quarta-feira, 22 de outubro de 2025

FRANCISCO PINTO BALSEMÃO UM PIONEIRO E UM VISIONÁRIO

 


"Hoje e sempre, a única obrigação moral que pode ser exigida ao Homem é que procure deixar o Mundo onde nasceu melhor do que o encontrou"

(Francisco Pinto Balsemão)

Há uns anos a esta parte, e por razões que seria fastidioso estar agora a elencar, apaixonei-me pelos fenómenos que envolvem o mundo da Comunicação, particularmente nos aspectos conceptuais. Como este ecossistema era novo para mim, passei pelo processo de aprendizagem, tentando informar-me de forma consistente, de tudo o que tudo o que o envolvia. Recordo-me, em particular, do esforço que tive de fazer para entender os paradigmas associados ao conceito de comunicação como um todo.

Apesar da pouca literatura existente e da perspectiva portuguesa deste fenómeno, esbarrava sistematicamente com o nome de Francisco Pinto Balsemão, o que me obrigou também, a tentar perceber um pouco mais sobre esta personalidade, para além da espuma dos dias. Percebi que tinha um percurso de vida multifacetado e deu o seu contributo como político, como advogado, como professor, como empresário, como jornalista e como homem de cultura.

Era um jurista de formação. Foi um político que integrou um grupo parlamentar conhecido pela Ala Liberal, durante o Estado Novo, que pretendia marcar uma nova forma de olhar para o país que permitisse uma mudança pacífica para a democracia. Teve um papel preponderante no pós 25 de Abril, como um dos fundadores do então PPD. Na política desempenhou cargos de elevada preponderância. Mas foi no jornalismo que o seu pioneirismo alcançou maior relevo.

Assumiu a chefia do governo em circunstâncias muito difíceis. Foi na sequência da morte de Francisco Sá Carneiro e o país a tentar livrar-se das amarras revolucionárias que o novo regime enfrentava.

Depois de trabalhar como jornalista na imprensa diária, resolve criar o seu próprio projecto jornalístico, inspirado nos semanários que se publicavam noutros países da Europa e funda em 1973 o Jornal Expresso. O Expresso tornou-se desde a sua génese um título de referência da imprensa escrita portuguesa, pela seriedade, isenção e qualidade dos colaboradores.

É e nesta vertente que mais admiro o Homem e a sua obra. Foi um humanista e preservou sempre os valores da liberdade e da independência jornalística. Mesmo quando assumiu a funções de primeiro-ministro, o jornal que fundara não se coibiu de o criticar, sem que isso o motivasse a uma atitude revanchista.

Francisco Pinto Balsemão foi um homem muito à frente do seu tempo. Foi sempre um vanguardista e um visionário. São disso exemplo o seu pioneirismo como: criador do primeiro canal de televisão privado, o primeiro canal de notícias, da primeira plataforma de streaming nacional, cria o Prémio Pessoa, e é um apaixonado pelas abordagens comunicacionais com recurso às novas tecnologias, criando, em nome próprio um podcast para assinalar o início das comemorações dos 50 anos do Expresso e edita em formato digital as suas memórias recorrendo à clonagem da sua voz por Inteligência Artificia. 

Mas foi sobretudo, a sua carreira, o seu humanismo, o seu vanguardismo, a sua isenção e o seu amor pela liberdade, desde logo a liberdade de Imprensa, que me habituei a admirar. Foi um homem muito à frente do seu tempo e deixa para as novas gerações uma obra de referência a ser seguida.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

O PS A DAR UMA TRISTE IDEIA DE SI MESMO

 



A queda estrondosa do PS nos últimos dois plebiscitos, contrasta com a subida fulgurante do CHEGA no mesmo espaço de tempo. À pergunta existencial de: “O que faço aqui?” e “Para onde quero ir”, o PS foi respondendo com hesitação atrás de hesitação. Há cerca de um ano Pedro Nuno Santos, assumiu que António José Seguro, seria um bom candidato para o PS, para em muito pouco tempo se arrepender do que havia dito. Depois, muitos foram os nomes atirados para o ar de putativos candidatos, que certamente estariam muito mais alinhados com a matriz ideológica socialista, por oposição ao perfil mais moderado de António José Seguro. António Vitorino, Artur Santos Silva, Mário Centeno, Ana Gomes, Sampaio da Nóvoa, como os que melhor representavam o PS actual. Porque será que não aceitaram?

É bom relembrar que sempre que o nome de António José Seguro era ventilado, muitas vozes se levantavam, particularmente da facção “costista”, enumerando uma série de questões que o tornavam um alvo a abater. Como nenhum dos putativos candidatos, anunciados como escolhas naturais, se mostrou disponível, foi ontem anunciado o apoio formal do PS à candidatura de António José Seguro, com ênfase de que António José Seguro é um digno defensor do socialismo democrático!

É caso para perguntar porque tanto tempo a reconhecer algo que parecia obvio? Outra pergunta que se pode colocar, é o facto deste anúncio ter sido feito lado a lado com o presidente do partido Carlos César, que nunca foi um defensor confesso do candidato?

A indefinição do PS quanto a esta e outras questões tem sido pautada por avanços e recuos. Desde que António Costa abraçou o conforto e prestígio de um cargo europeu, que o partido e, sobretudo, os seus militantes ficaram órfãos. Foi assim no apoio do partido às próximas eleições, foi assim no incómodo causado pelas recentes declarações do autarca de Loures, no caso das barracas.

Se Pedro Nuno Santos tinha uma forma de estar que cortava a direito, sem respeitar as vozes críticas, tivesse ou não razão, José Luís Carneiro que o sucedeu, representa uma facção oposta, que herdou um partido em frangalhos, e lá vai de cedência em cedência procurando um caminho que eu suspeito o irá conduzir a um precipício.

Com a fragmentação do espectro partidário, o mantra de ser socialista numas vezes, e social-democrata noutras, parece não convencer os seus eleitores tradicionais. Entre o não e o sim o PS tem, sistematicamente preferido o NIM. Além de falta de coerência ideológica, ou talvez por isso mesmo, o partido está a dar uma triste ideia de si próprio. E a riquíssima história do partido no nosso processo democrático, parece não ser suficiente para impedir o desgaste inexorável que o poderá conduzir à irrelevância.

Acresce ainda que não se entendeu que o ambiente político, em Portugal e na Europa vive um período de mudança a que a esquerda parece fechar-se numa bolha e recusa-se a ver as evidências, abrindo um caminho a populismos e radicalismos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

MÁRIO CENTENO – UM HINO GROTESCO

 

Mário Centeno saltou para a ribalta pela mão de António Costa, no ainda delicado período do pós-Troika. Até então, o seu nome era talvez conhecido no âmbito do ecossistema bancário e pouco mais. No entanto, o comum dos cidadãos só passou a conhecer esta personagem quando assumiu a pasta das Finanças no XXI Governo Constitucional de Portugal e Ministro de Estado e das Finanças no XXII Governo Constitucional de Portugal.

Em pouco mais de uma década, Mário Centeno, um quase desconhecido economista, funcionário do Banco de Portugal tornou-se numa "marca" de sucesso do PS Costista, e um dos protagonistas da vida política portuguesa. Foi o inventor das cativações, que de algum modo, garantiram a sobrevivência dos governos da geringonça. E foi neste período governativo que se tornou no “Ronaldo das Finanças”. A ascensão de Mário Centeno na política portuguesa começou aos tropeções e com muitas reservas, para se tornar no mais importante elemento dos governos de António Costa.

Mário Centeno, o “patinho feio”, ascendeu no seio da geringonça a um lugar cimeiro, sem que ninguém o previsse, para se transformar numa estrela política, conseguindo ser a escolha para presidir ao Eurogrupo. Um tecnocrata que não queria ser, ou alguém que ficou deslumbrado pelo ensejo de se tornar num político de reconhecido valor. Quando abandonou o Governo do PS para poucos dias depois assumir a liderança do Banco de Portugal, foi alvo de duras críticas. Por esta razão foi acusado de não ter respeitado um razoável período de luto, ao passar de regulado a regulador, demonstrando uma sede de se manter na crista da onda, atitude que foi condenada por questões de ética republicana, muito apreciada pelas hostes socialistas.

Quando se olha ao seu percurso fácil é depreender que se tornou em pouco tempo de um mero desconhecido, para alguém que, depois de um percurso meteórico na vida política, olha para um futuro bem mais ambicioso. Chegou a ser indicado para o lugar de 1º ministro, quando António Costa apresenta a sua demissão após suspeitas de corrupção no seu Governo e buscas à sua residência oficial. Depois disto o seu nome é apresentado como protocandidato à Presidência da República.

Todo este percurso representa um período político com vicissitudes muito particulares, onde Mário Centeno desempenhou um papel crucial. Foi um percurso com êxitos e fracassos. Com tomadas de posição, eventualmente, questionáveis. Isto, representa, no entanto, uma natural e legítima ambição do visado.

Mo final do seu mandato Mário Centeno não resistiu à tentação de, há semelhança de outros políticos, deixar uma marca do culto da (sua) personalidade. Um hino de louvor do seu exercício como governador. Pelo pouco que se sabe, Mário Centeno compôs um Hino de louvor, musicado pelo Carlos T, por um ajuste directo de 15.000,00 €! Este culto da personalidade e o desplante de gastar o dinheiro dos contribuintes com uma manifestação de gosto duvidoso, só lembra as figuras representativas das autocracias mundiais. Digamos que alguém que foi ministro das Finanças, presidente do Eurogrupo, governador do Banco de Portugal, para não citar outras funções relevantes que desempenhou, este fim de mandato, merece um estudo de caso.” Shame on You”

domingo, 21 de setembro de 2025

SANTARÉM - UM PORTO DE ABRIGO DE HÁ SESSENTA ANOS

 

Porto de Ponta Delgada - Carvalho Araújo

Corria o ano de 1965 e este açoriano, que nunca tinha largado o doce aconchego do lar e da Ilha, e aventurou-se no velhinho navio Carvalho Araújo, em direcção ao desconhecido. Vivíamos num tempo em que viajar seria um privilégio de poucos, e a necessidade de alguns para vencer a distância e o isolamento que a condição de ilhéu condenava. Foi precisamente o meu caso.

Desde sempre tive uma inexplicável atracção pelo mundo agrícola. Provinha de uma família que não tinha qualquer ligação à lavoura, mas as férias passadas num lugarejo chamado de Aflitos, em casa de uma família ligada ao sector leiteiro, permitia-me mergulhar no mundo do maneio do gado, das ordenhas, das desfolhadas, das vindimas da apanha da castanha e, de alguma forma, em todas as lides do campo, pelo qual me apaixonei. Quando chegou a hora de decidir, dar continuidade ao percurso académico, a escolha do Curso de Regente Agrícola, apareceu em primeiro lugar. Influenciado pela experiência de colegas que já cá estudavam e, cujos depoimentos sobre a cidade e o curso facilitaram a minha escolha.

Aportei a Lisboa numa manhã em meados de Setembro. À minha espera estavam uns tios irmãos do meu pai que me levaram para Queluz, onde residiam. Logo no dia seguinte, apanhava um comboio para ir conhecer a grande capital. Tudo era novo e surpreendente. A primeira viagem de comboio, a visão do bulício de uma grande cidade, e o desconforto com a dificuldade de me fazer entender, que o meu carregado sotaque micaelense levantava. Mas aquele mundo novo despertava a minha curiosidade e o sentimento de descobrir algo novo. O desejo que esta nova aventura despertava, levou-me a calcorrear a cidade a pé. E não houve lugar icónico que eu não tenha visitado.

Surpreendido com uma realidade substancialmente diferente da vivência num arquipélago, isolado, abandonado pelos poderes centrais e onde a vida se desenrolava no ritmo da cadência das ondas. Este oceano imenso que nos rodeava, apresentava-se a um ilhéu como uma barreira intransponível em tempos de mar revolto. Mas por outro lado, revelava-se como a porta de saída para o desconhecido ou em busca de um futuro melhor. Esta foi a via preferencial que a diáspora açoriana encontrou, como forma de fugir à miséria e em busca de melhores dias noutras paragens. Felizmente não foi o meu caso.

Na última semana de Setembro, apanhei o comboio em direcção a Santarém. Relembro o pensamento que me assolava na altura que era o de começar uma vida nova, de forma independente e da responsabilidade associada.

Aqui e naquele longínquo ano se iniciou a minha aventura de vida. Aqui me formei, aqui casei, aqui fiz o meu percurso militar. Depois de dois anos em Timor, a cumprir a comissão de serviço militar obrigatório, aqui regressei para iniciar a minha carreira profissional.  Com um regresso às origens em 1977, para abraçar uma experiência que não deu certo, eis-me regressado à capital ribatejana, até aos dias de hoje.

É com um sentimento de profunda gratidão que tenho de agradecer à cidade e às suas gentes a forma como sempre fui acolhido, acarinhado e respeitado. Tentei sempre retribuir à cidade tudo o que me deu. Não por uma mera questão de retribuição, mas, fundamentalmente por me fazerem sentir como mais um dos seus, e nunca um estranho.

Apesar de uma longa vivência, tenho de confessar que, na realidade, nunca me senti um verdadeiro ribatejano, porque nunca me consegui livrar desta marcar indelével que qualquer ilhéu traz consigo. Houve que afirmasse: “o ilhéu pode sair da ilha, mas a ilha nunca sai do ilhéu”. Mas é muito mais do que isso. Nas palavras de um australiano de nascimento e açoriano de coração, que afirmou:

“Não levam só a ilha, mas acarretam com ela séculos de história e de tradições que insistem em transplantar como se elas tivessem raízes que pudessem medrar em solo estrangeiro e torná-lo mais ameno, hospitaleiro, em suma, açoriano.”

in A CONDIÇÃO DE ILHÉU

J CHRYS CHRYSTELLO

Provavelmente um regresso às ilhas seria algo que podia ver com bons olhos, sobretudo pelos laços familiares que me ligam àquela terra. Mas por outro lado isso significaria, cortar com laços profundos que me prendem à velha Scalabis, que tanto me deu. Onde arranjei um grupo de amigos, que fazem parte integrante da minha vida, que me estimam e acarinham. Deixa-me numa profunda inquietude, o de me sentir intrinsecamente ilhéu, mas preso a um lugar que tanto me deu, como o meu porto de abrigo.

Acredito que este sentimento possa revelar-se a muita gente como algo dúbio, inconsistente ou um pouco indefinido. Talvez se entenda melhor esta minha angústia, neste poema da também açoriana Natália Correia, intitulado Manhã Cinzenta:

À partida de São Miguel


Ai madrugada pálida e sombria

em que «deixei a terra de meus pais

e aquele adeus que a voz do mar trazia

dum lenço branco, a acenar no cais.


O meu veleiro - era de espuma fria -

Lavava-o o fervor dos vendavais

À passagem gritavam-me: onde vais?

Mas só o meu veleiro respondia.


Cruzei o mar em direcções diferente

Por quantas terras fui, por quantas gentes

Nesta longa viagem qua não finda


Só uma estrada resta - mais nenhuma:

Na ilha que o passado envolve em bruma,

Um lenço branco que me acena ainda...


sábado, 2 de agosto de 2025

A SOLUÇÃO DOS DOIS ESTADOS – UMA UTOPIA


O conflito entre judeus e palestinianos, não é uma coisa nova e assenta em questões insanáveis, e em diferenças de vária ordem: seja do ponto de vista religioso, político, cultural, social, seja ainda dos valores que defendem. Acresce que o conflito terminaria no momento que o Hamas entregasse os cerca de quarenta reféns que ainda tem sob sua guarda (provavelmente a maioria já estará morta). Para além disto, há que entender que este conflito é “sustentado”, por potências estrangeiras. De um lado o Irão e do outro os Estados Unidos.

O Irão (xiita) é o grande aliado do Hamas e do Hezbollah. Teerão compreende que o apoio financeiro, logístico e militar dado a estes grupos terroristas é fundamental, uma vez que alarga a sua esfera de influência no Médio Oriente, particularmente contra Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Egipto, todos eles de maioria sunita.

Os acontecimentos de 7 de Outubro resultaram por uma falha épica dos serviços secretos israelitas por um lado, e por outro de um ataque impiedoso e indiscriminado sobre um grupo de jovens que se divertia num festival de música. Este ataque não poupou ninguém, porque aparentemente pretendia tomar reféns o maior número de pessoas, para serviriam de moeda de troca neste conflito.

A chamada "solução de dois Estados" - ou seja, a criação de um Estado palestiniano independente convivendo lado a lado com Israel, ambos coexistindo em paz e segurança foi uma proposta diplomática defendida por décadas por parte da comunidade internacional, incluindo a ONU, os EUA, e a União Europeia, que prevê: um Estado de Israel seguro e reconhecido e um Estado da Palestina soberano e viável, nos territórios da Cisjordânia, Faixa de Gaza e com Jerusalém Oriental como capital. Nesta solução, parece não atender aos instáveis equilíbrios geopolíticos regionais.

O termo "utopia" aqui parece-nos totalmente ajustado porque, embora a ideia pareça justa ou desejável, é vista como irrealista ou inatingível nas condições actuais. Estas razões incluem: o abandono dos territórios ocupados por parte de Israel; pelas divisões políticas internas entre os próprios palestinianos (Fatah na Cisjordânia e Hamas em Gaza); pela desconfiança mútua profunda, por um histórico de violência e por uma aparente falta de vontade política de lideranças de ambos os lados. Já foram aduzidas outras propostas como sejam: um estado binacional, uma confederação, ou a manutenção do status quo. Qualquer uma delas é tão irrealista como a solução dos dois estados com uma capital comum.

Chamar a "opção dos dois Estados" de uma utopia é expressar descrença na sua realização prática, mesmo que ela ainda seja considerada a melhor solução por muitos governos e especialistas. O termo "utopia" não necessariamente nega o valor da ideia, mas destaca o fosso entre teoria e realidade.

Esta incapacidade de solucionar o conflito, está muito mais dependente de razões externas (o tal equilíbrio geopolítico regional), do que das internas (entre os dois estados), com referiu Clara Ferreira Alves: “A ‘causa palestiniana’ nunca ajudou a Palestina a nascer. Pelo contrário, sem a ‘causa’ e a interferência externa, há muito que os dois povos teriam chegado a um módico de convivência.”

A situação que se vive em Gaza, aproxima-se a passos largos de um genocídio condenável e que só parece ter solução quando uma das partes ceder, o que parece ser muito improvável. Tal como o reconhecimento da Palestina por um grande número de países não passa de “penso rápido” para apaziguar consciências.


quarta-feira, 16 de julho de 2025

RABO DE PEIXE – Um estigma ou uma fatalidade?

 

Vila de Rabo de Peixe

Como açoriano e micaelense, a viver fora há quase sessenta anos, sou frequentemente abordado sobre notícias e acontecimentos ligados à vila de Rabo de Peixe, e nem sempre pelas melhores razões. Confesso que é algo que me deixa desconfortável, não pela exposição mediática, mas por considerar que muitas dessas críticas revelam um profundo desconhecimento daquela realidade. Seja pelo sotaque carregado dos seus habitantes, seja pelos relatos de miséria humana e social, seja pelos problemas associados ao alcoolismo consumo de drogas (potenciado pela série da Netflix “Rabo de Peixe), seja ainda pelos recentes relatos de violência infantil numa creche daquela vila.

Todos estes acontecimentos não são uma ficção. A vila sempre foi referenciada com graves problemas sociais. A pesca, a sua actividade económica mais importante, nem sempre permite aos pescadores da costa norte da ilha, aventurarem-se num mar traiçoeiro e que não contribui para um rendimento digno dos que abraçaram aquela forma de vida. A impossibilidade da pesca empurra muitos para o conforto do álcool e das drogas. A tradição ou consequência, é responsável por agregados familiares numerosos que só contribuem para agravar este problema.

Mas serão assim tão diferentes do que se passa em muitos outros lugares deste país? Será que a demolição de barracas em Loures, que está na ordem do dia, reflecte uma situação melhor do que a de Rabo de Peixe? O número crescente de sem-abrigos um pouco por todo o lado é algo que salta à evidência. As tensões sociais e a criminalidade existentes nos bairros sociais, eufemisticamente chamados de “bairros problemáticos” na periferia dos grandes centros urbanos, são menos preocupantes do que a realidade que se observa em Rabo de Peixe?

Com certeza que não. Os recentes episódios registados numa creche daquela vila, apontam o dedo a quatro funcionárias, responsáveis pelas agressões a crianças à sua guarda. Funcionárias essas que foram suspensas por decisão judicial. Mas ninguém se questiona, se aquela creche não tinha um responsável que durante todos estes anos não sabia o que se passava? Responsável este que, provavelmente, tem uma competência técnica e profissional para implementar e acompanhar os procedimentos pedagógicos, no seio da organização que dirige? Se não viu, é porque não estava à altura da sua responsabilidade, se viu e , é tanto ou mais responsável do que as funcionárias.

Tudo isto nos deve levar a questionar o estigma (marca ou sinal que leva à desaprovação social e preconceito) que está, indelevelmente associado a Rabo de Peixe é justificado? Ou uma razão menos prosaica, como uma maldição (acto ou efeito de amaldiçoar, ou seja, desejar o mal a alguém ou algo) lançada sobre aquela vila e as suas gentes?

Recuso-me a aceitar qualquer uma destes pressupostos. A verdade, porém, é que os problemas em Rabo de Peixe, parecem não ter fim. Os apoios concedidos noutros locais, são idênticos aos que ali são prestados. Naturalmente que as autoridades estão preocupadas com a situação. Provavelmente, quando falham todas as soluções consensualizadas, a solução terá de vir de dentro. Quem vive e sente todos este problemas estará muito mais capacitado para encontrar a melhor solução.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

JOSÉ SOCRATES E A PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA

 

No mesmo dia em que ao fim de 12 anos se inicia o julgamento de José Sócrates, perde a vida num estúpido acidente de viação uma promessa do futebol português, com apenas vinte oito anos de idade e o seu irmão.

O contraste entre estes dois protagonistas dos acontecimentos que marcaram o dia de hoje, não podia ser mais contrastante. De um lado, falamos de um jovem de ascendência humilde, que construiu a sua carreira com muita esforço e empenhamento. Foi sempre um atleta” low profile”, sem tiques de vedeta e de quem ainda se esperava muito. Por outro lado, temos alguém que, sem se perceber bem como, atingiu o cargo máximo da governação do país! Fez sempre uma vida, a julgar pelos sinais exteriores de riqueza, muito acima das condições objectivas que o cargo lhe podia garantir.

Esta triste coincidência da morte do atleta, veio roubar o protagonismo, que José Sócrates muito provavelmente, aspirava ter para o seu julgamento, aliás como era seu timbre. Por muitos defeitos que lhe possam atribuir, há que reconhecer que José Sócrates era um exímio comunicador, e aproveitava todas as oportunidades para “vender a sua verdade”. Ainda o julgamento não tinha começado, José Sócrates arranjou uma confusão com um funcionário judicial e teve de ser admoestado pela juíza.

De resto o que se esperava de alguém que ocupou o cargo de primeiro-ministro, e que foi alvo de um processo judicial, onde era acusado de uma série de crimes graves, era que aproveitasse, tão breve quanto possível, o julgamento para provar a sua inocência. Sócrates fez exactamente o contrário. Utilizou todos os recursos que o sistema judicial português lhe concedia, a fim de atrasar o julgamento, até que prescrevessem a maior parte dos crimes de que era acusado. Segundo o Jornal OBSERVADOR, José Sócrates apresentou mais de 100 recursos e incidentes processuais. E, aparentemente, mais de 80% deles, não tiveram provimento.

Para alguém que ocupou um dos mais altos cargos da governação esperava-se muito mais. Esperava-se alguém que não vivesse de “esmolas” (apoio financeiro: da mãe, do amigo Santos Silva e do primo). “esmolas” essas que não eram de tão pouca monta. Alguém que fazia da ostentação o seu cartão de visita. Eram os fatos Armani, eram as férias em resorts de luxo, era a vida faustosa em Paris, eram as obras do apartamento de luxo numa das avenidas mais badaladas da capital francesa. Eram as “coisa de que eu gosto muito” que eram exigidas ao amigo Santos Silva. Também se pode especular sobre a vida de um aparente conforto que tem na Ericeira, em casa que se sabe estar em nome do seu primo José Paulo. Já para não falar nas custas judiciais que não devem ser de pequena monta e dos honorários dos seus advogados. Convenhamos que para quem não tem fortuna que viveu sempre da solidariedade da mãe e do amigo, é algo difícil de engolir.

Vem tudo isto a propósito da presunção de inocência, que é um princípio sagrado do Direito, a que toda pessoa acusada de um crime é considerada inocente até que sua culpa seja comprovada por uma decisão judicial transitada em julgado. Mas convenhamos que no caso do ex-primeiro-ministro, é algo difícil de engolir, por várias razões. A primeira é que José Sócrates não pretende ir a julgamento e provar a sua inocência. Em segundo lugar, todos os recursos apresentados não tiveram outra intenção que não fosse atrasar o processo. E em terceiro lugar, Sócrates nunca ter arranjado uma explicação convincente e sustentada para o tipo de vida que alguém sem recursos conseguia garantir.

O dever de consciência leva-me a presumir a sua inocência, mas a razão insiste em dizer exactamente o contrário. Espero que o julgamento possa ser rápido, imparcial, mas implacável com quem consumiu avultados recursos, pagos por todos nós. Só então conseguirei perceber o que estava certo, se a minha consciência, se a minha razão.


quarta-feira, 18 de junho de 2025

DONALD TRUMP – A ASSINATURA DE UM NARCISISTA

 

A personalidade do 45º Presidente dos Estados Unidos da América, é tão forte que não deixa ninguém indiferente. Trump revelou-se sempre um homem de negócios, pouco escrupuloso, com uma personalidade fora de série um forte senso para o negócio. O sucesso de Donald Trump no sector imobiliário ajudou-o a evidenciar-se como uma figura global. A marca Trump é sinónimo de riqueza, luxo, extravagância, poder e influência, e a sua presidência, incorpora essa marca de forma significativa.

Aos olhos de um europeu, esta maneira de governar pode parecer exótica e até mesmo, condenável. No entanto, temos de admitir que num país considerado o farol da democracia, a sua legitimidade é inquestionável, mesmo considerando os inúmeros erros, recuos, percalços e insucessos da sua governação.

O seu narcisismo reflecte isso mesmo. A marca TRUMP aparece nos seus edifícios e investimentos imobiliários (Trump Tower, Avião Trump, uma companhia de comunicações móveis Trump, campos de golfe Trump, casinos Trump). Nos discursos enaltece as suas próprias qualidades(?) e de todos os que lhe são próximos. Mas a sua assinatura, prece ser o expoente máximo do seu narcisismo.

As assinaturas presidenciais, tornaram-se numa peça de memorabilia[1] disputadas por muitos coleccionadores, por representarem momentos marcantes da vida de um presidente e das suas proclamações. Ora Donald Trum fez do acto de assinatura de um documento um verdadeiro espectáculo. A encenação é perfeita: as coisas acontecem numa sala pequena, pejada  de jornalistas, sobre uma mesa de reduzidas dimensões, utiliza uma caneta de traço grosso e executa a assinatura com movimentos firmes e constantes. O espectáculo termina invariavelmente, com Trump a exibir o documento, revelando o seu sorriso estudado e muito pouco natural, de onde sobressai uma assinatura de tamanho gigantesco!

Um especialista em logotipos comerciais afirmou: “Com ênfase na ousadia e no brilho, a assinatura de Donald Trump é um reflexo de seu carácter e da sua marca. Os loops enormes e longos transmitem confiança e poder, enquanto os ângulos agudos e a nitidez das letras sugerem uma disposição para assumir riscos e ser proactivo nos negócios.”

Também parece que a sua assinatura também evolui com o tempo. Inicialmente era simples e clara, foi evoluindo à medida que os seus êxitos de empreendedor lhe foram enriquecendo o ego. Ou seja, tudo é estudado ao pormenor. Uma simples assinatura, pode conseguir algo que as suas promessas eleitorais até agora, parecem não ter alcançado.



[1] Conjunto de coisas, objectos ou acontecimentos memoráveis.



 

quarta-feira, 4 de junho de 2025

E AS PRESIDENCIAIS JÁ MEXEM!

Acabados de sair de uma inusitada eleição legislativas, para termos em Outubro novas eleições autárquicas (talvez o plebiscito mais importante para o comum dos cidadãos). Porém, o que temos na ordem do dia são as presidenciais, que só terão lugar em Janeiro de 2026! O assunto já vinha sendo debatido com alguma insistência, só interrompido durante a campanha para as legislativas. De facto, a bolha mediática ansiosa por marcar a agenda, vai aproveitando tudo e mais um par de botas, para manter os portugueses anestesiados, como convém.

Isto não significa que não reflictamos sobre quem será o próximo inquilino do palácio de Belém. Depois de muitas hesitações eles aí estão, passeando sobre a passadeira vermelha, que os órgãos de comunicação lhes vão estendendo à frente. São nomes mais ou menos conhecidos, mas que muito pouco se sabe do seu pensamento político, particularmente nos tempos actuais e a nova realidade político partidária.

As sondagens, como é hábito vão alimentando a tal bolha, não vá o assunto cair no esquecimento. Depois de muita reflexão, os nomes vão aparecendo de forma mais ou menos ruidosa, enquanto os habituais comentadores de serviço, vão vaticinando sobre os perigos, ou as oportunidades que cada um representa.

Na óptica dos partidos políticos, temos dois cenários distintos: os que rapidamente elegeram um candidato que pretendem apoiar e outros como o PS, que não encontra um nome consensual para uma tomada de decisão agregadora.

Henrique Gouveia e Melo, que só anunciou a sua candidatura em finais de Maio, foi o “segredo mais mal guardado” destas presidenciais. Sempre soubemos que Gouveia e Melo não resistiria à tentação da proeminência obtida no processo das vacinas, como uma plataforma para lanças a sua candidatura presidencial. Mas, uma coisa é o rigor na implementação de um processo vacinal, outra completamente diferente, é a responsabilidade da primeira figura do país. Mas Gouveia e Melo, não deixou de cavalgar a onda das sondagens, sabendo que quanto menos falasse mais teria a ganhar com o assunto. Mesmo agora, depois de anunciada a sua candidatura e algumas entrevistas depois, o tom das intervenções soa a discurso de miss - “peace and love for all”. O seu posicionamento ideológico, fica algures entre a social-democracia e o socialismo democrático (?), que é algo que apenas ele sabe o que é! O apoio velado do CHEGA ao almirante, deixa-o visivelmente incomodado. Os seus apoiantes confessos, são um conjunto de deserdados da política partidária (Ângelo Correia, Alberto João Jardim, o Chicão, Isaltino Morais, António Capucho, Fernando Seara, etc.), como é o caso de Rui Rio, seu mandatário nacional. O almirante apresenta-se aos olhos dos portugueses como alguém que vem de fora do sistema, um pouco à semelhança do crescimento do CHEGA, que se reclama contra o sistema. Algo que os portugueses parecem gostar.

Marques Mendes tem feito tudo para sair da sombra do almirante. Foi o primeiro a anunciar a sua disponibilidade, tem o apoio formal do PSD, constituiu uma Comissão de Honra com gente de peso, tem uma visibilidade como nenhum outro, pela sua intervenção dominical na antena da SIC durante os últimos anos, e ainda por ser aquele que tem maior experiência política. Mesmo assim, a acreditar nas sondagens, as intenções de voto ficam muito aquém de Henrique Gouveia e Melo.

O PS, por sua vez tem encontrado muita dificuldade em apresentar uma figura consensual dentro do Partido. Depois de um deslize de Pedro Nuno Santos afirmando que o nome de António José Seguro daria um bom presidente, para pouco tempo depois dar o dito por não dito. Muitos outros nomes têm surgido na área de influência do PS: António Costa, António Guterres, António Vitorino, Mário Centeno e Santos Silva. Todos estes nomes têm suscitado apoios e vaias dentro do PS, o que também já é habitual. Mais recentemente, o nome de Sampaio da Nóvoa, que não sendo militante do PS, tem merecido alguma simpatia nas hostes socialistas e nas esquerdas em geral. A decisão de António José Seguro, anunciada ontem, vem dificultar ainda mais a posição do PS, como se já não bastasse a estrondosa derrota eleitoral nas últimas legislativas.

O CHEGA, já havia anunciado André Ventura como o seu candidato. Mas depois da vitória retumbante nas legislativas, parece ter feito um pouco de marcha-atrás, por recear que umas eleições com características diferentes, pudessem constituir um desastre. Parece haver alguma disponibilidade para apoiar o candidato mais bem posicionado, como estratégia para desviar as atenções de uma hipotética derrota.

Quanto às restantes forças políticas, apenas vão usar estas eleições, como forma de garantirem alguma visibilidade das suas posições políticas, Quanto ao resto, são perfeitamente irrelevantes.

terça-feira, 3 de junho de 2025

A LUTA UCRANIANA E O CAVALO DE TRÓIA

 

Há muito que me escusava a falar sobre o conflito russo-ucraniano, não porque tenha mudado de opinião relativamente à invasão da Ucrânia, e à minha total oposição às teses de Putin. Fi-lo porque comecei a observar um progressivo amaciamento da posição de muitos observadores credenciados, relativamente a este conflito.

O desencadear da operação com o nome de código “spider web”, bem no interior do território russo, fez-me mudar de opinião. Foi uma operação preparada com mestria, com um ano e meio de antecedência, e com a finalidade de enfraquecer o poderio aéreo russo. O ataque aconteceu quando camiões, transportando drones ucranianos, conseguiram não só entrar no país, mas chegar a cinco bases aéreas. Tanto quanto é possível saber neste momento, a operação foi preparada tal como os gregos conceberam um cavalo de madeira, para conquistar Tróia. A única diferença é que no caso dos gregos, parece tratar-se de uma lenda, enquanto o ataque ucraniano revelou-se uma triste realidade para os russos.

Pelo que se vai sabendo, foram destruídos cerca de 40 diversos caças e bombardeiros estratégicos, responsáveis pelos constantes ataques à Ucrânia. E ao contrário dos russos, os objectivos atingidos eram militares e não escolas, hospitais, centros comerciais e zonas residenciais.

Tudo isto aconteceu no mesmo dia em que na Turquia se realizava mais um encontro entre delegações russas e ucranianas, com vista a atingir-se um cessar-fogo, a que a Rússia sempre se negou a aceitar. Como se isto não fosse suficiente, acabei de saber que os ucranianos lançaram dois ataques à ponte estratégica que liga a Rússia à Crimeia, com recurso a explosivos colocados debaixo de água.

Se a obtenção de um acordo de paz neste conflito, já parecia muito difícil, receio bem que a partir desta grande humilhação para a Rússia, para Putin e para os Serviços Secretos russos, vai tornar estas conversações bem mais complicadas. Igualmente, o papel de Trump que prometia acabar com a guerra em 24 horas, ficou sem chão por só ter tido conhecimento do ataque depois deste estar concluído.

Resta-me confessar a minha profunda admiração por este povo, que teima em defender-se de um agressor poderoso e implacável. O que a Ucrânia acaba de fazer à Rússia, com estes ataques causou espanto e, já é comparado a mais um acto de David contra Golias.

 

segunda-feira, 26 de maio de 2025

NO RESCALDO DAS ÚLTIMAS LEGISLATIVAS – AS LIÇÕES DA HISTÓRIA

 

Segundo os entendidos, o valor da História reside na capacidade de nos conectar com o passado, de nos fornecer ferramentas para compreender o presente, e de nos orientar para o futuro. Ou seja, encontrar no passado os ensinamentos para o projectarmos o futuro não praticando os erros então cometidos.

No rescaldo destas eleições, encontramos dois factos políticos de uma relevância extraordinária e de contornos, que nem os mais avisados, poderiam antever: uma subida considerável do CHEGA, roubando votos a toda a esquerda(?), e a estrondosa derrota do PS. Se no caso do CHEGA se pode estabelecer alguma relação com o que se passa, um pouco por toda a Europa, já no caso do PS, os problemas parecem ser uma consequência de diversas razões. Alguns apontam para a desastrosa liderança de Pedro Nuno Santos, por arrogância, incompetência e ao radicalismo a que ele tentou fugir, mas que nunca fugiu dele. Tudo isto pode ser verdade, mas seria injusto atribuir a Pedro Nuno Santos toda a responsabilidade desta pesada derrota.

Na nossa modestíssima opinião, o desaire socialista tem um responsável de PESO – António Costa. Pode dizer-se que ele já nem liderava o partido, mas mesmo isso não o iliba dos erros cometidos no passado. É bom lembrar que António Costa chega à liderança do partido, derrubando um antigo líder. Acusando-o de as vitórias obtidas sobre o governo do tenebroso Pedro Passos Coelho, soarem a “poucochinho”. Para logo a seguir perder umas eleições para o mesmo PPC. Este facto obriga-o (para salvar a pele, e o seu futuro político), a quebrar algumas linhas vermelhas, traçadas pelo histórico Mário Soares, na recusa de qualquer entendimento com o PCP. Foi António Costa que quebrou essa regra, por puro egoísmo, e afirmava sentir-se orgulhoso de ter derrubado esse muro.

Pedro Nuno Santos foi, por consequência, o senhor que se segue. Não está isento de culpas, mas estas residem, fundamentalmente, mais nas suas idiossincrasias pessoais, do que nos princípios políticos que defendeu. As palavras de Alexandra Leitão de que “a estabilidade, progresso e democracia com liberdade e justiça social só podiam ser alcançadas com um voto no PS”, demonstra isto mesmo. É exactamente neste contexto que é imperioso olhar para o passado, e tirar os devidos ensinamentos.

O PS teve sempre os melhores resultados eleitorais quando se posicionou ao centro. A sua deriva à esquerda, iniciada por António Costa e continuada por Pedro Nuno Santos parecem, de alguma forma, confirmar uma das explicações para o desaire eleitoral. É certo que a formação da “geringonça” e a maioria absoluta conseguida, parecem contrariar este raciocínio. No entanto, o exemplo do desaparecimento do Partido Socialista Francês podia ser um sinal de aviso para meditar.

A ascensão de partidos populistas da direita radical (Front Nactonal e o Rassemblement National, em França, Fratelli d'Italia em Itália e o Vox em Espanha), foi obtida pela abordagem populista de temas que eram incómodos à esquerda, mas representavam as preocupações do eleitor comum. Para consolidarem as conquistas atingidas e alcançarem uma posição cimeira, bastou-lhes suavizarem o discurso.

Em 2017, a antiga candidata presidencial socialista Ségolène Royal, defendia que as disputas internas são responsáveis pela decadência socialista. “Os eleitores já não aguentam (...) os franceses querem que, quando os partidos existem, pelo menos se entendam entre si e não mostrem essas divisões”. É precisamente isto que o PS persiste em não reconhecer. Não aprender com os ensinamentos da História, e não reconhecer que os tempos mudaram, tal como a conjuntura político-partidária também mudou. Não reconhecer o óbvio, só pode contribuir para um desastre ainda maior.

A mais que provável indigitação de José Luís Carneiro como o novo líder do PS, aponta exactamente na reorientação do PS ao centro. A questão é saber se não se justificaria, antes de uma indigitação acelerada, uma profunda reflexão sobre as razões que conduziram à situação actual. O PS é importante demais no nosso sistema democrático. Ignorar as razões do último desastre eleitoral, é condicionar o futuro de um partido com história e, eventualmente caminhar para se tornar irrelevante.

sábado, 24 de maio de 2025

O MUNDO DOS CORDOFONES

 

A Universidade da Terceira Idade de Santarém, por iniciativa da sua turma de Cordofones, realizou uma viagem a Braga para visitar duas empresas familiares, que se dedicam à arte de Luthier (que me perdoem os puristas).

A visita permitiu-nos observar duas realidades distintas. Uma fábrica moderna, propriedade de senhor António Pinto Carvalho, com uma implantação internacional e com uma componente manual considerável, mas organizada numa perspectiva meramente industrial. Por outro lado, visitamos também um Museu dos Cordofones, propriedade do senhor Domingos Machado e a sua oficina de produção de instrumentos musicais portugueses.

Foi uma visita imersiva, conforme se diz agora, nesse mundo fascinante nos mais conhecidos instrumentos de corda portugueses. Os alunos da disciplina puderam observar os métodos de trabalho, os processos de fabrico, os materiais utilizados e as várias fases da construção de um instrumento.

A minha participação nesta visita resumiu-se, fundamentalmente, à curiosidade deste mundo de como as coisas se fazem. Não está nos meus horizontes vir a tocar um instrumento de corda, como muitos dos colegas que nos acompanharam. Mas tão somente a curiosidade de ver como se trabalha com profissionalismo e dedicação.

Se os métodos de trabalho numa área que desconhecemos poderão resumir-se a uma simples observação, já o mesmo não se pode dizer dos dois personagens que deram corpo às duas empresas referidas inicialmente. Foi-nos referido que têm uma relação de parentesco próxima.

terça-feira, 20 de maio de 2025

UM ELEFANTE NA SALA CHAMADO CHEGA

 

No rescaldo destas eleições temos todos de parar para pensar um pouco sobre as causas que determinaram os resultados que ninguém esperava. As sondagens apontavam a um expectável crescimento do PSD, e genericamente apresentavam valores que oscilavam ora para o lado da AD, ora para o lado do PS. Os “comentadeiros”  de maneira geral, assumia-se um decréscimo da esquerda, mas nunca com a extensão verificada. No que diz respeito ao CHEGA, os ditos “comentadeiros” desvalorizaram sempre a relação deste partido com o eleitorado. Era referido que o caso das malas, da pedofilia e a pouca qualidade dos seus parlamentares, dava como garantido que o seu crescimento estaria condenado, ou pelo menos não assustaria muito.

Penso que de uma maneira geral faz-se uma avaliação errada sobre quem suporta o CHEGA. Naturalmente que 1,3 milhões de votos expressos, não são dos saudosos de 24 de Abril, e muito menos de Salazar. Pela análise que faço deste fenómeno, estou convencido que estes serão uma minoria. Pelo contrário, os votantes do CHEGA são mais jovens, com melhores qualificações, sem uma esperança num futuro risonho, que se reconhecem nos slogans de Ventura, uma resposta às suas preocupações. O CHEGA também é um partido muito mais de casos, do que de ideologias. Conseguiu a sua maior implantação no país do interior, no Sul e Alentejo profundo (terreno comunista desde sempre), e um pouco por todo o lado. As grandes bandeiras do CHEGA foram sempre: a corrupção, os emigrantes, os ciganos. São temas de que todos falam e comentam, mas onde há um pudor enorme de o discutir nos média!

Também é bom não esquecer o passado recente e lembrar dois protagonistas que brincaram com o fenómeno Ventura, sem medir as verdadeiras consequências. Estou a referir-me a António Costa e a Augusto Santos Silva. Os dois tudo fizeram para comprometer o PSD com uma provável ligação com O CHEGA, e condicionaram Luís Montenegro ao seu “não é não”!

A copiosa derrota do PS nestas legislativas, tem em meu fraco entender dois responsáveis: um António Costa que deixou o partido em cacos, para depois correr para Bruxelas para assumir um cargo doirado; e o outro, Pedro Nuno Santos que foi, como se pode ver, uma aposta no cavalo errado. Aliás, a tradição mostra que o PS só ganhou quando se posicionou ao centro, A única excepção foi a formação da geringonça, que foi inventada, para salvar o futuro político de António Costa.

Com a mais provável conquista do segundo maior partido da oposição, resta saber como é que os partidos, particularmente o PSD e o PS, vão lidar com esta nova realidade. Por quanto tempo mais, vai ser possível continuar a menorizar este partido? Há quem antecipe que o CHEGA vai fatalmente ter de se moderar. Há quem anteveja que Ventura se irá converter numa Meloni à portuguesa; e outros que apontam que os resultados obtidos lhe darão a força para se transformar num Salvini. Uma coisa é certa, o CHEGA transformou-se num Elefante na Sala, que já ninguém pode ignorar.

Por outro lado, Luís Montenegro não conseguiu a tal maioria absoluta que tanto almejava. Por isso, o PS vai desempenhar um papel fundamental, se quiser moderar-se a viabilizar algumas propostas do governo, sob pena de caminhar irremediavelmente para se tornar irrelevante. Basta observar o que aconteceu com o BE e a CDU, que não sendo a mesma coisa, pode representar o sinal de aviso. Neste caso o futuro estará na forma de como estes partidos irão lidar com esta nova realidade.

domingo, 18 de maio de 2025

COMO EU VI AS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS 2025

 

Os portugueses foram chamados, uma vez mais, às urnas por puro capricho dos líderes dos dois principais partidos políticos. Todo o ruído criado à volta dos negócios de Luís Montenegro e das suspeitas de favorecimento partidário e tráfico de influências, parece não ter despertado nos eleitores o mesmo tipo de desconfiança. Pode-se dizer que estes assuntos deveriam merecer um protesto vigoroso, mas parece que não foi isso que preocupou os eleitores.

Mas estas eleições parecem mostrar algumas observações curiosas: uma baixa nos valores da abstenção, o que é sempre uma boa notícia; um aumento significativo da votação jovem (aparentemente nos partidos de direita); reconhecer que o caso SPINUNVIVA, foi desvalorizado pelos portugueses; o trambolhão dos partidos da extrema-esquerda; o aumento da votação na AD; a considerável queda do PS e a grande vitória do CHEGA.

O grande vitorioso é a AD e, muito em particular Luís Montenegro, que arriscou uma moção de confiança, apesar da forma desastrosa como geriu os problemas dos seus negócios. Mas há que reconhecer que a AD foi, de facto o grande vencedor. Ou seja, a AD subiu a sua votação, a ponto de sozinha ter mais votos e mais mandatos que toda a esquerda unida. Ou seja, não tem necessidade de estabelecer nenhum acordo com a IL, embora penso que a nível parlamentar deveriam ser estabelecidos entendimentos pontuais.

Outro grande vendedor na noite foi, sem margem para dúvidas, o CHEGA. As razões que justifiquem esta vitória podem ser equacionadas especulando no mote da campanha – o problema da emigração e os achaques de Ventura que foram vergonhosamente explorados. Pelos vistos, estes dois aspectos parecem não ter incomodado os seus apoiantes. Resta fazer uma reflexão sobre o resultado do CHEGA. Considerando que a AD e a IL subiram a sua votação, somos levados a concluir que os resultados do CHEGA, foram conseguidos nos eleitores de esquerda. O Sul e Interior são disso um caso exemplar.

O grande derrotado da noite foi o PS. Antes demais é preciso não esquecer que António Costa deixou o partido em frangalhos, mesmo gozando de uma confortável maioria absoluta. Pirou-se para Bruxelas. Trocou o partido por um cargo europeu, muito apetitoso e bem remunerado. A responsabilidade deste descalabro do PS deve-se à aposta num “cavalo errado” – Pedro Nuno Santos. Pedro Nuno Santos apesar de ter na mão a estrutura do partido, não foi capaz de perder a sua arrogância, a sua infantilidade e o modo desastroso como exerceu a sua liderança. Recorde-se que o PS escolheu para líder, alguém que se tinha demitido do governo, por indecente e má figura. É preciso reconhecer que encontrou o partido abalado pelo tombo nas anteriores legislativas. Apesar de ter feito um esforço de moderação na sua postura, facilmente se percebia que aquele não era o seu registo. Tudo parece indicar que o papão que usou durante toda a campanha – o perigo do país ser governado por um liberalismo feroz, não parece ter colhido junto dos eleitores.

Todos os partidos à esquerda do PS, tornaram-se irrelevantes, face à correlação de forças. E isto deve dar que pensar, o porquê desta modificação em pouco mais de dois anos. Excepção feita ao LIVRE, que apesar do seu crescimento, não deixa de corporizar uma certa “esquerda caviar”, e o mais moderado dos radicais de esquerda.

A alteração estrutural do bipartidarismo com o aparecimento do CHEGA, ao eleger 50 deputados em 2024, não mereceu dos partidos do dito “arco da governação” a devida atenção. Os resultados aí estão.

Pedro Nuno Santos está profundamente fragilizado, e a sua continuidade à frente do partido ficou seriamente abalada. Ao PS não lhe basta agora lamber as feridas. É bom não esquecer que vamos ter eleições autárquicas em Setembro. E uma derrota clamorosa nas autárquicas poderá ser devastadora. Os resultados de CDU, BE e PAN devem servir de aviso ao PS para repensar a sua estratégia, no que ao seu posicionamento ideológico diz respeito. É bom não esquecer que o PS ainda não escolheu o seu candidato às presidenciais de 2026. E os putativos candidatos poderão repensar a sua posição, face à esta derrota. Em suma, Pedro Nuno Santos tem poucas condições para continuar na liderança. Se o fizer, corre o risco de tornar o PS num partido marginal, e isso não era bom para a democracia. Com a demissão de Pedro Nuno Santos, José Luís Carneiro parece ser o mais desejado. Vai encontrar o partido feito em cacos e, a ser ele o escolhido, vai ter um trabalho hercúleo pela frente, e o tempo escasseia. A opção poderá ser outra. Vamos aguardar.

Luís Montenegro tem um horizonte de pelo menos um ano de uma governação confortável. Resta saber se o “não é não” é para manter, a outra alternativa é que tipo de entendimento estará disposto a fazer com a IL. O PS pelo seu lado, vai certamente reavaliar a sua posição quando tiver de viabilizar qualquer iniciativa parlamentar, sob pena de dar todo o protagonismo ao CHEGA. Felizmente que o CHEGA, apenas conseguiu ocupar o terceiro lugar. O segundo lugar do PS, obteve uma escassa margem sobre o CHEGA nos votos expressos. Mas o PS, deve ter aprendido a lição das consequências das votações ao lado deste partido. Neste contexto, penso que o PS, vai muito provavelmente, ter uma atitude muito mais moderada.

Uma palavra final para os eleitores. Ninguém sabe as motivações que cada um optou para dar sentido ao seu voto. Estabilidade e governabilidade, serão provavelmente as mais prováveis.

 

quinta-feira, 15 de maio de 2025

UMA CAMPANHA ELEITORAL SONSA

 

Estamos a chegar ao fim de mais uma campanha eleitoral que foi pouco esclarecedora, barulhenta, estremada e, pior de tudo, discutiram-se fundamentalmente os problemas relacionados: ou com os partidos, ou com os seus líderes. Os assuntos que incomodam e afectam os portugueses: a educação, a saúde, a segurança, apenas para referir os mais importantes – esses ficaram de fora. Houve de tudo, pura e simplesmente: entrevistas em programas de entretenimento, urgências hospitalares (reportagens em directo atrás de ambulâncias), refluxos gástricos, as tradicionais e irritantes arruadas, a distribuição de esferográficas em cada uma das feiras deste país e uma comunicação social que não foi capaz de trazer para a agenda os problemas que o país enfrenta.

Temas como a guerra na europa, as contribuições para a defesa, a sustentabilidade da Segurança Social e as tarifas impostas pela administração Trump, que são um assunto premente, parecem ser coisas de ficção considerando pela sua ausência no debate.

Tudo isto acontece num ecossistema político-partidário, que elegeu como bandeiras a maledicência sem atender ao facto de perceberam que eleitores estarem cansados de serem chamados à participação em escrutínio sucessivos, que muito provavelmente não irá alterar a relação de forças do espectro partidário.

Para ajudar à festa, tivemos uma imensidão de debates muito pouco esclarecedores, quando os portugueses, quando muito, gostariam de ouvir apenas os partidos e representantes que poderão ter a expectativa de formarem um governo. Sinal disto, são as oscilações de audiências nos diferentes debates. Quantas pessoas estarão interessadas em ouvir um debate com o PAN? Eu não estou certamente.

Como se isto ainda não fosse bastante enfadonho e irritante, apareceu hoje o Almirante Gouveia e Melo, a elucidar os portuguese do segredo mais mal guardado do universo – a sua candidatura as presidenciais, que se irão realizar em Janeiro de 2026! Justificou que esta antecipação se deveu ao facto de necessitar de tempo para enviar os convites para a anunciada apresentação. Isto só pode ser para rir!

As televisões aproveitavam as inúmeras sondagens, que semanalmente davam o mote para discutir à exaustão, as décimas de oscilações nas intenções de votos nos diversos partidos. Sem pôr em causa a seriedade das empresas de sondagens, o passado recente mostra que os resultados à boca das urnas, divergem do trabalho apresentado. Também neste aspecto, as coisas não são muito animadoras.

Não quero admitir que vivo numa qualquer república das bananas, mas a oportunidade destas eleições e o ruído da campanha não parece ter tido outro efeito do que cansar o eleitor. Vamos todos esperar que os valores da abstenção não seja a resposta que os portugueses vão dar a quem faz da política uma sonsice!

quinta-feira, 1 de maio de 2025

O DEBATE DECISIVO?

 

Foi assim que foi apresentado o debate desta noite entre Luís Monte Negros e Pedro Nuno Santos. Naturalmente que os candidatos preparam-se muito bem, e na realidade, não houve uma superioridade palpável de nenhum dos candidatos. Ou seja, foram seis os temas sobre os quais teriam que responder num período de tempo determinado. O resultado da argumentação foi previsivelmente aquilo que todos esperavam, quer de um quer de outro.

É preciso reconhecer que Luís Montenegro tinha a missão mais fácil. Era o incumbente. Tinha algumas bandeiras da sua governação, que reconhecidamente resolveram problemas que os oito anos que a governação socialista não foi capaz. Pedro Nuno Santos tinha a seu desfavor, a evidência dos valores das sondagens não lhe serem favoráveis, o facto de se ter demitido de um governo que detinha uma confortável maioria absoluta, e das trapalhadas que resultaram da sua actuação como ministro das infra-estruturas, e ainda o facto de ele ter sido o pai da “geringonça”.  Pode dizer que isto não estava relacionado com o objectivo deste debate. Claro que não. Mas a sua acção pautou-se sempre por um registo de grande impulsividade e por tomadas de posição que se podem considerar pouco ponderadas. Isto é alguma coisa que os eleitores nunca irão esquecer.

Pedro Nuno Santos, para ganhar este debate, tinha uma missão muito simples: mostrar que a governação de Luís Montenegro estava errada, e demonstrar que ela seria capaz de fazer muito melhor. Objectivamente temos de reconhecer que não foi capaz. Se o debate trouxe alguma novidade, parece-me bem que não. Se os eleitores, particularmente os indecisos ficaram suficientemente esclarecidos sobre qual o mais bem posicionado para garantir um governo estável, também me parece que não.

No dia 18 os eleitores vão fazer a sua escolha. Talvez as muitas sondagens que semanalmente vão apresentando resultados por vezes contraditórios, estejam redondamente enganadas. Também suspeito que os portugueses que se dignarem ir votar, já há muito tomaram a sua decisão. Também suspeito que os valores da abstenção irão subir. Uma coisa é certa, quando todos apresentavam o debate de hoje como algo absolutamente decisivo. Penso que não.

terça-feira, 29 de abril de 2025

O APAGÃO

 

Apagão - André Carrilho

A queda abrupta da nossa rede de produção e distribuição eléctrica, teve o condão de despertar a percepção em todos os portugueses sobre a sua impreparação para uma situação como aquela que vivemos ontem.

Muitos foram os especialistas que debateram o tema. Cada um com a sua posição sobre as fragilidades da rede energética nacional, nomeadamente para a insuficiências das centrais “Black Start”. Não vou entrar por esse caminho por objectivo desconhecimento na matéria. Mas gostava de evidenciar que com rigor, ninguém arriscava uma causa para este acontecimento. Passado um dia e restabelecida que está o fornecimento energético, continuamos a ter pouco mais do que palpites e especulações.

Quanto às críticas sobre a actuação governamental domínio da comunicação, não me parecem justificadas. Os ministros desdobraram-se em declarações às rádios e televisões. O próprio primeiro-ministro prestou declarações por três vezes. Acresce ainda o facto do desconhecimento sobre as causas. Essa comunicação foi assertiva no sentido de acalmar a população e foi escassa porque objectivamente pouco o nada se sabia.

Os principais líderes políticos, apressaram-se em aproveitar o momento para a demagogia habitual, com propostas de execução e alcance duvidoso. Pedro Nuno Santos prudentemente reservou uma comunicação para o dia seguinte, por falta de elementos. Hoje, porém, sem que se saiba nada de concreto quanto às causas, utilizou a mesma estratégia de André Ventura de bota-abaixo, e o regressou ao seu registo habitual com notório aproveitamento eleitoral.

Quanto à população reagiu de uma forma espectável, tendo em conta a ausência de uma garantia temporal quanto à resolução dos problemas. No entanto, o dia de hoje apareceu com uma normalidade que não se esperava, tendo em conta os acontecimentos de ontem!

Objectivamente este acontecimento permitiu-nos olhar para uma grande fragilidade, quanto à segurança do país para lidar com emergências e catástrofe. Neste caso foi uma quebra na distribuição energética. O SIRESP revelou as habituais falhas no serviço. A muito elevada probabilidade da ocorrência de catástrofes, acidentes, pandemias, determinam que este acontecimento, deveria servir como uma aprendizagem e um motivo para estudarmos todas as nossas fragilidades e corrigir o que falta corrigir. Se não soubermos aprender com esta contrariedade, corremos o risco de ficarmos novamente à luz da candeia a petróleo, em pleno século XXI.

sábado, 26 de abril de 2025

PORTUGAL UMA REPÚBLICA DAS BANANAS?

Há pouco mais de um ano atrás tínhamos um governo, com uma confortável maioria absoluta, foi obrigado a demitir-se por ter sido encontrado 75.000€, de origem desconhecida(?), dissimulados em livros e caixas de vinho no gabinete do Chefe de Gabinete de António Costa!

O actual líder dos socialistas, tinha sido afastado do governo onde ocupava a pasta das Infra-estruturas, e onde deixou um rasto de tropelias em diversos sectores sob a sua administração: a rodovia, a habitação e a TAP, onde foram “torrados” 3,2 MM€ de dinheiro dos contribuintes. E é este mesmo despedido pelo partido que agora protagoniza a liderança do PS e é o candidato a primeiro-ministro nas próximas eleições!

Estamos em plena campanha eleitoral para mais umas eleições Legislativas. Vivemos um frenesim de debates, onde se discute muito pouco daquilo que preocupa e aflige os eleitores. A que se seguem os debates inflamadíssimos entre as lideranças partidárias. Seguidos de análises sobre esses mesmos debates, em que uns iluminados dão umas, objectivamente influenciadas pelas suas legítimas inclinações ideológicas ou partidárias, mas não se discutem os verdadeiros problemas do país! O essencial é saber quem ganhou o debate mesmo que não tenha aportado nada de novo ou importante!

Temos um primeiro-ministro que forçou umas eleições antecipadas por uma trapalhada sobre uma empresa sua, e  que , etca passou aos filhos e à mulher. Mas como era casado em regime de comunhão de adquiridos, afinal a empresa continuava a ser sua. Foi obrigado a um penoso striptease sobre essa empresa, onde se viu pressionado a declarar: quanto facturava, a quem facturava, quem lá trabalhava, quais as aptidões dos colaboradores. Se tivesse feito uma venda fictícia a um amigalhaço, talvez se tivesse safado! Ainda existe um problema com uma casa de Espinho, como a pagou, onde estão as facturas do cimento fornecidos por um cliente, dono de uma gasolineira e que deu um donativo para uma campanha do PSD!

Como se tudo isto não bastasse, temos ainda um Ministério Público que de uma forma cirúrgica inicia investigações. com base em denúncias anónimas, em cima de momentos cruciais da vida política nacional. O caso da denúncia sobre os bens imobiliários de Pedro Nuno Santos, é disto um caso paradigmático e que o obrigou a um outro striptease, para declarar como arranjou dinheiro para pagar um património com algum valor num tão curto período da sua vida activa!

Estamos a semanas de umas novas Eleições Legislativas, onde parece que pouco irá mudar. Ou seja. O governo sufragado destas eleições irá, muito provavelmente, encontrar os mesmos problemas e as mesmas dificuldades que o anterior. Onde os principais protagonistas serão os mesmos e, consequentemente as soluções não serão diferentes daquelas que já nos venderam.

Quando penso em toda esta conjuntura sou levado a reflectir se tudo isto não passa de um pesadelo. Ou será que estamos num país africano ou latino-americano, onde os governos são derrubados por razões muitas pouco claras. O conceito de República das Bananas parece encaixar-se perfeitamente na nossa realidade política. Quando pensamos que optamos por viver numa Europa com valores de preceitos democráticos reconhecidos como desejáveis, é com alguma mágoa que observamos a realidade político-partidária portuguesa! Infelizmente parece que estamos mais próximos de uma qualquer República das Bananas do que do mundo ocidental que afirmamos pertencer!

quinta-feira, 13 de março de 2025

AS ELEIÇÕES QUE NINGUÉM QUER

 

Tal como se esperava, fomos empurrados, uma vez mais para eleições! A hipocrisia reina neste rectângulo à beira-mar plantado! Esta situação tem apenas 3 culpados: os líderes dos dois mais importantes partidos e o Presidente da República. Os dois primeiros por aquilo que fizeram, e não deviam ter feito; e o Presidente da República por aquilo que não fez, e deveria ter feito.

As razões que determinaram a actual situação devem-se ao facto do primeiro-ministro se ter visto envolvido num processo que envolvia a sua actividade patrimonial e da sua ligação a alguns grupos económicos a quem a empresa que detinha com a mulher e filhos prestava serviços. Aparentemente, não existia nenhum ilícito criminal, mas tão somente uma trapalhada processual que abalava a sua credibilidade e confiabilidade, política do ponto de vista ético e moral, requeridos a um detentor de cargo público.

Ninguém entende que Luís Montenegro, gozando de uma conjuntura muito favorável e capitalizando a seu favor vários aspectos que beneficiaram a vida de alguns concidadãos, tenha deitado tudo a perder por uma gestão desastrosa da crise que ele próprio despoletou.

A responsabilidade destes agentes políticos ao precipitarem a necessidade de convocar novas eleições é incompreensível. Tanto mais que, PSD e PS registaram nas últimas eleições legislativas qualquer coisa como 56% dos votos expressos. As intenções de votos parecem confirmar que esta realidade não se alterou substancialmente. E ninguém espera que as próximas eleições irão alterar, significativamente, esta evidência. Muito provavelmente o espectro da abstenção, vá registar uma subida considerável. De resto, tudo irá ficar na mesma, e com a criação de um ecossistema político-partidário onde o CHEGA se sente bem.

Talvez por tudo isto se perceba a aceitação que a mais que provável candidatura de Gouveia e Melo à Presidência da República, estará directamente ligada ao facto de ser protagonizada por alguém fora do espectro partidário.

sexta-feira, 7 de março de 2025

AS DECISÕES DO “DOGE”

O DOGE - Department of Government Efficiency, ou Departamento de Eficiência Governamental, foi um organismo criado pela nova administração americana para fazer face aos gastos que Trump considera excessivos, inúteis, redundantes ou mesmo incompreensíveis. Para tal atribuiu esta tarefa a um amigo republicano, não eleito e que é apenas o homem mais rico do mundo.

Pelo que se vai sabendo, Elon Musk, é considerado uma espécie de funcionário público especial do presidente Donald Trump desde o início da sua gestão, depois de ser um dos principais activistas e financiadores da recta final da campanha republicana.

O DOGE começou à pressa, de forma atabalhoada e actuou sem um profundo conhecimento do verdadeiro trabalho de muitas agências governamentais, consideradas dispensáveis. Uma das primeiras a USAUID – agência humanitária do governo dos Estados Unidos.

Uma das mais comentadas refere que o site do DOGE, criado à pressa e tem falhas de segurança consideradas básicas por especialistas. Nesta medida já foram detectadas intromissão de hackers nos dados da plataforma. Para além disso, alguns funcionários superiores, por total discordância pediram a demissão. Por outo lado, continua em dúvida o futuro de centenas de programas de ajuda humanitária e de apoio ao desenvolvimento, por agora suspensos, com efeitos dramáticos para milhões de pessoas em todo o mundo.

Vários são os organismos federais, de justiça e sindicatos que se têm oposto aos intentos de Musk. Algumas decisões já foram revertidas por absoluta ilegalidade, como é o caso de um juiz federal decidiu que DOGE, liderado por Elon Musk, não pode ter acesso a dados pessoais sensíveis, como a Segurança Social e números de contas bancárias de milhões de norte-americanos.

Tudo isto veio a propósito de uma notícia que li hoje de manhã de que Musk iria fechar diversas delegações consulares por todo o mundo, uma das quais, o Consulado Americano em Ponta Delgada. A ser verdade isto constitui um duro golpe nas ligações dos Açores e à sua comunidade na diáspora americana (refere-se que serão à volta de 700.000 de emigrante e seus descendentes directos). Este tema reveste-se de um aspecto pessoal que me toca profundamente. O meu avô materno foi um orgulhoso funcionário do Consulado Americano há muito mais de sessenta anos. Alguns amigos também ali deram o seu contributo, mas sobretudo, serão os imigrantes que verão os seus problemas agravados com esta decisão. Será que a necessidade de encerrar algo que durante uma vida inteira fez sentido para a administração americana e para os nossos imigrantes, apenas por razões de contenção orçamental para o país mais rico do mundo, não me parece! Mas vamos ter que nos adaptar a uma nova ordem mundial, e ela não traz nada de bom.

quarta-feira, 5 de março de 2025

A INGENUIDADE DE LUÍS MONTENEGRO (?!)

 Montenegro – Aventar

Não se compreende a atitude do primeiro-ministro de Portugal relativamente à forma como tratou o assunto da empresa que detinha com a esposa e os filhos. Considerando que tenha vendido a sua participação à própria empresa, e sendo casado no regime de comunhão de adquiridos, parece configurar uma perfeita nulidade processual. Ou seja, como jurista tinha obrigação de o saber que este argumento carecia de fundamento jurídico-legal. Sendo assim, podemos ser levados a concluir que o fez de má-fé. Não me parece, considerando a sua longa experiência de causídico, de política e partidária, obrigava-o a ser muito mais cautelosos.

As coisas começaram por ser levantado um problema de conflito de interesses relativamente à Lei dos Solos. Depois soube-se que a empresa actuava no domínio da prestação de serviços na área da Protecção de Dados. Depois quis saber-se quem eram as empresas para as quais a dita empresa prestava serviço. E finalmente quanto eram os valores das avenças que recebia das empresas envolvidas. Foi questionada a compra de dois apartamentos adquiridos pelo primeiro-ministro, pagos à vista, na Rua do Possolo. E como se não bastasse, quer saber-se a razão por que Luís Montenegro está a viver num hotel, porque o apartamento que usava se encontrava em obras(?!). E tudo se referia a uma mera questão de exclusividade, relativamente aos possíveis conflitos de interesse entre o primeiro-ministro com as empresas para quem a SPINUMVIVA prestava serviços.

Acredito que os políticos devem ter uma carreira estabelecida tanto antes, quanto depois de ingressarem na política. A política não pode ser vista, no meu modesto entender, uma carreira profissional. A dinâmica da vida pública nunca se compadece com alguém que se arraste pela vida como um mero funcionário público, no que esta designação tem de mais negativa. Também é verdade que as regras que a democracia impõe barreiras a quem se disponibiliza a prestar serviço público à nação, e ainda bem. Essas regras têm de ser muito claras e objectivas, no que à observação e evolução dos seus património e rendimentos diz respeito. Mas todo este episódio poderia ter sido evitado, se Luís Montenegro, em vez da venda da sua quota à mulher, a tivesse vendido, por um preço simbólico a um amigalhaço, provavelmente nada disto estaria em discussão.

Para além de tudo o mais, existem mecanismos de controlo na administração publica no que a tudo o que referimos diz respeito. A Comissão para a Transparência, A Ministério Público e os Tribunais, são peças fundamentais para a clarificação de um qualquer delito ou infracção.

Pelo contrário, levamos tudo isto para: Moções de Censura, Votos de Confiança, ou intermináveis Comissões Parlamentares de Inquérito, estamos a arrastar os portugueses para um cenário de eleições antecipadas, para uma nova crise e deixando para trás os principais problemas que a todos preocupa: a saúde, a habitação, a educação, a justiça, a segurança, etc. Por tudo isto não consigo perceber nem a posição dos partidos da oposição, nem do governo, e muito menos de luís Montenegro.

Luís Montenegro não é ingénuo. Também não quero acreditar que seja inocente. Penso que tudo se resume a uma grande falta de habilidade para tratar um assunto com todos estes contornos tão delicados, ou uma imprudência. O problema é que irão ser os mesmo a pagar a factura da instabilidade.