O mundo foi confrontado com uma realidade para a qual ninguém estava preparado. A responsabilidade de tudo isto assenta num vírus minúsculo, com uma capacidade de contaminação elevadíssimo, com uma taxa de mortalidade reduzida (se comparado com outras patologias, que é controlado com água e sabão, mas que causou um alarme de nível global). Não houve um único país, por mais bem preparado que estivesse o seu sistema de saúde, que conseguisse manter em funcionamento pleno a sua estrutura produtiva.
Foi necessário serem adoptadas
medidas extremas, com base no que se conhecia na altura, para tentar debelar,
ou atenuar os efeitos que este vírus podia causar. Numa primeira fase, esse
desconhecimento, levou as populações a aceitarem, com resignação e compreensão,
todas as medidas adoptadas: o confinamento, o distanciamento social, a etiqueta
sanitária e respiratória, o uso de máscara e luvas, recomendações de ventilação
e higienização ambiental, medição de temperatura, redução do espaço nos
transportes e em todos os lugares públicos, limitação de participantes em
reuniões familiares, restrição no número e pessoas nos funerais, proibição de
público em actividades desportivas, culturais e sociais, etc. Estas medidas mais restritivas imperaram
cerca de três meses para a maioria das pessoas. Os núcleos familiares viram-se
repentinamente, aprisionados em casa, em alguns casos em situação de
teletrabalho, com os jovens submetidos ao ensino à distância (com todos os
problemas que isso causou, nomeadamente, a nível social), com as dificuldades
de acesso aos bens essenciais e, principalmente, com a dificuldade do mais que
necessário convívio social.
Foi imperioso instituir o estado
de calamidade para que o combate fosse rápido e eficaz. Pela excepcionalidade desta
medida a população aceitou, com natural submissão, a lógica e a necessidade das
acções. Os transportes, escolas, comércio, restauração, cultura, desporto,
comportamento social, trabalho, serviços públicos e equipamentos sociais foram seriamente
afectados, com todas as consequências que isso determinou, na via das pessoas. À
medida que o tempo ia passando, e a economia se ia desagradando, cedo se
percebeu, que seria impossível manter a situação por muito mais tempo, pelo que
impunha um regresso ´normalidade possível. Mesmo durante o período mais severo
da pandemia, muitos eram os que afirmavam e pugnavam com optimismo, que “tudo
vai ficar bem”! À medida que as restrições forem sendo levantadas ou
atenuadas, começou a falar-se numa “nova normalidade”. Mesmo esta, foi
aceite com um pacote de grande restrição, na vida das pessoas e das empresas e
organizações. Ou seja, nada ia ficar como dantes, e tínhamos que aprender a
viver com uma realidade substancialmente diferente, daquela a que sempre nos
habituamos, apesar de nova.
A alteração dos
comportamentos, foi-nos imposto pela pandemia. Coisas absolutamente banais
como: dar um abraço, fazer um almoço de fim de semana com a família ou os
amigos, assistir a um espectáculo, dar um abraço, frequentar um ginásio, acompanhar
um ente querido, etc. foram-nos vedads. Mas se isto, com alguma disciplina, capacidade
de adaptação e resiliência é possível conseguir compatibilizar com esta nova
realidade. Porém, do ponto de vista emocional, pensamos que as coisas não serão
assim tão fáceis. Qualquer um de nós, pode ser um transmissor assintomático
desta terrível enfermidade. Ou seja, mesmo sem saber e cumprindo todas as
recomendações, podemos ser um veículo disseminador. Portanto, instalou-se no
subconsciente de todos nós que, pior do que a doença, é a nossa responsabilidade
do mal que possamos causar a terceiros. Este sentimento determinou um
isolamento voluntário das pessoas, por uma cultura do medo instalada e que receio,
vá perdurar por muito tempo! Gostava de acreditar que tudo vai melhorar. Não
estou seguro disso. Se os mais idosos são os mais expostos e formam o principal
grupo de risco, são também, aqueles que aceitaram com mais resignação todos
estes constrangimentos. Os nossos jovens que por natureza são alegres, convivem
de forma mais próxima e esfusiante, menos conscientes e responsáveis, vão
formar a sua personalidade com base numa cultura de uma sociedade dividida,
menos fraterna e, consequentemente, mais egoísta.
Com a perspectiva de uma
segunda vaga do Covid 19 que se avizinha, vêem reforçar todos estes receios. A
nossa convicção é que nada vai ficar como dantes. O mundo vai necessitar,
provavelmente, de muitos anos até que uma solução eficaz e definitiva possa ser
encontrada e que o ser humano, consiga ultrapassar todos estes receios. Por
princípio e convicção sou um optimista. Apesar disso, fica-me uma sensação de
algum desânimo, sobretudo, pelas consequências que tudo isto vai acarretar para
os meus filhos e netos. Como eu gostava de estar enganado E que a frase de Friedrich
Nietzsche: “O que não me mata, torna-me
mais forte”, pudesse aplicar-se neste caso.