segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

GOUVEIA E MELO DEIXOU-SE TENTAR?

 

Já uma vez aqui elogiei a acção do Vice-almirante Gouveia e Melo. Link Nesse escrito tive sempre o cuidado de referir aquilo que, do meu ponto de vista, não representava nada de extraordinário, apenas aplicou no desenvolvimento da sua acção aquilo que são as regras de uma boa gestão. Comunicou bem, com assertividade e clareza. Não exigiu mais meios, para além do que estavam alocados.  Foi rigoroso e exigente. Pediu responsabilidade, quando o momento assim o exigiu. Não arranjou desculpas sempre que encontrou algum revés, e encontrou alguns. Partilhou sempre com quem estava no terreno os elogios que recebia, E saiu, sem grandes alaridos. Ou seja, cumpriu uma missão, sem reclamações nem autopromoção.

Vejo com alguma estranheza aquilo que, no meu fraco entender, me parece esta indigitação para o cargo de Chefe de Estado Maior da Armada. Esta estranheza assenta em dois factores essenciais: por um lado, uma mudança de atitude do vice-almirante, quando aceitou com aparente regozijo a indigitação (e a promoção); por outro lado, o seu silêncio relativamente á sua ligação a este processo, e à exoneração “antecipada” do seu camarada Mendes Calado no cargo, e muito em particular despois deste ter afirmado que: “Não saio por vontade própria.” Também a Associação de Oficiais das Forças Armadas e Associação de Praças, consideram que estes dois oficiais não mereciam verem-se envolvidos nesta polémica.

É bom ainda recordar alguns factos essenciais ligados neste processo:

Mendes Calado ter sido um crítico da lei de programação militar; a tentativa de Mendes Godinho de substituir o CEMA, no exacto dia em que Gouveia e Melo deixa a task force; e a pronta desautorização desta decisão por Marcelo Rebelo de Sousa, que a classificou, ironicamente, suponho eu, de “equívoco”.

Marcelo também disse nessa altura, referindo-se ao envolvimento do nome de Gouveia e Melo neste processo: “O seu mérito, a sua classe, a sua categoria, dispensam o ser envolvido numa situação em que pudesse aparecer como um atropelamento de pessoas e de instituições. Não é bom para as pessoas nem para as instituições.” Afinal parece não ter sido bem assim. Nem o PR sentiu qualquer rebuço em aceitar o nome do vice-almirante para o cargo, nem este se fez rogado em aceitá-lo. Não estiveram bem nem um nem outro. Pelo menos Gouveia e Melo caiu muito na minha consideração. Mais ainda quando parece revelar alguma aproximação a uma eventual carreira política, o que no passado o havia rejeitado liminarmente. Faz-me lembrar o que dizia o meu amigo sevilhano Abarca: “todos los hombres tienen su precio. Solo necesitas saber cual!”. Também o PR não sai bem na fotografia. Exonera o CEMA, antes do tempo previsto, dá-lhe uma comenda pelos bons serviços prestados, e promove o vice-almirante para o substituir. Mas de Marcelo, espera-se tudo.

Gouveia e Melo em entrevista ao Expresso, a certo passo, afirma encontrar-se ideologicamente num centro pragmático, isto é, "uma coisas mais à esquerda, uma coisas mais à direita". Vejo esta afirmação como a disponibilidade para assumir um futuro na política, e com a conveniente equidistância das principais forças partidárias. Provavelmente nada disto corresponde à realidade e sou eu a ver fantasmas nas entrelinhas do pensamento do vice-almirante, perdão – Almirante. As actuais funções são de índole militar, mas o endeusamento que lhe tem sido feito por diversas forças políticas, pode despertar o desejo de abraçar outros voos. Vamos aguardar para ver.

sábado, 11 de dezembro de 2021

O QUE ESPERAR DAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES?

O previsível fim da Geringonça, por uma natural incompatibilidade genética, e as anunciadas eleições antecipadas, têm suscitado as maiores dúvidas na cabeça de políticos, analistas e, sobretudo, na dos eleitores. Desde a anunciada derrota (?!?) política de António Costa, ao inusitado ressurgimento político de Rui Rio, são inúmeros os cenários traçados. Na realidade parece-nos haver um evidente exagero em muitos destes cenários.

Provavelmente António Costa não vai capitalizar, como ele eventualmente previra o descontentamento pelo fim dos entendimentos feitos à esquerda, pelos descontentes desta faixa do eleitorado. Muito naturalmente, Rui Rio também não vai ser capaz de vencer a distância que o separa do PS nas intenções de votos. Como também não é certo que os novos pequenos partidos venham a ter a subida fulgurante que muitos vaticinam. No entanto, parece muito provável que PCP, BE e CDS, venham a sofrer consequências nefastas das suas recentes acções políticas, e por razões diferentes. Mesmo considerando a fidelidade do eleitorado comunista, parece que dificilmente o PCP irá escapar ao descontentamento da não viabilização de um orçamento muito favorável às pretensões comunistas. Por seu turno, o BE deve seguir uma trajectória semelhante, mesmo tratando-se de um eleitorado mais urbano e menos proletarizado. Já no caso do CDS, a mais do que provável perca de representatividade, ficará a dever-se a uma tentativa desesperada do seu líder de se agarrar a um poder que lhe fugia. Fez tudo para esse efeito, e acabou sozinho.

Apesar de uma mais do que previsível maioria das intenções de votos parecer recair sobre o PS, os sinais de nervosismo são mais do que evidentes. Multiplicam-se o ataque a tudo e a todos. As tentativas de branqueamento da acção de Eduardo Cabrita, pela sua desastrosa passagem pelo MAI, aparecem sem qualquer pudor. A dedução de acusação do Ministério Publico sobre dois ex-governantes socráticos, é vista como uma tentativa de influenciar o curso das próximas eleições.

Do lado do PSD vive-se um clima de euforia com a vitória do resistente Rui Rio, sobre Paulo Rangel. E mesmo a redução da monumental diferença nas intenções de voto para o PS, são encaradas como uma probabilidade mais do evidente. Terá sido por isto que foi negada a possibilidade de uma coligação com o CDS? O benefício que tal solução podia garantir, tendo em conta o método de Hondt, um benefício evidente. Mas tal não foi suficiente para convencer os sociais-democratas.

Os eleitores portugueses estão confrontados com muitas as dúvidas e muito poucas certezas. A probabilidade de uma reedição da Geringonça, está completamente posta de parte, penso eu. Mesmo que qualquer um dos parceiros desse um golpe de rins (e já vimos de tudo), o que é que o país ganharia com esta solução?

As declarações de António Costa quanto a uma necessidade de entendimento com o PSD, não deixam margem para dúvidas, nem uma solução de Bloco Central seria desejável, por razões óbvias. No meio de toda esta confusão, restam os dois partidos novos, IL e CHEGA, que, muito provavelmente, irão ter uma mais do que provável subida. Isto levanta outro problema, quem irá contar com a sua participação? Se no caso da IL, isto poderá ser natural, ou pelo menos pacífico, no caso do CHEGA, as coisas vão ser bem mais complicadas. Estará Rui Rio disponível para uma solução, como a encontrada nos Açores? Embora ainda não tenham ainda saído as listas, alguns nomes ventilados cheiram a requentado.

Será uma utopia aspirar ter governos estáveis, competentes e duradouros? Governos minoritários, suportados por acordos de incidência parlamentar são a norma por essa Europa a que queremos pertencer. Na verdade, o problema não está na solução. O problema parece estar nos protagonistas. Não somos pequenos apenas em termos territoriais. A nossa pequenez estende-se à forma como fazemos política. Organizamos a nossa estrutura governativa com base nas amizades e nas fidelidades. Temos um Estado grande e pesado, para dar guarida a uma infindável teia de boys. Raramente se favorecemos a competência e a experiência, e assistimos impavidamente a sermos ultrapassados por parceiros europeus, como se de uma fatalidade se tratasse.

Podíamos aproveitar as próximas eleições para dar um abanão na árvore. Há lá muita fruta podre. Se outras razões não houvesse, este poderia ser o mote para evitar o sempre crescente desinteresse das populações pêlos actos eleitorais e o consequente aumento da abstenção. Nem a bazuca nos vai salvar, se aqueles que a vão surgir vão ser os mesmos.  Estas eleições deveriam servir para emendarmos, o estado de paz podre que vivemos neste momento . Pode  não haver mais nenhuma outra oportunidade.

sábado, 4 de dezembro de 2021

CERTAMENTE UM APROVEITAMENTO POLÍTICO



Finalmente, passados seis meses, o Ministério Público, vem por fim a um lamentável processo que envolveu um ministro do actual governo. Eduardo Cabrita, no seu estilo habitual, vem comunicar ao país, numa conferência de imprensa (sem direito a perguntas), o seu pedido de exoneração do cargo de titular do MAI.

Na base do seu discurso, começa por afirmar que era um mero passageiro daquela viatura. Será? Cabrita não teria autoridade e ascendente hierárquico sobre um seu subordinado? Relativamente ao acidentado, nem uma única vez refere o seu nome, designando-o como vítima. Também relativamente ao seu motorista, nem uma palavra de solidariedade e/ou compreensão. Todo o seu discurso é um despudorado auto-elogio dos bons resultados alcançados, e nenhuma referência quando aos inúmeros “casos” do seu ministério:  SIRESP, golas inflamáveis, imigrante assassinado pelo SEF, festejos do Sporting e transferência de imigrantes para Odemira. Sobre todos estes casos, nem uma palavra     !

Por tudo isto, Eduardo Cabrita foi igual a si próprio! Revelou insensibilidade, cobardia, desresponsabilização, indecência política, falta de ética e de moral. Se apesar de tudo isto, nunca foi demitido, e sempre respaldado pelo primeiro-ministro, o seu pedido de exoneração também não causou qualquer surpresa. Isto porque, a continuidade de um ministro incómodo num governo que está a dois meses de eleições, seria um esqueleto no armário pronto a saltar fora, em tudo o que fosse debate político. Claro que António Costa, apesar de toda a fidelidade demonstrada, não iria aceitar em caso algum, essa possibilidade. E isto sim, é um caso de puro aproveitamento político.

Perante o silêncio e irritações de Eduardo Cabrita, e face à gravidade do acidente da A6, todas as perguntas eram legítimas, sejam elas de políticos ou de jornalistas. Não são um aproveitamento político, são uma obrigação dos mesmos. Mesmo a justificação de que não queria interferir nas eleições que se avizinham, é também um aproveitamento político, porque a sua continuidade iria revelar-se como um elemento tóxico para o PS. António Costa nunca negou a sua amizade com Cabrita. Só em nome dessa amizade, que o poderia considerar um excelente ministro. O problema é que agora, mantê-lo em funções até às legislativas seria uma monumental inconveniência. Não foi por um procedimento jurídico que a exoneração foi pedida, mas sim, por uma vantagem política.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA DE MOTORISTAS

 

Olhando e reflectindo sobre esta classe profissional, não posso pensar de forma diferente do que os considerar um bando de malfeitores, organizados para prejudicar pessoas de bem! De facto, se analisarmos a vida, e a praxis destes profissionais, só podemos concluir que se trata de gente de maus princípios, organizados por um propósito maléfico de prejudicar quem, imbuídos dos mais nobres valores de vivência comunitária, lhes proporcionam as melhores condições de trabalho, sem nada pedir em troca.

Foi o assim no caso do João Perna motorista de José Sócrates, que durante três anos andou a entregar “fotocópias” (adoro este eufemismo) a José Sócrates, com o intuito de o incriminar num processo de branqueamento de capitais. Estas fotocópias passavam pela sua conta bancária, não para pagar as despesas do patrão, mas tão somente para incriminar um cidadão exemplar, que desempenhou elevados cargos na administração do país, e que sempre viveu a custa do seu trabalho, para o incriminar de actos tenebrosos, num esquema que só uma mente criminosa poderia engendrar. E até o Juiz Ivo Rosa, parece estar ligado a este grupo de malfeitores, ao não levar a julgamento o dito João Perna.

Foi também o caso do motorista de José Rendeiro. Este criminoso, que se fazia passar por taxista, para dar peso ao protagonismo do seu progenitor como presidente da ANTRAL. Mesmo o seu benemérito acto de comprar um apartamento de luxo, na Quinta Patino, o qual cedeu à esposa do patrão por 210 mil euros, tinha apenas o obscuro intuito de fazer recair sobre o patrão, o propósito de o incriminar em negócios ilícitos.

Até o inocente cândido, e excelente ministro Eduardo Cabrita, se viu traído pelo seu motorista. Apesar dos insistentes e fervorosos pedidos para reduzir a velocidade de circulação na auto-estrada, este pérfido facínora manteve o modesto BMW nos 160 Kms/hora, com o propósito único de prejudicar o seu superior hierárquico, por qualquer ocorrência que pudesse vir a acontecer. Eis senão quando, um suspeito trabalhador, de colecto amarelo reflector vestido, atravessou, propositadamente a auto-estrada, para dar sustentação ao perverso esquema de incriminar o ministro esquema. Muito provavelmente concertado com o motorista, com o único propósito de envolver ministro num provável acidente. A este, o dia não lhe correu bem. Foi atingido pelo BMW, dando corpo ao desleal plano do motorista contra o seu superior.

Entretanto acordo estremunhado deste pesadelo e dou comigo a retornar à realidade. Afinal os motoristas são pessoas de bem, e estão sempre dispostos a assumir as suas fraquezas. O ministro fez tudo o que lhe competia. Fez recair as culpas, sobre o incauto trabalhador que atravessou a auto-estrada de colete reflector vestido, e um mero carro que na berma assinalava trabalhos na via, sem pensar no papel do ministro que se deslocava para um importantíssimo evento, e não tinha nada que atravessar a via exactamente naquele momento. O que vale é que a justiça é cega, já constitui o motorista como arguido, libertando o ministro das soezes insinuações de responsabilidade neste acidente. O senhor ministro era um simples passageiro, sem qualquer tipo de autoridade sobre o seu subordinado. Quem pensar de modo diferente não passa de um maldoso inconsequente. 

Tudo isto só podia ter acontecido em sonhos. A nossa imaginação, nem a dormir deixa de fazer as mais fantasiosas elucubrações. Os motoristas são gente, séria, respeitadora e competente e sempre disponíveis a assumir as suas responsabilidades(?). Tal como os ministros, e os banqueiros.

domingo, 28 de novembro de 2021

OS LARANJINHAS ESCOLHERAM

 

Rui Rio na sua passagem pela câmara municipal do Porto, granjeou fama de ser um político sério, rigoroso, de contas certas, mas sobretudo teve o desplante de enfrentar o mundo do futebol, e muito especialmente o poderoso Pinto da Costa, a quem todos prestam vassalagem e ninguém ousa enfrentar. Para além disso, não é um político de “futebóis”! Foram estas características, em nossa modesta opinião, os trunfos que o levaram à liderança do PSD.

Muito se esperava que ele trouxesse para o debate político, as qualidades que lhe foram reconhecidas na sua passagem pela edilidade portuense. Tal não aconteceu. Rui Rio adoptou sempre uma postura mais institucional, quer no discurso quer na acção, e muitos não lhe perdoaram a aproximação a António Costa, sobretudo depois de António Costa ter afirmado, na sua habitual arrogância: "No dia em que a sua subsistência depender do PSD, este governo acabou." Mesmo nas suas intervenções parlamentares, ninguém percebeu as muitas cedências que concedeu ao governo, mas sobretudo, a António Costa, e mais ainda quando as sondagens não lhe eram favoráveis. A suspensão dos debates quinzenais, é disso um exemplo incontornável. Não aproveitou este mecanismo regimental para confrontar o seu opositor, com as inúmeras trapalhadas de uma geringonça, que à partida, tinha tudo para não dar certo. Mesmo nos debates em que estiveram em causa, as incongruências e contradições, por exemplo do ministério da saúde, das muitas trapalhadas de Eduardo Cabrita, apenas para citar dois exemplos, Rio teve sempre uma actuação incompreensivelmente frouxa.

Este comportamento fez despoletar um processo de disputa pelo poder interno, liderado por Paulo Rangel. Este processo foi muito semelhante ao que ocorreu no PS, quando António Costa, tentou, e conseguiu, derrubar António José Seguro.

Este fenómeno ocorre numa situação muito especial. O PS tem uma derrota importante nas últimas autárquicas, mais em termos qualitativos, do que quantitativos. Por outro lado, a PSD obtém um resultado autárquico, que ninguém acreditava fosse possível, sobretudo, em municípios emblemáticos. Pouco depois aconteceu o desmoronar da Geringonça, o que abre uma janela de oportunidade para Paulo Rangel tentar a sua sorte. A crise política vem baralhar ainda mais esta confusão, com a exiguidade de tempo disponível para o processo das directas no PSD.

Rui Rangel aparece escudado por muitos passistas, dá corpo a um discurso mais agressivo contra António Costa, e tem o apoio da maioria das direcções partidárias. Por seu lado, Rui Rio tem muitas hesitações e algumas contradições, sem nunca perder o seu comportamento austero e institucional. As inúmeras opiniões que fazem ouvir não reflectem, de forma conclusiva, qual a escolha dos laranjinhas. Pelos comentários que se ouviam por parte de simpatizantes do PS, Rui Rio era o mais desejado, e Rangel era mimoseado com epítetos muito pouco dignos. Vá-se lá saber porquê?

As eleições internas no PSD decorreram de forma pouco comum, sem debates e, deram a vitória ao candidato que a generalidade dos comentadores achava que não teria possibilidades. A vitória de Rio, parece ter sido uma escolha das bases do partido que reflectem mais a opinião do cidadão comum que vota ao centro, do que a das cúpulas dirigentes, muito instalados nas suas capelinhas do poder. Provavelmente, a partir de agora, muitos irão olhar para Rui Rio de uma forma diferente, perdoando-lhe as muitas cedências e aproximações ao PS.

Mas uma questão se pode colocar: será que Rio terá alguma hipótese de ter um bom resultado eleitoral, se não mudar o seu discurso e a sua prática política? Temos que admitir que a diferença nas intenções de votos é enormíssima para, num curto espaço de tempo, tentar inverter o sentido destas intenções. Outra coisa que ainda não se percebeu é que políticas de alianças estará Rio disposto a aceitar. Como irá negociar a inusitada aproximação de António Costa ao centro, no caso de perder as eleições? No caso de vitória, e num caso de necessidade, manterá o que recentemente afirmou, relativamente ao CHEGA?

Qual o papel que estará reservado a Paulo Rangel? Depois de uma “entrada de leão e uma saída de sendeiro”, foi objectivamente prejudicado por um discurso agressivo, e de ter um apoio maciço de muita gente ligado ao tempo da Troika. Isso não invalida que este discurso não tenha agradado a muita gente. O seu futuro imediato, penso que irá voltar a Bruxelas e cumprir o mandato até ao fim, sem fazer muitas ondas.

Este resultado, em vésperas do congresso social-democrata, vai fortalecer Rui Rio e a possibilidade da conquista do poder, vai fazer aparecer muita gente que até agora o criticava. De que forma é que este capital de vitória poderá provocar uma mudança nas próximas legislativas, ninguém sabe, ou pode garantir. Mesmo para aqueles que não querem ver uma mudança de ciclo na política portuguesa, este resultado algo inusitado pode baralhar o pensamento de quem vota ao centro. António Costa já percebeu isso, e já mudou o discurso. Vamos aguardar para ver.

sábado, 20 de novembro de 2021

EDUARDO CABRITA – UM “ABSURDO PROPALADO”

 

Eduardo Cabrita, amigo pessoal de António Costa desde os bancos da faculdade, é um daqueles indivíduos que, por mais bem-intencionados que sejamos, temos de admitir que nada lhe corre bem. É assim uma espécie de Mr. Bean, mas numa versão hard core. São muitos os acontecimentos com que é confrontado, cujas decisões dão, invariavelmente, para o torto. O português comum fica incrédulo com a fidelidade recíproca, entre Cabrita e Costa. Mais ainda, quando Costa considera o seu amigo Cabrita é um ministro excelente! Esta fidelidade não dá para entender, se é um excelente ministro, porque comete tanta asneira? Não será certamente por um karma esquisito que o persegue, só pode ser mesmo por pura incompetência. Esta relação de amizade e a inquebrantável lealdade, ou subserviência que os une, reporta-me para o logotipo da Vitor Records – His Master’s Voice.

Cinco meses depois do acidente que envolveu o ministro, e do silêncio ensurdecedor que paira sobre a investigação, Eduardo Cabrita finalmente decidiu falar. É bom não esquecer que este acidente provocou um morto, e que a primeira reacção após a ocorrência foi um comunicado que afirmava: “Não havia qualquer sinalização que alertasse os condutores para a existência de trabalhos de limpeza em curso”, o que foi prontamente desmentido pela BRISA. Este comportamento, indica o que vulgarmente significa: sacudir a água do capote. Mas o que os jornalistas perguntaram foi: a que velocidade seguia a viatura que transportava do ministro no momento do acidente.

Por mera curiosidade consultei um engenheiro mecânico que já trabalhou na marca, sobre a dificuldade de obtenção daquele valor. A sua resposta foi simples: basta ligar um computador à centralina e dar um comando! Mas o ministro escuda-se no segredo de justiça e afirma que tudo não passam de absurdos propalados! É bom que nos lembremos que o ministro Cabrita, neste caso mentiu, desresponsabilizou-se, e parece nada ter feito para agilizar o processo de averiguações que corre no seu ministério (Núcleo de Investigação Criminal de Acidentes de Viação (NICAV) de Évora da GNR)! Ninguém pode afirmar neste caso, que o ministro tem as mãos sujas de sangue, mas certamente a sua consciência não terá muito sossego, pela responsabilidade que nunca assumiu como responsável máximo entre os passageiros daquele automóvel. Também não sabemos a que velocidade seguia, mas também isso pouco importa para o trabalhador, Nuno Santos tinha pouco mais de 40 anos, era casado e deixava duas filhas sem o principal sustento da família, nem para a família que só ao fim de 6 meses, viu atribuído 246 euros que é o valor que a Segurança Social está a pagar à mulher e às duas filhas do homem atropelado pelo BMW em que seguia Eduardo Cabrita.

Já todos sabíamos da inabilidade de Eduardo Cabrita para lidar com situações de crise. Todos nos lembramos das imensas trapalhadas por ele protagonizadas: a cena dos microfones na Assembleia da República, o caso das golas inflamáveis, do assassinato do cidadão ucraniano por elementos do SEF, das inúmeras broncas do SIRESP, dos festejos do Sporting, dos atrasos nos meios de combate aos fogos, da detenção dos imigrantes em Almoçageme, etc. Ao contrário do rei Midas, Eduardo Cabrita, em tudo o que toca, vira berbicacho. É caso para dizer: o “absurdo propalado” é a continuidade de Cabrita no seu posto, perante a passividade de quem tem responsabilidades de por fim a tanta irresponsabilidade. 


sexta-feira, 19 de novembro de 2021

A GERINGONÇA AÇORIANA

Sempre fui muito crítico da Geringonça do António Costa. Também achei que a solução que José Manuel Bolieiro, enfermava do mesmo erro cometido pelo 1º ministro – salvar o seu futuro político de um resultado eleitoral menos favorável. Mais ainda quando se viram obrigados a negocial com partidos extremistas e com poucas afinidades ideológicas, e que aproveitariam qualquer oportunidade para fazer valer a sua importância relativa.

Os açorianos manifestaram inequivocamente que pretendiam uma mudança. Bolieiro interpretou demasiado à risca os resultados eleitorais, ou a sede pelo poder, toldou-lhe a objectividade. Como o resultado foi “poucochinho”, não lhe restava outra alternativa do que fazer um pacto com o diabo da extrema-direita, tal como António Costa se entregou nas mãos de PCP e BE. Aqui apenas houve uma mudança de sinal. Os dias estavam contados, e na primeira oportunidade, Nos Açores não passou muito tempo e aí estão os resultados, (orçamento insular), o único deputado do CHEGA falou grosso, e de forma magnânima afirmou: “que dará uma última oportunidade ao Governo regional”. Nesta fase do processo, a Bolieiro só lhe resta duas alternativas: ou cede ás exigências de um único deputado, ou assume as consequências do chumbo do orçamento, e a inevitabilidade de eleições antecipadas. Bolieiro escolheu a pior, a cedência.

Muito se fala na crise, e no acrescentar crise à crise já existente. Claro que todos gostariam que os governos cumprissem os seus mandatos até ao fim. Que no parlamento fosse possível encontrar consensos estáveis e duradouros, com vista ao bem-estar de todos nós. Há quem não se canse de apregoar que eleições antecipadas, e com base nas sondagens, que muito pouco se alteraria no equilíbrio de forças. Ninguém é favorável a uma situação de termos de eleições de 6 em 6 meses, como é óbvio. Mas vivermos com ameaças constantes de rupturas nos entendimentos alcançados para a viabilização de minorias e de cedências inaceitáveis, traduz a incapacidade da classe política em exercer o seu trabalho com ética e seriedade, e uma tremenda falta de respeito para com o eleitorado, ou pior ainda, a pura sobrevivência política.

Por essa Europa fora, na generalidade dos países, os eleitores repartem os seus votos de tal forma, que se torna quase impossível governar em maiorias absolutas, como se pretende cá por casa. Os partidos assumem esta condição com naturalidade e procuram arranjos que permitam a governação sem sobressaltos, apesar das muitas diferenças ideológicas. Os políticos assumem a sua responsabilidade e as crises são a excepção. Para além do mais, uma eleição configura a mais digna forma de honrar a democracia, e transfere para o povo a responsabilidade de corrigir as fragilidades das soluções sem sustentabilidade. Qualquer que seja o resultado, é sempre melhor do que o banho-maria que a continuidade da actual situação parece pressagiar.

Exactamente por se empenhar pouca seriedade neste tipo de arranjos, desprestigia os seus subscritores. E é esta realidade de uma abstenção sempre crescente, que pode justificar os argumentos dos abstencionistas.

A ideia peregrina da formação de geringonças, provou ser uma solução pífia e pouco credível. Repetir esta opção num futuro próximo, é teimosia ou masoquismo. Faço votos que esta solução esteja morta e enterrada, para bem de todos nós. Eu prefiro sempre a solução de um sufrágio. Ao menos assim, só nos podemos queixar de nós próprios. Tal não foi o entendimento.

terça-feira, 9 de novembro de 2021

GASTRONOMIA - O FESTIVAL DO NOSSO DESCONTENTAMENTO

O Festival Nacional de Gastronomia de Santarém, é por direito próprio, o mais antigo e o mais famoso dos eventos gastronómicos que se realizam de norte a sul do país. Nasceu há já umas dezenas de anos, assente numa ideia simples, e por isso mesmo condenado ao sucesso. Pretendeu desde o início, promover a riqueza e variedade das tradições gastronómicas do país, disponibilizando a quem o visita, disfrutar num único espaço, desta diversificada oferta. A centralidade de Santarém pela sua posição estratégica, e a excelente acessibilidade, facilitaram todo o resto. Para além disso, assume-se como o principal evento da cidade. Por isso não se estranha a veemência que os escalabitanos põem na sua defesa.

Um evento desta dimensão, e com a projecção que lhe é reconhecida, terá que ter um impacto considerável na cidade, quer na sua componente cultural, no plano turístico, quer sobretudo, na sua vertente económica. Mas será isso que se verifica? Parece-me que não!

Sempre fui muito crítico do Festival de Gastronomia de Santarém, o que me valeu alguns desaguisados com muitos amigos escalabitanos, para além da sua incompreensão com tal sacrilégio.  Uma vez mais reafirmo a minha concordância com ideia que acima referenciei, mas não posso estar de acordo com a estrutura do festival, sobretudo por pensar que a cidade ganha muito pouco com a sua realização.

O festival realiza-se num único espaço, adaptado para uma finalidade, que nada tem a ver com a sua concepção original. Espaço este que tem fragilidades objectivas no plano da circulação das pessoas e nas escapatórias, numa eventualidade de emergência. Também não é difícil imaginar que no plano da segurança alimentar, sobretudo no que diz respeito aos postos de trabalho, não estão garantidas as condições higio-sanitárias exigidas para situações semelhantes. Claro que também se pode dizer, que em Santarém não existe mais nenhuma outra estrutura que pudesse garantir uma alternativa viável. Mas a utilização de tendas desmontáveis e deslocalizadas, não poderia ser uma solução? Esta sugestão permitiria (obrigaria) a deslocação dos visitantes por toda a cidade.

A grande maioria dos que visitam o Festival, são pessoas que vêm de fora. A pergunta que se impõe é: o que é que a cidade oferece aos visitantes durante o período de realização deste evento, fora das paredes do Campo Emílio Infante da Câmara e da Casa do Campino? Eu resido num local que me permite ver as pessoas chegar pela rua O, estacionarem no antigo Campo da Feira, dirigem-se ao recinto do festival, provam as iguarias dos diversos participantes, e pagam a sua despesa (que não fica na cidade, mas vai para uma qualquer Região de Turismo). No final, fazem exactamente o inverso: dirigem-se ao automóvel, seguem em direcção à Rua O, e vão às suas vidinhas.  No dia seguinte vão dizer aos amigos que estiveram em Santarém (?!?!), que comeram uma feijoada à trasmontana, umas migas alentejanas, uma chanfana, umas lulas algarvias, umas lapas dos Açores, uns maranhos da Sertã, e talvez, uma massa à barrão. No final, a cidade pouco lucrou, o que é pena.

Naturalmente que os expositores fazem despesa: instalam-se nas nossas unidades hoteleiras, adquirem alguns produtos. Da restauração da cidade quantas unidades estão representadas no evento? Quantos dos que nos visitam, fazem uma visita aos nossos jardins e monumentos, apreciam a nossa oferta cultural, compram as nossas especialidades, contactam e conhecem os nossos usos e costumes, ou simplesmente, falam e conversam connosco?

Sem negar o sucesso do Festival Nacional de Gastronomia, a oportunidade da sua criação, a sagacidade de quem o concebeu e estruturou, não posso deixar de reflectir que a cidade muito pouco ganha, face ao reconhecimento e projecção que ele tem. Por exemplo, este festival, podia e devia funcionar como um elemento catalisador para o desenvolvimento e atracção do turismo gastronómico para a cidade. Não me parece que isto esteja a acontecer.

Lamento finalmente, uma tendência “gourmet” que parece estar a instalar-se, e a ganhar terreno no Festival, desvirtuando um pouco o espírito inicial. Há quem diga que é para atrair um público mais jovem! Não seria mais importante sensibilizá-los para as tradições gastronómicas, pelo seu valor intrínseco, pelas tradições, pela originalidade, pela qualidade genuina do seu valor cultural, e da sua importância gastronómica, e que estiveram na génese do Festival.

Lamento, gostava de um outro festival em que a cidade se sentisse representada e que beneficiasse muito mais com a sua realização. Tal não consigo vislumbrar, e é pena.

domingo, 31 de outubro de 2021

ANTÓNIO COSTA ESTÁ INOCENTE NESTA CRISE?

No meu último escrito apontava para Jerónimo de Sousa como o pai e o carrasco da Geringonça, e penso não estar muito enganado quanto ao comportamento do PCP, que sempre foi um partido de oposição e de rua. É à rua e ao mundo sindical que os comunista melhor funcionam. Talvez por isso mesmo, quer nos resultados eleitorais, quer no sector autárquico viu fugirem-lhe muitos eleitores fiéis, provavelmente optando pelo voto útil no PS. É isso que pode explicar a sua intransigência na aprovação deste OE, apesar das inúmeras cedências feitas por António Costa.

Já António Costa também não parece estar inocente em todo os desenvolvimentos recentes. Ou seja, será que a António Costa interessava governar com um executivo, cansado, com o país em ebulição por causa do preço dos combustíveis, com o SNS em derrocada, com a previsibilidade de vários conflitos laborais eminentes. Aproveitar a ruptura com os parceiros e forçar eleições antecipadas, poderia ser algo muito favorável nos resultados das próximas eleições. Senão vejamos:

O PSD está num processo de reformulação interna. Qualquer que seja o líder que venha a corporizar a nova direcção, não tem o partido preparado para o desafio, e os prazos são muito curtos para uma preparação adequada.

O CDS está em processo de autofagia, pela deserção dos seus melhores quadros, e qualquer que seja o desfecho das directas, o processo tem alguma similitude com o PSD.

Não será difícil prever que o PCP e o BE irão sofrer o desgaste pela posição que tomaram, junto do seu eleitorado, que dificilmente vão concordar com a não aceitação do OE mais à esquerda apresentado por este governo.

Restam os partidos mais pequenos. O PAN fez um repentino desvio à esquerda e esqueceu um pouco a sua matriz animal. Os resultados deste comportamento serão imprevisíveis. O LIVRE provavelmente desaparecerá pela falta de visibilidade, sobretudo depois do abandono da deputada eleita por este partido.

O IL e o CHEGA irão capitalizar o descontentamento dos eleitores da direita e, certamente, irão subir objectivamente.

Na actual conjuntura parece que apenas os pequenos partidos têm razões para acreditar que podem subir o número de deputados eleitos. Por muito grande que seja essa subida nunca irão fazer sombra às intenções de votos concentradas no PS. No PSD, pese embora algumas considerações optimistas, os resultados estarão muito longe de conferirem uma confortável posição negocial, até porque António Costa rejeitou liminarmente essa possibilidade. Mais ainda considerando que o método de Hondt, irá sempre beneficiar PS e PSD.

Já em tempos aqui afirmei que António Costa era um político intelectualmente desonesto. Não tenho razões para alterar o meu pensamento, muito antes pelo contrário. Por isso acredito, que este raciocínio tenha feito António Costa cavalgar esta onda, aproveitar para beneficiar com a posição extremada dos antigos parceiros, e ficar com a aura de tudo ter feito para evitar a crise. Esta atitude irá gerar uma onda de simpatia no eleitorado de esquerda, transferindo o ónus da rejeição para BE e PCP. Ou seja, vai beneficiar duplamente: por um lado fica com o benefício de ter feito tudo para que o orçamento passasse; por outro lado, vai beneficiar do voto útil dos descontentes daqueles dois partidos.

António Costa é um político experiente e matreiro. Acredito que não tenha factualmente provocado esta crise. Mas também é verdade que é ele e o PS que mais têm a ganhar com ela. Agora já não precisa de remodelar o actual executivo. Com as próximas eleições esse assunto fica arrumado.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

O PAI E O CARRASCO DA “GERINGONÇA”


Segundo o Dicionário Digital PRIBERAN, o termo geringonça é utilizado para significar: "coisa ou construção improvisada, ou com pouca solidez". Penso que não se encontrava outro termo que melhor tipificasse aquilo que piudemos observar ao longo dos 6 anos da sua vigência.

Para melhor se entender a origem e o fim da Geringonça, im porta contextualizar as circisntâncias que ditara o seu aparecimento:

António Costa "afastou o secretário-geral do PS (António José Seguro), invocando que no contexto político que então se vivia, as vitórias que o  PS tinha conseguidio, sabiam a "poucochinho". Nesta conjuntura, António Costa ganhass as directas e ascende ao cargo de secretário-geral. Disputa as legislativas de 2015 contra Passos Coelho e obtém um score de 32,50% (menos 6,15 relativamente às Legislativas de 2011. Para quem ironizava com o seu antecessor com o "poucochinho", é preciso ter um poder de encaixe monumental para corporizar tudo o que se passou de seguida. Em circunstâncias idêntiucas faria sentido que um líder responsável e integro, reunisse os órgãos do partido e pusesse o lugar à disposição.

Acontece que, na própria noite das eleições, Jerónimo de Sousa, declara aos órgãos de comunicação soccial: O que conta verdadeiramente e determina as soluções para a governação são as maiorias na Assembleia da República e dão suporte a um governo e não um partido político". Adiantiou ainda: "António Costa só não forma governo se não quiser."

É lógico concluir que Jerónimo de Sousa, aproveita a ocasiãio e oferece condições a António Costa salvar a face da derrota política sofrida, bem como o seu futuro partidário. Por outro lado, coloca o PCP, pela primeira vez, no conjunto de partidos do Arco da Governação. Apesar das insanáveis divergências objectivas entre os parceiros (UE, NATO, Euro, etc.). Arrana-se um entendimento, assinado isoladamente e à porta fechada, por imposição de Cavaco Silva. António Costa, pela mão de Jerónimo de Sousa, consegue assim as condições para formar governo, com legitimidade e suporte parlamentar.

Mas se a geringonça permitiu salvar a face e aumentar a sua credibilidade como primeiro-ministro: teve resultados desastrosos para os restantres parceiros, dados os resultados nos diversos escrutínio: europeias, presidenciais e autárquicas. Para fazer passar o OE para 2022, António Costa teve que ceder e muito às reeinvidicações dos parceiros. Durante o debare os parceiros elevaram a fasquia, esticaram acorda e recusaram o seu aval a mais um orçamento, forçando a queda do governo a novas eleições.

A conclusão que podem,os tirar é que António Costa lideropu esta solução durante 6 anos. Durante os primeiros 4 anos governou com alguma estabilidade, mas os últimos dois orçamentos foram negociados com alguma crispação e muitas exigências. Nunca como até agora se tinham radicalizado tanto as posições, mas quem realmente ditou o início e o fim da Geringonça, foi Gerónimo de Sousa, sempre visto como o parceiro preferencial. António Costa não se cansa de enumerar as inúmeras cedências e a bondade deste OE. Impossibilitando qualquer entendimento à dioreita, António Costa ficou refém de quem lhe deu a mão, para depouis lhe retirar o tapete. Por isso, só se pode queixar das suas escolhas.

Muitas são as vozes que se indignam contra tudo e contra todos. Tenho ouvido, sistematicamente afirmar que a culpa, continua a ser do Passos, tal é o desepero.

Vamos para um novo processo eleitoral, em que muito poucos têm a ganhar. O país está em convulsão e muitas são as razões de queixa dos portugueses: o caos no SNS, o conflito com , forças armadas, bombeiros, professores, médicos, e restantes profissionais de saúde, ordens profissionais e outras entidades reguladoras. Sºão os custros de diversos bens de consumo: electricidade, combustíveis, etc.

Apesar da bondade do actual OE, segundo António Costa, o pais está de rastos, os parceiros não se entendem, não agradou nem à esquerda, nem à direita. Os responsáveis por se ter chegado a esta situação limite parecem estar bem identificados. O país vai viver uma crise que não pediu e na pior altura que se podia esperar. As eleições antecipadas, que ninguém queria(?), vão ter um mérito determinante: clarificar a solidez do actual espectro político e permitir aos portuguese, apesar da crise, escolherem o que pretendem e recusar o que não querem. Todo o ruído sobre os culpados é precisamente por esta razão. "Quem semeia ventos, colhe tempestades"

 

terça-feira, 26 de outubro de 2021

AFINAL ESTAVA ERRADO

 

De facto, a farsa do Orçamento, ao contrário do que eu aqui afirmei, não irá ser aprovada. Estou convencido não ter sido o único a alinhar por esta lógica. A Geringonça que se arrastava penosamente há já algum tempo, caiu de podre. António Costa cedeu até onde foi possível ou a EU europeia permitia, mas o parceiro privilegiado do primeiro-ministro deu por findo o seu aval. O nosso presidente da República, que durante toda a vigência da geringonça esteve mudo e quedo, vem agora radicalizar a sua posição e ameaçar com eleições antecipadas. Este desfecho, certamente não é bom para a generalidade dos portugueses, e vamos juntar mais uma crise às muitas já existentes. Vamos viver durante alguns meses com duodécimos, e vamos comprometer a entrada em vigor e distribuição dos dinheiros da bazuca. Também, estou convencido que os partidos políticos, à excepção do CHEGA e da IL, só têm a perder com esta solução.

Portanto o cenário mais que provável é o de eleições antecipadas, e vai ter como vantagem, o clarificar do xadrez político e perceber se no futuro que arranjos políticos serão possíveis de implementar. Tudo parece apontar para que o panorama actual (maioria de esquerda), pouco se vá modificar. Estaremos então numa situação em que a formação de um governo estável, poderá só ser possível com uma nova geringonça, em tudo semelhante `à actual. Estariam esses mesmos parceiros disponíveis para entendimentos, que no presente se revelaram inconsequentes? Neste cenário, que evolução iriam ter os representantes do PEV, PAN, Joacine Katar Moreira, deputadas não inscritas? Que futuro para o PSD e CDS, com lideranças contestadas? Em boa verdade, estou seguro de que ninguém sabe o que nos vai trazer este novo escrutínio. Vai ter certamente uma vantagem, abanar a árvore e fazer cair muita fruta podre. E o mais certo é pensarmos que nunca mais iremos ter maiorias absolutas, e ainda bem. Mas será que os nossos partidos políticos estão preparados para viver esta nova realidade?

Uma reflexão final, a probabilidade do PS ganhar as eventuais eleições antecipadas, é mais do que evidente. Que futuro nos reserva António Costa? Estará disponível para governar em minoria, com os mesmos parceiros? Irá retirar-se da vida partidária e abraçar um cargo internacional como seria seu desejo, embora este cenário seja, neste momento mais difícil? Irá ter a dignidade de António José Seguro e abandonar a vida pública? Se optar pelo seu afastamento, que figura socialista irá emergir, e que aceitação irá ter junto do eleitorado? De que forma o desgaste de muitos ministros do actual executivo, vai condicionar o voto socialista?

Muitas são as dúvidas, e quase nenhumas certezas. Esta experiência da geringonça, pese embora a sua legitimidade, que sentimento despertou no cidadão eleitor não alinhado? Vamos aguardar serenamente que este cenário que paira no horizonte, não pode ser uma desgraça, mas antes um elemento clarificador.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

AS IRRITAÇÕES DE ANTÓNIO COSTA

 

António Costa com a sua habitual arrogância, pensou que toda a sua governação era de uma aceitação incontestável, e quem dissesse o contrário seria antipatriótico. As autárquicas eram favas contadas, que apesar da vitória pífia, saiu-lhe na verdade a fava n este bolo-rei., pela perda de alguns municípios emblemáticos.

No Orçamento de Estado também se convenceu que tinha tudo sob controle, mas os parceiros ga geringonça, escaldados pêlos desastrosos resultados eleitorais, reconhecem que têm muito mais a perder na continuidade deste “namoro”. A primazia dada ao PCP revelou-se “poucochinho”, e agora tem de negociar em situação de inferioridade com o BE.

Apesar da discussão do Orçamento ser o cerne da actual conjuntura, os sinais de nervosismo acentuam-se, e os apaniguados desta solução política, disparam em todas as direcções defendendo a bondade das soluções propostas. Qualquer opinião contrária, por mais legítima que seja, venha ela da esquerda ou da direita, é mimoseada com os habituais impropérios de quem se sente acossado e reage por instinto, e com muito pouca serenidade.

Ficaram muito nervosos com a inusitada vitória de Carlos Moedas em Lisboa. Goste-se ou não de Carlos Moedas, há que reconhecer que é um homem sério e tem curriculum.

Ficaram em pânico com um artigo de Cavaco Silva no jornal Expresso. Mesmo tratando-se de uma múmia, pelos vistos, continua a assustar muita gente.

Até a intenção de Paulo Rangel se candidatar á liderança do PSD, causou muita urticária em pessoas de outros partidos.

Irritam-se com os OCS e a opinião dos seus comentadores.

Ficam muito irritados quando alguém se queixa do preço dos combustíveis, argumentando que é um problema conjuntural, apesar da fiscalidade sobre os combustíveis ser um problema muito nosso, e aparentemente, a insensibilidade gritante da parte de quem pode fazer alguma coisa (2 cts/lt é muito pouco).

Há quem aponte estes sinais como uma mudança de ciclo político. Estou convencido que ainda não, pelo menos em termos definitivos. Mas que os tempos que se aproximam vão, certamente, exigir de António Costa uma atitude de muito mais humildade. Pese embora o facto de António Costa ter governado com oposição quase inexistente, numa conjuntura internacional muito favorável e com um Presidente da República muito colaborante. Há, no entanto, alguns sinais de que as coisas estão a mudar, e tenho dúvidas de que António Costa, tenha estofo e disponibilidade para governar em minoria real. Até agora contou com o apoio do PC e do BE, porque isso lhes convinha. As coisas mudaram. E como estes parceiros já não têm nada a perder, extremaram as suas posições. Quem semeia ventos, colhe tempestades.

Há vários sinais de muita insatisfação em vários sectores da sociedade: são os profissionais de saúde, que passaram por um período muito difícil e que a administração não foi capaz de reconhecer o seu esforço abnegado. É a eterna insatisfação das forças de segurança. Os professores estão insatisfeitos e prometem luta. Os tempos que se avizinham não são muito favoráveis à vida deste governo. Vamos assistir a um agudizar das irritações. Por outro lado, ninguém sabe, durante quanto tempo o pagode está disposto a aturar este comportamento.

Ernest Hemingway disse: “O segredo da sabedoria, do poder e do conhecimento é a humildade”. E como ele tem razão! Penso que o futuro próximo nos vais brindar com muitas irritações, por parte dos irritados habituais.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

O BLUFF DO ORÇAMENTO DO ESTADO

No rescaldo dos resultados das últimas eleições autárquicas, ouvimos as interpretações habituais. Ou seja, de um modo geral todos saíram vitoriosos, apesar dos habituais exageros. Mas quer PSD, quer PS podem reclamar algumas vitórias baseadas fundamentalmente em questões de quantidade (PS), e em questões de qualidade (PSD). Por outro lado, estes mesmos resultados condicionaram de forma indelével as reacções de todos os partidos. Para o que se ia seguir – a aprovação do Orçamento de Estado (OE). Dito de outra forma, PCP e BE viram o seu score autárquico arrasado por resultados eleitorais desastrosos, mas apesar disso, têm na mão a capacidade de, como partidos charneira da geringonça, influenciar de forma determinante a aprovação do orçamento.

O momento da discussão do Orçamento de Estado, revela-se determinante, para a afirmação daqueles dois partidos, como prova de vida no espectro partidário português. Como seria de esperar, a solução para esta prova de vida era esticar a corda do OE, aumentando a exigências da negociação com o PS e inviabilizando o seu contributo, caso não fossem cumpridas as suas exigências. Na sequência disto, Marcelo Rebelo de Sousa veio afirmar que sem OE, haveria eleições antecipadas e uma crise que ninguém quer assumir.

Mas será que alguém quer eleições antecipadas? Naturalmente que os partidos da geringonça, a nenhum deles interessa submeter-se a um escrutínio, que tudo indica traria resultados piores do que os obtidos nas últimas autárquicas. PSD e CDS também não sentem o terreno muito favorável, para embarcarem nesta aventura de resultados imprevisíveis e, naturalmente, pouco consistentes como alternativa de poder.

Restam a Iniciativa Liberal e o Chega, esses sim, animados pêlos resultados autárquicos, tudo teriam a ganhar com um novo plebiscito. Mas dada a sua expressão ultraminoritária, nem contam nesta contabilidade.

O folhetim dos OE na vigência da geringonça, continua a cumprir o guião habitual: começa com a dramatização da prova de vida, e termina em comédia quando todos se sentam à mesa e decidem aprovar o maldito Orçamento. Tudo parece indicar que estes entendimentos são mais por razões de sobrevivência política, do que por razões de interesse nacional. Tudo indica que, apesar do evidente estremar de posições registado neste momento, tudo vai acabar como habitualmente – a geringonça a falhar por todo o lado, mas com o Orçamento aprovado, por mais um ano de vida.

Admito que esta minha análise possa estra errada e o OE não ser aprovado. A Bélgica sobreviveu durante um ano sem governo, e nem por isso desapareceu como nação. Também é certo que estamos a sair de uma terrível crise pós pandémica, e com a gestão do dinheiro da bazuca que exige um rigoroso controle da sua aplicação. Esta é mais uma razão para que este OE não caia, embora me pareça, não ser a mais importante para que o irá aprovar.



segunda-feira, 27 de setembro de 2021

NO RESCALDO DESTAS ELEIÇÕES

Joaquim Aguiar disse, “o povo tem sempre razão, mesmo quando não sabe a razão que tem.” Nada mais certo depois destas eleições, que davam o favoritismo a um certo establishment, cheio de virtudes e de obra feita. Como se isto não bastasse o primeiro-ministro envolveu-se na campanha, prometendo os milhões da bazuca de uma forma despudorada. A generalidade da população não deve saber muito bem como e onde irão ser aplicados tantos milhões. Mas sabe exactamente o que foi, ou não feito na sua cidade. Sente na pele as fragilidades das promessas que não foram realizadas. Vê com muito clareza que o seu município não progride como os seus vizinhos. Sente que a sua cidade não está dotada das infra-estruturas exigidas por uma sociedade moderna. Vê que para satisfazer algumas necessidades elementares, as tem que procurar noutro local. Sente que algumas potencialidades não são efectivamente aproveitadas.

Os resultados finais constituíram uma surpresa para toda a gente. Havia vitórias antecipadas, garantidas pelas sondagens, pelos média, e pela generalidade dos especialistas. Desvalorizaram-se os pequenos partidos, invocou-se a falta de experiência de alguns candidatos e até os apelidaram de “fofinhos”. Como sempre arranjaram-se justificações para garantir que, apesar de tudo, se tratou de uma vitória, e os que perderam, garantiam sempre que, apesar de tudo, as coisas não foram assim tão más.

O poder autárquico, pela sua proximidade com o cidadão, permite o conhecimento de uma realidade vivida diariamente, e pela memória de promessas não cumpridas. Se nos distanciarmos das questões político-partidárias, podemos pensar que o povo saiu à rua, abanou a árvore e caiu muita fruta podre. Ou seja, o eleitor pode não saber exactamente o que quer, mas sabe convictamente aquilo que não está disposto a sancionar. E esta foi a realidade, um pouco por toda a parte.

Uma vez mais a questão da abstenção, que praticamente ninguém referiu, cai como uma nódoa de que todos podemos lastimar. A proximidade do político com os eleitores não pode estar restringida apenas ao tempo da campanha eleitoral e, passado este período, cair tudo em saco roto. As razões invocadas para não ir votar são muitas e variadas. Mas também é verdade que o poder instituído nada faz para alterar este estado de coisas (voto electrónico, voto em dia de semana, voto em vários dias, redução da idade de voto, voto antecipado por correspondência, voto obrigatório, etc.).

Seria bom que todos os candidatos, vencedores ou vencidos tomasse consciência desta realidade e que no futuro levasse em consideração que o suporte de um partido, as promessas inviáveis, os milhões prometidos, nem sempre são suficientes para convencerem o eleitor das suas “bondades”.

 


sexta-feira, 17 de setembro de 2021

GOUVEIA E MELO – A MINHA HOMENAGEM


Recordo-me de na altura que foi nomeado Francisco Ramos, como responsável pela Task Force do Plano de Vacinação Covid 19, ter escrito um post em que afirmava, enquanto nos USA elegeram um general para dirigir o seu plano de vacinação, nós em Portugal optamos por um tarefeiro. Isto originou alguns comentários desagradáveis na defesa do dito nomeado. Não que a minha intenção fosse menorizar a capacidade e/ou competência deste responsável, mas porque os acontecimentos indiciavam um processo com muitas irregularidades, numa tarefa monumental que exigia uma logística operacional, que só um homem de acção poderia garantir.
Passado pouco tempo, sabemos que Francisco Ramos demitiu-se e, em seu lugar, é nomeado o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo., que já exercia funções na Task Force. Sou levado a concluir que alguém com responsabilidade, seguiu a orientação dos americanos.
O processo de vacinação sob a gestão de Francisco Ramos esteve envolvido em inúmeras polémicas, em favorecimentos a não prioritários, mesmo no Hospital da Cruz Vermelho, onde exercia a presidência.
Com a nomeação de Gouveia e Melo, as coisas começam a encarreirar, e rapidamente o processo evidenciava competência, disciplina, planeamento, coordenação e objectividade. Tudo isto não aconteceu, apenas porque o vice-almirante fosse um sobredotado, mas tão somente, porque alguém impôs regras simples e pediu responsabilidades. Coisa que os políticos revelam muita dificuldade para não melindrar as suas clientelas.
Gouveia e Melo perante o desafio não pediu mais dinheiro. Não pediu mais recursos humanos. Não vacilou quando faltaram vacinas. Impôs disciplina aos centros de vacinação. Pediu responsabilidade. Aceitou sempre com naturalidade os reveses e revelou sempre grande serenidade e clareza no seu discurso. Tudo funcionou bem porque o trabalho da Task Force assentou numa estrutura de planeamento e controle. As suas palavras são disto exemplo: "Desde o início disse que queria a responsabilização dos actores. Cada um tem de se sentir envolvido, tem de perceber que conta para o todo, para o bem e para o mal. Um actor responsabilizado é muito mais activo. Esta é a chave mais importante"
Penso que sendo as metas sejam definidas por objectivos políticos, a sua operacionalização deve assentar em critérios de ordem prática, assentes numa estrutura rigorosa e responsável.
O Coordenador da Task Force infundiu sempre confiança, genuinidade, disciplina, capacidade de comunicação. Acredito que foi a sua capacidade de comunicar que lhe fez granjear a confiança da sua equipa e a simpatia do público. A sua opção pelo camuflado foi um elemento de comunicação estratégica, com o qual quis dizer: “enquanto estivermos em guerra é isto que vou vestir!"
O sucesso no processo de vacinação português deve-se a Gouveia e Melo e aos profissionais de saúde que se integraram perfeitamente estrutura implementada. Ganhou o país e ganhamos todos nós.
O grande mérito de Gouveia e Melo foi assentar a sua acção numa liderança forte e numa comunicação assertiva, mas sobretudo por aceitar a missão com total abnegação.


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

A TRANSPARÊNCIA E O FIGO DA ÍNDIA

 

Nunca ouvimos falar tanto de transparência como agora. Não há um único responsável, por qualquer chafarica, que não evite afirmar que agora é que vai haver transparência, limpidez, acções cristalinas, desapego, blá, blá, blá. Tornou-se um tique, em tudo semelhante à intolerância ao glúten. Ou seja, de um momento para o outro todos são pessoas sérias, honestas, transparentes e que nada têm a esconder; da mesma forma que repentinamente, todos nos tornamos intolerantes ao glúten! Mais parece uma moda.

Por outro lado, sempre que um caso mais bicudo é descoberto, logo há quem jure ir fazer um “rigoroso inquérito”, e tudo será apurado, e os visados devidamente responsabilizados. Invariavelmente o que se observa é que o tempo faz esquecer tudo e, a culpa morre sempre solteira. Os exemplos são muitos e variados. E mesmo as intenções do mais alto magistrado da nação: “esclarecer tudo, até às últimas consequências, doa a quem doer”, parecem cair em saco roto, ou quando muito, demoram uma eternidade até se ter alguma informação. Foi assim no caso de Tancos, no negócio das barragens, no caso do SEF do aeroporto, no acidente do ministro Cabrita, etc. Pior do que isso, é que ninguém parece estar muito preocupado (!?!)

Meio milhão de euros para associação fantasma de produtores de figo-da-índia, é a mais recente história onde se pode observar tudo, menos transparência. É que para além do cheiro a trafulhice, coexistem outos aspectos obscuros que careciam de um sério e rápido esclarecimento. Estão envolvidos nomes de gente conhecida, democraticamente eleita e que têm obrigação de actuar de forma cristalina e evitar os indisfarçáveis indícios de compadrio. Casos como estes prejudicam, em primeiro lugar, os contribuintes, e depois todos os agricultores de Castelo Branco, que viram nesta “associação” uma inestimável esperança numa cultura promissora e inovadora para uma região de interior com poucas alternativas culturais. Esta associação foi criada em 2015 e teve uma actividade residual nos anos de 2016 e 2017 e, tanto quanto se sabe, pouco contribui para o desenvolvimento daquela cultura na região. Isso não impediu que tivessem sido gastos os tais meio milhão de euros, que beneficiaram muita gente que pouco tem a ver com a cultura e produção do dito figo da Índia.

Já lá vão alguns anos de existência desta associação. Para o apuramento da verdade deviam ser ouvidos, em primeiro lugar, os agricultores que beneficiaram (?) desta iniciativa. Depois verificar os indícios de promiscuidade dentre os diversos envolvidos não vão, uma vez mais cair no esquecimento.

A criação de uma associação com estes princípios destinava-se, penso eu, em proporcionar aos eventuais produtores, benefícios para a implantação, apoio técnico, formação e apoio logístico à distribuição e comercialização. Por aquilo que parece, os tais benefícios tiveram outros destinatários, que não os agricultores.

Vamos aguardar, uma vez mais, que a investigação que este caso exige, não demore o mesmo tempo que está a levar descobrir a que velocidade circulava o carro que transportava o ministro Cabrita, quando atropelou um trabalhador na A6, no passado dia 18 de Junho.

Parece que é mais transparente o Figo da Índia, do que o esclarecimento deste e doutros casos.

 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

OTELO - HERÓI OU VILÃO?


Já aqui escrevi que a história não se pode apagar. E é olhando para o passado que conseguimos, viver o presente, construir o futuro e, especialmente, evitar todos os erros cometidos. Isto tem ainda mais significado no caso de Otelo Saraiva de Carvalho que, num curto período da nossa vida colectiva, conseguiu congregar em si, o melhor e o pior de um herói.

Quis deixar passar algum tempo, e mesmo assim, questionei-me sobre a utilidade deste meu escrito, por considerar que a maioria dos defensores e/ou detractores de Otelo Saraiva de Carvalho, assentam as suas opiniões, mais com base em convicções ideológicas, do que numa análise serena sobre o percurso deste capitão de Abril. As opiniões plasmadas neste blog, nunca tiveram a pretensão de influenciar o pensamento de quem quer que seja, mas tão somente, um desabafo sobre a minha visão dos acontecimentos.  Mas a quantidade de opiniões emitidas a glorificar ou a condenar este capitão de Abril, levaram-me e fazer a minha análise, desse período determinante das nossas vidas, neste Portugal democrático.

O 25 de Abril apanha-me no início da minha vida profissional, e pouco tempo depois de ter terminado o serviço militar com uma comissão em Timor. A viagem de ida e volta para Timor, permitiu-me conhecer vários países, e em continentes diferentes e adquirir uma nova consciência para aquilo que via em Portugal. Trabalhava nessa altura, numa empresa de capitais estrangeiros, com a responsabilidade de uma exploração agrícola, algures entre Santarém e o Cartaxo. Lembro-me de, na minha roda de amigos, termos comentado o abortado golpe do 15 de Março, como uma oportunidade perdida, de dar à volta a um país estagnado.

Otelo é tido por muitos como o estratega da revolução, e muitos outros (onde eu me incluo), atribuem este desígnio a Melo Antunes, por ser um militar muito mais politizado e com uma maior bagagem intelectual. Otelo foi por outro lado, o operacional que concebeu e implementou um “plano de operações” vitorioso, elaborado na clandestinidade, e arregimentando em torno de si os elementos necessário para o concretizar. Este mérito ninguém lho pode retirar. E foi graças ao Movimento dos Capitães que todos nós podemos viver em liberdade e num regime democrático. Esta é a faceta heróica de Otelo Saraiva de Carvalho.

A partir deste momento, Otelo ganhou uma importância política e militar que penso que nem ele próprio esperaria tanto. Deslumbrou-se com o poder. Formou o COPCON - uma entidade de poder absoluto sobre toda a estrutura militar. Deixou-se embarcar num delírio revolucionário, conduzindo o país para muito próximo de uma guerra civil. Todos aqueles que viveram o Verão Quente de 1975, perceberam que os ideais do Movimento dos Capitães, não estavam a ser cumpridos. A título de exemplo, eu fazia diariamente um percurso de 8 km numa estrada nacional, e era parado 3 vezes no caminho por “piquetes revolucionários”, armados de bastões e correntes, sem qualquer identificação oficial, revistavam os automóveis e não se coibiam de proferir ameaças objectivas, sempre que demonstrássemos qualquer sentimento de incómodo perante tal situação. Vivia em permanente sobressalto pela generalizada ocupação de explorações agrícolas, que dia após dia aconteciam em explorações vizinhas, apenas por serem rentáveis ou pertencentes a “contra-revolucionários”.

Não conseguiu resistir ao chamamento político e promoveu muitas acções que, serão no mínimo, condenáveis num país que se queria democrático. Os mandatos em branco, a sua ligação ás FP – 25 de Abril; os assassinatos políticos (cerca de uma vintena), tão condenáveis como os cometidos pelo MDLP, e que o conduziram à sua condenação e prisão, como mentor deste grupo terrorista. O 25 de Novembro, representou alguma esperança de que as coisas pudessem seguir um caminho que estaria nos princípios do Movimento dos Capitães, com o regresso dos militares aos quarteis e o retorno aos princípios democráticos. Hoje em dia falar na importância do 25 Novembro, parece constituir um anátema contra-revolucionário.

A amnistia que lhe foi atribuída por Mário Soares, parece-me ter sido concedida mais como uma forma de retribuir alguma dignidade ao operacional do 25 de Abril, do que um perdão sobre os crimes por que foi condenado.

Por oposição, Salgueiro Maia nunca se deslumbrou com o protagonismo no 25 de Abril. Tive o privilégio de ter privado com ele alguns anos antes, e tenho que lhe reconhecer uma estatura moral digna de um autêntico herói. Fico triste por verificar que Salgueiro Maia foi ignorado, abandonado com a complacência de muitos camaradas de armas, ao mesmo tempo que se glorifica alguém que, apesar de todo o heroísmo, teve as mãos sujas de sangue.

A pergunta que me questiono é: Otelo passou pela vida dos portugueses como herói, ou vilão? Sinceramente não tenho a resposta definitiva. Faço, porém, o seguinte exercício: coloco num dos partos da balança (do herói) o seu contributo incontornável para o sucesso da Revolução dos Cravos e para o que ela significou, como sinal de esperança, para um jovem com pouco mais de vinte anos. Do outro (do vilão), todos os desmandos por ele cometidos. Não consigo ver a balança equilibrada, e o prato do vilão está muito mais pesado, do que o prato do herói. Outros, tal como eu, têm a liberdade de ver, exactamente, o contrário. Isso não pode fazer de cada um que defenda uma, ou outra opinião, nem patriota, nem contra-revolucionário.

Que descanse em paz.

sábado, 10 de julho de 2021

PERSEGUIDOS E EXPLORADOS

O sector da hotelaria e da restauração, foram, sem sombra de dúvidas, um dos mais sacrificados pelas consequências das condições pandémicas que nos têm afectado, nestes últimos tempos. Particularmente a restauração, tem sido vítima de medidas impostas pelas autoridades de saúde de avanções e recuos, com horários reduzidos e oscilantes, venda ao postigo, take away, abre e fecha, etc.

O último Conselho de Ministros, decidiu terminar com a proibição de entradas e saídas da Área Metropolitana de Lisboa, ao mesmo tempo que decidiu avançar com a necessidade da apresentação de um teste negativo à Covid-19, ou certificado digital para entrar em restaurantes, estabelecimentos turísticos e alojamentos locais em todo o país. E aplica-se, independentemente da taxa de incidência pandémica nos diversos concelhos. Para além disso, atribui a estes profissionais a responsabilidade pela implementação e fiscalização da tal medida.

Muitas são as vozes que afirma tratar-se de uma medida ferida de inconstitucionalidade. Como afirma a juíza Desembargadora Florbela Sebastião e Silva, no seu artigo PIORTUGAL E O APARTHEID SANITÁRIO:

“…Nem existe consagrado na Lei, como já tive oportunidade de referir, a figura jurídica de “Estado de Calamidade” ou “Estado de Alerta”.

Assim, nos termos do disposto no artº 44º nº 1 da CRP:

“A todos os cidadãos é garantido o direito de se deslocarem e fixarem livremente em qualquer parte do território nacional.”

“…Ninguém pode ser discriminado por razões de saúde – fossem essas mesmo a razão que está na base desta pandemia – e muito menos ninguém pode ser discriminado por não fazer um teste ou receber uma vacina.”

Não dominamos esta obscura área do direito, mas sinto como cidadão que procura estar informado, um tratamento diferenciado para o sector do turismo e da restauração, que para além de mais esta medida restritiva, parece querer transformar estes profissionais em agentes controladores destas imposições sanitárias! Para o cidadão comum, a medida parece desarticulada e discriminatória, senão vejamos: a medida destina-se a hotéis e restaurantes, mas não a pastelarias e cafés; a medida aplica-se apenas a refeições servidas no interior dos estabelecimentos, não em esplanadas; mas a medida excepciona a possibilidade de quem está numa esplanada sem teste, entrar no interior do estabelecimento para ir à casa de banho, ou pagar a conta. Por curiosidade, as áreas de restauração dos Centros Comerciais, estão equiparadas a esplanadas!?!

Não seria mais lógico não impor mais responsabilidade aos estabelecimentos, para além das medidas de higiene e sanitárias da sua estrita responsabilidade, emanadas das autoridades de saúde, e responsabilizar os cidadãos prevaricadores pelas próprias autoridades sanitárias? Se a vacinação é uma opção individual, sujeita a objecção de consciência, significa que quem a toma está, automaticamente, excluído de poder frequentar este tipo de estabelecimento.

Porquê atribuir medidas especiais a este tipo de estabelecimentos, e não as tornar extensivas, por exemplo: a teatros, cinemas, meios de transporte colectivo, salas de aula, salas de espera, etc.?

Estamos certos de que estas medidas devem ter sido decididas e aplicadas pelas melhores razões para o controlo da pandemia. Mas, uma vez mais, parece ter sido feita, em cima do joelho, sem planeamento, de forma autocrática e atirando para cima destes profissionais, uma responsabilidade que não lhes pertence, e para as quais não estão habilitados.

É mais uma das decisões erráticas, discriminatórias e incompreensíveis das autoridades de saúde. Como diria o Diácono Remédios, também ele cheio de boas intenções: “não havia necessidade…”

sexta-feira, 2 de julho de 2021

EDUARDO CABRITA - É PRECISO TER UM GALO DO CARAÇAS!

 


Este dito popular aplica-se quando se pretende classificar situações imprevisíveis e que de alguma forma, reflectem o azar de quem as sofreu. Parece ser o caso do nosso ministro da Administração Interna Eduardo Cabrita. Além do mais, na realidade, desde a sua tomada de posse, quase tudo o que sai da sua órbita, está associada a decisões que, invariavelmente, descambam em asneira, e da grossa.

Mas azar dos azares, é termos um cavalheiro destes como responsável por um ministério já de si complicado, e ouvir o primeiro-ministro dizer: “tenho um excelente ministro da Administração Interna?!?! É patético ver este ministro a arrastar-se de indisfarçável constrangimento, de asneira em asneira, por pura fidelidade ao seu chefe de gabinete.

A inabalável confiança de António Costa no seu amigo, é difícil de compreender no plano político, sendo que este é um ministro incompetente, desajeitado, uma vítima da fidelidade ao chefe e amigo, um irresponsável, ou um néscio que não consegue ruborizar com o ridículo de muitas das suas actuações, como no caso da rocambolesca farsa dos microfones na AR.

Um ministro que foi nomeado para substituir a sua antecessora, demitida por incompetência, exigia-se mais e melhor. Mas o que temos é um conjunto de actuações polémicas, como sinal do seu estilo ministerial:

As golas antifumo e toda a intricada rede de interesses associados. Braço de ferro com os bombeiros, as continuadas falhas do SIRESP e os KAMOV parados. Caso do SEF - o assassinato de um cidadão estrangeiro às mãos de elementos, sob a alçada do MAI. Odemira – a e metodologia polémica do realojamento de trabalhadores migrantes com uma requisição civil do ZMAR, revertida por uma simples providência cautelar. Os festejos do Sporting. E a concluir, a forma incompreensível como tem sido tratado o caso da morte de um trabalhador na A6 pelo carro onde seguia Eduardo Cabrita, e o lamentável conteúdo do comunicado do ministério.

Errar é humano, e só não erra quem não toma decisões. Mas errar de forma sistemática e nunca assumir responsabilidades é um escândalo de impunidade consentida.

Muitas são as vozes que têm pedido a demissão do ministro Cabrita. Já se percebeu que António Costa não está para aí virado. Talvez porque lhe convenha ter alguém submisso o suficiente para não fazer ondas (his master’s voice), pode ser por não ter ninguém para o lugar, pode ser por estar à espera da tão badalada remodelação governamental, pode ser por uma desconhecida dívida de gratidão entre os dois, ou por uma qualquer outra razão que nos escapa. Triste é ver arrastar esta situação, que parece não ter emenda, transformando o ministro num mártir, a arrastar-se penosamente de asneira em asneira, para ridículo dele e do país.

É caso para dizer que galo tivemos nós!

sexta-feira, 9 de abril de 2021

A história do camionista que me faz recordar Sócrates

 



Para melhor percebermos esta história, deixem-me contextualizar. Um camionista que transportava um camião de cimento, para no alto da serra de Rio Maior, para satisfazer uma necessidade fisiológica. Entretanto apercebe-se que o seu camião tinha sido posto a trabalhar e seguia caminho na Nacional 1. Acresce ainda o facto de naquela altura haver uma grave crise de distribuição de cimento, por um surto grevista.

Corria o ano de 1975, e eu desenvolvia a minha actividade profissional na assistência técnica a uma cadeia de integração em suinicultura. Dos vinte e poucos cooperadores visitados por mim, havia um cavalheiro, construtor civil de profissão e que fazia questão em acompanhar-me na visita à sua exploração agrícola. Na semana seguinte ao episódio do camião de cimento, fiz a minha habitual visita de acompanhamento técnico aquela exploração, situada na Benedita. Como de costume acompanhou-me o proprietário, e a primeira coisa que me disse foi:

Tenho uma história gira para lhe contar. No dia x da semana passada, estava eu no café e entra um indivíduo a perguntar se havia algum construtor civil presente, e se estava interessado num camião de cimento.

Camionista - Sabe, eu tenho um irmão que trabalha na cimenteira em Alhandra, e que se eu conseguir lá entrar antes do meio dia, ela arranja-me mais um carregamento. O preço é X, e o pagamento tem que ser em dinheiro vivo, uma vez que esta carga saiu pela porta do cavalo.

Acordei com o homem irmos à obra, e enquanto descarregassem o cimento, passávamos pelo Banco para levantar o dinheiro. Quando saímos, o camionista disse-me que sempre tinha gostado de um automóvel igual ao meu velhinho Mercedes 190 D.

Chegados ao estaleiro, saímos do automóvel, quando a descarga ainda ia a meio.

Camionista – Será que estaria interessado em vender o seu Mercedes, ao que eu respondi que podia pensar no assunto. Quer ver que ainda fazemos negócio, deixa-me experimentar o carro? Ao que eu respondi que sim.

O homem arrancou e nunca mais ninguém o viu. O automóvel foi enconado alguns dias depois, penso que numa localidade da zona Oeste.

Eu estava espantado com toda esta história kafkiana. Mais admirado ainda fiquei com reacção do meu interlocutor quando ele me diz:

Sabe, era um tipo assim que eu queria a trabalhar comigo: um sujeito, que num par de horas, rouba um camião, vende a carga, rouba um automóvel e desaparece sem deixar rasto, tem que ser muito esperto.

Vivemos num país de patos bravos. Ao valorizar a “esperteza” de um gatuno, a vítima torna-se também num “espertalhão”. Igualmente José Sócrates tem toda a sua vida pública associada a uma série de cambalachos. Está a contas com a justiça. Ainda não foi condenado por nenhum dos inúmeros crimes de que é acusado, e temos de presumir a sua inocência, mas sempre que o ouço falar, lembro-me sempre do camionista espertalhão.