Estas eleições deram o resultado
que se esperava. António José Seguro (AJS) restituiu ao PS um entusiasmo há
muito perdido. Foi até há pouco mais de uma semana do escrutínio, que esta
figura mal-amada por algumas sensibilidades no interior do PS, recebeu o apoio formal
que, diga-se em abono da verdade, ele nunca o pediu. Considerando que foi uma
candidatura informal, no sentido de desligada do apoio da máquina partidária,
foi uma vitória inequívoca. Mais ainda, se considerarmos que AJS, esteve
ausente do espaço público e político cerca de dez anos, portanto, desconhecido
para muitos, particularmente para as camadas mais jovens do eleitorado e, da esquerda
estar completamente fragmentada.
AJS foi sempre visto como alguém
politicamente frouxo, sem muitas convicções de relevo e sem nunca se
comprometer muito, com decisões importantes, particularmente no interior do seu
próprio partido. Mesmo durante a campanha pouco se ouviu sobre um compromisso
real e objectivamente importante. A sua preocupação era reunir com o primeiro-ministro
para o pressionar a resolver o problema da saúde. Ou seja, a AJS não se conhece
um compromisso substancial e ideologicamente sustentado. Alguém dizia que na
verdade era “alguém que não sabe bem o que quer”.
Já André Ventura (AV), apesar da
sua conversa redonda a volta dos mesmos temas, sabe perfeitamente o que quer e
para onde quer ir! Resolveu concorrer as estas presidenciais apenas porque não
encontrou uma figura de reconhecido mérito junto dos seus simpatizantes. Mesmo
assim, é preciso reconhecer que teve uma prestação aguerrida, como é seu
timbre, e os seus indefectíveis apoiantes lhe garantiram uma confortável
passagem à segunda volta. Como se sabe, a sua taxa de rejeição junto do eleitorado
é elevada, o que pode ajudar a AJS aspirar chegar a Belém sem ter de fazer
praticamente nada. A esquerda e o centro vão-se unir à volta de Seguro para
evitar a eleição de Ventura, à semelhança do que acontece em França com o
partido Rassemblement National de Marine Le Pen.
Os grandes perdedores desta noite
eleitoral foram Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes.
Cotrim por dois episódios a uma semana do fim da primeira volta, que deitaram
por terra o sonho de uma campanha muito bem-sucedida. O almirante porque
parecia um peixe fora de água, e manifestamente tinha alguma dificuldade em
deambular num ecossistema que lhe era totalmente estranho. Começou muito alto,
mas rapidamente foi perdendo o património alcançado no processo de vacinação.
Marques Mendes foi um desastre completo. Tinha na mão a vantagem de durante
muitos anos entrar na casa dos portugueses num programa de comentário político bem-sucedido.
Por outro lado, tinha muitos anticorpos no PSD, partido que lhe deu todo o
apoio formal. Nem a máquina partidária, nem o reiterado apoio de Luís
Montenegro foram suficientes para evitar o descalabro.
Todos os demais candidatos da
esquerda usaram esta eleição como um estratagema da “prova de vida”. As suas prestações nos debates até lhes
correram bem, mas a mensagem que passam já não colhe junto do eleitorado. Numa
análise fria a estes resultados, observa-se uma tendência consistente de falta
de representatividade, que tornou irrelevante todo o espectro partidário da
esquerda radical.
Lui Montenegro pelo seu lado, não tendo passado à segunda volta o seu candidato, vai ter no palácio de Belém, muito provavelmente um inquilino que vai permitir governar sem grande sobressalto, como se foi dizendo “que AJS era o opositor que a direita gostava”.
