Já por aqui expus este ponto de
vista, por mais do que uma vez, e penso que o momento difícil porque todos
passamos veio dar, um relevo maior a este tema – a importância estratégica
do sector agrícola, enquanto produtor de alimentos, no seio de qualquer nação. Portugal,
por isso, não é excepção, e diria mesmo que é particularmente sensível, tendo
em conta a nossa pequena dimensão e a nossa exposição a todos os factores
negativos que interferem com este sector produtivo. O conflito na Ucrânia veio
introduzir um factor de instabilidade em toda a europa, que irá, certamente,
reconfigurar toda a arquitectura geopolítica europeia, pela dependência de
inúmeras matérias-primas provenientes dos países beligerantes.
Seria bom lembramo-nos e divulgarmos,
com a devida atenção, os aumentos de produtividade registados no sector
agrícola para a economia do país, se comparados com outros sectores de
actividade, mesmo levando em consideração as inúmeras fragilidades estruturais que
o caracterizam.
Segundo Francisco Avillez[1]:
“São inegáveis as melhorias apresentadas pela agricultura portuguesa nestes
últimos anos, as quais consistiram na introdução de novas culturas, na difusão
de novas tecnologias, numa utilização mais eficiente dos recursos disponíveis,
numa maior e melhor organização da produção, numa maior qualificação
técnico-profissional do respectivo tecido empresarial e na cobertura de novos
mercados nacionais e internacionais.”
A seca severa que assola o país,
a crise energética mundial, a escassez de muitas matérias-primas, o quadro
pandémico, o conflito na Ucrânia e as suas consequências imediatas e futuras, e
a pouca importância que o sector parece representar junto dos poderes
instituídos, deixam-nos com uma imensa preocupação, no que à sobrevivência do
sector diz respeito. Já é observável uma subida de preços ao consumo de muitos
bens agrícolas. Os agricultores são confrontados diariamente com aumentos
astronómicos dos diversos factores de produção: adubos, fitofármacos,
combustíveis e lubrificantes, rações, etc.
Temos neste momento um governo em
gestão. Esperamos que o futuro governo saído das últimas eleições legislativas,
leve em consideração a importância decisiva que o sector agrícola representa e
nomeie um responsável para a pasta da agricultura, alguém com experiência e competência.
Também é verdade que os agricultores, e muitas das suas organizações de classe
não têm tido a coragem e a lucidez de bater o pé, sempre que os seus direitos
são maltratados, e têm sido muitas. Os tempos que se avizinham vão ser difíceis
para toda a gente. Não tenho dúvidas que os agricultores vão reinventar-se e
sempre que necessário irão dizer “presente”, mas também têm que exigir que o
seu trabalho seja reconhecido e respeitado e que a dignidade da importância do
seu trabalho sejam, definitivamente, reconhecidas.