sábado, 26 de fevereiro de 2022

A AGRICULTURA (SEMPRE) EM CRISE

 

"Duas Agricultoras Cavando a Terra" - Vincent van Gogh

Já por aqui expus este ponto de vista, por mais do que uma vez, e penso que o momento difícil porque todos passamos veio dar, um relevo maior a este tema – a importância estratégica do sector agrícola, enquanto produtor de alimentos, no seio de qualquer nação. Portugal, por isso, não é excepção, e diria mesmo que é particularmente sensível, tendo em conta a nossa pequena dimensão e a nossa exposição a todos os factores negativos que interferem com este sector produtivo. O conflito na Ucrânia veio introduzir um factor de instabilidade em toda a europa, que irá, certamente, reconfigurar toda a arquitectura geopolítica europeia, pela dependência de inúmeras matérias-primas provenientes dos países beligerantes.

Seria bom lembramo-nos e divulgarmos, com a devida atenção, os aumentos de produtividade registados no sector agrícola para a economia do país, se comparados com outros sectores de actividade, mesmo levando em consideração as inúmeras fragilidades estruturais que o caracterizam.

Segundo Francisco Avillez[1]: “São inegáveis as melhorias apresentadas pela agricultura portuguesa nestes últimos anos, as quais consistiram na introdução de novas culturas, na difusão de novas tecnologias, numa utilização mais eficiente dos recursos disponíveis, numa maior e melhor organização da produção, numa maior qualificação técnico-profissional do respectivo tecido empresarial e na cobertura de novos mercados nacionais e internacionais.”

A seca severa que assola o país, a crise energética mundial, a escassez de muitas matérias-primas, o quadro pandémico, o conflito na Ucrânia e as suas consequências imediatas e futuras, e a pouca importância que o sector parece representar junto dos poderes instituídos, deixam-nos com uma imensa preocupação, no que à sobrevivência do sector diz respeito. Já é observável uma subida de preços ao consumo de muitos bens agrícolas. Os agricultores são confrontados diariamente com aumentos astronómicos dos diversos factores de produção: adubos, fitofármacos, combustíveis e lubrificantes, rações, etc.

Temos neste momento um governo em gestão. Esperamos que o futuro governo saído das últimas eleições legislativas, leve em consideração a importância decisiva que o sector agrícola representa e nomeie um responsável para a pasta da agricultura, alguém com experiência e competência. Também é verdade que os agricultores, e muitas das suas organizações de classe não têm tido a coragem e a lucidez de bater o pé, sempre que os seus direitos são maltratados, e têm sido muitas. Os tempos que se avizinham vão ser difíceis para toda a gente. Não tenho dúvidas que os agricultores vão reinventar-se e sempre que necessário irão dizer “presente”, mas também têm que exigir que o seu trabalho seja reconhecido e respeitado e que a dignidade da importância do seu trabalho sejam, definitivamente, reconhecidas.



[1] Produtividade, crescimento e rendimento agrícolas em Portugal na última década

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

NO RESCALDO DAS LEGISLATIVAS 2022

No rescaldo destas eleições quero, antes demais, fazer duas declarações de interesses: sou totalmente contra maiorias absolutas, e não morro de amores por António Costa. No primeiro caso, posso ainda acrescentar fazer sentido para mim, a célebre frase de Lord Acton “O poder absoluto corrompe, absolutamente”. Se isto não fosse suficiente, bastava recordar as maiorias absolutas de Cavaco Silva e de José Sócrates, para rejeitar esta solução. Quanto ao segundo, como já aqui expus, por mais do que uma vez neste mesmo espaço, as razões desta animosidade. Este desamor, tem apenas a ver com o político e o homem, pelo seu caracter.

Mas o povo democraticamente fez a sua escolha, reduziu o nível da abstenção, o que considero um grande feito, e vamos ter nos próximos 4 anos um governo que terá todas as condições para realizar as tão propaladas reformas de que o país tanto precisa.

Joaquim Aguiar costuma dizer que: “o povo tem sempre razão, mesmo quando não sabe a razão que tem.” Os resultados destas legislativas tiveram um desfecho em que ninguém acreditava, nem mesmo António Costa. Foi uma escolha do eleitorado, e António Costa conseguiu as condições ideais que lhe garantem a estabilidade e uma solução de governabilidade para os próximos quatro anos. Assim ele queira, ou o sonho de um cargo europeu não o desvie deste rumo.

Muitas foram as opiniões para justificar as perdas e ganhos neste plebiscito. Cada uma delas tão acertadas, ou tão erradas como as sondagens que até à sexta-feira davam um empate técnico entre os dois principais contendores. Nada nem ninguém esperava o resultado esmagador do PS, sobre toda a concorrência. Temos agora um Parlamento mais colorido e diversificado, onde a oposição irá ter um papel perfeitamente marginal. António Costa tem aquilo que queria. Esperamos que possa constituir um gabinete, numa escolha orientada pela meritocracia, de gente competente e com provas dadas. Livrar-se em definitivo dos elementos socráticos e das sombras do nepotismo que ensombraram o último executivo, é o mínimo que o país exige e espera. Estão reunidas as condições ideais para implementar todas as medidas que entender necessárias para inverter o caminho que o país estava a tomar. Não terá uma conjuntura tão favorável como a que beneficiou nos últimos 6 anos. Os tempos que se avizinham não serão muito propícios a aventuras, e parecem vir carregados de sombras muito negras: aumento da inflação, subida dos preços das matérias-primas, a mais do que provável suspensão da compra da dívida soberana pelo BCE, o conflito na Ucrânia, etc. Mas é nas dificuldades que se vêm os grandes homens. Vamos aguardar.

Estas legislativas foram implacáveis para os partidos perdedores e para com o Presidente da Republica, com a diferença que aqueles ainda podem recuperar, enquanto Marcelo dificilmente terá outra oportunidade de fazer valer as suas intenções.