sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

CRISTIANO RONALDO - A QUEDA DE UM MITO

 

É com natural tristeza que vejo a forma como Cristianos Ronaldo está a conduzir o fim da sua carreira, ele que se guindou a um patamar que só um reduzidíssimo lote de seres humanos aspira ascender.

Por não ser um entendido em matérias futebolísticas, não sinto competências para avaliar o seu percurso enquanto atleta, mas não posso ficar indiferente ao percurso deste atleta, que construiu uma carreira estratosférica, fruto de muito esforço e dedicação pessoais.

Nascido no seio de uma família pobre do Funchal foi, desde muito cedo apoiado a seguir a sua precoce paixão pela modalidade. Isso levou-a, muito novo ainda, a abandonar a família e ir viver para um centro de treinos que, por muito bem que esteja estruturado no apoio dos seus pupilos, nunca poderá proporcionar o calor de um ambiente familiar, por mais modesto que seja.

Sempre admirei a sua tenacidade em melhorar as suas performances, sendo sempre o primeiro a chegar aos treinos e o último a sair e assim garantir que esse dom com que a natureza o bafejou, foi por ele, sempre objecto de uma ambição de ser sempre melhor. Fez uma gestão da carreira, que o guindou a um nível nunca alcançado por qualquer outro atleta em todo o mundo. Tudo isto, se transformou em proveitos e uma riqueza a que muito poucos conseguiram realizar. Houve muita gente que o criticava exactamente por isso se poder associar a trejeitos de alguma arrogância e ostentação. É provável que isso possa corresponder à verdade. Será que se pode condenar alguém que esteve do lado oposto do patamar social, ao que ele conseguiu ascender? Os mesmos que o condenam, não são capazes de reconhecer as suas iniciativas de caracter benemérito, que foram muitas e pouco publicitadas. Consigo perceber todos os exageros que ele naturalmente possa ter cometido, gostava que todos fizessem o exercício de imaginar como reagiriam em circunstâncias idênticas. Eu não consigo.

É por isso, que vejo  com alguma tristeza a forma desastrosa como Cristiano Ronaldo está a conduzir o fim da sua carreira. Se a ascensão deste atleta foi feita com muito suor e trabalho, e muito discernimento, a forma como a está a conduzir quando ela se aproxima do fim arrisca, a querendo ser um dos melhores do mundo, num dos piores. A vida desenvolve-se por etapas, que vamos vencendo de acordo com as nossas iniciativas, capacidades e competências. O esforço que empenhamos a realizar cada uma delas, tem de ser equacionado na certeza que elas um dia irão acabar. Tão importante como construí-las, é saber como e quando elas irão terminar, ou quando já não temos a capacidade para as exercer, ou porque o contexto se modificou, ou porque as nossas capacidades não nos dão a certeza de as realizar em toda a sua plenitude.

Penso que é este o drama que Cristiano Ronaldo está a viver. Não está a saber lidar com o fim desta etapa da sua vida, o que é pena. Para ele e para todos os que o admiram.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

REFERENDAR - SIM OU NÃO?

Muitos são aqueles que se opõem aos referendos, por considerarem uma pura perda de tempo, ou ainda por os eleitores poderem ser condicionados pela argumentação de quem se assume como defensor ou detractor da razão subjacente à realização do mesmo. Ou ainda pela imprecisão que uma resposta de “Sim” ou “Não”, pode revelar em assuntos de grande complexidade. Ou seja, quem assume uma posição num referendo pode ser influenciada a tomar uma decisão sobre uma matéria para a qual não estará suficientemente esclarecida. Por outro lado, os defensores da realização de referendos, evidenciam-no como a forma mais democrática de auscultação do sentir de um povo, numa determinada matéria. Se isto não bastasse, a supervisão e aceitação do Tribunal Constitucional, e o compromisso vinculativo do resultado, garante que a vontade popular será plenamente respeitada.

Penso que uns e outros defendem razões de peso e que a solução ideal se encontra algures, entre umas e outras. Não se deve correr o risco de recorrer à solução referendária por dá cá aquela palha, sob o perigo de se cair na banalização desta ferramenta democrática. A consulta popular recorrendo a um referendo deve assentar, no nosso modesto entender, em alguns princípios fundamentais.

A matéria a referendar deverá tocar transversalmente toda a sociedade, com particular incidência sobre questões que estão para além de preceitos ideológicos e/ou partidários. A(s) pergunta(s) a que o eleitor vai ter de responder devem ser directas, objectivas, claras e precisas; e sem qualquer possibilidade de confusão ou mal-entendido. Um debate prévio sobre as razões que sustentam quem está a favor ou contra, devem assentar numa discussão livre de preconceitos, sejam eles religiosos, sociais, ideológicos, ou de outra índole qualquer.

Por tudo isto, a escolha pela solução referendária não pode ser reduzida a uma mera aritmética parlamentar, como parece ser o caso da actual discussão sobre a despenalização da eutanásia, na Assembleia da República. A argumentação sobre esta matéria envolve questões de consciência, associadas, elas também, a factores de ordem moral, ética e religiosa, que se sobrepõem à mera lógica de um arranjo político-partidário, vigente no momento da sua realização.

Não podemos correr o risco de, por tudo e por nada fazermos um referendo. Mas também não podemos deixar nas mãos de uma determinada conjuntura parlamentar, a solução de um problema que está muito para além das questões meramente ideológicas, como parece ser o caso já referido. Não consigo ver na posição que cada cidadão assume face a um referendo, como uma opção meramente ideológica.

Embora aceite o recurso à eutanásia em determinadas circunstâncias, não posso ficar indiferente àqueles que defendem o seu contrário. Manda o bom senso, que cada um medite sobre o assunto e tome a posição que melhor reflicta o seu sentir.  Para além do mais, ninguém se deve sentir incomodado pela posição que defende; da mesma forma que ninguém deve ter receio da solução escolhida. Há bons e maus exemplos do recurso a referendos, basta lembra-nos do Brexit, e do referendo na Irlanda sobre interrupção voluntária da gravidez. O recurso ao referendo não pode assustar ninguém, mas também não pode ser visto como uma panaceia para resolver todas as questões que o viver colectivo suscita.

domingo, 20 de novembro de 2022

CASA DE PORTUGAL E DE CAMÕES - UMA SOLUÇÃO À VISTA?

 

Recebemos durante a Sessão Solene de Abertura do ano lectivo da UTIS – Universidade da Terceira Idade de Santarém, e pela boca do sr. Presidente da Câmara, do provável destino a dar às actuais instalações do antigo Presídio Militar. Esta decisão assenta no aproveitamento das verbas do PRR, para transformar as actuais instalações numa residência para estudantes, e que a sua posse administrativa e gestão, passará para as mãos do Instituto Politécnico de Santarém.

Esta notícia era ventilada há já algum tempo, mas agora parece não haver dúvidas de que irá, finalmente, haver uma intervenção naquele edifício. Como cidadão não posso ficar mais satisfeito, tendo em conta que aquele espaço de referência se encontrava num avançado estado de degradação, sem que nada, nem ninguém lhe deitasse mão. Não consigo olhar para aquela estrutura e não ver o seu valor histórico, e sem esquecer a singularidade representativa da arquitectura do ferro, ali tão bem documentada. Só espero que as entidades que irão fazer a recuperação daquele espaço, não esqueçam estas duas realidades. Se isso, acontecer, cada um que goste da cidade e conheça aquele espaço, ficará agradado por finalmente surgir uma tão esperada intervenção.

Por outro lado, sou aluno e professor na UTIS – Universidade da Terceira Idade de Santarém e estou muito preocupado, com o destino a dar àquela instituição.

Esta Universidade criada em 2004 tem, por força do seu crescimento e implantação na cidade, andado com a “casa às costas”. Se não vejamos: no começo, funcionava em 3 salas na Lar dos Rapazes do Rapazes. Depois, e porque a Santa Casa da Misericórdia de Santarém necessitava do espaço, foi ocupar uma residência junto à Igreja do Milagre, para mais tarde ir ocupar o actual espaço na Casa de Portugal e de Camões. Naquele espaço, existem 7 salas de aulas, 1 secretaria, 2 salas polivalentes, 1 sala de convívio e 1 área exterior ajardinada com uma Horta Biológica. Para além disto, algumas disciplinas, pelas suas características específicas, ocorrem em espaços exteriores, como seja: a Ginástica, a Natação e a Informática.

Uma vez mais, vamos ter de andar com a “casa às costas”. Embora reconheça que aquele edifício necessita uma urgente remodelação, e que o destino que lhe vai ser dado é uma resposta social ao drama do alojamento dos estudantes. Percebo que neste caso, vamos ser o elo mais fraco, mas também espero que os encómios, à utilidade da UTIS, não sejam apenas figuras de retórica dos discursos protocolares. Espero que quem tomar a decisão sobre esta matéria, considerem que será negativo e prejudicial ao funcionamento e crescimento desta nossa Universidade, se a solução encontrada não der uma resposta condigna às necessidades dos seus utentes.

Pelo que conheço na cidade, vejo com muita dificuldade um espaço alternativo (temos de alojar cerca de 3 centenas de alunos e 52 disciplinas), para o funcionamento da UTIS – Universidade da Terceira Idade de Santarém, com a mesma dignidade que aquele espaço garantia? Vamos aguardar para ver.


segunda-feira, 14 de novembro de 2022

JERÓNIMO DE SOUSA – UM GAJO PORREIRO

 


Não deve haver ninguém em Portugal que não possa ter este tipo de reacção quando se fala de Jerónimo de Sousa, pese embora diferenças ideológicas que os separam. É um político que conseguia estabelecer uma empatia natural com a generalidade das pessoas. Mesmo quando debitava a cassete oficial dos comunistas, sabia ser cordato, revelava polidez, lisura, simpatia, sem nunca perder a sua postura de comunista empedernido. Dito por outras palavras, independentemente das diferenças que o separavam da globalidade dos portugueses, penso que ele se encaixa perfeitamente naquele princípio muito nacional de o considerar – um gajo porreiro.

Isto faz-me lembrar um episódio passado nno início da minha vida profissional. Um dia, na empresa onde trabalhava, foi criado um departamento de compras. O episódio foi apresentado a alguns responsáveis pelo administrador, salientando que tinha pensado num determinado colega para a chefia deste novo departamento, e queria saber a opinião dos presentes sobre o perfil do indigitado para o cargo. Genericamente todos concordavam com a escolha, e quase todos a justificavam-na, por a dito colega ser um gajo porreiro. O administrador, respondeu, mais ou menos isto: pobre daquele que o melhor que os amigos têm para descrevê-lo, que é um gajo porreiro.

Por razões de saúde decidiu deixar a liderança do PCP, e à boa maneira comunista, tudo foi tratado no mais rígido sigilo e, com um resultado inesperado, com a indigitação de um desconhecido funcionário do partido. Que, ao contrário do Jerónimo de Sousa, que foi efectivamente operário, este a única actividade profissional que teve, foi ser funcionário partidário, para além de alguma breve experiência como padeiro e apanhador de marisco!

Apesar da simpatia e a aceitação generalizada que Jerónimo de Sousa congrega, há quem nunca lhe desculpe a posição que teve face à invasão da Ucrânia, nem o descalabro dos resultados eleitorais, durante a sua vigência como secretário-geral do PCP. Foi pela mão dele que a Geringonça viu a luz do dia (o PS só não forma governo se não quiser), talvez o maior erro de Jerónimo de Sousa. Pela minha parte continuo a achar que Jerónimo de Sousa personifica o proletário e romântico comunista, coerente e respeitador dos ditames do Partido. Incapaz de mudar de opinião, por mais evidentes que sejam as causa sem análise.

Com toda a simpatia, considero que Jerónimo de Sousa é o típico gajo porreiro, que fiel aos seus princípios e orientações, está nos antípodas do que defendo para mim, e mesmo assim não deixa de merecer a minha simpatia. Até sempre camarada. Votos de uma vida longa e feliz.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

KHERSON LIBERTADA – SLAVA UKRAINE

 

Nasci logo após o fim da II Guerra Mundial. Lembro-me de ouvir contar as dificuldades vividas por aqueles passaram por aquele período, mesmo que ela se tenha desenrolado sem a participação dos portugueses. Durante uma larga parte da minha juventude vi muitos filmes que retratavam os horrores dessa guerra. O desembarque dos aliados nas praias da Normandia, os grandes combates aéreos sob os céus das capitais europeias, os Mecherschmitts alemães e os Spitfires ingleses, eram também um elemento recorrente nesses filmes. Vimos registos dos horrores dos campos de concentração e da forma inimaginável como tudo aquilo pôde ter acontecido.

Foi a necessidade de uma paz duradoura para a Europa, que determinou o aparecimento daquilo que se convencionou chamar de Guerra Fria, e que revelou o “equilíbrio “possível, com vista a evitar um novo conflito. Com muitas oscilações, foi possível assegurar na Europa, e por via disto, uma paz durante várias décadas. Estávamos todos convencidos que uma nova guerra seria qualquer coisa que não estaríamos dispostos a encarar. A queda do Muro de Berlim, veio precipitar muito deste dito equilíbrio, por mais uma humilhação da grande mãe russa e dos países satélites que viviam na sua sombra.

Mesmo assim, a Europa nunca considerou, apesar de alguns avisos, a ambição imperial que Putin ia revelando. Depois de outra humilhação da União Soviética no Afeganistão, as intenções de Vladimir Putin em devolver à Rússia a glória e importância do tempo dos Cazres, pode traduzir-se na invasão e anexação da Crimeia em 2014. Tudo isto com uma complacente indiferença do Ocidente. Putin engendrou um ardiloso plano que tinha por base dois aspectos fundamentais: a grande dependência do Ocidente do petróleo e gás russos, por um lado. E por outro, a intenção da Ucrânia em aderir à Nato e à EU, foram o rastilho e a justificação para o poderoso exército russo arriscar a invasão triunfal na Ucrânia.

Quando a 24 de Fevereiro se dá a invasão (Operação Militar Especial), todo o mundo ocidental se uniu nas sanções e apoio militar àquele país mártir, porque uma intervenção militar só teria possibilidade com o envolvimento da NATO. Embora tal se revelasse impossível, à luz do direito internacional, por não ser possível invocar a violação do artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte

Esta guerra tem registado por parte das forças ocupantes métodos dignos da idade média, com ataques com mísseis disparados a distâncias consideráveis, e que visam objectivos que de militar nada têm. No entanto, o considerável apoio militar dos países ocidentais tem permitido à Ucrânia suportar esta guerra, com sucessos consideráveis, apesar da enorme desproporção de meios humanos e materiais. Ou seja, os ucranianos têm suportado os horrores de uma guerra, por solidariedade do mundo ocidental, mas sem o seu envolvimento.

Ontem assistimos a um “teatrinho” deprimente, quando dois responsáveis máximos do exército russo justificam a retirada apressada (30.000 soldados em 24 horas) dos seus militares de Kherson, como forma de os proteger de um inimigo nazi!

Todos esperavam que a população daquele oblast russófono, recebesse as tropas ucranianas à pedrada. Tal não aconteceu. Vimos, em Dia de São Martinho, uma população aliviada e esfusiante celebrar os heróis ucranianos com gritos de SLAVA UKRAINE. Só espero que esta vitória seja o caminho para a vitória total e breve. As derrotas russas são em número crescente, e o corolário de desastrosas decisões tácticas, uma tropa impreparada e desmotivada.

Por mera curiosidade, gostava de saber a opinião do novo secretário-geral do PCP, sobre estes desenvolvimentos.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

AS MUDANÇAS NO TRÂNSITO EM SANTARÉM

Sou morador na Av. D. Afonso Henriques, há já muitos anos. Nos finais de 2017, foi anunciado pelo município, um projecto de requalificação desta avenida, onde diariamente confluem um elevado um número de veículos, e do qual foi produzido um vídeo que, por mera curiosidade deixo aqui Requalificação da Avenida D. Afonso HenriquesSe a primeira fase já foi concluída, a intervenção na Av. D. Afonso Henriques aguarda a sua concretização.

Durante Setembro passado foi feita uma repavimentação da dita avenida e introduzido uma série de alterações à circulação viária. Ou seja, não tendo sido feita a tal requalificação anunciada há 5 anos, resolveu-se (?!?) as coisas com algumas alterações à circulação, que salvo melhor opinião, introduzem dois novos constrangimentos: não melhoram a vida dos automobilistas, por um lado, e por outro, “empurram” para o já congestionado Largo Cândido dos Reis (Rotunda do W Shopping), quem pretende cortar à esquerda, para Sul, para a N3, e quem vindo de Sul pretenda entrara na Praceta Pedro escuro, seja para aceder à Rua Pedro de Santarém, ou para seguir rumo a Este, (zona do cemitério, GNR, etc.).

Por curiosidade referir o seguinte anacronismo: foram colocados umas barreiras que impedem a entrada na Praceta Pedro Escuro e a pouco mais de 1 metro se encontre uma passadeira de peões!

Por várias opiniões ouvidas, a solução encontrada não parece satisfazer nem peões, nem automobilistas. Por isso estranhamos que esta decisão tenha sido tomada por alguém que não conhece ou utiliza aquela artéria. Para além disto, é bom não esquecer os reais problemas que ali se podem encontrar e que esta intervenção, não foi capaz de dar resposta. A saber:

1.      Altura do passeio junto ao semáforo no princípio da avenida;

2.      Estado da pavimentação dos passeios da dita avenida;

3.      As saídas e entradas para o estacionamento do Campo Emílio Infante da Câmara, são reguladas por um semáforo, accionado pelos peões que pretendam atravessar a Avenida. Se para os peões, isto é, naturalmente bom, para os automobilistas é bem mais problemático, sempre que tal não aconteça.

Sem deixar de valorizar a oportunidade desta intervenção, fica um amargo por não terem sido resolvidos estes reais problemas com que diariamente nos confrontamos, e ainda pela introdução de alterações de circulação que não beneficiam ninguém.


quarta-feira, 19 de outubro de 2022

O JUDO NÃO MERECIA SER TRATADO ASSIM

 

O meu primeiro contacto com esta modalidade, foi por início dos anos sessenta do século passado. No decorrer de umas férias de Verão, o então aluno do ISEF e praticante da modalidade, Fernando Manuel Carvalho Costa Matos. Tinha por hábito arregimentar os amigos da praia, para a prática desportiva e, nomeadamente, para o JUDO, uma modalidade que estava a dar os primeiros passos em Portugal, pela mão do saudoso Kioshi Kobayashi.

Os Judogis eram feitos de pijamas reforçados pelas costureiras, e os tatamis eram tapetes de palha de arroz, ásperos e duros como cimento, e os treinos decorriam numa sala da cave Ginásio do velhinho Liceu Nacional de Ponta Delgada. Apesar de uma reduzida participação nestes treinos, o bichinho e o reconhecimento de que se tratava de uma modalidade que oferecia algo de diferente, esse ficou para a vida. Anos mais tarde e quando se tratou de envolver os filhos numa prática desportiva, a escolha pelo JUDO foi inquestionável, mas não imposta. Eles iniciaram a actividade desportiva na prática da modalidade na Casa do Benfica de Santarém. Quase logo a seguir Mestre António Anjinho chamou os pais a fazer uma “perninha” com os filhos. Ou seja, iniciei a minha vida de atleta de JUDO por volta dos 45 anos, com uma outra visão do JUDO e dos valores e princípios que Jigoro Kano defendia para este novo desporto por ele criado. Ou seja, a minha ligação ao JUDO, fez-se mais pela admiração dos princípios filosóficos subjacentes, do que pela via competitiva, como é o mais natural. Esta ligação manteve-se por mais cerca de 20 anos, para além da ligação dos filhos à modalidade, como atleta, dirigente associativo e árbitro.

Olhando para trás gostaria de evidenciar que para além dos pontos fortes já enunciados, o privilégio que foi o encontro com muita gente do JUDO, onde aprendi a admirar a postura, a sinceridade, a seriedade, a ética, a cortesia, o respeito pelos outros (especialmente os superiores, leia-se mais graduados), o respeito pelo oponente. Citei aqui apenas dois nomes pelo simples facto de ambos estarem ligados ao meu começo na modalidade. Muitos outros nomes podiam ser aqui enumerados pelo muito que nos transmitiram. Não o faço pelo receio de poder esquecer de alguém, serem muitos, o que seria uma injustiça.

É, pois, com profunda tristeza que assisto nos tempos mais recentes e a dois anos das próximas olimpíadas a este lamentável confronto entre o órgão máximo do JUDO em Portugal com atletas, treinadores e clubes, envolvendo ainda o COP. Ninguém consegue perceber que a falta de verbas, sejam o justificativo para tanta confrontação. Quem já andou pelos dirigismo desportivo sabe que a coisa que mais abunda são a falta de verbas. Não se compreende este estremar de posições. Não se percebe que na véspera de um importante torneio de preparação para os jogos olímpicos, uma das suas principais atletas se veja privada da sua treinadora, despedida na véspera por email pelos órgãos da FPJ.

Durante os anos que me encontrei ligado ao JUDO, sempre assisti a diferendos entre associações e a FPJ. Havia críticas, desentendimentos, oposições e naturais diferenças de opinião. Pelo menos que seja do meu conhecimento, tudo se tratava dentro de portas e com total civilidade. Para além de se lamentar todos os incidentes verificados, é confrangedor ver a postura da FPJ, especialmente na pessoa do seu presidente, usando uma linguagem e comportamento, muito comum noutras modalidades e pelos piores exemplos.

O presidente da Assembleia Geral da FPJ assiste a todo este “diz que disse”, impávido e sereno! Não seria tempo de promover um entendimento entre as partes em confronto para bem da modalidade e da própria FPJ? Perante tanta confusão era tempo de se ver uma intervenção muito mais proactiva por parte do Secretário de Estado da Juventude e Desporto, tendo em conta que a reunião por si promovida entre o presidente do COP, o presidente da FPJ e os atletas subscritores da carta aberta de Agosto, pelos vistos não produziu resultados.

O JUDO merecia mais e muito melhor. É tempo de gritar SOROMADE!

terça-feira, 30 de agosto de 2022

MARTA TEMIDO, OU UMA DEMISSÃO ANUNCIADA

                                 
Marta Temido foi sempre uma ministra que na sua acção congregou amores e ódios. Exerceu o seu mandato de uma forma presumida, nada dialogante e, sobretudo, muito focada na sua verdade sem dar ouvidos a nada nem a ninguém. Tinha uma visão do que era o SNS orientada por questões meramente ideológicas, sem dar atenção às razões de mera gestão prática de um sector gigantesco, e que envolve uma miríade de problemas e fragilidades. Tem muitos defensores indefectíveis, que não se cansam de tecer loas à sua boa governação, sacrifício e tenacidade. Sobretudo quando lhe atribuem o grande mérito de ter conduzido a luta contra a pandemia e o sucesso desse trabalho. E muito dele se deveu à bem-sucedida intervenção ao nível da vacinação de gouveia e Melo. Eu sou dos que não me incluo nesse grupo.

A luta contra a pandemia foi um sucesso porque se concentraram todos os meios do SNS no seu combate, deixando de fora todas as patologias que por essa circunstância não desapareceram. É no mínimo injusto para todos aqueles profissionais, que prescindiram de todo o conforto e comodidade e se disponibilizaram para tratar do seu semelhante. Refiro-me naturalmente a médicos, enfermeiros, auxiliares, bombeiros, forças de segurança, apenas para referir os mais importantes. Sem o seu contributo, o sucesso português não teria sido alcançado. No entanto, os louros deste sucesso capitalizou-o Marta Temido.

Muitas foram as polémicas protagonizadas pela ministra demissionária: Foi também uma ministra que foi muito pouco dialogante com todos os profissionais do SNS. Manteve uma luta destemida para reverter todas as parcerias com os privados, mesmo nos casos em que estes apresentavam melhores índices de rentabilidade que no público. Recusou-se a negociar com os enfermeiros, quando estes estavam em greve, alegando que era como “privilegiar o criminoso”. Numa entrevista a uma TV afirmou, com total insensibilidade que o que era necessário “enterrar os mortos e cuidar dos vivos”.  A sua insensibilidade levou-a a afirmar que o SNS precisava de “médicos mais resilientes”. Também, é da sua autoria uma proposta que penalizava os médicos que realizassem interrupções voluntárias de gravidez. Também não se coibiu de telefonar a directores hospitalares a pedir cancelamento de férias dos profissionais de saúde.

É esta ministra que recebeu a simpatia de muitos portugueses, e o próprio PS estendeu-lhe a passadeira vermelha, entregou-lhe o cartão partidário, tendo mesmo sido apontada como uma possível sucessora de António Costa.

É também esta ministra que, perante o caos em que vive actualmente o SNS, atribui as culpas a decisões tomadas nos anos 80. Como se a contratação de 30.000 profissionais de saúde e vultuosos investimentos no sector, não apontassem para uma gestão ruinosa do sector, apesar deste esforço.

António Costa vinha revelando há já algum tempo algum distanciamento da ministra. Toda a gente percebe que o problema principal do SNS é um problema de gestão de meios e de recursos, que manifestamente Marta Temido revelou uma absoluta incapacidade de resolver. Se no passado o primeiro-ministro respaldou sempre a sua ministra, desta vez aceitou, sem pestanejar, o seu pedido de demissão – sintomático! Só não se percebe muito bem, porque vai manter uma ministra desgastada e incompetente, a tomar conta dos destinos de um sector a viver momentos tão conturbados!

Por tudo isto, a demissão de Marta Temido peca por tardia. Há muito que já não tinha condições para exercer o seu mandato. Será tempo de calçar as pantufas e ouvir o hino da Intersindical, como ela tanto gosta.

 

domingo, 31 de julho de 2022

PUTIN GO FUCK YOURSELF

 

Com este grito Pedro Abrunhosa, atirou a pedra para o charco em que se transformou este jardim à beira-mar plantado, de brandos costumes, e que muito aprecia o politicamente correcto. O músico protagonizou, ao longo da sua longa carreira, várias polémicas, abraçou nobres causas e protagonizou-as sempre em nome próprio. Neste caso concreto, marcou uma posição inequívoca, não só fez saber sobre de que lado estava neste conflito, quando chamou o “boi pelo nome”, ao principal responsável pela tragédia que o mundo e a Europa estavam longe de imaginar, pudesse ter lugar em pleno séc. XXI.

Já actriz São José Lapa ao criticar o cantor pelas suas afirmações contra Putin e a guerra da Ucrânia, veio levantar uma série de dúvidas sobre uma personalidade da nossa vida artística que muitos pensariam, não estar alinhada com as dos amantes veneradores de autocracias, onde a liberdade de expressão é cerceada diariamente. Se lhe podemos dar razão de que Abrunhosa, não fala em nome dos portugueses, já não estará tão certa quando põe em causa a voz e a incoerência do cantor.

Pedro Abrunhosa é um músico de créditos firmados, que construiu uma carreira a pulso e sem fazer fretes a ninguém. Tomou posições inquestionáveis quando se acorrentou ao Coliseu do Porto, com vista a impedir a sua venda à IURD. Nos idos de 1994, também tomou o partido contra a governação de Cavaco Silva. Não usou o politicamente correcto, e fê-lo, uma vez mais, em nome pessoal. Já quanto a São José Lapa, que seja do meu conhecimento, nunca protagonizou nada parecido.

A Reacção da Embaixada da Rússia, também não surpreendeu ninguém. O comunicado que saiu a público, é uma manifestação de uma (in)compreensível “coerência”, que também podemos encontrar no nosso PCP e nos seus dirigentes. Naquelas paragens a liberdade de expressão é apenas uma figura de estilo, que só está bem e é aceite, se for coincidente com o pensamento do seu grande líder. E quem não cumprir estes preceitos de “respeito e bons modos”, pode ir parar a um calabouço por ofensas ao Estado (Basta estar na rua empunhando um papel em branco). Felizmente por cá ainda podemos ver que as coisas não funcionam da mesma forma, por muito que isso custe a São José Lapa.

Quanto a mim, e lembrando o soldado ucraniano na Ilha da Serpente, para a poderosa armada russa, subscrevo: “Putin go fuck yourself”.

 

quarta-feira, 6 de julho de 2022

PEDRO NUNO SANTOS – Uma carta fora do baralho

Pedro Nuno Santos é um dos ministros do actual governo que não consegue ser indiferente aos olhos dos portugueses. Desperta ódios e paixões com a mesma facilidade, e até parece fazer disto uma espécie de marca d’água da sua forma de intervir politicamente. Há quem o defenda, tão somente pela capacidade que ele tem em tomar decisões, mesmo quando estas sejam em desacerto com as directrizes do próprio governo, ou quando são tomadas com base em orientações puramente ideológicas.

Eu nunca gostei de figuras públicas que adoptam uma postura do tipo da de Nuno Pedro Santos. Não gosto da sua truculência, não gosto da sua arrogância, e não gosto das suas incoerências. Na sua actividade política sempre adoptou um comportamento muito pouco abonatório de uma figura de estado, a quem se exige uma postura de alguma contenção na linguagem, por maior que seja a razão que lhe assista.

Muitas são as gafes cometidas por Pedro Nuno Santos

A sua mulher Ana Catarina Gamboa, foi nomeada chefe de gabinete do secretário de Estado Adjunto dos Assuntos Parlamentares, com a justificação de “ninguém deve ocupar uma função profissional por favor, como ninguém deve ser prejudicado na sua vida profissional por causa do marido”, como se os únicos profissionais competentes sejam os familiares de políticos no activo.

A TAP mais parece uma novela em que diariamente, algo de estranho aconteça. A nomeação de Miguel Frasquilho para a presidência do Conselho de Administração, e logo no dia seguinte ter de revogar tal decisão, aparentemente, pela discordância de António Costa. Quando Pedro Nuno Santos pretendeu levar à discussão no Parlamento o Plano de Reestruturação da companhia. Também neste caso foi desautorizado por António Costa.

“Os alemães que se ponham fininhos, ou não pagamos a dívida”, “por os banqueiros alemães a tremer das pernas”, palavras para quê? É Pedro Nuno Santos no seu melhor.

A compra à RENFE de 36 carruagens que tinham sido retiradas de circulação no país vizinho por conterem amianto, transformou-se num excelente negócio para Pedro Nuno Santos, e que a retirada do amianto se resume a uma simples intervenção técnica. Este negócio valeu-lhe a alcunha de “Sucateiro”.

Os inúmeros conflitos com Alfredo Casimiro principal accionista da Groundforce, chegando mesmo a tornar pública uma conversa privada que com este mantivera, e que envolvia uma terceira pessoa, no caso concreto Humberto Pedrosa.

As permanentes altercações com Michael O’Leary presidente da RYANAIR, que lhe chamou “Pinóquio”, e atribui à TAP o epíteto de “companhia falhada”. De referir que perdeu sempre estas contendas para o irlandês.

A mais recente polémica de Pedro Nuno Santos, aproveitando a ausência do primeiro-ministro para definir a solução para o novo aeroporto que servirá a cidade de Lisboa. Tal medida foi feita à revelia de António Costa e do Partido Socialista, envolvia avançar para o Montijo, depois para Alcochete, e com o posterior encerramento da Portela. Não informou o seu chefe directo, nem tão pouco o nº dois do partido por ausência do primeiro-ministro, e nem mesmo o presidente da República. Esta atitude revela a forma e característica do ministro das Infra-estruturas, que é decidir prontamente e sem dar cavaco a ninguém. Isto valeu-lhe uma reprimenda de António Costa e uma humilhação pública a que este apelidou de humildade!

Muitos foram o que pediram a demissão do ministro pela gravidade da situação. António Costa, bem ao seu estilo, permite a uns o que condena de outros. Veja-se por exemplo os casos de Eduardo Cabrita e de João Soares. Por isso a confiança do primeiro-ministro em Pedro Nuno Santos, pode significar um dejá vu. O ministro “reconheceu o erro cometido e teve a humildade de o assumir”, porque se tratou de uma “falha de comunicação”. Por isso, Pedro Nuno Santos pode fazer parte deste governo, mas é uma carta fora do baralho. Ou seja, é um ministro a quem António Costa nunca irá permitir mais qualquer outra veleidade ideológica ou administrativa.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

ZELENSKY - UM PRODIGIO DA COMUNICAÇÃO

 


A invasão da Ucrânia deixou todo o mundo ocidental em estado de choque. Há quem diga que fomos todos muito ingénuos por não termos levado em linha de conta as ameaças do sr. Putin, nem os exemplos do que se passou na Tchetchénia, na Síria, na Geórgia e na Crimeia – é verdade! A concentração junto às fronteiras da Ucrânia de um contingente de 150.000 soldados, tinha outros propósitos, que a simples realização de exercícios militares. A incredulidade do mundo ocidental perante a barbárie, que diariamente nos invade, contrasta em igual medida com a tenacidade e coragem de todos os ucranianos. Com um país praticamente arrasado pela artilharia russa, sem água, sem comida e sem electricidade, não perde tempo com lamentações, apenas pede mais armas para se defenderem. Mesmo os cenários horrendos que observamos quando os russos abandonam uma cidade ocupada, não os demove na sua resistência.

Podemos questionar o que consegue manter este povo unido e coeso nesta luta inglória, perante um inimigo, muito mais numeroso e mais bem equipado. Claro que os especialistas na matéria poderão encontrar muitas explicações. Estou convencido que não é apenas coragem e patriotismo. É algo que, apesar de observável, é imaterial. Eu acredito que uma boa explicação para isto pode assentar na extraordinária capacidade do seu líder de comunicar com o seu povo e, mais ainda, com o mundo.

Não se isenta de, diariamente, a partir do seu gabinete, ou de uma rua em Kyev dirigir-se ao povo e ao mundo com uma linguagem simples, mas muito assertiva e galvanizadora, dar conta do que se passa no seu país invadido. Frases como: “Dêem-me munições não uma boleia”, “Quando nos atacarem, vão ver os nossos rostos, não as nossas costas.”, são disso um bom exemplo. Fazendo uso dos novos meios de comunicação, não perde um momento de por em prática a sua diplomacia digital, e fazer dela a sua grande arma de propaganda.

Das vitórias alcançadas e dos desaires do ocupante. Vestindo uma T-shirt, com a barba por fazer, num discurso escorreito e com o dramatismo adequado, vai dando conta do que está acontecendo no seu país, e do que nos poderá acontecer se a invasão da Ucrânia for bem-sucedida. Assumindo que o mundo livre só estará bem resguardado se lhes derem a ajuda necessária para resistirem a um inimigo bem mais poderoso e equipado.

Sem esquecer que se trata do líder dum país em guerra, devastado, e mesmo depois de receber o primeiro-ministro espanhol em Kyev, ainda participou numa sessão solene na Assembleia da República, constitui-se assim, como um inspirador herói para o seu povo e para o mundo. Um discurso vigoroso e emocionante, não se esquecendo de referir o papel do 25 de Abril como símbolo da liberdade do povo português e dos valores subjacentes que orientam os dois povos.

Apenas um breve desabafo sobre o comportamento incompreensível do PCP, sobre o discurso de Zelensky. Nada contra a sua objecção - vivemos num país livre e democrático. Mas a argumentação para justificar a sua posição é que é, no mínimo, uma aberração.

Zelensky domina as técnicas comunicacionais com extraordinária habilidade, e isto faz dele um líder. Como disse Wiston Churchill: “A diferença entre os humanos e os animais, é que os últimos nunca permitem que um estúpido lidere a manada.” Isto descreve bem o que podemos observar de um lado e de outro da barricada – entenda-se ucranianos e russos. O PCP neste caso escolheu o lado errado da História.


quinta-feira, 14 de abril de 2022

A ECONOMIA PARA TOTÓS E O PAPÃO DA AUSTERIDADE

Não posso começar este desabafo sem fazer uma declaração de interesses – sou um perfeito ignorante em matéria de economia. A minha ignorância aumenta significativamente, quando ouço discutir assuntos económicos entre os “especialistas”. Aceito que a economia, não sendo uma ciência exacta, não pode reflectir entendimentos opostos relativamente a um determinado assunto. Talvez por isso fico com a sensação de que determinadas matérias são abordadas, utilizando uma dialéctica complexa, com o propósito de confundir, ou iludir os ignorantes como eu, relativamente à bondade das medidas apresentadas.
Ouvir o ministro das finanças, a dizer que: "em nenhum dicionário de política, é uma política de austeridade, referindo-se ao OE .” Fico com a sensação de que o termo austeridade, se tornou numa palavra maldita, e que no entendimento dos nossos governantes, quem a profere não passa de uma cavalgadura.
Quando se aplica uma taxa temporária sobre o ISP para compensar as receitas do Estado pela baixa dos preços do crude, quando este sobe e não se reverte a taxa aplicada, quer dizer que eu estou a pagar mais pelo mesmo bem e o único beneficiário é o Estado; quando o custo de um pão é de 0,98€, passa em Fevereiro para 1,05€, e em Abril para 1,15€; quando um agricultor pagou em 2021 400,00€/ton. por um determinado fertilizante, e o mesmo fertilizante na actual campanha passa para 900,00€/ton. Se isto não é austeridade, não sei o que será.
Uma parte desta austeridade deve-se a factores externos e conjunturais, todos podemos compreender. Mais difícil é entender a apresentação de um orçamento, rejeitado há seis meses, e apresentado agora, sem alterações substanciais, parece esquecer que, entretanto, estalou uma guerra entre dois países, dos quais dependem fortemente o abastecimento da Europa em gás, petróleo, adubos, cereais e oleaginosas. Mesmo antes da guerra na Ucrânia já suportamos uma pandemia, as consequências do Brexit, a crise das matérias-primas, etc. Se a austeridade já estava instalada antes do conflito, fácil é imaginar os tempos que nos esperam.
Este complexo em utilizar um termo como austeridade, e o recurso à semântica para contornar uma realidade que todos os totós como eu sentem no bolso, a cada dia que passa, só pode classificar-se como desonestidade política. Tanto mais que a simples existência de austeridade, aumenta a receita do Estado por via dos impostos. Se esta aumento da receita servir para reduzir a nossa dívida soberana, até se pode aceitar. Mas será que vai ser assim?

terça-feira, 5 de abril de 2022

A UCRÂNIA E A HIPOCRISIA OCIDENTAL

A guerra na Ucrânia não deixa de nos surpreender, e pelas piores razões. Se há pouco mais de um mês todos achávamos pouco plausível a invasão de um país soberano, pelo exército da Federação Russa, as recentes imagens que nos chegam da linha da frente, nos locais abandonados pelo exército invasor, não conseguimos encontrar justificação para tanta brutalidade, atrocidade e insensibilidade. Se a geopolítica avisou dos desvarios que Putin podia encabeçar, o ocidente fez orelhas moucas pensando no seu bem-estar garantido pelo gás e petróleo russos. Mesmo levando em linha de conta que após o início do conflito foi apresentado um conjunto vasto de pesadas sanções, houve o cuidado de não incluir aqueles dois elementos essenciais ao nosso bem-estar.

Mesmo quando Joe Bidem chamou criminoso e carniceiro a Vladimyr Putin, algo que todos aceitam como verdadeiro, mas que o politicamente correcto instituído, considera desajustado, e democraticamente inaceitável, não conseguimos por de pé uma união global para o total isolamento económico do país invasor, como único meio alternativo a uma entrada directa no conflito.

Não basta condenar a invasão. É preciso que os povos ocidentais, mais dependentes do gás e petróleo russos entendam que para continuarem a ter as suas casas aquecidas, e os combustíveis a um preço equiparado ao dos restantes países europeus; muitos são os ucranianos que vivem sem tecto, sem água, sem electricidade, espoliados de tudo o que tinham e vítimas das piores sevícias praticadas pelo invasor, como pudemos constatar em Boucha. Neste cenário de catástrofe humanitária, não intervir e apelar à preservação os direitos humanos, fará algum sentido? Selensky diariamente implora por mais e melhor ajuda, para que esta luta entre David e Golias possa fazer algum sentido, não só porque configura uma justíssima reacção de defesa pessoal, mas porque é absolutamente justa à luz do direito internacional.

Perante tanta atrocidade não basta ficar consternado com as imagens que nos chegam da Ucrânia. É preciso ir muito mais além. A Rússia tem que sentir na pele que a forma como tem gerido esta “operação militar especial” não pode ficar impune. Bombardeamentos feitos à distância não poupa escolas, hospitais, teatros, centros comerciais, mercearias, com a desculpa de albergar estruturas militares são o pretexto para arrasar cidades completas. Nem os civis indefesos são barbaramente assassinados. As atrocidades praticadas em Boucha, a destruição do Teatro e de uma maternidade em Mariupol, são provavelmente, a ponta do icebergue daquilo que os russos foram capazes de fazer sobre populações indefesas. Porque perante a coragem e tenacidade dos combatentes ucranianos, tiveram que retirar, apesar da diferença dos meios.

Por quanto mais tempo vamos ser “solidários”, enviando para a Ucrânia umas roupas que já não usamos, recebendo alguns refugiados, aplicando um pacote de sanções que deixam de fora, algo que garante o pagamento do esforço de guerra russo. Mesmo o Conselho de Segurança das Nações Unidas, cujo mandato é zelar pela manutenção da paz e segurança internacional, estão de mãos atadas pelo estatuto de excepção do direito de veto, concedidos dos membros permanentes, pouco ou nada pode fazer.

Vamos continuar a estar ao lado do povo ucraniano, desde que isso não afecte o nosso conforto e comodidade. Como dizia Gustave Flaubert: “A fraternidade é uma das mais belas invenções da hipocrisia social.”

 


quarta-feira, 16 de março de 2022

GLÓRIA À UCRÂNIA

 


Muito se disse antes da decisão criminosa de Putin de invadir um país soberano. Muitos experimentados analistas de geopolítica, consideravam muito pouco provável, uma invasão da Ucrânia, e que as movimentações das tropas russas nos países fantoches dominados pela mão de ferro do ditador Putin, mais não significavam do que uma estratégia de desencorajamento das pretensões do governo ucraniano de aderir à UE e à NATO. Todas essas dúvidas foram desfeitas no discurso de Putin com difusão mundial. Ficou claro que, ao reinventar a história e a admitir que a Ucrânia, nem direito tinha a existir como estado independente, mais não era do que um pretexto para riscar do mapa das nações, um país livre[JAS1] , democrático e independente. Foi uma comunicação fria, calculista, com um décor digno do tempo dos czares, um fato de bom corte e um semblante carregado, zangado, ameaçador; o que nos pode levar a concluir que estamos na presença de um louco, ou de um ditador mais insensível que Staline ou Hitler.

A guerra começou com uma desproporcionalidade de meios considerável, e a forma intencional como são atingidos alvos civis, em clara violação de muitas convenções, o cerco sistemático a todas as cidades ucranianas, deixando para o fim Kiev. Perante esta aparente realidade, podemos imaginar que Putin estará a adoptar uma estratégia semelhante à utilizada no genocídio de Holodomor de 1932. Estas cidades têm sido bombardeadas por misseis de cruzeiro, disparados a partir da Rússia, porque nos confrontos directos com as tropas ucranianas, as coisas não parecem estar a correr como planeado, onde os bravos soldados de Volodymyr Zelensky têm conseguido uma inusitada superioridade de resistência.

Putin com esta sua atitude conseguiu por o mundo inteiro contra si, se exceptuarmos aqueles cinco estado fantoches, e as sanções impostas à Rússia, vão ter um efeito devastador sobre aquele povo. A subserviência e cegueira do PCP, admitindo que as culpas deste conflito se podem justificar pela posição da NATO, no apoio da liberdade de um país soberano, escolher de que lado quer estar, podem justificar o penoso caminho que o partido está a percorrer rumo ao desaparecimento.

Por seu turno a Europa está refém de Putin pela sua enorme dependência do gaz e petróleo russos; e dos cereais e oleaginosas ucranianas, nunca percebeu as ambições de Vladimir Putin. Por outro lado, o apoio à Ucrânia nunca poderá passar por uma intervenção directa, que dê aos russos a justificação para materializar os sombrios avisos de Putin. Apesar das sanções impostas, continua o fornecimento gás e petróleo russos, contribuindo assim, para alimentar uma guerra que o mundo ocidental condenou de forma indiscutível.

Ninguém sabe quanto tempo este conflito irá demorar, e de como irá terminar. Uma coisa é certa: muitas são os ensinamentos que o Ocidente poderá e deverá tirar das pretensões de Putin, e seguir um dos princípios fundamentais da História, aprender a não repetir os mesmos erros.

A resposta do mundo ocidental foram as sanções a aplicar à Rússia, vai colocá-lo também numa situação de uma profunda crise energética, alimentar, económica e social, a somar à crise pandémica, como ninguém considerava possível nos tempos mais recentes. Mas nada disso é comparável ao enorme sacrifício que foi imposto ao povo ucraniano, confrontados com êxodo massivo de mulheres e crianças, um país destruído, e a mais que provável vitória do invasor com a imposição de um governo ao serviço do Kremlin. Algumas vozes se vão levantando, considerando que, mais cedo ou mais tarde, o mundo ocidental vai ter que parar de se justificar com o receio de uma III Guerra Mundial, e ter um papel muito mais interventivo. Ou seja, não restam dúvidas que nada parece deter a ambição imperial de Putin de estender os limites territoriais da Federação Russa até aos limites das fronteiras do Império. Perante um cenário desta dimensão, há quem defenda a inevitabilidade da entrada da NATO no conflito, com a finalidade de o evitar.

A pergunta que fica é: até onde e até quanto iremos deixar as coisas acontecerem. Enquanto isso, o bravo povo ucraniano, abandonado à sua sorte, resta-lhe apenas resistir.


 [JAS1]

sábado, 26 de fevereiro de 2022

A AGRICULTURA (SEMPRE) EM CRISE

 

"Duas Agricultoras Cavando a Terra" - Vincent van Gogh

Já por aqui expus este ponto de vista, por mais do que uma vez, e penso que o momento difícil porque todos passamos veio dar, um relevo maior a este tema – a importância estratégica do sector agrícola, enquanto produtor de alimentos, no seio de qualquer nação. Portugal, por isso, não é excepção, e diria mesmo que é particularmente sensível, tendo em conta a nossa pequena dimensão e a nossa exposição a todos os factores negativos que interferem com este sector produtivo. O conflito na Ucrânia veio introduzir um factor de instabilidade em toda a europa, que irá, certamente, reconfigurar toda a arquitectura geopolítica europeia, pela dependência de inúmeras matérias-primas provenientes dos países beligerantes.

Seria bom lembramo-nos e divulgarmos, com a devida atenção, os aumentos de produtividade registados no sector agrícola para a economia do país, se comparados com outros sectores de actividade, mesmo levando em consideração as inúmeras fragilidades estruturais que o caracterizam.

Segundo Francisco Avillez[1]: “São inegáveis as melhorias apresentadas pela agricultura portuguesa nestes últimos anos, as quais consistiram na introdução de novas culturas, na difusão de novas tecnologias, numa utilização mais eficiente dos recursos disponíveis, numa maior e melhor organização da produção, numa maior qualificação técnico-profissional do respectivo tecido empresarial e na cobertura de novos mercados nacionais e internacionais.”

A seca severa que assola o país, a crise energética mundial, a escassez de muitas matérias-primas, o quadro pandémico, o conflito na Ucrânia e as suas consequências imediatas e futuras, e a pouca importância que o sector parece representar junto dos poderes instituídos, deixam-nos com uma imensa preocupação, no que à sobrevivência do sector diz respeito. Já é observável uma subida de preços ao consumo de muitos bens agrícolas. Os agricultores são confrontados diariamente com aumentos astronómicos dos diversos factores de produção: adubos, fitofármacos, combustíveis e lubrificantes, rações, etc.

Temos neste momento um governo em gestão. Esperamos que o futuro governo saído das últimas eleições legislativas, leve em consideração a importância decisiva que o sector agrícola representa e nomeie um responsável para a pasta da agricultura, alguém com experiência e competência. Também é verdade que os agricultores, e muitas das suas organizações de classe não têm tido a coragem e a lucidez de bater o pé, sempre que os seus direitos são maltratados, e têm sido muitas. Os tempos que se avizinham vão ser difíceis para toda a gente. Não tenho dúvidas que os agricultores vão reinventar-se e sempre que necessário irão dizer “presente”, mas também têm que exigir que o seu trabalho seja reconhecido e respeitado e que a dignidade da importância do seu trabalho sejam, definitivamente, reconhecidas.



[1] Produtividade, crescimento e rendimento agrícolas em Portugal na última década

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

NO RESCALDO DAS LEGISLATIVAS 2022

No rescaldo destas eleições quero, antes demais, fazer duas declarações de interesses: sou totalmente contra maiorias absolutas, e não morro de amores por António Costa. No primeiro caso, posso ainda acrescentar fazer sentido para mim, a célebre frase de Lord Acton “O poder absoluto corrompe, absolutamente”. Se isto não fosse suficiente, bastava recordar as maiorias absolutas de Cavaco Silva e de José Sócrates, para rejeitar esta solução. Quanto ao segundo, como já aqui expus, por mais do que uma vez neste mesmo espaço, as razões desta animosidade. Este desamor, tem apenas a ver com o político e o homem, pelo seu caracter.

Mas o povo democraticamente fez a sua escolha, reduziu o nível da abstenção, o que considero um grande feito, e vamos ter nos próximos 4 anos um governo que terá todas as condições para realizar as tão propaladas reformas de que o país tanto precisa.

Joaquim Aguiar costuma dizer que: “o povo tem sempre razão, mesmo quando não sabe a razão que tem.” Os resultados destas legislativas tiveram um desfecho em que ninguém acreditava, nem mesmo António Costa. Foi uma escolha do eleitorado, e António Costa conseguiu as condições ideais que lhe garantem a estabilidade e uma solução de governabilidade para os próximos quatro anos. Assim ele queira, ou o sonho de um cargo europeu não o desvie deste rumo.

Muitas foram as opiniões para justificar as perdas e ganhos neste plebiscito. Cada uma delas tão acertadas, ou tão erradas como as sondagens que até à sexta-feira davam um empate técnico entre os dois principais contendores. Nada nem ninguém esperava o resultado esmagador do PS, sobre toda a concorrência. Temos agora um Parlamento mais colorido e diversificado, onde a oposição irá ter um papel perfeitamente marginal. António Costa tem aquilo que queria. Esperamos que possa constituir um gabinete, numa escolha orientada pela meritocracia, de gente competente e com provas dadas. Livrar-se em definitivo dos elementos socráticos e das sombras do nepotismo que ensombraram o último executivo, é o mínimo que o país exige e espera. Estão reunidas as condições ideais para implementar todas as medidas que entender necessárias para inverter o caminho que o país estava a tomar. Não terá uma conjuntura tão favorável como a que beneficiou nos últimos 6 anos. Os tempos que se avizinham não serão muito propícios a aventuras, e parecem vir carregados de sombras muito negras: aumento da inflação, subida dos preços das matérias-primas, a mais do que provável suspensão da compra da dívida soberana pelo BCE, o conflito na Ucrânia, etc. Mas é nas dificuldades que se vêm os grandes homens. Vamos aguardar.

Estas legislativas foram implacáveis para os partidos perdedores e para com o Presidente da Republica, com a diferença que aqueles ainda podem recuperar, enquanto Marcelo dificilmente terá outra oportunidade de fazer valer as suas intenções.

 

sábado, 22 de janeiro de 2022

ABSTENÇÃO – Quem se importa?

Não fazia parte dos meus planos voltar a falar nesta chaga da afecta o mais nobre exercício democrático, que é a ABSTENÇÃO! Não porque não continue a achar que seja uma nódoa que mancha e afecte o direito de se escolher quem nos irá governar nos próximos quatro anos, mas por que se tornou um assunto redundante. Acontece que a realidade da pandemia que a todos afecta, criou um imbróglio de tal ordem monumental, que parece justificar de alguma forma que um cidadão, a quem obrigaram a ficar em casa durante 3 meses, a quem cercearam de forma autoritária a socialização com a própria família, que podia ir à festa do Avante, mas não podia ir a Fátima, o condicionem a sair para ir votar, quando se estima estar em infectados cerca de 1 milhão de portugueses a 30 de Janeiro.

Independentemente das considerações anteriores, tudo farei para exercer este meu dever. Mas tenho que reconhecer que haverá muita gente que irá hesitar se deverá ou não sair para exercer a sua escolha, dadas a gravidade da situação pandémica.

Incompreensível é que depois de dois actos eleitorais verificados em tempo de pandemia, não tenha sido previsto um plano para fazer face a todos os problemas que agora se verificam, um elevado número de eleitores que, mesmo infectados, desejem exercer o seu direito de votar. Manda o bom senso que todos os cenários possíveis tivessem sido previstos, estudados. e uma solução alternativa pudesse ser apresentada e aprovada em tempo útil. Pelo contrário, chegamos a uma situação prevista pelos cientistas (1 milhão de contaminados), sem que os responsáveis estivessem em situação de apresentar uma solução que pudesse oferecer confiança a quem se encontra naquela situação.

O MAI pediu um parecer á Procuradoria-Geral da República a fim de saber se o isolamento profiláctico era impeditivo de se ir votar? A PGR demorou 14 dias a emitir a resposta (!?), e a solução encontrada, embora pareça não haver muitas mais, capazes de serem adoptadas neste curto espaço de tempo disponível, foi a de arranjar uma hora ao fim do dia, para além do voto antecipado. Quanto ao parecer, a Constituição é bem clara nesse sentido, por isso não se entende a demora na resposta. Não me parece que houvesse possibilidades de, nas actuais circunstâncias, implementar outras alternativas. Mas há quem considere esta solução discriminatória, difícil de concretizar por quem utiliza transportes públicos, e mesmo um tempo reduzido para um tão elevado número de eleitores.

Embora considere que nada justifica o abstencionismo, nas actuais circunstância, sou levado a admitir que alguém contaminado, seja por razões de segurança, receio ou opção de consciência o faça. Sobretudo se pensar que, quem tinha o dever de ter antecipado este e outros cenários, não tenha planeado antecipadamente, uma solução alternativa. E elas existem. O voto electrónico, o drive thru, voto por correspondência, voto antecipado e desburocratizado, a votação distribuída por vários dias, recolha domiciliária do voto, etc. Muitas são as soluções já testadas, por isso, era importante que o Parlamento que irá sair destas eleições, eleja como prioridade a revisão da actual Lei Eleitoral como sua prioridade.

A forma como as forças políticas têm lidado com este assunto, ao longo dos tempos, parece indiciar que estão muito confortáveis com uma abstenção elevada. A mim e a muito portugueses incomoda eleger um representante, qualquer que seja o cargo: autarca, deputado, presidente da República, com índices de abstenção a rondar os 50%. Se outras razões não houvesse, a representatividade de qualquer eleito nestas condições é, no mínimo, questionável.

 

 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

ESTE MODELO DE DEBATES

 

Como já aqui referi, estas eleições estão a ser disputadas num estranhíssimo ambiente. Sobretudo, se visto na perspectiva do eleitor, porque na dos protagonistas, alguns parecem muito confortáveis. Dado o cenário pandémico, que se agrava a cada dia que passa, com uma previsibilidade de uma centena de milhar de novas contaminações para a semana das eleições, torna-se incompreensível que não tenha sido equacionada uma solução alternativa, ou, dada a impossibilidade de adiamento das eleições, que tivesse havido o bom senso de que estas se realizassem em finais de Fevereiro, como alguns aconselhavam.

Dos pouco debates já realizados, já dá para ver que o modelo escolhido, permite tudo menos esclarecer os eleitores sobre os aspectos fundamentais sobre os quais estes irão decidir. Até agora os moderadores insistem em saber quais os entendimentos que os partidos estão dispostos a aceitar num cenário do day after, e os participantes em esconder essa sua vontade. Não que isso não seja importante na óptica do eleitor, mas coisas tão importantes como: dívida pública, inflação, saúde, educação, pobreza, demografia, carga fiscal, energia, alterações climáticas, descarbonização, refugiados, revolução digital, reformas, etc. Ou seja, coisas que mexem com a vida de cada um de nós, parecem merecer pouca atenção e até mesmo algum receio; para dar lugar a soundbites histriónicos que desviam a atenção do ouvinte, mas pouco acrescentam ao debate. Alguns destes lembram o modelo de programas futebolísticos, bem ao estilo da CMTV.

Voltando ao modelo dos debates, a pergunta que se impõe é saber o que se pode esclarecer em 25 minutos (12’ 30” para cada participante), e sem um tema específico e importante? Mesmo que o moderador o possa apresentar, é fácil levar resposta para o campo, ou a ideia que ao participante lhe der mais conveniência. Visto de outra forma, esta arquitectura favorece, preferencialmente, o interveniente que fizer mais ruído, que interromper com mais frequência, ou que melhor dominar as técnicas de comunicação, sobretudo televisiva.

Já não vamos a tempo de mudar o que quer que seja. Embora estas eleições não tenham essa finalidade, estamos condenados a escolher um futuro primeiro-ministro, num processo eleitoral pouco esclarecedor, num clima pandémico de dimensão considerável, com um cenário de uma abstenção eventualmente maior do que as anteriores. Os portugueses, por aquilo que parecem reflectir as sondagens, já não estão muito preocupados com que tipo de geringonça iremos ter. Gostavam de conhecer o que cada um dos partidos estrão dispostos a ceder para melhorar a vida de cada um de nós. Os primeiros cenários de que nada disto irá acontecer, podem ver-se numa promessa de campanha, com a redução para 4 (quatro) dias a jornada de trabalho e o salário mínimo para os 900 em 2026! Isto é populismo no seu pior. Não que a proposta não fosse desejável, mas como é possível sequer imaginar esta cenário, num país cuja produtividade é a que se sabe?

Vamos ser massacrados com 16 debates, sem ideias nem propostas, e com um tema comum - que entendimentos estão os partidos dispostos a aceitar, e/ou com quem nunca aceitarão governar. Vão ganhar os debates quem for mais populista, ou quem ao estilo dos feirantes berrar mais alto.

domingo, 2 de janeiro de 2022

2022 O QUE NOS ESPERA

Neste princípio de ano e depois de passarmos os dois últimos sob o espectro de uma pandemia, o sentimento que nos invade, será certamente, que só podemos melhorar. Segundo a opinião de muitos especialistas, o vírus SARS-COV-2 irá entrar brevemente numa fase de algum controlo; seja porque o vírus está a perder a sua capacidade de gerar novas variantes e estas a aparecerem, se revelarem menos agressivas; seja pelo vacinação massiva; seja pelo surgimento de alguns fármacos específicos. Também sob este aspecto não estou tão seguro quanto os especialistas. Mas como ficará a nossa forma de nos relacionarmos no futuro?

Sempre fui e tentei ser um optimista, mas desta vez, receio bem que me assente melhor o papel de velho do Restelo. Tal como na epopeia de Camões, olho para o ano que agora iniciamos com algum pessimismo, especialmente quando ouça dizer que “vai ficar tudo bem!” Mas não consigo afastar este sentimento das minhas elucubrações, o que me incomoda.

Vamos iniciar este novo ano com espectro de umas eleições que ninguém desejava (será?). Num quadro pandémico, que se agrava fortemente a cada dia que passa, e que se supõe poderem estar contaminados algumas centenas de milhares de portugueses à data do escrutínio. Numas eleições que se irão disputar sem que a CNE e os poderes constituídos tivessem engendrado uma solução para um sistema de votação alternativo ao voto presencial, especialmente depois da experiência das últimas presidenciais. Em alguns círculos eleitorais começa a ser difícil arranjar cidadãos para ocuparem as mesas de voto. Imagine-se se as piores previsões se concretizarem. Pior do que tudo, parece que a relação das forças políticas irem ficar, mais ou menos na mesma.

Estão anunciados o aumento dos preços de quase todos os bens essenciais. À excepção do ordenado mínimo, não podemos esperar grandes aumentos nos nossos, já parcos rendimentos. É previsível que o Banco Central Europeu reveja brevemente, a sua política de compra de dívida aos estados-membros, com o consequente aumento da inflação e das dívidas soberanas.

Até onde nos vai levar a pandemia? Quem poderá vaticinar o seu fim? Nem os ditos especialistas arriscam qualquer data! Como irá que a economia no seu todo irá recuperar de dois anos de quase total estagnação? Até onde os profissionais de saúde ainda vão aguentar do gigantesco esforço a que têm sido submetidos? Será que o teletrabalho se vai transformar na nova normalidade e quando ficará regulamentado em definitivo?

Mesmo considerando que 2022 poderá ser melhor do que 2021, como indicia o crescimento anunciado de 5,5% para a economia, as nuvens que pairam sobre a conjuntura em que vivemos aconselham alguma prudência. A solução governativa a sair das próximas eleições não pode estar amarrada a preceitos ideológicos, ou partidários. Tem que pensar nos portugueses e nas imensas dificuldades que nos esperam e aplicar medidas de uma verdadeira salvação nacional.

São muitas perguntas e muitas dúvidas, para tão poucas certezas e muito menos respostas. Como eu gostava que esta minha reflexão, eu a visse como um sonho mau, e que ao despertar fosse confrontado com uma realidade diametralmente oposta.