Já uma vez aqui elogiei a acção
do Vice-almirante Gouveia e Melo. Link
Nesse escrito tive sempre o cuidado de referir aquilo que, do meu ponto de vista,
não representava nada de extraordinário, apenas aplicou no desenvolvimento da
sua acção aquilo que são as regras de uma boa gestão. Comunicou bem, com
assertividade e clareza. Não exigiu mais meios, para além do que estavam
alocados. Foi rigoroso e exigente. Pediu
responsabilidade, quando o momento assim o exigiu. Não arranjou desculpas
sempre que encontrou algum revés, e encontrou alguns. Partilhou sempre com quem
estava no terreno os elogios que recebia, E saiu, sem grandes alaridos. Ou
seja, cumpriu uma missão, sem reclamações nem autopromoção.
Vejo com alguma estranheza aquilo
que, no meu fraco entender, me parece esta indigitação para o cargo de Chefe de
Estado Maior da Armada. Esta estranheza assenta em dois factores essenciais:
por um lado, uma mudança de atitude do vice-almirante, quando aceitou com
aparente regozijo a indigitação (e a promoção); por outro lado, o seu silêncio
relativamente á sua ligação a este processo, e à exoneração “antecipada” do seu
camarada Mendes Calado no cargo, e muito em particular despois deste ter
afirmado que: “Não saio por vontade própria.” Também a Associação de
Oficiais das Forças Armadas e Associação de Praças, consideram que estes dois
oficiais não mereciam verem-se envolvidos nesta polémica.
É bom ainda recordar alguns
factos essenciais ligados neste processo:
Mendes Calado ter sido um crítico
da lei de programação militar; a tentativa de Mendes Godinho de substituir o
CEMA, no exacto dia em que Gouveia e Melo deixa a task force; e a
pronta desautorização desta decisão por Marcelo Rebelo de Sousa, que a classificou,
ironicamente, suponho eu, de “equívoco”.
Marcelo também disse nessa altura,
referindo-se ao envolvimento do nome de Gouveia e Melo neste processo: “O
seu mérito, a sua classe, a sua categoria, dispensam o ser envolvido numa
situação em que pudesse aparecer como um atropelamento de pessoas e de instituições.
Não é bom para as pessoas nem para as instituições.” Afinal parece não ter
sido bem assim. Nem o PR sentiu qualquer rebuço em aceitar o nome do vice-almirante
para o cargo, nem este se fez rogado em aceitá-lo. Não estiveram bem nem um nem
outro. Pelo menos Gouveia e Melo caiu muito na minha consideração. Mais ainda
quando parece revelar alguma aproximação a uma eventual carreira política, o
que no passado o havia rejeitado liminarmente. Faz-me lembrar o que dizia o meu
amigo sevilhano Abarca: “todos los hombres tienen su precio. Solo necesitas
saber cual!”. Também o PR não sai bem na fotografia. Exonera o CEMA, antes
do tempo previsto, dá-lhe uma comenda pelos bons serviços prestados, e promove o
vice-almirante para o substituir. Mas de Marcelo, espera-se tudo.
Gouveia e Melo em entrevista ao
Expresso, a certo passo, afirma encontrar-se ideologicamente num centro
pragmático, isto é, "uma coisas mais à esquerda, uma coisas mais à
direita". Vejo esta afirmação como a disponibilidade para assumir um
futuro na política, e com a conveniente equidistância das principais forças partidárias.
Provavelmente nada disto corresponde à realidade e sou eu a ver fantasmas nas
entrelinhas do pensamento do vice-almirante, perdão – Almirante. As actuais
funções são de índole militar, mas o endeusamento que lhe tem sido feito por diversas
forças políticas, pode despertar o desejo de abraçar outros voos. Vamos
aguardar para ver.

