quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

NÃO! NADA IRÁ FICAR COMO DANTES

O ano que todos estamos a viver(?) revelou-se de uma crueza tal, que pôs em causa, tudo aquilo que podíamos imaginar pudesse atribular-nos a vida. Provavelmente não estávamos preparados para vivenciar uma pandemia com esta dimensão. Quando nos pomos a imaginar um ser vivo de dimensões microscópicas, que pode ser vencido com uma simples saponária, pudesse ter um impacto de tal ordem que abalasse as vidas de todo e qualquer ser humano, independentemente do seu estatuto social, da sua robustez física ou de qualquer outra característica que possamos imaginar, seria algo impensável.

“Dos fracos não reza a história!” Mas esta história provou-nos que todos somos fracos, incapazes de um combate cara a cara com este inimigo por mais coragem que tenhamos. A melhor atitude que podemos usar nesta luta é: o isolamento físico, o confinamento social e meia dúzia de vulgares medidas de ordem sanitária. Com tudo isto tornamo-nos autênticos pássaros engaiolados, que quando lhes abrem a porta têm receio de sair, porque a liberdade do exterior é muito mais perigosa do que as grades que nos prendem.

O simples facto de que, cada um de nós pode ser um portador assintomático, impõe-nos o dever de consciência de evitar todo e qualquer tipo de proximidade com aqueles que nos são próximos. Isto interfere directamente com a nossa necessidade de socialização.  Separa famílias, amigos, colegas de trabalho e demais relacionamentos. Se isto para um cidadão comum, com uma estrutura familiar normal já é muito complicado, fácil é concluir que para a população mais idosa, vivendo, muitas vezes, em condições de objectiva solidão, o caso toma proporções bem mais assustadoras.

As autoridades sanitárias, pesem embora as muitas e inaceitáveis contradições, estabeleceram medidas indispensáveis e rigorosas na fase inicial da pandemia, através de um combate musculado. Numa fase posterior, muitas dessas decisões foram tomadas, a reboque dos acontecimentos e com decisões iguais no tratamento de situações diferentes, e decisões diferentes para acontecimentos semelhantes. Muito se falou na segunda fase, mas pelos visto, ela apareceu sem que um planeamento eficaz tivesse sido preparado com alguma coerência.

 Se é certo que, pelo menos numa fase inicial, ninguém estaria preparado para lutar com um inimigo desconhecido, muito mais podia ter sido feito e preparado, para esta segunda vaga. Sempre que sobre este quadro nos questionamos, nasce a ambígua circunstância de que, por um lado a lei obriga-nos a ficar em casa, a recolher obrigatório, a cercas sanitárias, à proibição de saída do concelho, mas por outro, deixam ao livre arbítrio de cada um, a toma da vacina - a mais aguardada e eficaz panaceia de combate a esta pandemia. Pior do que isso, é que muitas das vítimas que recorreram aos cuidados de saúde, se viram privados da companhia, do carinho e do apoio dos familiares, por demasiado tempo. Muitos deles, acabaram os seus dias, isolados numa cama de hospital, de uma forma solitária e pouco digna. O sofrimento que isto pode provocar aos entes queridos, irá certamente ter repercussões que ninguém poderá imaginar,

Uma característica do ser humano é a sua iminente necessidade dos relacionamentos. São em primeiro lugar, entre os membros do agregado familiar, do grupo de amigos próximos, e todos com quem partilhamos relações de proximidade. E foi isso que a pandemia nos tem impedido de realizar. A celebrações tradicionais, os aniversários, os casamentos e, até mesmo os funerais só são permitidos a um restrito número de acompanhantes. Os encontros de amigos foram-nos de todo vedados e, mesmo em situações fortuitas, há que garantir um certo distanciamento social.

Se o ano de 2020 trouxe a cada um de nós uma série de desagradáveis surpresas, os tempos que se aproximam, não nos vão trazer melhores dias. Se, como esperamos, a vacinação pode representar uma réstia de esperança no controlo sanitário, a crise social que, fatalmente, nos irás atingir, poderá ter consequências que irão perdurar por muitos e muitos anos. Para além disso, as relações sociais, como até aqui as entendíamos, seja por receio ou por obrigação de consciência, nunca mais irão ser as mesmas.

Sou um optimista por natureza e convicção, mas não consigo subscrever a teoria que “tudo vai ficar bem.” Não! Nada irá ficar como dantes. Este problema não é um problema nacional. Ele estende-se a nível universal. Um país com graves assimetrias sociais, com uma enorme dependência externa, assolado com graves problemas internos, vai ter muitas dificuldades em resolver todos estes dilemas em tempo útil. O politicamente correcto recomenda-nos uma adaptação ao “novo normal”. Gostava muito de estar enganado e que, rapidamente, pudéssemos voltar à normalidade de que estávamos habituados. Receio bem que não.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O FENÓMENO ANDRÉ VENTURA


Não sou um especialista em nenhuma disciplina das áreas da sociologia, nem com este meu escrito pretendo ir por aí. Como cidadão não fico indiferente aos fenómenos do populismo, e sinto necessidade de reflectir e, tentar perceber as causas que determinam o crescimento deste fenómeno nas sociedades democráticas. Naturalmente que esta situação carece de estudo especializado, mas também é lícito perceber que qualquer pessoa consciente, olha para ele e retira as ilações que a sua consciência encontra.

Os recentes resultados alcançados por André Ventura nestas últimas eleições presidenciais, vieram, uma vez mais, por a claro que, as forças políticas desvalorizaram a sua capacidade de intervenção no confronto político recorrendo, invariavelmente, em classifica-lo de fascista, xenófobo, racista, populistas, etc. Com isto não significa que estes atributos não assentem como uma luva neste candidato, porque é este o terreno onde ele melhor se sente. Esta confrontação a que André recorre e que leva os seus opositores a cair na armadilha, lembra-me este dito popular: “nuca lutes com um porco: tu vais ficar todo sujo e o porco vai adorar”. Por exemplo, quando André Ventura afirma se não conseguir o 2º à frente de Ana Gomes, se demite, fácil é deduzir que esta conversa mais não é do que um golpe de teatro, ao qual ele nunca pensou dar cumprimento, como se viu, mas a que muito boa gente não se cansou de invocar.

O populismo não é fenómeno exclusivamente português. Ele grassa um pouco por todo o lado e, no caso português, não é um exclusivo de André Ventura. Nesta última campanha eleitoral, Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa, também não se coibiram de recorrer a um discurso populista, para fazerem passar as suas mensagens. As diferenças são mais da forma do que no estilo do discurso. Mas André Ventura conseguiu alcançar cerca de 500 000 votos e, certamente, os portugueses que nele votaram não são todos: fascista, xenófobo, racista e populistas. É preciso tentar perceber o que leva meio milhão de portugueses a aceitar como boas as propostas de André Ventura e do partido que o suporta. Há quem diga que ele apenas fala sobre aquilo que os portugueses reconhecem como uma falha do sistema político-partidário que os afecta negativamente. É necessário, por isso, ir ao fundo das questões que estão na base desse descontentamento. Equacioná-las e propor soluções que não penalizem como habitualmente sempre os mesmos.

As ideias do CHEGA e do seu líder, assentam em questões factuais sobre as quais os poderes instituídos têm alguma dificuldade em aceitar, seja por razões ideológicas, seja falta de argumentação credível. Não foi Ventura que criou os factos, foram os factos que fizeram Ventura aparecer. Por outro lado, o estilo provocatório e truculento de André Ventura, não pode nem deve ser travado com as mesmas armas. O crescimento deste candidato, nestas eleições reflectem, muito provavelmente, a incapacidade de uma resposta inequívoca ás bandeiras e nos valores que ele defende. Pior ainda é cair na tentação de ir à luta usando o mesmo tipo de linguagem e estilo dele. Ana Gomes e Marisa Matias, são disso um exemplo eloquente. Já nos debates com Marcelo Rebelo de Sousa e Tiago Mayan, ele encontrou muito mais dificuldade em impor o seu registo.

Muitas vezes considera-se que os portugueses não têm razões para se queixarem. Temos que perceber que, entre muito outras coisas, todos nós temos sido chamados a participar e a contribuir para solucionar problemas, para os quais em nada contribuímos. Vemos um país a afundar-se. Uma pandemia descontrolada e a atingir valores preocupantes. Uma dívida publica astronómica. Vemos uma juventude muito qualificada, mas que não encontra perspectiva de futuro. Assistimos à uma degradação do sistema judicial e jogos de bastidores, com vista a uma governamentalização da justiça. Todos estes factos, aos olhos dos portugueses, não parecem a estar a ser resolvidos. Por isso, não admira que quem sem uma ideia de fundo, bata ruidosamente nestas teclas, consiga conquistar alguns adeptos.

O interior foi envelhecido, esquecido e abandonado; fecharam-se escolas, postos de correio, centros de saúde e muito mais serviços da administração; com graves problemas demográficos, a mundo rural pode ser responsável pela degradação de muitos recursos naturais; as recentes catástrofes dos incêndios, vieram por em evidência este estado de coisas.  As populações do interior deram uma resposta inesperada. Chamar a toda esta gente fascista parece-me abusivo, para além de injusto. Ou se vai ao fundo dos problemas e encontra-se a solução adequada para cada um dos casos, ou receio bem que as ideias populistas encontrem terreno fértil. Exemplos de outras latitudes podiam servir de aviso, mas pelos vistos, todos caíram no jogo de Ventura e os resultados estão aí.

Joaquim Aguiar costuma afirmar: “o povo tem sempre razão, mesmo quando não sabe a razão que tem”. Pensemos nisto.

 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

UMA “GERINGONÇA” DE DIREITA

 Quando em 2016 o PS arranjou uma solução governativa, a que mais tarde ficou conhecida por “geringonça”, considerei uma solução errada, apesar de toda a legitimidade que suportava. Errada porque assentava em três pressupostos difíceis de entender:

O primeiro, quebrou-se o mito de um certo antagonismo ideológico entre o PS e o PCP. Este antagonismo pode ser observado em diversas ocasiões, como no debate que opôs Mário Soares e Álvaro Cunhal. Mesmo em vésperas dessas eleições, António Costa em debate com Gerónimo de Sousa, se queixava disso mesmo: dos comunistas preocupavam-se mais em combater o PS do que malhar na direita.

Mais estranha parece ainda a ligação ao BE. Este partido, reúne no seu seio um conjunto de sensibilidades ideológicas (trotskistas, marxistas, maoistas) que nunca se entenderam entre si e com princípios programáticos, que não passa de um conjunto de ideias desgarradas. Já para não falar, que se trata de uma força de extrema esquerda, que o PS sempre contestou e rejeitou.

Finalmente este acordo foi alcançado de uma forma algo bizarra. Ou seja, foi redigido um acordo, individualmente com cada uma destas forças, separadamente à porta fechada e sem qualquer responsabilidade governativa. Naturalmente, passou-se assim, por existirem profundas divergências entre os parceiros.

Tal como se podia antever, mesmo durante a primeira legislatura, observaram-se algumas divergências, agravadas agora na aprovação do actual Orçamento de Estado. Quer o PCP, com uma estrutura ideológica muito firma e um eleitorado muito fiel, quer o BE com as suas muitas sensibilidades, perceberam que tinha muito mais a perder do que a ganhar se persistissem num apoio continuado ao governo.

As eleições para a Assembleia Legislativa dos Açores tiveram um desfecho semelhante ao verificado em 2016. O partido vencedor, perde a maioria absoluta e não consegue arranjar consensos para formar uma nova geringonça.

O PSD, afastado do poder há mais de 20 anos, não resistiu à tentação e formar a sua própria geringonça, nem que para isso tenha de vender à alma ao diabo. O anúncio de uma solução liderada pelo PS, CDS e PPM, apesar da celeridade encontrada neste entendimento, necessita de uma arranjo político suplementar, com vista a encontrar suporte parlamentar para arregimentar os 29 deputados necessários para garantir a estabilidade necessária. Isto só se podia concretizar com o apoio explicito de um partido extremista como o Chega.

Esta nova “geringonça”, tal como a outra, tem igual legitimidade, mas tem tudo para correr mal. As exigências que cada uma destas forças vai exigir para a viabilização de uma solução governativa estarão dependentes da satisfação de algumas exigências, não augura nada de bom. Os Açores pela realidade socioeconómica que vive; por uma governação desastrosa do PS nestes últimos 24 anos; com os efeitos da pandemia e com a grave crise económica e social que já se faz sentir, vai exigir uma enorme capacidade ao governo, e uma estabilidade política no entendimento entre os partidos que o irão suportar. Gostava muito de estar enganado. Parece-me que esta solução não vai durar uma legislatura completa e que a cadeira do poder vai trazer a tentação de correr com uma estrutura da administração regional, leiam-se - amigos, para lá colocar outra (amigos) com as cores da nova “geringonça”.

Para mim, deveria ser o partido vencedor a formar governo e que o apoio deveria ser alcançado com arranjos parlamentares que pudessem garantir simultaneamente, a estabilidade política suficiente para as necessárias medidas reformistas que urge implementar. No entanto, reconheço que os resultados eleitorais observados, essa convergência será muito difícil de conseguir. As dificuldades qualquer um pode imaginar, mas consequências vão ser suportada pelos mesmos, como habitualmente.

 

 

 

sábado, 31 de outubro de 2020

TODOS À PROCURA DE UMA GERINGONÇA

Os resultados das últimas eleições açorianas tiveram, entre outras curiosidades, que a possibilidade da formação de uma nova geringonça, se revele peculiar considerando que essa eventualidade, pode materializar-se, quer à esquerda, quer à direita. Para tal era necessário que Vasco Cordeiro e Bolieiro, conseguissem ultrapassar algumas dificuldades que surgem no seu caminho. À esquerda: o PS conseguir, para além do seu parceiro natural(?) BE, uma segunda participação do CDS na formação desse novo executivo. Quanto à direita: Bolieiro, luta com duas dificuldades: por um lado a recusa do IL ao excluir-se dessa possibilidade, e por outro lado o incómodo de negociar com o Chega.

Todos sabemos que, quer de um lado, quer de outro, decorrem intensas negociações e, qualquer que seja a solução encontrada, vai assentar sobre uma previsível instabilidade política, social e económica.

O discurso de Vasco Cordeiro na noite das eleições, parece revelar um certo autismo relativamente à conclusão mais óbvia sobre estes resultados – um cartão amarelo dos açorianos por uma governação autocrática ao longo destas duas décadas de poder socialista. As inúmeras referências de vitória, de todos os participantes é também o normal nestas circunstâncias. Torna-se por isso necessário, olhar para estes resultados com alguma relatividade. Os principais vencedores foram, efectivamente, os partidos mais pequenos (CDS, IL, PPM e Chega) que, embora com uma modesta representação, não será possível menosprezá-los, tendo em conta que, qualquer que seja a solução, ela só será possível se eles o permitirem.

A bola está do lado de Vasco Cordeiro e de Bolieiro. Aparentemente qualquer um deles, e por razões diferentes, estará desejoso de assumir essa responsabilidade. Vistas as coisas nesta perspectiva, Vasco Cordeiro teria muito a ganhar e Bolieiro, tudo a perder. Ou seja, Vasco Cordeiro não quer ficar com o ónus de ter perdido o confronto para o PSD. Bolieiro tem a indisfarçável vontade de, através de si voltar à cadeira do poder que há muito fugiu das mãos dos sociais democratas.

É lícito imaginar-se que que os tempos que se aproximam, não irão ser uma pêra doce para o novo executivo, por razões conjunturais aliadas a um parlamento muito mais colorido e sem maioria absoluta. Os efeitos da pandemia, somados à difícil situação de muitas das estruturas do poder regional (ex: SATA), e do rombo na actividade turística, vão determinar tempos muito complicados. Vasco Cordeiro teria de demonstrar que era capaz de inverter o sentido da sua governação que levou a região a uma situação no mínimo vergonhosa. Bolieiro se resistir à tentação, vai poder assistir comodamente, à mais do que provável deterioração das condições e vida dos açorianos, tendo em conta os tempos espinhosos que se avizinham.

Era bom que, qualquer que venha a ser a solução política encontrada, isso não represente mais um factor de empobrecimento destas ilhas. Pelo contrário, o que se espera é que, de uma vez por todas, se consiga implementar condições de desenvolvimento harmonioso, de uma região muito sacrificada.

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

DO OUTRO LADO DO ESPELHO – As eleições legislativas açorianas

 


As eleições legislativas dos Açores vieram abanar muitas consciências adormecidas. Esta talvez seja a melhor explicação para a redução (muito pequena) dos valores da abstenção, apesar da pandemia. Outra interpretação possível para este fenómeno, será um cansaço da população para um governo autocrático, de muitos compadrios e com alguns laivos de nepotismo.

Numa região pobre, ultraperiférica, todo o poder instituído tende a eternizar-se porque ao longo de muitos anos se criam relações de dependências, entre esse mesmo poder e as benesses que distribui a seu belo prazer. Não deve haver um único açoriano que não tenha um familiar ligado à estrutura da administração regional ou de alguma empresa pública. Não se pense que isto seja uma realidade atribuída, em exclusivo, ao PS e os seus 24 anos no poder. No tempo dos governos do PSD, as coisas seguiram um padrão muito parecido, e, muito provavelmente, se ó não foi maior por não haver tanto para distribuir.

Os resultados eleitorais reflectem, muito provavelmente, este raciocínio: o fim de uma maioria absoluta e o aparecimento de novas forças políticas. No entanto, estamos cientes de que esta realidade deve representar apenas a ponta do iceberg. Ninguém deveria imaginar no passado sábado, o imbróglio que estas eleições viriam criar. O aparecimento de novas forças políticas e com representação inimaginável. São os casos da Iniciativa Liberal e do Chega. Também não deixa de ser indecifrável o desaparecimento do PCP, sabendo-se como se sabe, da enorme capacidade organizativa deste partido. Por outras palavras, todas as soluções governativas podem ser esquematizadas: uma solução entre o PS, PAN e BE, ou uma “geringonça” de direita com os restantes partidos, em que o CHEGA se auto-excluiu. O papel de CDS e do PPM ainda ninguém sabe qual irá ser: se estarão disponíveis para viabilizar uma solução com o PS, ou se irão juntar-se à direita. Ninguém sabe como irão decorrer as negociações, e qual será o arranjo político que irá decidir os destinos da Região na próxima legislatura. Uma coisa é certa, nada será como antes. Estamos certos que com um parlamento mais colorido, as tentações autocráticas não vão passar com a mesma facilidade.

Este fenómeno do surgimento destas novas forças partidárias no espectro político açoriano, mais não são do que a reacção dos eleitores a um crescente enfraquecimento dos factores de desenvolvimento da população. Os índices da pobreza, os baixos índices da escolaridade, a elevada dependência de muitos açorianos do RSI, a situação desastrosa em que se encontram muitas das empresas públicas (o caso da Sata, é paradigmático), são apenas algumas das razões que podem explicar este terramoto eleitoral. 

Um espelho reflecte uma imagem real que está na sua frente, mas não deixa ver o que está por detrás dessa superfície. Esta poderá ser uma figura para explicar a sobranceria como o PS exerceu a sua influência ao longo destas duas décadas, assente na tal teia de dependências. As coisas mudaram. Nada, a partir de agora, será como dantes. Vamos aguardar que a solução que venha a ser encontrada, tenha a capacidade de inverter a forma arbitrária como os Açores foram governados até agora. Vamos a esperar para ver.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

AS CRISE QUE NOS AFLIGEM

 Não bastava a desgraça do COVID, para agora não haver mais nada que tratar do que a crise. E há crises para todos os gostos: a crise sanitária, a crise social, a crise política e a crise económica. Insistentemente refere-se que a crise sanitária, para além de imprevisível, é a justificação para todas as outras. Por razões óbvias, a crise política é a que mais preocupa os nossos responsáveis, pela proximidade de um novo Orçamento do Estado que irá ser discutido brevemente.

É óbvio que, qualquer que seja a perturbação de uma aparente normalidade, traz sempre associada alguma perturbação na vida de cada um de nós. Também é impossível escamotear, que a referência às crises acima referidas, irão ter consequências de monta no nosso futuro colectivo, por um período de tempo que ninguém pode neste momento avaliar. Mas é também nos períodos de crise que se devem tomar as grandes decisões. É também nestas alturas que se impõe a tomada de decisões reformistas, que visem implementar com caracter definitivo, as medidas que possam evitar futuras crises. O momento não é para chorar sobre o leite derramado. Antes porém, talvez seja o momento de arregaçar as mangas e fazer o que tara em ser feito.

O momento político que vivemos há uns anos a esta parte, assenta num equilíbrio instável, entre partidos de esquerda que se vêm na eminência de discutir um OE, que apesar de um considerável contributo de caracter social, se recusam a aprovar a sua componente reformista. Por outro lado, os partidos à direita, tendo sido excluídos à partida a participação nesta discussão, não se encontram disponíveis para a aprovação.

Ou seja, para além de muitas outras justificações de peso, são as razões de ordem política, que põem toda a gente a falar da crise que se avizinha e reconhecem como incompreensível o país viver os próximos tempo por duodécimos e, muito em particular, com a presidência de EU pelo nosso país. Se à crise sanitária, não podemos fazer muito mais do que aquilo que já foi feito. Quanto à crise política, talvez um esforço na busca de entendimentos pudesse ser ultrapassadas muitas divergências, em nome do momento difíceis que se vivemos, e dos sacrifícios que todos nós temos sido submetidos.

Por outro lado, o atirar de culpas uns para os outros não acrescenta nada de bom ao problema. Não podemos esquecer que a Bélgica, passou por uma grave crise política, durante bastante tempo, e o resultado foi uma aparente subida dos partidos mais radicais. Forçar uma posição de inflexibilidade sobre este tema, só pode acrescentar crise à crise. Os portugueses começam a ficar fartos de servirem de cobaias, de experiências políticas (ou partidárias), que têm como consequência, o afastamento dos níveis de desenvolvimento dos nossos congéneres europeus, no que aos padrões de desenvolvimento, dizem respeito.

A(s) crise(s) que nos aflige(m), não parecem ter um fim à vista pelo caminho que as coisas estão a levar. Os culpados são invariavelmente os mesmos, e as vítimas também. Merecíamos mais e melhor.

sábado, 19 de setembro de 2020

VAI FICAR TUDO BEM?

 O mundo foi confrontado com uma realidade para a qual ninguém estava preparado. A responsabilidade de tudo isto assenta num vírus minúsculo, com uma capacidade de contaminação elevadíssimo, com uma taxa de mortalidade reduzida (se comparado com outras patologias, que é controlado com água e sabão, mas que causou um alarme de nível global). Não houve um único país, por mais bem preparado que estivesse o seu sistema de saúde, que conseguisse manter em funcionamento pleno a sua estrutura produtiva.

Foi necessário serem adoptadas medidas extremas, com base no que se conhecia na altura, para tentar debelar, ou atenuar os efeitos que este vírus podia causar. Numa primeira fase, esse desconhecimento, levou as populações a aceitarem, com resignação e compreensão, todas as medidas adoptadas: o confinamento, o distanciamento social, a etiqueta sanitária e respiratória, o uso de máscara e luvas, recomendações de ventilação e higienização ambiental, medição de temperatura, redução do espaço nos transportes e em todos os lugares públicos, limitação de participantes em reuniões familiares, restrição no número e pessoas nos funerais, proibição de público em actividades desportivas, culturais e sociais,  etc. Estas medidas mais restritivas imperaram cerca de três meses para a maioria das pessoas. Os núcleos familiares viram-se repentinamente, aprisionados em casa, em alguns casos em situação de teletrabalho, com os jovens submetidos ao ensino à distância (com todos os problemas que isso causou, nomeadamente, a nível social), com as dificuldades de acesso aos bens essenciais e, principalmente, com a dificuldade do mais que necessário convívio social.

Foi imperioso instituir o estado de calamidade para que o combate fosse rápido e eficaz. Pela excepcionalidade desta medida a população aceitou, com natural submissão, a lógica e a necessidade das acções. Os transportes, escolas, comércio, restauração, cultura, desporto, comportamento social, trabalho, serviços públicos e equipamentos sociais foram seriamente afectados, com todas as consequências que isso determinou, na via das pessoas. À medida que o tempo ia passando, e a economia se ia desagradando, cedo se percebeu, que seria impossível manter a situação por muito mais tempo, pelo que impunha um regresso ´normalidade possível. Mesmo durante o período mais severo da pandemia, muitos eram os que afirmavam e pugnavam com optimismo, que “tudo vai ficar bem”! À medida que as restrições forem sendo levantadas ou atenuadas, começou a falar-se numa “nova normalidade”. Mesmo esta, foi aceite com um pacote de grande restrição, na vida das pessoas e das empresas e organizações. Ou seja, nada ia ficar como dantes, e tínhamos que aprender a viver com uma realidade substancialmente diferente, daquela a que sempre nos habituamos, apesar de nova.

A alteração dos comportamentos, foi-nos imposto pela pandemia. Coisas absolutamente banais como: dar um abraço, fazer um almoço de fim de semana com a família ou os amigos, assistir a um espectáculo, dar um abraço, frequentar um ginásio, acompanhar um ente querido, etc. foram-nos vedads. Mas se isto, com alguma disciplina, capacidade de adaptação e resiliência é possível conseguir compatibilizar com esta nova realidade. Porém, do ponto de vista emocional, pensamos que as coisas não serão assim tão fáceis. Qualquer um de nós, pode ser um transmissor assintomático desta terrível enfermidade. Ou seja, mesmo sem saber e cumprindo todas as recomendações, podemos ser um veículo disseminador. Portanto, instalou-se no subconsciente de todos nós que, pior do que a doença, é a nossa responsabilidade do mal que possamos causar a terceiros. Este sentimento determinou um isolamento voluntário das pessoas, por uma cultura do medo instalada e que receio, vá perdurar por muito tempo! Gostava de acreditar que tudo vai melhorar. Não estou seguro disso. Se os mais idosos são os mais expostos e formam o principal grupo de risco, são também, aqueles que aceitaram com mais resignação todos estes constrangimentos. Os nossos jovens que por natureza são alegres, convivem de forma mais próxima e esfusiante, menos conscientes e responsáveis, vão formar a sua personalidade com base numa cultura de uma sociedade dividida, menos fraterna e, consequentemente, mais egoísta.

Com a perspectiva de uma segunda vaga do Covid 19 que se avizinha, vêem reforçar todos estes receios. A nossa convicção é que nada vai ficar como dantes. O mundo vai necessitar, provavelmente, de muitos anos até que uma solução eficaz e definitiva possa ser encontrada e que o ser humano, consiga ultrapassar todos estes receios. Por princípio e convicção sou um optimista. Apesar disso, fica-me uma sensação de algum desânimo, sobretudo, pelas consequências que tudo isto vai acarretar para os meus filhos e netos. Como eu gostava de estar enganado E que a frase de Friedrich Nietzsche:  “O que não me mata, torna-me mais forte”, pudesse aplicar-se neste caso.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

PRESIDENCIAIS DÚVIDAS E CERTEZAS

As próximas eleições presidenciais quanto à forma não trazem, aparentemente, nada de novo se comparado com as anteriores. De facto, apresentam-se a sufrágio dois tipos de candidatos: os que têm capacidade de convencer o eleitorado, quanto às suas ideias e princípios (Marcelo Rebelo de Sousa e Ana Gomes), e todos os outros que à partida sabem que nunca poderão discutir, taco a taco, com os dois anteriores (André Ventura, Tiago Mayan, João Ferreira e Marisa Matias) esta eleição. Não vão, contudo, deixar de aproveitar a oportunidade para mostrarem serviço, promover os partidos que os apoiam e o tempo e antena a que têm direito.

Assim temos duas realidades: uma que apenas quer fazer ruído, e outra de onde sairá o próximo inquilino de Belém. É sobre estes dois candidatos que interessa olhar com atenção já que, existem algumas certezas e muitas dúvidas sobre estas duas personalidades:

Marcelo Rebelo de Sousa – Tem feito um verdadeiro tabu a propósito da sua mais do que evidente recandidatura, por demais evidente que nela se tem empenhado, desde sempre, pelo mais evidente que nela se tem empenhado, desde sempre.Embora com estilo diferente, tem ombreado com André Ventura, no que ao populismo diz respeito. Marcelo foi e sempre será um homem da comunicação. Usa-a com elegância, e não perde uma oportunidade de aparecer: seja num Feira do Livro, seja num arraial, seja num enterro e, se não lhe pedirem uma selfie, ele próprio se oferece para a tirar. Tem sempre algo a dizer sobre tudo e mais alguma coisa, e perante algum problema, adopta um tom presidencial e diz “investigue-se tudo”, “que se apurem responsabilidades”, “doa a quem doer”, etc. Foi assim sobre os fogos de 2017, foi assim no caso Raríssimas, e foi assim também no roubo de Tancos. Pelo que se sabe, nenhum destes casos teve consequências, ou se apurou qualquer responsabilidade. Apesar disso, o nosso presidente continua na sua saga de espalhar afectos, numa tentativa de ser reeleito por um score superior ao de Mário Soares. O seu primeiro mandato foi muito cooperante com o governo de António Costa e com a esquerda caviar, responsável pela geringonça. Usa a sua autoridade ao sabor das suas preferências. Foi muito exigente com a DGS, relativamente à Festa do Avante, e não deu pela bagunçada existente na Feira do Livro, por onde passeou o seu charme e, nem mesmo nesta última peregrinação a Fátima se pronunciou. A sua ligação à família Espírito Santo, no passado e no presente, deixam-no perfeitamente confortável com a situação, o que revela alguma sobranceria.

Ana Gomes – Também nunca conseguiu esconder a sua intenção de se candidatar. É também uma personalidade que domina muito bem os segredos da comunicação. Com um estilo mais agressivo do que Marcelo, tem um passado político que fala por si. Abraça causas com um empenhamento fora do comum. Todos nos lembram dos seus combates sobre diversos casos: os aviões da CIA, Submarinos, a Corrupção no mundo do futebol, Isabel dos Santos, Rui Pinto. só para citar alguns. Com um estilo truculento e politicamente incorrecto, desperta facilmente, ódios e paixões. Apesar de ser uma figura que a esquerda aprecia e se revê, é também na esquerda que encontra os seus mais aguerridos detractores. O actual primeiro ministro é uma destas personalidades. Apesar de todos estas qualidades, há quem aponte as suas armas a esta candidata, por uma aparente indiferença com a Operação Marquês, pelas suas ligações ao Grupo Impresa e a George Soros, acusando-a de padecer de alguma bipolaridade. Se não houver uma segunda volta, irá contar, certamente, com a desistência de Marisa Matias a seu favor.

Com base nestes pressupostos, levantam-se algumas questões ao eleitor. Perante uma eventual vitória da Ana Gomes, como irão ser as relações institucionais entre estes dois órgãos de soberania, tendo em conta a incompatibilidade com o primeiro ministro? Há também quem veja a sua dificuldade num comportamento diplomático exigida a um presidente da presidência da República. A sua eleição vai depender e muito, do apoio que o PS lhe irá conferir, tendo em conta as profundas divergências existentes.

Se Marcelo não conseguir vencer á primeira, vai sentir enormes dificuldades. Mas matreiro como é, não vai estar desatento a todas as movimentações políticas. O apoio tácito de António Costa à sua reeleição, ainda não está claro se foi um benefício ou um presente envenenado. Marcelo vai continuar na sua campanha populista, tentando passar entre os pingos da chuva sem se comprometer com nada e com ninguém. Com o envolvimento de António Costa com a comissão de honra na reeleição do presidente do Benfica, vai lhe bastar fingir de morto. E isso ele faz como ninguém.

Considerando que o PS, como principal força política e com maior número de intenções de voto, não ter indicado um candidato próprio, vem ainda baralhar mais as dúvidas do eleitor. A este, e uma vez mais, vai ser chamado a escolher um mal menor, seja ele qual for. Claro que ainda vai correr muita água debaixo das pontes, mas é este cenário que vamos ter como ponto de partida.

 


segunda-feira, 7 de setembro de 2020

NO RESCALDO DA FESTA DO AVANTE

 

Apesar das muitas opiniões contra o PCP lá realizou a sua Festa do Avante. Eu próprio escrevi manifestando a minha oposição à realização deste evento, apenas por razões de equidade, relativamente a muitas outras situações iguais ou semelhantes. Isto determinou que eu tivesse sido mimoseado, com epítetos de anticomunismo primário, o que me merece apenas um simples sorriso. Tenho afirmado repetidamente o meu respeito pelo PCP, do que por outras forças políticas. Respeito por encontrar neste partido, e na maioria dos seus militantes muita coerência política, a sua fidelidade e a sua enorme capacidade mobilizzadora. Também temos que reconhecer o papel determinante que o PCP tem representado como elemento catalisador de uma oposição aos diversos governos. O que me separa desta ideologia, são aspectos muito mais práticos e objectivos. Não conheço qualquer lugar em que a prática comunista tivesse resultados reconhecidos no conforto e bem-estar da sua população, e que esta se sentisse completamente livre para fazer as suas opções. Pelo contrário, existe uma esquerda “caviar” que, essa sim, cultiva valores de puro e simples oportunismo político, e para a qual não tenho a mínima consideração.

Mas voltando à Festa do Avante, os princípios que orientaram a minha discordância são exactamente os mesmos relativamente a situações similares. Como por exemplo, um espectáculo no Campo Pequeno, da autoria de um cómico do regime(?), e à qual estiveram presentes o primeiro ministro e o presidente da República. Igualmente a Feira do Livro, recentemente realizada, também primou por uma ausência total de regras impostos a muitos outros eventos. Não podemos justificar um erro com outros de cariz semelhante, a minha oposição assenta no facto de qu,e o simples cidadão foi sempre sujeito aos sacrifícios, que não foram impostos a outras circunstâncias, como as atrás referidas. Foram sempre o elo mais fracos nesta cadeia de interesses.

Pelo que parece, o PCP mobilizou-se para que a sua Festa tivesse decorrido com o respeito pelas determinações da DGS para a sua realização. Disso eu nunca duvidei, embora me pareça que, por mais intenso que tenha sido o esforço, nunca terá sido possível garantir a sua total execução. Naturalmente que o número de participantes autorizado e o registado, nada tem a ver com os números apresentados inicialmente pelos comunistas. Estaremos a falar numa redução na casa dos 80%, o que também muda, substancialmente, os pressupostos iniciais. Pelo que se sabe até ao presente, não foi registado qualquer foco de contágio, e ainda bem.

Por tudo o que afirmei anteriormente, e pelo sucesso que os comunistas conseguiram com a sua Festa, quero publicamente, expressar o meu sentimento de exagero na análise e comentários que produzi.  Isto não significa que tenha renegado os princípios de equidade que defendi, mas apenas que o PCP e a sua organização conseguiram cumprir as regras impostas pela DGS. O mesmo já não se pode dizer de muitas outros eventos e organizações: Feira do Livros, encontro de jovens no Porto, o jantar do Chega, e muitas outras situações idênticas.

Se fosse possível fazer um balanço final ganhou o PCP pelo esforço no cumprimento de todas as exigências impostas. Estiveram mal a DGS pelas suas habituais hesitações e falta de planeamento e clareza para um problema global. Também não ficaram bem na fotografia Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Rio, pela forma pouco clara como defenderam as suas posições. Continuo a pensar que as exigências da DGS não é igual para todos e, ao permitiu ao PCP realizar a sua Festa, também deveria definir com clareza, as regras para a realização de muitas outras actividades, sociais, culturais desportivas e recreativas. Se isso não acontecer, fica sempre a noção de que existem dois pesos e duas medidas, consoante a pressão que cada sector tenha capacidade de fazer.

sábado, 29 de agosto de 2020

POBRES E MAL AGRADECIDOS

 

Esta nova normalidade, de normal não tem nada. Os acontecimentos sucedem-se a uma velocidade estonteante, que por vezes somos confrontados com o inesperado. Por isso, manda a prudência que todos os responsáveis consigam debruçar-se sobre os assuntos que têm em mãos, com a capacidade de projectar diferentes cenários. Só assim é possível dar a resposta mais adequada a cada situação em concreto.

Vem tudo isto a propósito do que se passou no aeroporto de Faro. Andamos durante uma data de tempo a dizer cobras e lagartos do afastamento do nosso país dos corredores aéreos impostos pelo Reino Unidol. Os argumentos foram muitos e variados, e na maior parte dos casos, com argumentação sustentada. Sabendo da importância que os súbditos de sua majestade representam para o turismo nacional, e em particular para as regiões do Algarve e da Madeira, o caso, apresentava-se aos olhos de todos nós como uma profunda injustiça. Na profunda crise que o país está mergulhado, e na importância das receitas do turismo para o equilíbrio das nossas finanças, quanto por mais tempo esta situação se mantivesse, maiores seriam as suas consequências nefastas.

Eis senão quando, esta situação foi finalmente desbloqueada pelas autoridades inglesas, aconteceu o impensável: as autoridades aeroportuárias, nomeadamente ANA e o SEF, não estavam preparados para fazer face a uma situação, mais do que previsível. Por uma simples conjectura, era fácil de imaginar que alguns turistas ingleses iriam aproveitar este fim de verão para visitarem este seu lugar de eleição, e que, depois do Brexit, teriam de ser submetidos à conferência dos passaportes. Por incúria, falta de planeamento, ou qualquer outra desculpa, assistiu-se àquele espectáculo indesculpável: seria impossível garantir o distanciamento social, com uma tão grande concentração de passageiros, para um tão reduzido número de agentes, segundo a imprensa apenas dois agentes para uma chegada de 18 aviões?!?!

Como habitualmente, remendou-se a situação em cima do joelho. Parece que já foram desenvolvidos esforços para se aumentar o número de agentes. Ou seja, estamos sempre a correr atrás do prejuízo. Para além da triste imagem que se dá do país, acresce o enorme risco sanitário, inerente a tão elevada concentração de pessoas naquele espaço.

Desconfio que, uma vez mais, a culpa vai morrer solteira.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

UMA FOTO DESFOCADA DE REGUENGOS

 Tinha prometido a mim mesmo não votar mais a este assunto. Não resisti pelos últimos desenvolvimentos. Porque se estremaram posições e onde o essencial, nunca foi levado em conta. Ou seja, todos os intervenientes defenderam os seus pontos de vistas, mas o que indignou e preocupa o vulgar cidadão, é a forma como as instituições, tratam os idosos indefesos. No caso de Reguengos, por tudo aquilo que se sabe(?), havia utentes que estavam desidratados, sem tratamento, e/ou sem o seu registo, em condições higiénicas deploráveis, e onde foram registados 18 óbitos.

Aparentemente todos os que, directa ou indirectamente estiveram envolvidos neste negro episódio, tentaram alijar responsabilidades, atirando para cima dos outros o ónus da questão. Se pudéssemos tirar uma fotografia de todo estes imbróglios iriam, certamente, aparecer desfocados todos os seus intervenientes.

Esteve mal a instituição por não ter, atempadamente desenvolvido todos os esforços para resolver, pelo que se sabe, uma situação degradante que se vivia naquele espaço. Esteve mal o presidente da câmara, que por inerência era presidente da fundação que geria o lar. Esteve mal a Segurança Social local na sua responsabilidade de tutela. Esteve mal a ARS local por ter permitido, ou ignorado que tal se tivesse verificado. O facto destes responsáveis terem uma ligação partidária ao PS, quero concluir que é uma mera coincidência. Noutros locais o emblema partidário será outro. Blog TURNO ZERO

Estiveram mal os médicos que se recusaram a prestar serviço no lar, se outra razão não houvesse, havia sempre o seu compromisso com o juramento de Hipócrates. Esteve mal a Ordem dos Médicos por ter extravasado, aparentemente, as suas competências, ao elaborar um relatório que não lhe competia.

Esteve mal a Ministra do Trabalho pela insensibilidade demonstrada, face aos dados constantes do tal relatório da OM e de mais outros três. Por haver alguma contradição sobre aquilo que era revelado nestes relatórios, mais se justificaria a preocupação da srª ministra. Se um relatório oficial (Segurança Social) foi entregue no ministério público, era importante, para total esclarecimento deste assunto, o seu conteúdo fosse tornado público.

Esteve mal António Costa ao dar total cobertura à sua ministra, que se desculpou invocando que as suas palavras estariam descontextualizadas. Em situações semelhantes, o desfecho foi outro!

Esteve mal o líder da oposição pelo evidente aproveitamento político deste triste acontecimento.

Esteve mal o sr. presidente da República, sempre pronto a comentar tudo e mais alguma coisa, pelo seu silêncio.

”Last but not the least” e nem por isso menos importante, esteve mal o Jornal Expresso, pela divulgação de um desabafo do 1º ministro numa situação “off record”, lançando assim, mais gasolina na fogueira. Esta violação da ética e deontologia jornalística, transforma este jornal de referência num sucedâneo de títulos como o Correio da Manhã, sobretudo quando o seu director é irmão do entrevistado. Imperdoável.

Pelo que se vê, nenhum dos intervenientes em toda esta novela cumpriram ou geriram, de melhor forma, as suas actuações, competências e responsabilidades. Não fosse o espectro dos 18 mortos, e de uns tantos idosos abandonados à sua sina, e que teimosamente estavam presentes e bem focados. Todos os outros figurantes, referidos apareceram na “fotografia” totalmente desfocados. É por isso lamentável que o que se passou naquele lar, tivesse sido relegado para um plano totalmente marginal, para dar evidência a tricas corporativas, políticas, partidárias, ou quaisquer outras. Se estamos todos a caminhar para a velhice, o quadro que observamos não é muito animador. Aqueles idosos foram neste caso o elo mais fraco, como se pode observar, e sobretudo feridos na sua dignidade, e isso não pode ser aceitável.

domingo, 23 de agosto de 2020

O DIRECTOR REGIONAL DE SAÚDE – TIAGO LOPES

O COVID 19, veio evidenciar uma realidade completamente nova na nossa vida colectiva. Era um desafio universal e desconhecido, e para a qual ninguém estava preparado. Todos os intervenientes no combate à pandemia, leia-se profissionais de saúde, tiveram um papel fundamental e determinante. Este esforço tem de ser entendido em duas vertentes fundamentais:

1 - Ouve necessidade de preparar as estruturas físicas para este desafio, bem como os profissionais que trataram de todos os que foram atingidos por este flagelo, com um uma dedicação e empenhamento, que ninguém pode esquecer.

2 – Outro aspecto determinante foi a necessidade de informar e esclarecer a população da evolução da pandemia, bem como as recomendações da forma como cada um podia contribuir e evitar a sua disseminação.

Como consequência disto, diariamente os responsáveis do SNS difundiam informação para alcançar este objectivo. Temos que convir que, no continente, nem sempre as coisas foram claras e objectivas. Todos nos lembramos da declarações erráticas e contraditórias de Marta Temido e de Graça Freitas. Há quem diga que se limitaram a seguir os pareceres da OMS. Mesmo que assim tenha sido, fizeram-no sempre aos avanços e recuos, da forma nervosa e autoritária e de indisfarçável submissão ao poder.

Contrastando com isto, o director regional de saúde da Região Autónoma dos Açores, Tiago Lopes, apareceu com uma abordagem muito serena, competente, pedagógica e objectiva, primando a sua actuação por um evidente domínio técnico, fazendo das suas conferências de imprensa, um momento por que todos os açorianos ansiosamente aguardavam. Enfrentou todas as situações de crise de forma rápida e assertiva. Não vacilou perante as dificuldades. Sobressai ainda o facto pouco comum, por se tratar de um enfermeiro a desempenhar aquelas funções. Provando-se assim que não são os títulos académicos que fazem os lugares. Ou seja, imperou o primado da meritocracia, infelizmente, muito arredado dos corredores do poder.

A sua popularidade granjeou a simpatia de todos, que de forma carinhosa o apelidaram de “Tiaguim”. A sua presença pautava-se sempre por um discurso, simples e acessível. Uma postura discreta e recatada, e um domínio da matéria acima dos seus congéneres continentais. A sua popularidade atingiu marcas de uma autêntica estrela nas redes sociais. Grupo de fãs de Tiago Lopes no Facebook foi criado no dia 5 de Abril e já tem mais 33 mil seguidores. [1]

Numa das muitas entrevistas que deu, afastou sempre a possibilidade de assumir um papel na política partidária. Eis senão quando, o vemos como segundo na lista de candidatos do PS, pela ilha Terceira às próximas eleições regionais. O que é que isso tem de extraordinário? Absolutamente nada! A incoerência nestas coisas da política banalizou-se de tal forma que nada disto nos deve admirar. Já a sua decisão de permitir uma tourada na Terceira logo depois de ter inviabilizado a realização, na data prevista, do Azores Rallye 2020, prova de prestígio internacional, levanta algumas dúvidas. Dois pesos e duas medidas, provavelmente. Veio ainda acicatar alguns bairrismos doentios entre estas duas ilhas. Não havia necessidade.

Vamos admitir que existem argumentos tecnicamente válidos para este tratamento diferenciado, Tiago Lopes, mudou. E mudou exactamente quendo decidiu entrar na política partidária. Trocou a imagem de profissional competente, determinado, corajoso; pelo do político submisso à vontade de um qualquer grupo de pressão. Com isto perdeu, pelo menos para alguns açorianos, o capital de confiança nele depositado. E na política o que parece, é!



[1] "George Clooney dos Açores" DN

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O LAR DE REGUENGOS - UMA VERGONHA

 Ana Mendes Godinho: Dimensão dos surtos em lares não é demasiado ...

Os dados mais recentes deixam-nos alguma perplexidade. Os recentes casos relacionados com os cãos do João Moura e do canil clandestino em Santo Tirso, devem causar-nos a todos uma enorme repulsa, porque casos daqueles não deviam existir. Mais, os responsáveis directos e indirectos, por tais situações deviam ser judicialmente responsabilizados. A Comunicação Social, não deixou passar o acontecimento em vão, chegando mesmo a mostrar­ imagens de uma violência, perfeitamente escusada.

Durante este período de pandemia veio à tona uma realidade, no que aos lares de idosos diz respeito, muitas situações que nos devia envergonhar a todos pelo retrocesso civilizacional que evidencia. Para além da situação de clandestinidade revelada em muitos destes “lares”, com aparente conhecimento das autoridades de tutela, e da comunicação social, que passou por estes episódios com um inconcebível distanciamento, e sem nunca se atrever a por o dedo na ferida. Ou seja, não quis ir ao fundo da questão e dar-lhe o tratamento jornalístico que tais situações mereciam. Não com a finalidade de apontar culpados, mas desenvolver um esclarecimento sobre a causas porque tal acontece e responsabilizar, quem devia ter feito mais e melhor. Muitos destes responsáveis lutam com inúmeras dificuldades e só com muito sacrifício e abnegação conseguem ter as coisas a funcionar. Acontece, que em muitos casos que funcionar, é isso mesmo e nada mais do que isso. O cumprimento de rotinas diárias, em que a preocupação com o bem-estar e a dignidade dos utentes, é uma mera figura de retórica.

Sou de uma geração que foi ensinada a respeitar o idoso, por ser um depositário do conhecimento da vida e de ensinamentos que todos muito respeitavam. Eram acolhidos no seio da família e por ela acarinhados e tratados. Temos que reconhecer que nos dias de hoje, pela intensidade do envolvimento profissional, o acolhimento de um idoso na casa da família, revela-se muito difícil e mesmo pouco saudável para a pessoa idosa, pelo isolamento e solidão que estaria votado a maior parte do dia.

Por isso, o papel e a acção das organizações votadas para tal efeito, deviam ser monitorizadas e acompanhadas com uma frequência muito mais apertada. Para alem das condições físicas e funcionais, a preocupação e o respeito pela dignidade do idoso, devia representar a principal preocupação de quem tem essa responsabilidade: os profissionais destes lares e dos responsáveis da supervisão. A realidade, porém, mostra um cenário muto diferente. São muitos os “lares” que funcionam e vãos de escada, de forma clandestina, mas nem por isso desconhecida. Muitas pessoas, por limitações financeiras, não lhes restam outra alternativa.

O que aconteceu no lar de Reguengos de Monsaraz, onde um surto de covid-19 provocou a morte de 18 pessoas, é disso um lamentável exemplo. Idosos doentes, desidratados, e sem registo da medicação, impossibilidade de garantir o distanciamento social, falta de pessoal, são apenas algumas das falhas encontradas. Segundo este mesmo relatório, muitas eram as falhas observadas, e perante tal situação, a ministra Ana Mendes Godinho, responsável pelo ministério que tutela esta actividade, limita-se a dizer que “a dimensão dos surtos nos lares não é demasiado grande”, “a notícia foi descontextualizada de forma grave”, Reguengos é um dos surtos que tivemos. A minha preocupação tem de ser estrutural.”. Ou seja, para a senhora ministra, a morte de 18 pessoas, numa instituição da sua supervisão, é apenas um número no panorama nacional.

Eu tenho 74 anos, não sei o que o destino me reserva. A probabilidade de ter que recorrer a uma destas instituições pode ser uma realidade dentro em pouco. Não temo ir para um lar. O que me preocupa é, que perante uma situação semelhante à de Reguengos, alguém com responsabilidade, se limite a lavar as mãos como Pilatos. Pela entrevista da senhora ministra, qualquer pessoa na minha situação pode ficar descansada, estas mortes, globalmente, são apenas um detalhe sem importância.

Pior ainda, é que se ouve apontar responsabilidades à Ordem dos Médicos, por não ser essa a sua função. Aos órgãos de comunicação social, pelos termos empregues nos cabeçalhos, mais aos lares que não respeitaram as regras definidas para o exercício da actividade, como se a morte de 18 idosos fosse um mero detalhe.

Triste sina esta de ser idoso em Portugal, aqui e agora.

 

 

 

sábado, 8 de agosto de 2020

JOÃO GALAMBA – UM ELEFANTE NUMA LOJA DE CRISTAIS

 

O ministro João Galamba, está para o PS, como aqueles cães minúsculos, que ladram por tudo e por nada, mesmo contra a vontade dos donos. No entanto, consciente da sua dimensão ladram muito e muito alto, mas não têm arcaboiço para se aventurarem em ir mais além!. Vem isto a propósito dos seus comentários relativamente às opiniões expressas por um catedrático, e com larga experiência em questões de Energia. A sua intervenção dá-se no âmbito de uma entrevista a um órgão de comunicação e onde contrariou as benesses da opção nacional pelo hidrogénio. Nunca foi insultuoso, embora defendesse com veemência os seus pontos de vistas, bem com as suas divergências, relativamente às questões relacionadas com o Hidrogénio. Como técnico foi muito pragmático, objectivo e assertivo, na demonstração da sua posição e nunca foi “politicamente correcto”, o que é algo que a mim me agrada. O seu discurso nunca foi incorrecto ou vulgar, apesar de ter denunciado, sem rodeios, aquilo que ele considera ser um investimento perigoso, mais pela sua dimensão, do que pela sua oportunidade.

Quanto à intervenção de João Galamba foi digna da conversa de taberna, que me perdoem os taberneiros. Revelou um grande incómodo e nervosismo ao afirmar: “É um aldrabão e um mentiroso do pior. Não há outra forma de descrever esse cavalheiro”.  Só fala assim quem não está seguro das suas opções, ou não dispõe de argumentos sólidos para as rebater. O PS viu-se livre de outros dos seus correligionários, por muito menos – Manuel Pinho e João Soares, são disso exemplo. João Galamba tem o mesmo direito em refutar as opiniões de um especialista reconhecido, quanto este tem a defender as suas convicções. João Galamba, em vez de refutar cada uma das afirmações do professor Clemente Pedro Nunes.

Por alguma experiência acumulado em Mecanização Agrícola, estou convencido que o hidrogénio vai ser o combustível do futuro. Também penso, pela informação de que disponho, que esse futuro é ainda muito longínquo. Há algumas experiências feitas por muitos fabricantes de máquinas agrícolas a este respeito, mas nada de concreto se vislumbra no curto e médio prazo.

Relativamente a este respeito, e como cidadão eleitor, merece-me algumas considerações. A primeira prende-se com o individuo em causa. Tem habitualmente uma atitude truculenta, arrogante e desbocada, o que me desagrada em qualquer político. Se nos lembrarmos que é vulgarmente aceite que João Galamba é considerado um delfim do engº Sócrates, que ele nunca renegou. Se pensarmos nos montantes envolvidos neste projecto gigantesco, deixa-me algumas dúvidas quanto á “apetência” de convidar uma série de amigos para dividirem o bolo. Lembra-me o caso da exploração do Lítio e de alguns outros?

Não disponho de informação técnica que me permita corroborar da justeza dos argumentos do professor. Mas como português, enoja-me que um representante da nação, se permita insultar quem quer que seja, a seu belo prazer, mesmo que a razão lhe assista, que não me parece ser o caso. Os políticos, ao assumirem os cargos que ocupam, devem primar por estarem à altura dos cargos que ocupam. Têm que ter uma postura convincente, correcta e educada. Se não conseguem, talvez o melhor lugar para se pronunciarem, seja mesmo a taberna.

“À mulher de César não lhe basta ser séria…”.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

FESTA O AVANTE – PRIVILÉGIO DE ALGUNS

 Por norma procuro evitar a frequência de locais com grandes aglomerações de gente, apenas porque me incomoda. A única excepção são algumas, poucas, Feiras ou encontros de cariz profissional, e mesmo assim, optava pelas horas menos populares. No entanto, nada tenho por quem goste de participar em eventos, sejam de caracter social, político ou religioso. É exactamente por isto que aceito, com a maior naturalidade, todas as organizações político-partidárias, sejam elas: a Festa do Avante, a Festa do Pontal, sejam os Estado Gerais, Festa do Verão, Universidades de Verão e outros quejandos. Tal como nas religiões, os seus patrocinadores necessitam de vender o seu “produto” e os “fiéis”, parecem ansiosos por participar nestas liturgias, como forma de alcançar o Paraíso, creio eu…. Não fazem o sinal da cruz, mas põem a mãozinha no ar, e/ou os dedos em sinal de vitória.

Se isto não fosse suficiente, os 46 anos de Democracia, transformaram os partidos políticos e as suas estratégias em organizações pouco confiáveis. Já sei que o velho argumento de que a democracia é feita na óptica da existência de partidos políticos, mas eu recuso-me contribuir para este peditório. Tão somente porque os protagonistas destas organizações, contribuíram para estado em que este país se encontra. Senão vejamos: 3 bancarrotas, o cidadão ter que suportar os desmandos de uma série de banqueiros corruptos, o estado a que se encontra a nossa justiça; esquemas de favorecimento ilícito, a quantidade de políticos indiciados e condenados em inúmeros casos de corrupção, vergonhosas nomeações de familiares e amigos, etc.

Na minha cabeça, e na cabeça de muitos portugueses, causa alguma perplexidade, que em plena Pandemia, a passividade que as autoridades de saúde têm revelado no que diz a iniciativas da esquerda radical – as manifestações do 1º de Maio e a organização da Festa do Avante. Isto acontece numa altura em que o cidadão comum é aconselhado a praticar um confinamento voluntário, a praticar o distanciamento social, entre outras. Neste período os funerais não podem ter mais do que 20 pessoas, o futebol e outras modalidades, são praticado à porta fechada; os feirantes foram  impedidos de realizar o seu trabalho; os noivos não podem organizar a boda com que sonharam; as escolas estão fechadas, os bares e discotecas, fecham às 20.00 horas; nos estabelecimentos comerciais só é permitida a presença de um reduzidíssimo número de pessoas; se permita ao PCP a organização da sua Festa do Avante, com números que apontam para a presença de 100.000 pessoas.

Vamos por hipótese imaginar que o PCP irá respeitar os distanciamentos sociais recomendados pela DGS, e que cada participante ocupe uma área de 1 m2, e se o número de pessoas se mantiver, iria ser necessário a dispersão das actividades políticas, musicais, culturais, de restauração, por um perímetro de 10 hectares. Alguém acredita nesta possibilidade? Eu não.

Então porque razão o PCP, beneficia de tal regime de excepção? Já a isenção de pagamento de IVA e de IMI às organizações partidárias revolta muitos portugueses, porque razão então que se criou esta regime de excepcionalidade para esta força política? Só encontro uma explicação, o PCP tem António Costa preso pelos “tintins” por forma a viabilizar mais esta legislatura e tudo o que para aí vem.

Em conclusão, a realização da Festa do Avante é um privilégio inadmissível e inaceitável, face aos sacrifícios a que temos sido votados pela Pandemia. Se a polícia impede uma festa de estudantes numa praia, que argumentos existem para se permitir que 100.000 se juntem informalmente, por mais nobres que sejam as razões subjacentes.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

INCÊNDIOS FLORESTAIS – O NEGÓCIO DO FOGO

Estamos em plena época dos incêndios florestais, e a propósito das opiniões de muitos “especialistas”, lembrei-me de uma afirmação de um amigo (engº silvicultor e com larga experiência neste domínio) ter afirmado num debate sobre esta matéria: “enquanto se ganhar dinheiro a apagar fogos florestais, estes nunca irão acabar”, o que causou um grande  desconforto no painel que dirigia os trabalhos. Embora tenha alguma proximidade ao sector florestal, não queria fazer esta reflexão numa base técnica, e muito menos científica. Gostava de reflectir na óptica do cidadão comum, que olha para o panorama como se de uma maldição se tratasse. Será tudo menos isso. E a intervenção deste meu amigo continua a fazer todo o sentido, pelo menos para mim, e para muito mais gente.


1Fonte: ANPC

Pela observação dos quadros anteriores pode concluir-se que o panorama não é animador e revela uma tendência de aumento. Arranjam-se milhentas explicações, na maioria dos casos pouco convincentes, para justificar as ocorrências. Se recuarmos 50/60anos, para não se recuar mais no tempo, fácil será concluir que a estrutura de combate aos incêndios florestais existente na altura, era menos profissional, muito mais mal equipada. Não havia uma estrutura de planeamento, gestão e controle em emergência (Protecção Civil), como há hoje. Não havia o SIRESP de má memória. A estrutura de Sapadores Florestais, era também inexistente na altura (absolutamente indispensável).  Os meios de vigilância e detecção eram em muito menor número, e menos sofisticados. O ordenamento da floresta, era apenas um projecto em desenvolvimento e também não pode justificar tudo (ex: o recente incêndio do Pinhal de Leiria). Os meios aéreos disponíveis na altura, eram muto menos numerosos e de menor capacidade de intervenção. A dificuldade no combate, e que se prendem com a topografia, não poderá ser aceite como uma desculpa, porque ela não se alterou. Os normativos compulsivos dos operadores florestais na limpeza dos matos, é uma norma muito recente e penalizadora para pequenos proprietários.

As razões das ignições não eram muito diferentes das de hoje: ou era fogo posto, ou eram razões climáticas. As motivações sobre o fogo posto, os principais visados eram: as celuloses e os madeireiros. Este argumento, hoje faz muito menos sentido. Quanto às questões de ordem climatológicas, e apesar das alterações climáticas, não explicarem tudo, estas não serão assim tão diferentes das que se observam no passado.

Apesar de tudo isto, havia muito menos fogos daquilo que se verificam actualmente. Os dados mais recentes verificamos que apresentam uma tendência de subida, quer no número de ignições quer na área ardida. E a dúvida instala-se: com mais meios, mais formação, e uma estrutura de comando centralizada e dedicada, porque arde Portugal? O caso de Pedrogão é, deste ponto de vista, paradigmático. Houve condições meteorológicas adversas e excepcionais, mas também se verificou uma inexplicável (?) incompetência na gestão da emergência. Os serviços da Protecção Civil tinham muitos dos seus quadros, gente recentemente formada e sem qualquer experiência operacional. O resultado foi o que foi.

Temos que ter o pragmatismo suficiente para entender a inevitabilidade dos incêndios florestais em Portugal. Mais difícil é encontrar justificações que expliquem o gigantismo dos números associados, se comparados com outras realidades muito semelhantes, como é o caso da vizinha Espanha. Todos os “especialistas”, referem que os incêndios florestais combatem-se no período de Inverno, o que corresponde a um princípio indiscutível. Por isso, fica a pergunta: porque ardem as nossas florestas com esta magnitude? E lembro-me da afirmação do meu amigo. Ou seja, há muita gente a ganhar dinheiro em apagar os fogos! A maior parte dos recursos financeiros é aplicado no combate, em detrimento da Prevenção. Até se fala num Cartel do Fogo. Se não vejamos:

O SIRESP foi um investimento monumental e os resultados operacionais, têm sido desastrosos.

Os contractos dos meios aéreos, são pouco transparentes e as opções são no mínimo, suspeitas, como o caso dos KAMOV’s. Muita gente se questiona, por que razão a gestão e operação dos meios aéreos não-ser uma responsabilidade da FAP?

A promiscuidade entre empresas de venda de equipamentos de combate e alguns elementos de corpos de operacionais de bombeiros é uma realidade que ninguém parece querer investigar.

Porque não criar uma força de Sapadores Florestais distribuída e dimensionada para a nossa realidade florestal.

Muitos políticos ficam muito incomodados, quando lhes perguntam: se os privados conseguem salvar a floresta porque é que o Estado não o faz? “Há em Portugal modelos alternativos de prevenção e combate aos incêndios. Esta é a história da aldeia que comprou fardas e viaturas para combater ela própria as chamas quando a ajuda tarda, dos corpos privativos que guardam fábricas e eucaliptais das empresas de celulose, da corporação de sapadores criada de propósito para defender o maior tesouro natural do país. E da máxima que todos repetem sem cessar: o investimento compensa.”[1]

É preciso que este investimento seja aplicado, maioritariamente, na PREVENÇÃO. Que a celebração dos contractos de meios de combate sejam mais transparentes e fiscalizadas por organismo independente. Que a justiça seja célere e implacável, nos casos de fogo posto; mas muito mais contundente nos negócios duvidosos, que envolvem compras e manutenção de equipamentos, bem como nas contratações dos meios aéreos. Que haja um maior protagonismo dos técnicos florestais e dos sapadores. São eles que conhecem a floresta e com ela convivem em permanência. Nas contratações dos responsáveis pelos organismo de operações, tenham que demonstrar capacidade e experiência operacional, e não apenas formação académica.

Como se pode concluir, não é preciso fazer-se muito mais. È preciso é fazer melhor. È preciso é que haja uma vontade de resolver este flagelo, alocar para este desígnio os mais capazes e competentes, a transparência em todas as acções necessárias e que possam ser entendidas como duvidosas. Caso contrário, faz todo o sentido concluir-se que: há muita gente a ganhar muito dinheiro a apagar fogos florestais!



[1] Notícias Magazine


sábado, 25 de julho de 2020

A SUSPENSÃO DOS DEBATES QUINZENAIS


A sugestão de Rui Rio em suspender os debates quinzenais do governo no Parlamento, só pode ser considerada uma ideia peregrina. A periodicidade passa a ser mais alargada e até com a dispensa da presença do 1º ministro, em algumas situações. Mais peregrina ainda, se levarmos em linha de conta que este governo tem tido um percurso descansado no que à oposição parlamentar diz respeito. A esquerda, apesar dos muito inflamados discursos, acaba sempre por lhe dar o seu aval naquilo que é mais importante para um governo, a aprovação do seu orçamento. Quanto à direita, encontra-se ofegante, moribunda e desaparecida em combate. As únicas voes que se fazem ouvir com algum ruído, é o Chega com um discurso populista e assente situações factuais, mas sem uma visão de conjunto para o país. O Iniciativa Liberal tem um discurso criativo e coerente, mas representa a voz de um homem só e isolado.
Mas pior do que isto tudo o que disse Rui Rio, é o argumento de que o 1º ministro preciso de tempo para trabalhar e que os debates parlamentares acabam por se tornarem monótonos e repetitivo. Se não fosse patética e ridícula uma afirmação destas, seria certamente para chorar. O papel do chefe do governo é liderar uma equipa, bastante numerosa é certo, mas foi a sua escolha; e prestar contas no Parlamento do trabalho e opções do seu gabinete. À oposição cabe-lhe apenas a tarefa de fazer o seu trabalho que, é ser oposição. A não ser que isso dê muito trabalho!
Por outro lado, a imagem que transparece dos nossos parlamentares, mesmo que injusta, é de que trabalham pouco, têm uma série de assessores, com a responsabilidade de lhes prepararem e aconselharem nas mais diversas áreas em discussão, para as suas intervenções e participação. Acabando este tipo de debates, os membros do parlamento, pode invocar-se que, agora sim, irão ter muito menos trabalho. Para além disso, os debates parlamentares com o 1º ministro, eram também uma forma dos portugueses e eleitores, formarem a sua opinião, sobre o que se passa e que opções são apresentadas para cada uma das forças representadas no Parlamento.
A solução encontrada para este diálogo, é par(a) lamentar.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

IMORALIDADE


IMORALIDADE

Por convicção sou um defensor da iniciativa privada. Por isso entendo que existem, em todos os sectores de actividade, riscos do negócio que são inerentes à própria actividade.
Sou também adepto de que, face a dificuldades do negócio, não deve ser o dinheiro dos contribuintes a resolver os problemas da actividade privada. Não porque, em determinadas circunstâncias, isso não possa ser equacionado, mas pelo indisfarçável, conflito de interesses que isso pode encobrir.
Quando o governo decidiu apoiar a comunicação social face a excepcionalidade do momento pandémico que atravessamos, e apesar de não concordar com a particularidade de tal apoio seja concedido a um sector de actividade em concreto, uma vez que o efeito da pandemia é transversal, aceitei com a naturalidade possível, tendo em conta as condições específicas do sector. As condições são um grande número de profissionais, a maioria, desconhecidos, estagiários e tarefeiros, com salários de miséria. E trabalho sem horários. Existe, porém, uma outra realidade que tem a ver com alguns nomes sonantes, sobretudo nas televisões, que auferem ordenados milionários, maioritariamente pela popularidade de que gozam junto do público e muito pouco, pela qualidade do trabalho apresentado.
O apoio do Estado, na ordem dos 15 milhões de euros, contempla os dois grupos envolvidos neste negócio galáctico com: Impresa com 3.491.520,32 euros e a Media Capital 3.342.532,88 euros.
Cristina Ferreira e as recentes movimentações entre os dois principais grupos de comunicação, representa muito bem este paradigma. Considero-a uma péssima comunicadora, mas tenho de admitir, que se trata de uma refinada, e excelente mulher de negócio. Ou seja, a sua transferência deve ter sido uma excelente oportunidade de negócio, que ela não deixou fugir. Isto não tem nada de imoral, tendo em conta tratar-se de uma profissional liberal que faz as suas opções de carreira. Não existe é nenhuma garantia de que a ajuda do estado, nomeadamente os  não seja utilizada na resolução desta transferência, o que é uma imoralidade! Espero que o aval concedido pelo estado, tenha salvaguardado algumas condicionalidades. Imoral é também o aparente silêncio da ERC, quando tem um problema contra-ordenacional com a Média Capital, perante esta situação-
Imoral é utilização de dinheiros públicos (dos contribuintes), na resolução de um problema que afecta toda a sociedade. Imoral é admitir que este sector passe maiores dificuldades do que outros sectores, como: turismo, restauração, comércio retalhista, agricultura, pescas.
Imoral é, por exemplo, o completo e injusto abandono dos profissionais de saúde, que deram todo o seu melhor e que este esforço, não seja igualmente recompensado. Imoral é que este apoio não tivesse contemplado também todos os pensionistas, muito especialmente aqueles de mais baixos rendimentos. E todos os que se viram empurrados para o lay off ou desemprego.
Não está em causa a contratação da dita senhora. São as leis do mercado a funcionar. O que está em causa é que a ajuda de todos os contribuintes, não salvaguarde a garantia de que os montantes envolvidos, como ajuda social possa ser utilizado para outras finalidades, como por exemplo, suportar ordenados milionários, de um reduzido número de profissionais, em pé de igualdade com todos os outros – os mais necessitados.
Estamos fartos de continuar a alimentar empresas falidas. A forma como se utiliza o dinheiro de todos nós, tem que merecer muito mais cuidado e atenção. Como agora se diz, tem de haver muito mais “FRUGALIDADE”, não basta lançar dinheiro sobre os problemas.

terça-feira, 9 de junho de 2020

O COVID 19 PASSADOS 3 MESES – SERÁ QUE TUDO CORREU BEM?


Esta Pandemia entrou-nos porta adentro, sem que ninguém esperasse, e, pior do que isso, estivesse preparado para um combate convenientemente preparado, para uma solução eficaz.
As autoridades nacionais no domínio da saúde, adoptaram uma estratégia de concentrar todos os recursos, na luta contra esta terrível enfermidade que a todos nos afectou, e para a qual ninguém na verdade, conhecia a panaceia certa para o seu controlo. Isto traduziu-se por concentrar todos os recursos hospitalares na resolução desta nova realidade. Esta solução, como primeira forma de atacar o problema parece-nos acertada. No entanto, é bom não esquecer que a estrutura hospitalar que nós temos, bem como o seu funcionamento apresentava indisfarçáveis fragilidades: os atrasos nas listas de espera; os conflitos com os profissionais de saúde; os doentes em macas pelos corredores; as dívidas a fornecedores, são apenas algumas delas. Ou seja, se a justificação para um ataque musculado à pandemia é compreensível, era conveniente não esquecer que todas as outras patologias não podiam ficar esquecidas, e ficaram por demasiado tempo. Dito por outras palavras, se o combate inicial foi forte, adequado e com resultados evidentes positivos; por outro lado, são conhecidas a forma como foram esquecidos todos os outros doentes com patologias graves e que requeriam uma atenção muito especial. Se as consequências desta acção nos doentes com COVID 19 foi exaustivamente propalada em briefings diários, aparentemente, sobre a evolução das patologias de todos os outros doentes, muito pouco ou nada se sabe.
A forma insistente como as autoridades de saúde e OCS trataram esta pandemia, foram determinantes na contenção do surto, que todos falavam que poderia ter resultados mais devastadores do que aquilo que, felizmente, se veio a verificar. O confinamento, as medidas de afastamento social e de higiene pessoal foram a chave mestra do sucesso do ataque inicial.
Mas será que tudo isto foi a solução mais adequada? Passada esta distância temporal, e com o conhecimento que vamos tendo de diversas situações ocorridas, parece-nos bem que não. Das declarações erráticas e contraditórias da ministra e secretária geral da saúde, à forma tardia e atabalhoada como os lares, os idosos e respectivos agentes operacionais foram testados, revelou que com uma estratégia mais adequada as coisas poderiam ter corrido bem melhor. O surgimento de um novo foco na cintura industrial da Azambuja, revela que muito pouco se fez preventivamente para evitar que, aquela enorme concentração de pessoas não determinasse a tomada de medidas antecipadas (desfasamento de horários, transportes alternativos, despiste de contaminados) com vista ao eficaz controlo da pandemia, como até aqui tinha acontecido. Coincidência ou não, tudo isto acontece precisamente no momento em que se procede ao desconfinamento. Eu penso que não. O prolema existiu porque as medidas preventivas não foram adequadas ou não foram implementadas em tempo oportuno.
Tenho duas patologias que fazem de mim um doente de risco. Por isso, cumpri convictamente, todas as recomendações das autoridades sanitárias. A mensagem que passou, era a que se imponha. Já a forma como ela foi veiculada, foi de amedrontar as pessoas. E, se bem que entenda os propósitos, os resultados são tudo menos animadores. Todas estas medidas de confinamento tiveram um resultado desastroso e imprevisível na nossa economia. A nossa capacidade de recuperação vai depender de um conjunto alargado de factores, muitos dos quais não conseguimos controlar.
A decisão quanto ao desconfinamento, foi do nosso ponto de vista, tardia e atabalhoada. Pior do que isto tudo é a total ausência critérios objectivos para o desconfinamento. Proíbe-se os ajuntamentos nas missas, funerais, cinemas, ginásios, recintos e actividades, desportivos, cafés, restaurantes, escolas, praias, manifestações de caracter religioso ou social, feiras e mercados tradicionais, etc. Por outro permite-se comícios, manifestações e celebrações sindicais e concertos, sem que os critérios, subjacentes ao confinamento, sejam cumpridos. Se a melhor estratégia de combate ao vírus assenta no afastamento social, não se entende que neste caso tenha havido, dois pesos e duas medidas. Se todas estas medidas adoptadas assentam numa decisão política do governo, e com toda a legitimidade, não se compreende a diferença de critérios adoptado. As permissões concedidas foram todas para iniciativas da esquerda. Será que António Costa, por alguma razão “desconhecida” está refém dessa esquerda? Será que as hesitantes tomadas de posição de Marcelo Rebelo de Sousa, não apontam no mesmo sentido?
A mim impuseram-me um confinamento cerca de 3 meses, ao qual acedi com total compreensão. Aceito que por razões de segurança sanitária, possam ser impostas algumas ilimitações. Já me custa mais aceitar dualidades de critério em situações, que basicamente, são iguais entre si. Se outras razões não houvessem, impunha-se algum respeito pelo trabalho e o risco que tiveram os profissionais da saúde e de todas as forças envolvidas na contenção inicial do surto.