua condição de vida.

A carta enviada por António Costa a Bruxelas a pedir ajuda para o problema da crise da Habitação em Portugal, fez-me pensar que pedir ajuda não é, por si só algo de criticável, mas esse pedido de ajuda deve encerrar uma objectiva impossibilidade de resolver uma situação.

A crise habitacional em Portugal poderia resumir-se em três campos: baixo rendimento das famílias, rendas inflacionadas e crédito à habitação mais difícil de conseguir. Este problema só pode ser resolvido de forma duradoura se resolvermos a eterna questão da lei da oferta e da procura. Ou seja, não havendo uma oferta alargada de habitação no mercado de aluguer, as famílias vêm-se na necessidade de adquirir habitação própria. Há uns anos era fácil uma família encaixar no seu rendimento a despesa contraída na compra de habitação própria. Nos dias que correm essa despesa praticamente duplicou, sem que o rendimento das famílias tivessem acompanhado esse crescimento. Nas actuais condições conjunturais (crise inflacionista, e a guerra), o problema não se resolve, nem congelando as rendas, nem atirando dinheiro para cima do assunto. Ora é por isso que ninguém quer investir no mercado de aluguer por recear: ou um congelamento de rendas ou um arrendamento compulsivo.

Se juntarmos a isto a forma como Portugal tem “torrado” muitos dos fundos comunitários em: empresas falidas, Bancos, TAP, CP, indemnizações milionárias, etc. A carta recebeu por parte de Ursula von der Leyen o destino mais do que esperado – o cesto dos papéis, com a justificação que as verbas do PRR serviam exactamente para isso. Ou seja, o pedinte não se deu ao respeito, ou actuou com muito pouca dignidade, de quem é pobre e mal agradecido.

domingo, 16 de julho de 2023

A MOBILIDADE ELÉCTRICA – TERÁ FUTURO?

 

Ao longo dos últimos anos trabalhei na área da mecanização agrícola. Um dos aspectos menos desenvolvidos neste domínio, pelo menos em Portugal, tinha a ver com a utilização de combustíveis alternativos, com o objectivo da redução da nossa pegada ecológica. Isto acontece, do meu ponto de vista, porque não existe uma alternativa credível quanto a necessidade de utilização de elevados requisitos em termos do binómio força e potência necessárias, quando se pensa na electrificação deste tipo de veículos.

Mas penso existir uma grande hipocrisia no que diz respeito à mobilidade eléctrica, visto em sentido generalizado, quando se tenta esconder o balanço energético associado à sua utilização. Exemplo disto é quando se fala por exemplo, na simples produção das baterias ion-lítio. Estou certo de que a avaliação deste balanço energético na produção de baterias para veículos eléctricos é uma questão complexa que envolve vários factores. Mas tendo em conta que as fontes energéticas usadas neste domínio, assentam quase exclusivamente em combustíveis fósseis, o caso muda de figura. Outro aspecto que não deve ser escondido são as consequências ambientais relacionadas com a mineração exigidas para a extracção dos minerais como o lítio, cobalto, níquel e outros utilizados. Impactos ambientais significativos, como desmatamento, poluição da água e do solo, para além dos impactos sociais que este tipo de intervenção exerce junto das populações.

Sabemos que o grande argumento da mobilidade eléctrica é ser apresentada com uma alternativa promissora aos veículos com motores de combustão interna. Será? Penso que este argumento, apesar de forte, tem muitos outros factores positivos como sejam: a redução de emissões poluentes, impacte ambiental reduzido(?), eficiência energética, menor custo de operação e manutenção, incentivos governamentais, etc. Mas também apresenta uma série de inconvenientes, quando comparada com os combustíveis fósseis: autonomia, débil infra-estrutura de carregamento, demora no carregamento, custo inicial, vida útil das baterias e o seu custo de substituição, impacte ambiental relacionado com a produção e reciclagem das baterias em fim de vida, dependência da rede eléctrica nacional, etc.

Numa abordagem com a preocupação a uma mobilidade sustentável, a opção pela electrificação faz algum sentido. Mas se quisermos ir mais ao fundo deste novo ecossistema, conseguimos identificar algumas fragilidades, para não dizer incongruências. Ou seja, o balanço energético exigido em toda a fileira da mobilidade eléctrica, não parece revelar uma diferença assim tão notória, pelo que os defensores irredutíveis da opção pelo eléctrico, parecem só querer ver um lado do problema.

À luz dos meus conhecimentos, naturalmente muito limitados, a mobilidade eléctrica parece ser uma solução do presente, não isenta de fragilidades, mas que parece ser apenas uma solução provisória. Como alternativa surge num horizonte longínquo a solução do hidrogénio. Provavelmente poderá ser uma aposta com alguma resistência pelos indefectíveis defensores da opção eléctrica, mas constitui-se com uma alternativa sustentável de argumentos a favor, como sejam: ser uma energia limpa, elevada autonomia, facilidade e rapidez no reabastecimento, emissões zero, potencial de armazenamento de energia em grande escala, etc. No entanto existem, mesmo assim, muitas limitações ao seu uso generalizado, por ser uma tecnologia complexa e ainda sem escala, infra-estrutura de produção/distribuição muito limitada, custo e complexidade de uma estrutura de produção e distribuição, etc. No entanto parece poder ser encarada com a boa solução na redução da nossa pegada de carbono, particularmente no que diz respeito a soluções rodoviárias, transporte aéreo e soluções agrícolas.

O futuro apesar de longe, está aí ao virar da esquina. Considerar a solução eléctrica ´ como uma solução de futuro, não estou tão certo disso. Provavelmente vão coexistir durante algum tempo um mix de utilização de diversas formas de soluções energéticas, para além da mobilidade eléctrica. Poderão ser exemplos disso, para além dos combustíveis fósseis, os biocombustíveis, o gás natural e o hidrogénio. Vamos aguardar.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

O AEROPORTO EM SANTARÉM AINDA FAZ SENTIDO?

RÉM AINDA FAZ SENTIDO?O estudo da localização do novo aeroporto de Lisboa foi entregue a uma Comissão Técnica Independente (CTI), constituída por seis elementos. Para que conste dois deles já a abandonaram (Daniel Murta saiu porque "não tinha perfil para a função" e Mafalda Carmona por “falta de tempo”, revela o Observador. Já ao Expresso, Mafalda Carmona revelou "Saio por divergências  profissionais face ao âmbito do meu trabalho"), entretanto já substituídos. Vamos considerar que as demissões representam apenas a vontade dos próprios e não envolvem qualquer tipo de pressão, com vista a condicionar uma decisão final. Apesar de ser uma Comissão Técnica, nomeada pelo Governo para um estudo técnico, foi mais longe e criou uma plataforma - AeroParticipa, para o cidadão comum dar o seu palpite (“Vamos acolher todas as propostas que recebermos. Vamos ter um mapa, interactivo, onde as pessoas vão pôr lá o aviãozinho”). 

Compreende-se que uma decisão sobre esta matéria não pode ser tomada de ânimo leve, e muito menos, ofuscada por qualquer bacoca opinião bairrista. Deve ser uma solução que resolva um problema que se arrasta há mais de 50 naos, mas do qual resulte uma solução tecnicamente irrepreensível e tendo em conta o desenvolvimento harmonioso de todo o país. E não uma solução macrocéfala que pretenda resolver apenas a solução aeroportuária de uma capital já de si muito congestionada.

A decisão da CTI deve avaliar a solução final tendo por base uma série de critérios. Atrevo-me a elencar alguns que, do meu ponto de vista, não andarão muito longe das preocupações da CTI: O Custo, a Distância à capital, a Segurança Operacional e Aeroportuária, a Sustentabilidade Ambiental, o Desenvolvimento regional, a aptidão para aumentar a sua capacidade, a população a servir, a articulação com outros sistemas de transportes, factores climáticos e ambientais condicionantes, as Acessibilidades ferroviárias e rodoviárias, a Flexibilidade, os Impactes negativos (a fauna, flora e o ruído), a rapidez na sua conclusão da solução final, etc.

Em todos os critérios apontados, na opção Santarém, apenas a distância à capital aparece como um critério negativo,  se comparado com os demais projectos. Em todos os outros, a solução Santarém: ou está equiparada com as outras, ou apresenta-se como muito mais vantajosas. Aliás, as declarações de João Galamba, são inaceitáveis, sobretudo se considerar que é o ministro que vai tutelar a solução que a CTI irá produzir. Se isto não é uma forma de condicionar os elementos da dita comissão, é, pelo menos, uma inaceitável ingerência de quem deveria, por obrigação de ofício, manter-se calado. Também é notória, ou indisfarçável simpatia de João Galamba e do governo pela opção Alcochete, apesar de algumas evidentes susceptibilidades (Risco de Submersão Nevoeiros e ventos cruzados, Acessibilidades, Área Reduzida de expansão e Densidade Populacional)[1]

Não dominamos muitos dos aspectos técnicos que envolvem uma tal decisão. Mas estamos seguros de que numa análise descomprometidas, a opção por Santarém, faz todo o sentido, por ser uma boa solução alternativa, com uma série de propostas vantajosas em vários dos critérios observados. Sim. Do meu ponto de vista faz sentido, sobretudo pelas seguintes razões: por que vai servir toda uma população até agora esquecida, ou, pelo menos, ignorada; proporcionar uma solução de caracter definitivo, flexível e escalável quanto ao crescimento da oferta; acessibilidades garantidas entre as principais ofertas rodoviárias e ferroviárias; condições operacionais mesmo em situações climáticas adversas; baixos impactes ambientais, e, segundo os promotores, ser o de mais baixo custo.

Se numa análise SWAT se analisam: os pontos fortes, os pontos fracos, as oportunidades e as ameaças, podemos facilmente concluir que nos aspectos positivos a solução Santarém, está à frente da maioria das soluções concorrentes e, o único ponto fraco, será a distância à capital, além de não apresenta nenhuma ameaça objectiva. Mas mesmo a tão discutida opção distância à capital, tem de levar em linha de conta, uma área até agora ignorada, como sejam os distritos de Leiria, Coimbra e Santarém (+ de 1.300.000 habitantes), bem como toda a região do interior.

A Distância à capital, na comparação com outras capitais europeias, deve levar em linha de conta que existem muitas outras ofertas aeroportuárias, muitas delas utilizadas por muitas companhias por serem mais económicos, e que têm distâncias muito superiores à distância Santarém Lisboa.

Esta opção também não pode ser tomada como um factor inquestionável, tendo em conta dois aspectos fundamentais: a centralidade e acessibilidades que a localização geográfica que Santarém tem para oferecer: quer na sua ligação aos destinos a norte e a sul, quer na ligação ao litoral e interior (A1, A13, A2 e A15, A23).

Vamos aguardar serenamente as conclusões da CTI. Vamos esperar que tenha feito o seu trabalho de forma, livre e independente. Imune a qualquer tipo de pressões quer da tutela, quer de todo o tipo de interesses envolvidos. Tendo em conta que a decisão final será de índole política, vamos esperar que ela leve em linha de conta, fundamentalmente os aspectos relevantes para a sua tomada de decisão e que, por razão alguma imperem questões de natureza ideológica e muito menos partidária.



[1] Relatório do Parlamento 

sexta-feira, 30 de junho de 2023

UM ADEUS AO PRESÍDIO

 

Talvez o mais correcto fosse enviar um adeus à Casa de Portugal e de Camões, mas a nossa memória colectiva associa mais facilmente o velhinho Presidio Militar de Santarém, como edifício emblemático da nossa cidade, e mais ainda, o local em que pela primeira vez, a nossa UTIS encontrou um local que conferia à sua actividade poder exercer o seu múnus com muita dignidade. É, pois, com um sentimento de alguma nostalgia que vamos largar um local onde, penso, todos nós fomos muito felizes.

O destino que as circunstâncias ditaram é, um não menos emblemático local da cidade – a ex-Escola Prática de Cavalaria. Tenho também uma ligação afectiva muito especial com este local, por ali ter terminado o meu curso de Oficial Miliciano, e onde até a data da minha mobilização para Timor, prestei o meu serviço militar. Também foi neste local que senti consolidar-se a responsabilidade de me tornar adulto, e começar a pensar na vida por um prisma em que a sensatez começava a tornar-se um imperativo, para a pouca responsabilidade que os jovens, habitualmente, trazem consigo.

Por tudo isto, esta mudança despertou em mim um misto de saudade e de esperança. Saudade de umas instalações que pareciam ter sido feitas de propósito para a finalidade que a UTIS desenvolve a sua actividade; e de esperança para que o novo local consiga oferecer, algo senão melhor, pelo menos igual ao que vamos deixar.

Estou certo de que todos os que têm responsabilidade nesta mudança, estão cientes do desafio. Por isso, e tendo em conta algo que se dizia aos cadetes quando chegavam à EPC: “ser cavaleiro não é melhor nem pior, é apenas diferente”, seja o prenúncio que vamos abrir a porta do futuro da UTIS. Ela irá confrontar-nos com uma realidade diferente certamente, à qual todos temos de nos adaptar. Vamos, todos em conjunto pugnar para que ela possa ser melhor do que aquilo que já conhecemos. Está nas nossas mãos realizar esta tarefa.

O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.

Fernando Pessoa

Nesta altura de interrupção das nossas actividades, quero desejar a todos umas excelentes férias a aguardar ansiosamente pela nossa nova casa.

 

sexta-feira, 2 de junho de 2023

A BANALIZAÇÃO DO SIS

 
Chuva Molha Parvos - HenriCartoon

Vivemos nas últimas semanas, a um triste espectáculo que envolveram um indesejado ministro da república, uma chefe de gabinete, um adjunto, um secretário de estado da presidência do conselho de ministros, uma ministra da justiça e um primeiro-ministro, para além dos serviços de informação da república – leia-se secretas! Tudo isto teve origem num lamentável episódio que envolveu um simples adjunto do dito ministro, um ajunto, que tinha o péssimo hábito de tomar notas de todas as reuniões onde participava, e eram muitas e um computador. A maioria das quais, estavam relacionadas com um Plano de Restruturação de uma Companhia Aérea, sobre a qual pendia uma CPI (comissão parlamentar de inquérito), que investigava uma indemnização milionária a uma ex-colaboradora da dita companhia. Ora o dito adjunto, na iminência de poder ser chamado à dita CPI, informou o seu superior que tinha umas notas que se tivesse de ser chamado a depor teria de as divulgar. Perante isto o ministro que assessorava, despediu-o rapidamente, e por telefone. Em face disto, o dito adjunto apressou-se a ir ao ministério recolher o malfadado PC, para recolher as tão badaladas notas das reuniões e, provavelmente, mais alguma coisa… Eis senão quando, a chefe de gabinete tenta retirar o computador ao adjunto numa cena de pancadaria, vidros partidos e uma bicicleta à mistura. Há gente que se fecha nas casas de banho e é ordenado que o ministério seja encerrado. Entretanto, o adjunto chama a PSP por se considerar refém. Chega a PSP, liberta o adjunto e ele vai para casa. Entretanto, é chamado o SIS para recuperar o PC (?), alegadamente por possuir informação classificada, que apesar disto, andava na mochila do dito adjunto quando este a transportava pelas ruas de Lisboa, sem que alguém tivesse disso dado boa conta.

Na descrição deste enredo tentei que fosse o mais breve e livre de floreados, para que tudo se possa perceber facilmente, e sem ideias pré-concebidas sobre quem tem razão em todo este processo. Apesar dos lamentáveis incidentes registados, aquilo que tem indignado e surpreendido os portugueses é o envolvimento das secretas para recuperar um PC!

Ora por causa disto, a CPI, que estava a tratar de uma coisa, tem servido para tratar de outra, na tentativa de perceber o que se havia passado naquele ministério. Os inquiridores têm tentado perceber duas coisas muito simples: primeiro - o porquê do envolvimento das secretas para executar um serviço de polícia, segundo – quem deu a ordem para tal intervenção.

Com isto temos assistido a um jogo do gato e do rato, em que do lado dos inquiridores uma tentativa de desenhar uma linha do tempo, onde se saiba as diligências efectuadas, e quem ordenou a intervenção do SIS. Como aparentemente, nada justificava a tal intervenção, vamos assistindo a uma intricada teia de argumentos em que ninguém quer assumir qualquer tipo de responsabilidade. Mas, entretanto, o chefe deste bando, arranjou, a solução milagrosa: que a chefe de gabinete, ao ter presenciado o “roubo” de um equipamento que continha material classificado, fez o que lhe competia – chamar o SIS! Diga-se que da parte do SIS, nada se sabe quanto à justificação para realizar um mero trabalho de polícia.

Ontem fiz uma analogia sobre o facto que a chefe de gabinete parecer neste caso o mexilhão… Fui apelidado de ingénuo. É provável, que eu olhe para tudo isto com um nível de exigência que devem ter os eleitos, que não está de acordo com a mediocridade que vamos observando nos ditos cujos. A banalização que atingiu a praxis e as decisões dos políticos que  nos governam, tenho alguma dificuldade em aceitar. “À mulher de César não lhe basta ser séria, tem também de parecer”, não seja mais do que um simples romantismo, próprio de um ingénuo como eu. Já não tenho idade para mudar, até porque, continuo a pensar, que tudo o que a este respeito se tem observado é uma vergonha.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

A OPERAÇÃO TUTTI FRUTTI

 

Este foi nome que é dado à investigação que envolve uma série de autarcas da Câmara de Lisboa, revela alguma graça tendo em conta que esta, envolve nomes oriundos dos dois maiores partidos portugueses. Pelo menos desta vez, não vai haver o maniqueísmo habitual de elencar, em cada caso que vamos tendo conhecimento, quem é o mais corrupto, ou quem tem mais simpatizantes envolvidos em processos judiciais, se o PSD se o PS. Para além do mais, já cansa o mantra de: à justiça o que é da justiça, à política o que é da política! E os indícios indicarem que os eventuais crimes, terem sido cometidos no exercício de cargos políticos, e com objectivos políticos. Até porque, os principais envolvidos detêm neste momento cargos relevantes nos seus partidos.

O caso sob investigação pode resumir-se assim, o PS comprometia-se em lançar candidatos merdosos para algumas juntas de freguesia, em contrapartida, os candidatos vencedores do PSD garantiriam a aprovação dos orçamentos camarários. Faz lembrar aquelas hordas de bárbaros que dividiam entre si os saques que efectuavam.

Uma vez mais tudo isto acontece, numa investigação levada a efeito por uma televisão pública, com recurso a aparente violação do segredo de justiça, e sem que os envolvidos tenha sido sequer pronunciados, ou constituídos arguidos. A pergunta que se impõe é: quem é que beneficia com esta revelação? Desde logo o canal de TV, que vai expondo em episódios, cada um mais escabroso que o anterior, e solicitando a participação dos seus excelsos “especialistas” que vão tecendo as mais elaboradas teorias de condenação, ou absolvição consoante as suas preferências político partidárias. Mas também não se podem iludir os portugueses de alguns indícios comprometedores agora revelados, se fiquem por isso mesmo. Ou seja, em nada.

Triste é que, uma investigação que se arrasta há pelo menos sete anos, o Ministério Público ainda não tenha dado qualquer desenvolvimento público ao caso. Assim sendo, corremos o risco de prescrição, com o consequente pecado de os presumidos culpados possam escapar impunemente, ou pior ainda, se estão inocentes, não terem tido a oportunidade de se defenderem de um caso que já caiu no domínio público.

O princípio sagrado da presunção de inocência deve ser sempre assumido, independentemente da solidez ou fraqueza dos indícios observados. Mas este lento caminhar da justiça, tem uma conclusão perversa: os eventuais ofendidos não terem a possibilidade de defenderem o seu bom nome, e os prevaricadores poderem passar impunemente sob os pingos da chuva. Para além de tudo isto, a público anónimo ficar convencido que os poderosos poderem sempre safar-se.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

QUANTAS VIDAS RESTAM A GALAMBA?

As audições de ontem na CPI, ao ex-assessor e à chefe de gabinete, deu aquilo que se esperava – a palavra de um contra a palavra do outro. Embora se tenha percebido muito mais consistência nas declarações de Frederico Pinheiro do que nas da chefe de gabinete. Desde logo porque um afirma que as câmaras de vigilância instaladas no piso 0, podiam confirmar a sua tese, mas, mistério dos mistérios, as ditas camaras estavam avariadas, Por outro lado, ontem ficamos a saber duas coisas. O ex-assessor tinha distribuídos pelo ministério das Infra-estruturas: um PC que continha documentação classificada e sensível e as famosas notas; e um telemóvel que continha documentação classificada e sensível, e as mensagens do WattsApp (que misteriosamente foram apagadas pelo técnico informático).

Ou seja, parece concluir-se que as diligências envolvidas na tentativa de recuperar o PC, foram muito mais “musculadas”, do que o interesse em recuperar o telemóvel. A conclusão mais lógica, é de que o que era importante para o ministério, eram as malfadadas notas, e não a documentação classificada!

Outra inconsistência resultou na forma, aparentemente, fácil como o SIS foi envolvido, pela simples diligência de uma chefe de gabinete, com larga experiência nos corredores do poder. Por isso podemos questionar, em que circunstâncias é que este serviço de informações não foi anteriormente utilizado para fins para os quais não estaria habilitado?

João Galamba será ouvido hoje. Por um lado, já conhece os depoimentos prestados e mais facilmente pode acomodar o seu discurso a estas inconsistências. Mas por outro, lado chega a este ponto muito fragilizado por todos os acontecimentos registados no seu ministério. Não vai ser poupado, pelos deputados, vamos a ver se vai ter o discernimento de conter a sua muito conhecida impulsividade. 7 vidas tem o gato, quantas vidas tem João Galamba. Vamos aguardar para ver.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

VAMOS BRINCAR AOS ESPIÕES

As cenas rocambolescas registadas no ministério das infra-estruturas, já são em si próprias de lamentar e mais aceitáveis num país do terceiro mundo, do que num país europeu com uma longa história. Como se isto não bastasse, ainda puseram o SIS ao barulho. É bom que se entenda que o SIS é um órgão da república, que segundo o artigo 2º da lei-quadro 30/84. tem como finalidades: “Aos serviços de informações incumbe assegurar, no respeito da Constituição e da lei, a produção de informações necessárias à preservação da segurança interna e externa, bem como à independência e interesses nacionais e à unidade e integridade do Estado.”

Por tudo isto, não se consegue perceber como é que o SIS entra neste complicadíssimo processo Galamba! Mesmo considerando que o famigerado computador continha informação classificada, também é verdade que o ex-acessor durante muito tempo teve acesso directo a toda essa informação e, mereceu a confiança política de dois ministros. António Costa, por diversas vezes veio afirmar que se tratava de um roubo, quando na opinião de diversos juristas, afirmarem que a situação referenciada, o crime de roubo não está contemplado. Provavelmente, por isso é que a audição parlamentar aos 3 responsáveis do Conselho de Fiscalização do Sistemas de Informações da República Portuguesa se esforçaram tanto para afastar da sua intervenção a eventualidade da existência de roubo.

Esta trapalhada que envolve João Galamba e o seu ministério está recheada de coisas muito mal explicadas. Uma delas é, precisamente o accionamento do SIS. Ninguém sabe quem deu a ordem. Ninguém sabe os reais fundamentos desta intervenção. E mais ainda, é saber se este tipo de intervenção, sem que ninguém entenda ou saiba, foi mais alguma vez utilizado noutras situações, e a mando de quem? Hoje a responsável pelo SIS irá ser questionada pela CPI, à porta fechada, o que é pena. Mas suspeito que as desculpas serão tão mirabolantes como a dos conselheiros. Ou seja, vão arranjar uma fundamentação maltrapilha para justificar o injustificável. Afinal isto mais não é do que os poderes instituídos se entreterem a brincar aos espiões, e o pagode a assistir impávido e sereno. Suspeito que este vai ser mais um episódio que vai acabar em NADA.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

A NOVELA JOÃO GALAMBA ou A GRANDE ENCENAÇÃO

 

Já aqui uma vez escrevi que considerava António Costa um político intelectualmente desonesto e hipócrita. Ao longo dos anos da sua governação, vários episódios contribuíram para confirmar esta tese. A sua matreirice, atingiu o vértice nos acontecimentos do dia de ontem, com a novela protagonizada por João Galamba, nos acontecimentos que envolveram um seu assessor.

A “pseudo-demissão” de João Galamba, é disto um exemplo mais do que evidente. Quando no dia 1 o ministro das infra-estruturas, aparece a contar a sua versão do episódio rocambolesco ocorrido no seu ministério afirma, sem margem para dúvidas, que sentia ter todas as condições para continuar à frente do ministério. Ou seja, afasta liminarmente que a ocorrer uma demissão não seria por sua iniciativa. Podemos concluir que na reunião na manhã do dia de ontem, tenha sido essa a sua postura junto do 1º ministro. Também na conferência de imprensa de António Costa ao fim da tarde, parece concluir-se que esse era também o seu entendimento.

A posição do presidente da República, bem como da generalidade dos portugueses, incluindo muitos pesos pesados do PS, era de que a posição de João Galamba revelava uma grande fragilidade, nomeadamente junto da CPI a quem ele mentiu (a CEO da TAP é que tinha tido a iniciativa de participar na malfadada reunião), pelas eventuais notas que Frederico Pinheiro tinha na sua posse.

Por tudo isto torna-se difícil de entender aquele pedido de demissão ao fim da tarde, para pouco tempo depois António Costa afirmar, categoricamente, não aceitar a sua demissão. Quem mudou de ideias em pouco menos de 12 horas: Galamba ou Costa? Tudo parece ter sido combinado para dificultar aquilo que Marcelo Rebelo de Sousa possa fazer, que era a dissolução da AR, ou demissão deste governo. Qualquer uma destas soluções agradariam a Costa, como forma de se vitimizar e aproveitar ainda algum benefício que as sondagens ainda vão conferindo ao PS. Marcelo sabe que essa solução nunca colheu a sua simpatia, pelo menos enquanto não houvesse uma alternativa credível a este governo. Também sabe que afrontar Marcelo, não lhe garante que a sua vida de governante, daqui para a frente não irá ser nada fácil. A este propósito, lembro-me de um ditado brasileiro que diz: ”não se deve cutucar a onça com vara curta”.

 Calculo que Marcelo não irá tomar nenhuma decisão drástica, pelo menos por agora, mas não vai deixar de fazer a vida negra a António Costa. E tem muito por onde chatear: a execução do PRR, a novela da TAP e o que se for descobrindo na CPI, o estado do SNS, o Verão que se aproxima e o drama dos incêndios, o problema dos professores, etc.

António Costa esticou a corda de forma surpreendente, contra tudo e contra todos. Quando ela partir é que se vai perceber quem vai ser mais atingido, se o 1º ministro, se o presidente. Uma coisa é certa, todos conhecemos as animosidades de Marcelo Rebelo de Sousa. Em toda esta encenação a que ontem assistimos, começa uma comédia de mau gosto numa tragédia grega, porque Marcelo não vai esquecer o “optimismo irritante” de António Costa, até porque, “a vingança é uma prato que se serve frio…”

sexta-feira, 28 de abril de 2023

A TAP UMA COMPANHIA DE AVIAÇÃO OU UM ROLO COMPRESSOR

 

A TAP foi nacionalizada pelo governo de António Costa, como uma solução de esquerda, em contraponto com a decisão de Passos Coelho de a privatizar., nos tempos da Troika Colocou lá 3,2 MM€ dos contribuintes para a sanear financeiramente, para agora a vender aos privados (!?). Por muito que se tente encontrar alguma lógica para atender este imbróglio, revela-se, de facto, muito difícil. Mesmo a lógica de ter uma companhia de bandeira, num país pequeno, pobre e com uma companhia tecnicamente falida, deita por terra o papel estrutural que essa empresa pudesse vir a representar. Mas eis senão quando, a decisão é vendê-la novamente a privados. É preciso que se entenda que, para além de tudo, teve de negociar a redução de salários com trabalhadores, vender aviões, perder “slots”. Ou seja, ela hoje vale muito menos do que quando foi nacionalizada!

Mas se tudo isto parece pouco, depois da contratação de uma CEO - Christine Ourmieres-Widener, de renome internacional e da implementação dum plano de reestruturação. Em Janeiro passado, soube-se pela comunicação social de uma indemnização de 500.000 € pelo despedimento de um quadro superior da empresa, por aparente incompatibilidade com a CEO e com a anuência do ministro da tutela.

As coisas tornaram-se tão feias que foi necessário constituir uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Logo na primeira audição se percebeu que se tinha aberto uma caixa de Pandora. Desde essa altura, percebe-se que a gestão deste processo por parte da tutela era feita com um total desprezo a insensibilidade pelo dinheiro dos contribuintes, com decisões tomadas e transmitidas por WattsApp, sem o conhecimento de outros ministérios, sem atender sistematicamente as insistentes solicitações dos responsáveis pela TAP, para decisões de peso.

Tal como uma Matrioska, cada uma que se abre, descobre-se outra bem mais negra e complicada que a anterior. Descobre-se um chorrilho de mentiras, para tentar justificar o inexplicável. Se o caso de Alexandra Reis impressionou o comum dos mortais, as trapalhadas sucedem-se a cada dia que passa. Já foram sacrificados o ministro Pedro Nuno Santos, dois secretários de estado, a CEO e o charmain (em directo pela TV) e hoje soube-se que mais um adjunto foi exonerado numa cena rocambolesca, digna de um filme da classe B.

Muitas são as vozes que pedem a cabeça de João Galamba e Fernando Medina, pelas trapalhadas originadas nos respectivos gabinetes. Receio bem que a TAP, como companhia de bandeira, que foi o grande argumento que suportou as decisões do governo de António Costa, se vá transformar num rolo compressor que irá deitar fim a este executivo.

Sempre fui defensor que os mandatos devem ser para cumprir até ao fim, quer se goste ou não. Mas a sucessão de trapalhadas que diariamente nos brindam, penso que põe em causa o normal funcionamento das instituições. E este pode ser o mote para que o papagaio-mor tome uma posição inequívoca quanto ao desfecho para um governo que já não tem nada para dar.

Só uma nota final. Vejo com alguma perplexidade muita gente a condenar a nossa imprensa, os analistas, os comentadores, que é de esgoto, que está feita com as forças reaccionárias de direita, quando um governo de esquerda diariamente lhe dá material adequado para alimentar o tal esgoto. Alguém me explique!

terça-feira, 11 de abril de 2023

ÓH MÂE! AQUELE MENINO BATEU-ME

 

O momento político que vamos assistindo a cada dia que passa, conseguimos compreender o que é viver numa “república das bananas”. O governo de maioria absoluta vai enriquecendo o ecossistema, contribuindo com inúmeros casos, casinhos e casões. Os casos têm-se repetido com uma persistência totalmente imprevisível. Quando achávamos que já tínhamos batido no fundo, vem mais uma mentira, um despacho milionário por WhatsApp, uma demissão numa conferência de imprensa, ou uma nomeação de mais um familiar pela calada da noite, ou uma reunião secreta para “preparar” alguém para uma API. Perante tudo isto aparentemente, no passa nada! O primeiro-ministro depois de mais de uma semana de silêncio absoluto, e de partida para a Coreia do Sul, continua afirmando que não sabia de nada, porque se soubesse teria demitido imediatamente o secretário de estado - leia-se, o elo mais fraco.

O presidente da República acha que, não havendo uma alternativa real, não pode contribuir para agravar esta crise que se arrasta penosamente deste que este governo tomou posse, e que o normal funcionamento das instituições está garantido. Será?

A novela da TAP continua na ordem do dia, emergindo a cada dia um novo episódio carregando um dramatismo pior que do folhetim do dia anterior! Perante tudo o que se tem passado, tem alimentado o pagode da comunicação social, animadas com tardes informativas ricas de debates, que em nada contribuem para um cabal esclarecimento do telespectador, sobre os reais problemas que vamos ter de suportar. Mesmo o menos credível dos comentadores, encontram matéria suficiente para dissertarem e, diga-se com a legitimidade que a bandalheira instituída lhes confere, sobre tudo e mais um par de jarras.

Do outro lado do espelho, ou seja, os simpatizantes do PS, vociferam contra tudo o que é referido, quais donzelas ofendidas perante uns piropos brejeiros atirados por um conjunto de trolhas, que me perdoem os trolhas. Para esta gente e, passadas que são apenas duas inquirições parlamentares, os detalhes revelados sobre a maneira demasiado informal como se geria a empresa onde o contribuinte português enterrou 3,2 M€. Acham que tudo isto é normal, e as críticas não passa de uma cabala (José Sócrates deixou descendência) para prejudicar o PS. Um pouco de autocrítica não faria mal a esta gente, para perceber que um problema com a magnitude que o caso TAP envolve, não pode ser resolvido por princípios ideológicos. Eu, como muitos portugueses podem não querer uma companhia de bandeira, se for para ser gerida desta forma. Se a intenção é privatizá-la, tudo o que tem sido feito, é no sentido de a vender barata. E se as coisas continuarem por este caminho, oferecê-la pode, eventualmente, ser a solução menos onerosa para todos nós. Porque recuperar os milhões lá investidos ninguém acredita que será possível concretizar.

Por tudo isto o comportamento destes simpatizantes, faz-me lembrar uma frase que se dizia na minha terra: “Faz o choro e a caramunha”, ou talvez aquela situação que envolve uma arenga de crianças, em que aquele que perdeu a querela: Oh! Mãe, aquele menino bateu-me!