O ano que todos estamos a viver(?) revelou-se de uma crueza tal, que pôs em causa, tudo aquilo que podíamos imaginar pudesse atribular-nos a vida. Provavelmente não estávamos preparados para vivenciar uma pandemia com esta dimensão. Quando nos pomos a imaginar um ser vivo de dimensões microscópicas, que pode ser vencido com uma simples saponária, pudesse ter um impacto de tal ordem que abalasse as vidas de todo e qualquer ser humano, independentemente do seu estatuto social, da sua robustez física ou de qualquer outra característica que possamos imaginar, seria algo impensável.
“Dos fracos não reza a história!”
Mas esta história provou-nos que todos somos fracos, incapazes de um combate
cara a cara com este inimigo por mais coragem que tenhamos. A melhor atitude
que podemos usar nesta luta é: o isolamento físico, o confinamento social e
meia dúzia de vulgares medidas de ordem sanitária. Com tudo isto tornamo-nos
autênticos pássaros engaiolados, que quando lhes abrem a porta têm receio de
sair, porque a liberdade do exterior é muito mais perigosa do que as grades que
nos prendem.
O simples facto de que, cada um
de nós pode ser um portador assintomático, impõe-nos o dever de consciência de
evitar todo e qualquer tipo de proximidade com aqueles que nos são próximos.
Isto interfere directamente com a nossa necessidade de socialização. Separa famílias, amigos, colegas de trabalho e
demais relacionamentos. Se isto para um cidadão comum, com uma estrutura familiar
normal já é muito complicado, fácil é concluir que para a população mais idosa,
vivendo, muitas vezes, em condições de objectiva solidão, o caso toma
proporções bem mais assustadoras.
As autoridades sanitárias, pesem
embora as muitas e inaceitáveis contradições, estabeleceram medidas indispensáveis
e rigorosas na fase inicial da pandemia, através de um combate musculado. Numa
fase posterior, muitas dessas decisões foram tomadas, a reboque dos acontecimentos
e com decisões iguais no tratamento de situações diferentes, e decisões diferentes
para acontecimentos semelhantes. Muito se falou na segunda fase, mas pelos
visto, ela apareceu sem que um planeamento eficaz tivesse sido preparado com
alguma coerência.
Se é certo que, pelo menos numa fase inicial, ninguém
estaria preparado para lutar com um inimigo desconhecido, muito mais podia ter
sido feito e preparado, para esta segunda vaga. Sempre que sobre este quadro
nos questionamos, nasce a ambígua circunstância de que, por um lado a lei
obriga-nos a ficar em casa, a recolher obrigatório, a cercas sanitárias, à
proibição de saída do concelho, mas por outro, deixam ao livre arbítrio de cada
um, a toma da vacina - a mais aguardada e eficaz panaceia de combate a esta
pandemia. Pior do que isso, é que muitas das vítimas que recorreram aos cuidados
de saúde, se viram privados da companhia, do carinho e do apoio dos familiares,
por demasiado tempo. Muitos deles, acabaram os seus dias, isolados numa cama de
hospital, de uma forma solitária e pouco digna. O sofrimento que isto pode
provocar aos entes queridos, irá certamente ter repercussões que ninguém poderá
imaginar,
Uma característica do ser humano
é a sua iminente necessidade dos relacionamentos. São em primeiro lugar, entre
os membros do agregado familiar, do grupo de amigos próximos, e todos com quem
partilhamos relações de proximidade. E foi isso que a pandemia nos tem impedido
de realizar. A celebrações tradicionais, os aniversários, os casamentos e, até
mesmo os funerais só são permitidos a um restrito número de acompanhantes. Os
encontros de amigos foram-nos de todo vedados e, mesmo em situações fortuitas,
há que garantir um certo distanciamento social.
Se o ano de 2020 trouxe a cada um
de nós uma série de desagradáveis surpresas, os tempos que se aproximam, não nos
vão trazer melhores dias. Se, como esperamos, a vacinação pode representar uma
réstia de esperança no controlo sanitário, a crise social que, fatalmente, nos
irás atingir, poderá ter consequências que irão perdurar por muitos e muitos
anos. Para além disso, as relações sociais, como até aqui as entendíamos, seja
por receio ou por obrigação de consciência, nunca mais irão ser as mesmas.
Sou um optimista por natureza e
convicção, mas não consigo subscrever a teoria que “tudo vai ficar bem.”
Não! Nada irá ficar como dantes. Este problema não é um problema nacional. Ele
estende-se a nível universal. Um país com graves assimetrias sociais, com uma
enorme dependência externa, assolado com graves problemas internos, vai ter
muitas dificuldades em resolver todos estes dilemas em tempo útil. O
politicamente correcto recomenda-nos uma adaptação ao “novo normal”. Gostava
muito de estar enganado e que, rapidamente, pudéssemos voltar à normalidade de que
estávamos habituados. Receio bem que não.










