Não sou um especialista em nenhuma disciplina das áreas da sociologia, nem com este meu escrito pretendo ir por aí. Como cidadão não fico indiferente aos fenómenos do populismo, e sinto necessidade de reflectir e, tentar perceber as causas que determinam o crescimento deste fenómeno nas sociedades democráticas. Naturalmente que esta situação carece de estudo especializado, mas também é lícito perceber que qualquer pessoa consciente, olha para ele e retira as ilações que a sua consciência encontra.
Os recentes resultados alcançados
por André Ventura nestas últimas eleições presidenciais, vieram, uma vez mais,
por a claro que, as forças políticas desvalorizaram a sua capacidade de
intervenção no confronto político recorrendo, invariavelmente, em classifica-lo
de fascista, xenófobo, racista, populistas, etc. Com isto não significa que
estes atributos não assentem como uma luva neste candidato, porque é este o
terreno onde ele melhor se sente. Esta confrontação a que André recorre e que
leva os seus opositores a cair na armadilha, lembra-me este dito popular: “nuca
lutes com um porco: tu vais ficar todo sujo e o porco vai adorar”. Por
exemplo, quando André Ventura afirma se não conseguir o 2º à frente de Ana
Gomes, se demite, fácil é deduzir que esta conversa mais não é do que um golpe
de teatro, ao qual ele nunca pensou dar cumprimento, como se viu, mas a que
muito boa gente não se cansou de invocar.
O populismo não é fenómeno exclusivamente
português. Ele grassa um pouco por todo o lado e, no caso português, não é um
exclusivo de André Ventura. Nesta última campanha eleitoral, Ana Gomes e
Marcelo Rebelo de Sousa, também não se coibiram de recorrer a um discurso
populista, para fazerem passar as suas mensagens. As diferenças são mais da
forma do que no estilo do discurso. Mas André Ventura conseguiu alcançar cerca
de 500 000 votos e, certamente, os portugueses que nele votaram não são todos:
fascista, xenófobo, racista e populistas. É preciso tentar perceber o que leva
meio milhão de portugueses a aceitar como boas as propostas de André Ventura e
do partido que o suporta. Há quem diga que ele apenas fala sobre aquilo que os
portugueses reconhecem como uma falha do sistema político-partidário que os
afecta negativamente. É necessário, por isso, ir ao fundo das questões que
estão na base desse descontentamento. Equacioná-las e propor soluções que não
penalizem como habitualmente sempre os mesmos.
As ideias do CHEGA e do seu
líder, assentam em questões factuais sobre as quais os poderes instituídos têm
alguma dificuldade em aceitar, seja por razões ideológicas, seja falta de
argumentação credível. Não foi Ventura que criou os factos, foram os factos que
fizeram Ventura aparecer. Por outro lado, o estilo provocatório e truculento de
André Ventura, não pode nem deve ser travado com as mesmas armas. O crescimento
deste candidato, nestas eleições reflectem, muito provavelmente, a incapacidade
de uma resposta inequívoca ás bandeiras e nos valores que ele defende. Pior
ainda é cair na tentação de ir à luta usando o mesmo tipo de linguagem e estilo
dele. Ana Gomes e Marisa Matias, são disso um exemplo eloquente. Já nos debates
com Marcelo Rebelo de Sousa e Tiago Mayan, ele encontrou muito mais dificuldade
em impor o seu registo.
Muitas vezes considera-se que os
portugueses não têm razões para se queixarem. Temos que perceber que, entre
muito outras coisas, todos nós temos sido chamados a participar e a contribuir
para solucionar problemas, para os quais em nada contribuímos. Vemos um país a
afundar-se. Uma pandemia descontrolada e a atingir valores preocupantes. Uma
dívida publica astronómica. Vemos uma juventude muito qualificada, mas que não
encontra perspectiva de futuro. Assistimos à uma degradação do sistema judicial
e jogos de bastidores, com vista a uma governamentalização da justiça. Todos
estes factos, aos olhos dos portugueses, não parecem a estar a ser resolvidos.
Por isso, não admira que quem sem uma ideia de fundo, bata ruidosamente nestas
teclas, consiga conquistar alguns adeptos.
O interior foi envelhecido, esquecido
e abandonado; fecharam-se escolas, postos de correio, centros de saúde e muito
mais serviços da administração; com graves problemas demográficos, a mundo
rural pode ser responsável pela degradação de muitos recursos naturais; as
recentes catástrofes dos incêndios, vieram por em evidência este estado de
coisas. As populações do interior deram uma
resposta inesperada. Chamar a toda esta gente fascista parece-me abusivo, para
além de injusto. Ou se vai ao fundo dos problemas e encontra-se a solução
adequada para cada um dos casos, ou receio bem que as ideias populistas
encontrem terreno fértil. Exemplos de outras latitudes podiam servir de aviso,
mas pelos vistos, todos caíram no jogo de Ventura e os resultados estão aí.
Joaquim Aguiar costuma afirmar: “o
povo tem sempre razão, mesmo quando não sabe a razão que tem”. Pensemos
nisto.
