sexta-feira, 18 de outubro de 2024

PEDRO NUNO SANTOS VESTE UMA FATIOTA QUE NÂO LHE ASSENTA BEM.

 

A novela do Orçamento do Estado (OE), teve ontem mais um desenvolvimento – Pedro Nuno Santos (PNS), veio finalmente, clarificar a sua posição sobre o assunto. Depois de muitas hesitações, contradições, avanços e recuos, viu-se na necessidade de vir clarificar aquilo que ainda não estava claro, no que diz respeito à posição do PS sobre este tema.

É voz corrente dizer-se que PNS tem o “aparelho” do partido todo consigo. Mas este aparelho, e apesar disso. também manifestou a sua discordância do rumo que o Partido estava a seguir, preocupados com a execução do PRR e das Eleições Autárquicas que terão lugar dentro de um ano. Mas será que este “aparelho” representa todas as sensibilidades do PS, e muito em particular a sua ala mais moderada? Pelos vistos não. Personalidades como José Luís Carneiro, Sérgio Sousa Pinto, Álvaro Beleza, Vieira da Silva, apenas para referir os mais conhecidos, foram categóricos em pôr o dedo na ferida relativamente à forma como o líder estava a conduzir a novela do OE.

A diferença na liderança do partido, mudou radicalmente em pouco mais de 6 meses. António Costa era um líder experimentado, que conhecia profundamente os meandros da política portuguesa. Era dotado de uma habilidade para lidar com situações difíceis, com uma retórica que, por antecipação resolvia as coisas em seu benefício. Exemplo disto, foi a forma como António Costa resolveu o problema de Sócrates com duas frases lapidares: “à Justiça o que é da Justiça e à política o que é da política” e “… (ele – Sócrates) vai certamente lutar pelo que acredita ser a sua verdade.”

Enquanto António Costa foi capaz de pacificar todas as tendências e sensibilidades no interior do PS, já Pedro Nuno Santos não resistiu à reprimenda de condicionar a comunicação do Partido. Como alguém dizia muito recentemente, PNS está muito mais próximo da retórica bloquista do que da tradição centrista do PS, enquanto partido charneira do nosso ecossistema político partidário.

Deixou arrastar a novela do OE por tempo infindo, contradizendo-se frequentemente, para finalmente dar a mão à palmatória aos  que desde o início recomendaram esta solução (os moderados).

Além disso, o body language não lhe assenta bem. Do discurso inflamado, ao dedo em riste na sua comunicação, transparece o desconforto de quem veste uma roupa apertada. Ou seja, fala grosso para impressionar, para depois chegar à conclusão de que assim não chega lá, e contradizer-se no final. Todos nos recordamos da sua comunicação quanto à localização do aeroporto, para ser destratado no espaço de um dia pelo primeiro-ministro. A sua célebre intervenção num congresso do PS, sobre os banqueiros alemães causou algum desconforto nas hostes socialistas! A sua práxis política parece mostrar alguém muito mais próximo das teses Bloquistas, do que das do PS. Resta saber se o partido lhe irá perdoar este comportamento errático, particularmente num momento em que o poder está noutras mãos.

Se as próximas autárquicas não lhe derem uma vitória expressiva, poderá PNS ser confrontado com uma situação idêntica á de António José Seguro. Resta-lhe pouco menos de um ano para arranjar um fato à sua medida, ou fazer uma dieta para caber no que agora veste.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

A NOVELA DO ORÇAMENTO

 

Sendo que o Orçamento do Estado (OE) é um instrumento fundamental da política de qualquer governo, não restam dúvidas a ninguém. Também é certo que com a mudança política verificada nas últimas eleições, iria determinar igualmente uma mudança nas intenções das políticas, particularmente no que diz respeito à componente fiscal. A AD e, em particular o PSD sempre se assumiu como um partido reformista, pelo que seria de esperar que a este nível, a mudança da estrutura do OE teria de reflectir isso mesmo.

Como Luís Montenegro se havia comprometido como “não é não”, elegeu como parceiro fundamental para a aprovação do seu OE o partido Socialista. Esta solução foi à partida comprometida pela posição errática de Pedro Nuno Santos.

António Costa muito mais experiente e sabido que o seu sucessor, teria provavelmente dito: “este não é o meu orçamento, mas sendo um partido responsável, o PS vai viabilizar este primeiro orçamento pela abstenção e fazer o seu trabalho na oposição”. Pedro Nuno Santos teve um discurso errático. Disse tudo e mais um par de botas. Quis dar a imagem de um político responsável, mas as suas “convicções” ideológicas, fê-lo impor linhas vermelhas, em matérias que seria muito difícil serem aceites por Luís Montenegro.

Acontece, porém, que o PS está fracturado entre uma parte mais moderada que aconselha a aprovação do OE, e uma linha mais radical que diz que o PS deveria rejeitar liminarmente este OE e sujeitar-se a eleições. Para ajudar à festa, os autarcas socialistas, estão receosos que a não aprovação do OE seria muito penalizadora para o PS nas eleições autárquicas, que irão ocorrer em 2025, e ainda na execução dos projectos do PRR a decorrer.

Neste cenário, ainda não sabemos se o OE passa ou não. Sabemos que o CHEGA, apavorado com um cenário de eleições antecipadas veio pressurosamente mostrar a sua disponibilidade para o aprovar, e assim, reivindicar o estatuto de único adulto na sala. Consequentemente, o PS vai ficar associado à inusitada viabilização do OE por um partido da extrema-direita se isto se verificar.

A perspectiva de eleições antecipadas parece não agradar a ninguém. Considerando que o PSD cedeu mais do que o PS nas negociações, mesmo levando em conta os ganhos de causa que os socialistas conseguiram pela via parlamentar, e que irão ter influência directa sobre o OE. Neste cenário, o que vai o eleitor valorizar? A dúvida que subsiste é se esse voto se traduzirá num protesto por mais um processo eleitoral, ou se uma escolha no partido mais responsável em todo este processo. Tenho mais dúvidas do que certezas!