terça-feira, 30 de agosto de 2022

MARTA TEMIDO, OU UMA DEMISSÃO ANUNCIADA

                                 
Marta Temido foi sempre uma ministra que na sua acção congregou amores e ódios. Exerceu o seu mandato de uma forma presumida, nada dialogante e, sobretudo, muito focada na sua verdade sem dar ouvidos a nada nem a ninguém. Tinha uma visão do que era o SNS orientada por questões meramente ideológicas, sem dar atenção às razões de mera gestão prática de um sector gigantesco, e que envolve uma miríade de problemas e fragilidades. Tem muitos defensores indefectíveis, que não se cansam de tecer loas à sua boa governação, sacrifício e tenacidade. Sobretudo quando lhe atribuem o grande mérito de ter conduzido a luta contra a pandemia e o sucesso desse trabalho. E muito dele se deveu à bem-sucedida intervenção ao nível da vacinação de gouveia e Melo. Eu sou dos que não me incluo nesse grupo.

A luta contra a pandemia foi um sucesso porque se concentraram todos os meios do SNS no seu combate, deixando de fora todas as patologias que por essa circunstância não desapareceram. É no mínimo injusto para todos aqueles profissionais, que prescindiram de todo o conforto e comodidade e se disponibilizaram para tratar do seu semelhante. Refiro-me naturalmente a médicos, enfermeiros, auxiliares, bombeiros, forças de segurança, apenas para referir os mais importantes. Sem o seu contributo, o sucesso português não teria sido alcançado. No entanto, os louros deste sucesso capitalizou-o Marta Temido.

Muitas foram as polémicas protagonizadas pela ministra demissionária: Foi também uma ministra que foi muito pouco dialogante com todos os profissionais do SNS. Manteve uma luta destemida para reverter todas as parcerias com os privados, mesmo nos casos em que estes apresentavam melhores índices de rentabilidade que no público. Recusou-se a negociar com os enfermeiros, quando estes estavam em greve, alegando que era como “privilegiar o criminoso”. Numa entrevista a uma TV afirmou, com total insensibilidade que o que era necessário “enterrar os mortos e cuidar dos vivos”.  A sua insensibilidade levou-a a afirmar que o SNS precisava de “médicos mais resilientes”. Também, é da sua autoria uma proposta que penalizava os médicos que realizassem interrupções voluntárias de gravidez. Também não se coibiu de telefonar a directores hospitalares a pedir cancelamento de férias dos profissionais de saúde.

É esta ministra que recebeu a simpatia de muitos portugueses, e o próprio PS estendeu-lhe a passadeira vermelha, entregou-lhe o cartão partidário, tendo mesmo sido apontada como uma possível sucessora de António Costa.

É também esta ministra que, perante o caos em que vive actualmente o SNS, atribui as culpas a decisões tomadas nos anos 80. Como se a contratação de 30.000 profissionais de saúde e vultuosos investimentos no sector, não apontassem para uma gestão ruinosa do sector, apesar deste esforço.

António Costa vinha revelando há já algum tempo algum distanciamento da ministra. Toda a gente percebe que o problema principal do SNS é um problema de gestão de meios e de recursos, que manifestamente Marta Temido revelou uma absoluta incapacidade de resolver. Se no passado o primeiro-ministro respaldou sempre a sua ministra, desta vez aceitou, sem pestanejar, o seu pedido de demissão – sintomático! Só não se percebe muito bem, porque vai manter uma ministra desgastada e incompetente, a tomar conta dos destinos de um sector a viver momentos tão conturbados!

Por tudo isto, a demissão de Marta Temido peca por tardia. Há muito que já não tinha condições para exercer o seu mandato. Será tempo de calçar as pantufas e ouvir o hino da Intersindical, como ela tanto gosta.