Findas que são estas eleições devemos todos reflectir, se 2
em cada 3 eleitores, se eximiu a cumprir a sua obrigação como cidadão. Que
destino temos enquanto povo que decidiu em Abril de 1974, defender a sua opção
europeia?
Vi com alguma apreensão os vencedores arvorarem um tom de
alguma sobranceria, na análise dos resultados, quando uma abstenção que ronda
os 70% lhes retira toda a legitimidade. Se a isto juntarmos os votos nulos e os
votos em branco, o caso é ainda mais sério. Ou seja, o cidadão eleitor desligou-se
completamente deste dever cívico. E se queremos fazer uma apreciação de algum distanciamento,
obviamente teremos de admitir, que ele será o menos culpado por este estado de
coisas.
A campanha tratou de tudo o que se passa internamente e,
muito pouco do que seria importante sabermos sobre o projecto europeu. O
próprio primeiro ministro, com as suas insistentes aparições na campanha,
secundarizou o candidato Pedro Marques. Já para não falar do facto de António
Costa, ter referido, explicitamente, que estas eleições deveriam ser um plebiscito,
à acção do seu governo e. mesmo ter referido isso no seu discurso de vitória!
E, ingenuamente, os principais partidos da oposição foram na conversa e estão a
correr atrás do prejuízo, como é óbvio. Vejo os analistas a elaborar complexas
explicações para as razões das vitórias e das derrotas, quando na realidade o
que se devia discutir neste momento, seria as razões para tal abandono e desinteresse
dos eleitores. Verificamos que todos os responsáveis políticos e eleitos
deveriam, neste momento reflectir e propor alternativas credíveis para alterar
este estado de coisas.
Elas são muitas e variadas. Todas elas terão, obviamente,
aspectos positivos e negativos, mas o actual estado de coisas não pode
continuar, sob pena do cidadão cada vez mais se afastar das decisões que o país
terá de tomar, por um grupo de pessoas que representam apenas 1/3 dos
portugueses. O voto electrónico, o voto obrigatório, a junção de dois actos
eleitorais em simultâneo, o voto durante os dias úteis, etc. Qualquer coisa
será melhor do que este espectáculo degradante.
Estamos todos decepcionados. A democracia tem de valer a
pena. O eleitor é soberano e as suas decisões, concordemos ou não, são as suas
escolhas. Cabe à classe política, já muito desacreditada, repensar os seus
interesses e actuação e propor ou realizar tudo o que estiver ao seu alcance
para alterar o actual estado de coisas. É por estas e por outras que os
partidos populistas, os extremismos de esquerda e de direita proliferam. O
facto de este fenómeno ser transversal a outros países europeus, não nos deve
deixar descansados.