segunda-feira, 29 de julho de 2019

A PROPÓSITO DO MERCADO DE SANTARÉM




O Mercado Municipal de Santarém é um edifício icónico da nossa cidade, da autoria do arquitecto Cassiano Branco. Tem uma arquitectura fresca e arejada, muito propícia ao vim em vista. Apresenta no seu exterior uma fabulosa colecção de azulejos, evocando cenas da vida ribatejana. Construído no início do século passado. e que ultimamente tem sido objecto de um debate muito emotivo e nem sempre, focado no essencial – o interesse da cidade e o melhor destino a dar aquele espaço. Ou seja, o tema é abordado com demasiado entusiasmo e ruído, para que sobre o seu futuro seja encontrada a melhor solução.
Já aqui escrevi alguma coisa sobre o assunto – link. Interessa-me agora reflectir sobre o actual estado daquele espaço e, qual a melhor decisão para que a solução encontrada, seja sustentável e atraia a população.
A realidade é que se observa que o Mercado Municipal, passou por um crescente abandono, está moribundo, e com uma oferta desajustada, às muitas das exigências do consumidor (estacionamento, facilidade de acesso, ambiente confortável, horário alargado, certificação dos produtos, etc.). Por estas razões, o que oferece ao cidadão, sofre a concorrência de outros espaços, que têm uma oferta comercial muito mais atractiva.
Ou seja, a requalificação que pensamos ser indispensável e urgente, deverá ter a intenção de converter aquele espaço numa nova centralidade, moderna, atractiva para os empreendedores e convidativa para o cidadão. Para tal é imperioso modernizar aquele espaço e adaptá-lo a outras áreas de negócio.
O que se observa é uma posição dos actuais comerciantes, de alguma irredutibilidade a esta requalificação. Isto não quer dizer que os direitos adquiridos pelos actuais ocupantes não sejam salvaguardados. Ou seja, a localização temporária de instalação deverá ser equacionada de forma a não prejudicar ainda mais o seu negócio. A deslocalização destes para a Casa do Campino, não parece fazer sentido nenhum. Faria muito mais sentido, em nosso entender, arranjar uma solução temporário e desmontável no Jardim da Liberdade, ou num espaço na ex-EPC, mesmo ali ao lado, por exemplo.
A concluir, todos os envolvidos no processo deverão perceber, que o Mercado não pode continuar neste plano inclinado da degradação. Que a modernidade não se detém perante o imobilismo, muito típico dos escalabitanos. Ou seja, todos temos que dar o nosso contributo para que esta requalificação vá para diante. Da parte do Município um esforço de encontrar a melhor solução temporária, para esta inevitável deslocalização. Da parte dos comerciantes, sem abdicar das suas prerrogativas e direitos, sejam flexíveis e confiantes para um tempo e um espaço mais moderno e apetecível. Da parte de todos nós, vamos desenvolver alguma contenção e humildade na abordagem e defesa do que será o melhor para a cidade e, muito especialmente, para aquele espaço. Se tal não acontecer, todos iremos perder!

domingo, 28 de julho de 2019

A IRRITAÇÃO DOS POLÍTICOS SOCIALISTAS


Vivemos numa democracia. E, como tal, os políticos são eleitos por indicação dos partidos. A nós eleitores fazemos as nossas escolhas, tendo por base as convicções que cada um entende como as melhores para o fim em vista. Dito doutra forma, as escolhas que cada um de nós faz, está condicionada à partida, pelos escolhas das cúpulas partidárias, muitas vezes à revelia das escolhas locais. Ou seja, somos convidados a participar num jogo viciado, na medida em que não participamos directamente na escolha daqueles que nos irão representar. Por isso mesmo, o eleito tem um dever acrescido de se dar ao respeito, para poder ser respeitado.
Participar da vida política é exercer a cidadania e, este deverá ser o primeiro dever de um eleitor. Representa a nossa participação esporádica na escolha dos nossos representantes. A estes compete-lhes exactamente isto, agir em representação dos seus eleitores e também daqueles que, objectivamente, deram o seu voto a outro candidato.
A um político não se exige nada de especial, a não ser, exercer o seu mandato, tendo como foco a interesse colectivo. Para isso terá que tomar medidas que, no plano ideológico, não vai agradar a todos. E aí terá sempre que, de forma educada e humilde, afirmar, defender e debater a justeza das suas propostas. É isto que se exige a qualquer eleito, venha ele de qualquer quadrante político. Perder a calma, além de um desrespeito por todos o que o elegeram, representa uma falta de carácter inadmissível num representante do povo.
Desde há muito tempo que verificamos que muitos dos responsáveis do Partido Socialista, lidam muito mal, quando são confrontados com as suas responsabilidades e incoerências. Quando estes tipos de atitudes acontecem no âmbito dos debates políticos, compreende-se. Melhor seria defender os seus pontos de vista de forma convicta e séria. Quando tal não se verifica, parece revelar a fraqueza dos argumentos esgrimidos. Pior é quando este tipo de atitude é feito contra jornalistas, no exercício da sua actividade e a sua missão não será, certamente, fazer perguntas cómodas.
Ninguém consegue perceber tanta irritação de quem se pôs a jeito. Se não vejamos: são os incontáveis casos de suspeitas de corrupção que atravessam o PS; é a inexplicável  onda de nepotismo que assolou este governo; são as desastradas nomeações de boys, sem qualquer experiência operacional, para a Protecção Civil; é a forma inadmissível como são pagas as viagens dos deputados, bem como os subsídios de deslocação, as vergonhosas pensões vitalícias, só para falar nas mais evidentes. Quando confrontados com alguma pergunta a propósito destas questões, reagem como donzela ofendidas.
Igualmente nas redes sociais, os seus indefectíveis defensores disparam em todas as direcções, arranjando as mais indisfarçáveis desculpas, para justificar tamanha atrapalhação e irritação. Mas quando se trata da defesa da honra do convento, aí vale tudo.
Para que melhor se entenda o que acabei de escrever, deixo aqui alguns “tesourinhos”, que ilustram de forma iniludível esta anomalia que atingiu muitos socialistas.

sábado, 27 de julho de 2019

O PERIGO DE UMA MAIORIA ABSOLUTA DO PS NAS PRÓXIMAS LEGISLATIVAS


Talvez dos nomes mais bem inventados (Vasco Pulido Valente) no tempo mais recente foi, GERINGONÇA. Ela resultou de uma manobra do habilidoso António Costa, e assim, garantir a sua sobrevivência política. Lembremos que Costa é eleito, depois de uma humilhante derrota eleitoral, sobretudo, quando criticava o seu antecessor acusando-o de que as suas vitórias eram “poucochinho”. Para tal teve que vender a alma ao diabo, ou seja, aos seus inimigos de sempre: PCP e BE. Para tal, conseguiu um acordo, com cada um deles e ainda o PEV, cuja existência depende da mão que o PCP lhes dá. Foram acordos feitos à porta fechada, com cada um isoladamente, e sem qualquer compromisso governativo ou parlamentar. Era de facto muito difícil arranjar tal entendimento, sobretudo se pensarmos nas enormes diferenças destas forças relativamente á posição do PS em matérias como Europa e Defesa.
Literalmente, geringonça significa o que é malfeito, com estrutura frágil e funcionamento precário; um aparelho ou mecanismo de construção complexa. Tal com aquela história de alguém encontrar uma girafa pendurada num porte de electricidade e pensar “não sei como ela foi lá parar, nem como lá se aguenta, mas o certo é que ela está lá!
A improbabilidade do sucesso deste arranjo era reconhecida por todos os politólogos da nossa praça. Apesar de tudo, as coisas funcionaram, e hoje o termo foi adoptado e generalizado e perdeu muito da sua carga pejorativa. Isto ficou a dever-se pelo cumprimento das exigências da Troika, garantidas pelos anteriores executivos, criando uma folga financeira que permitiram muitas das medidas adoptadas. Apesar de avanções e recuos, ela lá se foi aguentando, fruto de uma conjuntura internacional muito favorável (preço dos combustíveis, taxas de juro baixas, crescimentos dos países importadores, etc.), e de uma oposição frouxa e inexistente.
Com a vitória expressiva do PS nas últimas autárquicas, soaram alarmes nas sedes do BE e do PCP, por verem que a acção da geringonça beneficiou mais o PS do que eles próprios. As sondagens dão o PS muito próximo da maioria absoluta, ou na pior das hipóteses poder formar um governo com o apoio de um pequeno partido (?), como o PAN. Esta provável solução, seria fácil de conseguir, mas iria alterar drasticamente o equilíbrio de forças que, apesar de tudo, a geringonça a três sempre garantia. Para além disso, a provável saída de Mário Centeno para um cargo europeu, pode deitar por terra o slogan das “contas certas”, mesmo tendo em conta as suas habilidades contabilísticas. E todos sabemos que um PS em roda livre, não se recomenda – não esquecer de Sócrates e dos seus governos.
Com o descalabro da direita, antevejo uma grande incerteza quanto ao futuro do país, muito em particular pelo estado lamentável nas áreas essenciais à vida dos portugueses: a saúde, a educação, os transportes, os conflitos sociais, a justiça, a segurança. Com este cenário no horizonte, em Outubro próximo a nossa responsabilidade como eleitores, deve assentar numa escolha criteriosa de quem melhor poderá governar o país. No meu ver, um PS sozinho, em maioria absoluta, não vai resistir à tentação do laxismo e deitar por terra todo o esforço, feito por todos nós. Não esqueçamos que o FMI esteve por três vezes em Portugal, sempre pela mão do PS: Sintomático!
Por ser uma evidência muito recente , devemos ainda levar em conta, e não esquecer na hora da escolha, a enorme responsabilidade deste governo, nos fogos florestais, a sua incapacidade em aceitar as evidências: a inoperância e incompetência dos serviços de Protecção Civil; as incompreensíveis falhas do SIRESP (negócio feito poa António Costa); as inúmeras suspeições que envolvem a contratação dos meios aéreos; a forma desleixa como foram geridos os donativos dos fogos de Pedrogão Grande; os sucessivos conflitos com os autarcas, que apenas pretendem o melhor para o seu concelho e populações; os incómodos e as irritações com as perguntas dos jornalistas. Estas são apenas algumas das inconsistências de um governo (maioria), que sistematicamente falhou. Por tudo isto, proporcionar uma maioria absoluta ao PS será um erro, que iremos carregar por muitos e muitos anos.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

SANTARÉM NÃO MERECIA TAL SORTE II


Acabei de saber da lamentável forma como decorreu a reunião de apresentação das listas do PSD, para as próximas legislativas.
Todos sabemos das polémicas que existem, sistematicamente, nas manifestas divergências entre as escolhas dos órgãos locais, com as orientações das estruturas nacionais, e isso eu consigo entender. Já não entendo que, personalidades com responsabilidades, quer a nível regional, quer a nível nacional, se envolvam em contendas dignas do ambiente de taberna. Como não conheço os detalhes das argumentações esgrimidas, não consigo ajuizar quem procedeu com maior ou menor grau de irresponsabilidade. Uma coisa é certa, o cidadão eleitor, tem que admitir que as pessoas que se apresentam ao escrutínio, sejam gente de bem e com uma forma de ser e de estar, acima de qualquer comportamento menos aceitável! À mulher de César não lhe basta ser séria.
Pelo que li, o principal foco de divergência, assentou na escolha do actual deputado eleito pelo ciclo de Santarém (escolha nacional) e em funções na Assembleia da República, e a não inclusão, em lugar elegível, de Ramiro Matos (escolha local).
O problema da escolha dos candidatos para as listas partidárias, sempre foram geradores de grandes divisões no interior dos partidos. A argumentação habitual é que, a cúpula do partido tem uma visão mais global e assente numa estratégia política nacional. Por outro lado, as estruturas partidárias de âmbito local, contrapõem na sua argumentação que, a proximidade e conhecimento da população dos candidatos, e do seu trabalho, é o argumento chave para as suas escolhas. Uns e outros tem as suas razões. Também é reconhecido que na constituição das listas também se verifica, que algumas escolhas, são mais para satisfazer alguns favores políticos, do que por uma reconhecida competência ou preparação para o cargo.
O caso em apreço envolve o PSD. Mas esta lógica, é transversal a todo o espectro político, com mais ou menos mediatismo, mas a consensualidade nas escolhas dos candidatos é, muito mais a excepção do que a regra.
Em conclusão podemos admitir, que nestas lógicas partidárias, o desenvolvimento das regiões, os interesses dos cidadãos eleitores contam muito pouco. Pior ainda é o triste espectáculo que se dá da terra e das suas gentes. Santarém não merecia tal sorte.

terça-feira, 23 de julho de 2019

A insensibilidade de António Costa e a tragédia dos incêndios!


Mais uma época de fogos que começou em força e, mesmo depois do ministro da Administração Interna, ter garantido que tudo estava a postos para enfrentar esta cíclica calamidade! Trata-se de um ministro que ocupa o lugar, não por ter alguma vez ter demonstrado capacidades e conhecimentos para a sua área de intervenção. Mas estamos a falar de um amigo pessoal de António Costa e isso, aparentemente, é suficiente!
Os fogos de 2017, deixaram este governo com as mãos sujas de sangue pela existência de mais de 100 mortes, por sua total incapacidade, incúria e manifesta falta de planeamento. Tudo isto foi totalmente confirmado no relatório da Comissão Técnica Independente: falhas na programação do socorro e na rede de comunicações e um "dramático abandono" das populações foram identificados
Todos sabemos das condições propícias á existência de fogos florestais, que são naturais no nosso país. Mas, até por isso mesmo, o ordenamento da floresta, a prevenção e a intervenção orientadas, deviam dominar as preocupações dos nossos governantes. O que verificamos, no entanto, é um fabuloso investimento nos meios de combate e, nada do essencial, em termos de prevenção é feito de forma estruturada. Exactamente por isso é que diz quem sabe: Os fogos combatem-se no Inverno. Mas também há quem diga que se ganha muito dinheiro a apagar o fogo. Há negócios muito mal explicados no meio desta problemática dos incêndios florestais. Senão vejamos: Foi a ruinosa compra do SIRESP (António Costa ministro da Administração Interna). É a contratação dos meios aéreos que, sistematicamente, nunca estão totalmente disponíveis na altura devida. Meios este que custam ao erário público uma fortuna num trabalho que nos podemos questionar, se não poderiam ser feitos pela nossa Força Aérea? É o sistema de Protecção Civil, que abriga muito jovens (boys), que o que lhes sobra em preparação académica, falta-lhe em experiência operacional. È no mísero apoio às populações, deixadas ao abandono e. até mesmo, na gestão dos donativos, que são geridos de forma descomprometida e, com evidentes indícios de aproveitamento e corrupção por parte dos responsáveis directos, a quem o sr. primeiro ministro continua a dar o seu incondicional apoio, como no caso do Fundo REVITA em Pedrogão Grande.
Vivemos no presente momento outra época de fogos descontrolados e que, impiedosamente, vai roubando os pertences e haveres de quem trabalhou uma vida inteira para conseguir o que tem. Perante isto, António Costa faz o habitual, desculpa-se com o Tribunal de Contas, com a empresa que gere a frota dos meios aéreos, ou com os presidentes de câmara, como primeiros responsáveis da Protecção Civil, apesar das suas limitadíssimas condições de intervenção.
Falta de humanidade, total insensibilidade perante o sofrimento das populações e da destruição deste património ambiental. Não aprende com os inúmeros erros cometidos, atirando sempre as culpas para os outros. `este o padrão no comportamento do nosso primeiro ministro assusta e, certamente, não dormirá descansado com toda esta tragédia a pesar-lhe na consciência. Será que a tem? Duvido.
É também a este primeiro ministro que o povo se prepara para lhe conferir um maioria absoluta. Temos aquilo que merecemos. Ninguém se pode queixar.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

AÇORIANIDADE


Este termo inventado por Vitorino Nemésio, representa, ou pretende representar, algo muito difícil de explicar a um não ilhéu. Na minha modesta e humilde opinião, o termo serve para identificar uma forma muito peculiar de quem vive ou viveu numa ilha, e muito especialmente num arquipélago, perdido algures no Atlântico Norte. O isolamento, o clima agreste e por vezes inclemente, determina uma personalidade rude e batalhadora, que diariamente luta para vencer todas as adversidades que esta natureza arrebatadora lhe impõe. Esta natureza de uma beleza estonteante, chega por vezes, a ser “madrasta”e que, requentemente, se manifesta por uma actividade sísmica e vulcânica, com uma crueldade assustadora. O mar imenso que nos rodeia, serviu sempre como uma porta de entrada e de saída à nossa imensa diáspora, mas também por manifestações de uma braveza que nos impõe enormes dificuldades de isolamento e comunicação, lembrando sempre a nossa infinita insignificância! Foi também este mar que, em tempos idos, traziam piratas que nos faiam recuar para partes remotas e escondidas entre montanhas, grotas e penhascos quase inacessíveis, como único meio de defesa e sobrevivência.
Mas este pedaço de chão que tanto nos amargura, também nos faz despertar um tamanho sentimento de apego á terra, que mesmo quando estamos longe, ele persiste no mais fundo dos nossos corações. As razões para tal são desconhecidas, pelo menos para mim. Serão talvez os usos, costume e tradições distintivas e peculiares, que nos fazem sentir um orgulho indisfarçável. Será, provavelmente, esta(s) pronúncia(s) tão característica que trazem à memória uma herança. de muitos séculos de história e de origens muito diversificadas, misteriosas e mal conhecidas, e a que o isolamento preservou até aos nossos dias.
Por outro lado, o apego e amor á terra é algo que está indelevelmente preso á alma do açoriano, traduzindo talvez, uma incompreensível dualidade de temer o mar que lhe é adverso e, esse mesmo mar que lhe dá o sustento e o portal que o liga ao mundo, quando quer ou necessita sair!. Foi também o mar que tornou o ilhéu em aventureiro, quando o foguete estoura e indica o chamamento na caça á baleia, ou ainda lhe dá o espírito pioneiro e destemido de cruzar oceanos, numa frágil casca de noz, em busca de um mundo melhor, como no caso descrito no “Barco e o Sonho”. Esta dualidade também se vê no amor à terra, por tudo aquilo que ela lhe dá: o solo fértil onde pode extrair quase tudo, a abundância de água, o clima temperado, a beleza das paisagens que o rodeiam. A quietude das lagoas e a explosão de cores das nossas hortências, azáleas, conteira, para falar apenas nas mais exuberantes. A beleza e calmaria das madrugadas e a observação de um por do sol em direcção ao ocidente, o elevado teor de humidade, que nos dá a fertilidade dos nossos solos, também nos carrega com o peso da “mornaça” e nos retira, por vezes, a vontade de continuar a luta. Todos estes contrates tornam o ilhéu num ser melancólico e contemplativo e sempre grato e reconhecido à Mãe Natureza, pela graça de aqui ter nascido.
A personalidade do açoriano pode ser definida numa matriz de enorme recato e desconfiança perante aquilo que é novo e exótico, para logo se transformar numa sincera hospitalidade, logo que se quebra o gelo inicial. As muitas dificuldades que a vivência na Ilha determina, fez do açoriano um ser inconformado e que nunca desiste perante as dificuldades. A mais eloquente prova disto são os ciclos económicos que determinaram a vivência e a subsistência dos açorianos. Começou primitivamente com o ciclo do pastel durante a idade média, para quando este acabou se dedicar à produção de cereais. Quando este entrou em declínio. Surgiu o ciclo da laranja. Concomitantemente com isto, o espírito inovador e empreendedor levou o açoriano a experiências únicas, como a produção de chá e de frutas exóticas, que ainda persistem nos dias de hoje. O ciclo da produção leiteira fez dos produtos lácteos açorianos uma referência quer internamente, quer em mercados externos, particularmente exigentes. Assistimos agora a um momento de viragem, com o aparecimento e desenvolvimento da indústria do turismo. Não verga perante a adversidade, como também nunca se conformou, com a negação aos seus mais profundos e legítimos sentimentos autonomistas. Talvez por isso o nosso brasão de Armas, tem como legenda. Antes morrer livres que em paz sujeitos.
Eu diria que a personalidade de um açoriano assenta numa matriz de contrastes que lhe conferem esta vontade de aventura, gratidão, conquista e sobrevivência ás agruras que a ilha lhe impõe, numa constante vontade de partir, sem nunca esquecer o som do mar que o rodeia, ou o cheiros, das flores, do salitre do mar, ou da terra molhada. Reflectida eloquentemente na sua cultura popular com a tristeza da Sapateia e a alegria de uma Chamarrita.
Foram muitos destes princípios que marcaram a vida e obra dos nossos maiores: Antero de Quental, Manuel de Arriaga, Francisco de Lacerda, Vitorino de Nemésio, Dias de Melo ou Natália Correia.
A terminar, gostava de aqui deixar nota de algum constrangimento na abordagem deste tema, que a intelectualidade açoriana trata de forma muito mais assertiva e cientificamente sustentada, por um leigo na matéria como eu. Sou um açoriano que deixou a ilha, e que vive e adora a cidade de Santarém, que o acolheu no seu seio há mais de cinquenta anos. Sinto e vivo esta cidade, como se aqui tivesse nascido. Mas a ilha nunca deixa de estar presente, na minha forma de ser e de estar. Alguém referiu um dia que: O ilhéu pode sair da Ilha. Mas a Ilha nunca sai do Ilhéu! Esta frase reflecte, de forma eloquente, esta coisa de ser e sentir-se açoriano, e que alguns designam por Açorianidade.