domingo, 20 de outubro de 2019

AINDA A QUESTÃO DA ABSTENÇÃO


Passadas que estão as últimas eleições legislativas, em que a abstenção atingiu um valor recorde de 51.43%. Não houve candidato ou líder político que não tivesse, de forma veemente, apelado à participação dos cidadãos. Acabadas que estão as eleições, o caso caiu num vazio absoluto. Á a ideia que os apelos, mais não foram do que, uma forma de credibilização democrática, do que uma real vontade em resolver este problema.
O fenómeno da abstenção é uma realidade que ninguém fica indiferente e, descredibiliza o ideal democrático. Ainda mais preocupante é que, este valor é ainda maior junto das camadas jovens da população! Não é uma realidade apenas portuguesa, mas isso não nos deve impedir de pensar sobre o assunto e da adopção de medidas tendentes a evitá-la. Desde logo saber-se porque é que o cidadão se alheia, de uma forma voluntária da sua participação e exercício de cidadania. A abstenção, os votos nulos e em branco, constituem uma forma de protesto do eleitor e, certamente poderá ser, uma das explicações mais plausíveis para isso. É indo e, compreendendo a raiz o problema, que pode propor e implementar medidas redutoras do fenómeno.
Existem muitas explicações que justificam esta realidade: a mediocridade da classe política; os inúmeros fenómenos da corrupção associados à classe política; o alheamento e desinteresse do eleitor, que é uma consequência das anteriores; o favorecimento de determinados grupos, suportados pelo contribuinte; a convicção que o seu voto não tem influência na modificação do status quo; a não realização o acto eleitoral num dia de semana; a pouca participação cívica o cidadão na sociedade, etc. Uma coisa é certa, o fenómeno existe, está em crescimento e não parece haver vontade de alterar alguma coisa para o controlar.
São muitas as propostas como o voto obrigatório. São muita as personalidades que o defendem e com uma argumentação válida: se somos obrigados a fazer a nossa declaração de rendimentos, se temos vários seguros obrigatórios, a vacinação, porque razão não se há-de aplicar este princípio ao eleitor? Na minha modesta opinião, isso significaria coarctar um princípio de liberdade associada ao exercício de um dever, não de uma obrigação.
O voto electrónico, presencial ou remoto, é talvez, a solução mais prática e efectiva de combater o abstencionismo. Portugal é pioneiro em muitas soluções tecnológicas, nomeadamente ao nível do relacionamento institucional do cidadão com a Administração Pública. A sua implementação, serie uma opção simples e eficaz e que peca por tardia. De salientar que nas últimas eleições europeias, foi feita uma experiência piloto em Évora com aparente sucesso. E mesmo as reservas de segurança que o voto electrónico suscita, não me parece uma questão inultrapassável.
A discriminação fiscal, pelo contrário, parece-nos talvez, uma solução a estudar. Ou seja, o eleitor era livre de exercer ou não o seu direito de votos. Se não o fizesse, arriscava-se a ter uma penalização no seu relacionamento com uma administração pública, que ele voluntariamente se exclui de escolher, como por exemplo não poder concorrer a um lugar público. A aplicação de uma taxa máxima a quem se abstém. Naturalmente que esta medida tem de ser objecto de um estudo profundo, no sentido da sua praticabilidade.
Qualquer um observa um crescente “divórcio” entre a classe política e os seus eleitores. Isso assenta numa descredibilização do papel dos partidos e da sua praxis. Instalou-se a sensação que o nosso voto não resolve nada e que os partidos, são um pretexto para muita gente encontrar uma forma de vida confortável e segura. A criação de ciclos uninominais, mesmo que de forma reduzida, podia ser uma forma e aproximação dos políticos aos seus eleitos. Várias vezes ouvimos já esta intenção manifestada, mas as legislaturas sucedem-se, sem que ninguém tenha a coragem, o interesse, ou conveniência, em alterar o que quer que seja.
O ónus desta realidade não pode ser assacado a quem decide não votar. È preciso ir mais longe, compreender o porquê desta atitude, tentar perceber o que está mal no sistema e qual a forma melhor de contrariar esta tendência. Deixar para depois como tem sido hábito, é que não pode ser. Os jovens vivem num país sem esperança. A precariedade generalizada confirma este sentimento de impotência, de que a sua participação possa mudar alguma coisa. Se de facto, os nossos eleitos têm vontade de mudar o actual estado de coisas, é agora que têm de agir. Deixar para mais tarde, pode ser tarde demais. Além disso, os populismos encontram o ambiente ideal para “venderem” as suas ideias.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

A NOVA MINISTRA DA AGRICULTURA, UMA CARTA FORA DO BARALHO


Lido regularmente com agricultores, organiações de produção e estruturas ligadas à formação profissional do sector. Isto permite-me ter uma visão alargada dos problemas que afectam a classe, bem como os seus anseios e preocupações, que são muitos e variados. A modernização a nossa agricultura, é uma realidade inegável. Importante para este desígnio, foram as vultuosas ajudas comunitárias de que o nosso país beneficiou.Temos que reconhecer que estas ajudas, apesar de fundamentais, foram aproveitadas por uma classe de agricultores mais esclarecida, mais jovem e, invariavelmente de maior capacidade económica e fundiária. Mais recentemente o sector tem crescido à custa de investidores, sem qualquer ligação de raiz ou tradição à terra, mas com preocupações de modernidade e rentabilidade das culturas implantadas. Os sectores mais apetecíveis têm sido a vinha e o olival e por raões compreensíveis. Mas tudo isto está em contraponto com uma outra realidade, os agricultores das regiões do interior, mais pobres, com áreas agrícolas diminutas e explorando culturas (floresta, cereais de sequeiro, pastorícia, e pouco mais) de muito baixos rendimentos e a quem, estas ajudas passaram completamente ao lado. Esta foi, aliáz a grande responsável pelo abandono do mundo rural e desertificação do interior do país, com óbvios problemas irectos nos fogos florestais.Tudo isto vem a propósito a nomeação da nova ministra da agricultura. O meu conhecimento das suas capacidades e curriculum  senhora é muito relativo. Portanto, não quero fazer qualquer juízo de caracter técnico sobre o que esta ministra representa para os agricultores. As primeiras impressões que ouvi da boca de alguns agricultores para esta nomeação, foi de grande desconfiança, pela seu óbvio desconhecimento do mundo agrícola. O antigo ministro , também não tinha grande aceitação por parte dos agricultores, mas ninguém lhe pode negar uma longa e grande experiência, e um profundo conhecimento das indiossincracias que atravessam o sector.A nomeação de Maria do Céu Albuquerque é, por tudo isto, incompreensível num palano meramente técnico, quando existiam escolhas bem mais qualificadas para o lugar. Se isto já em si é preocupante para quem diariamente tem de lutar muito para ter uma vida com um mínimo de dignidade, mais preocupante é saber que a senhora em causa está ligada dois episódios que não abonam em nada o seu carácter. Estou a referir-me, concretamente, a um caso de alguns negócios suspeitos, com um filho de um deputado do PS, enqunto presidia à Cãmara de Abrantes. Há ainda um estranho episódio em que está em causa a falência do antigo construtor civil Jorge Ferreira Dias, que se arrata por diversos tribunais, com decisões favoráveis ao queixoso.Vamos ouvir muita gente a defender a senhora, que nada está provado, que nada transitou em julgado, que ela até fez um excelente trabalho na secretaria de Estado do Desenvolvimento Regional, etc. Vamos ainda ouvir que isto provavelmente são Fake news. Mas uma coisa tenho a certeza, a constituição deste novo governo, no que à pasta a agricultura di respeito, não começou bem. A recém nomeada, não tem o prefil adequado para estar à frente de um ministério, que tem de intervir num sector que é muito sensível e que tem as suas especificidades muito próprias.O sector vai ter dentro em breve uma prova de fogo – o Brexit. Qualquer que seja o resultado deste processo, a agricultura portuguesa vai sofrer um forte impacto, quer directamente pelas ralações comerciais com a Grã Bretanha, quer ainda de forma indirecta, pela natural interferência a nível interno, de outros países concorrentes, como o caso da nossa viinha Espanha. O sector vinícola, já está no presente momento, a sofrer deste fenómeno.Vamos esperar para ver!

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

ATÈ ONDE VAI CHEGAR O CHEGA


A eleição de André Ventura nas últimas eleições legislativas, veio agitar muito as águas. E não há jornalista, comentador ou simples mortal que não deixe de o presentear com muitos “mimos”. Ao contrário, nas redes sociais, dá-lhe udo aquilo que ele deseja, a patilha de muitas das suas intervenções. A personalidade de que estamos a falar tem tudo de mau que um político pode ter. Defende ideias extremistas, xenófobas, homofóbico, populista e de uma argumentação básica e pouco sustentada, sobretudo nos temas mais sensíveis ou técnicos. O seu discurso centra-se em meia dúzia de chavões, mas que vão ao encontro das preocupações básicas que muitos portugueses também subscrevem: o estatuto dos ciganos, das questões da emigração, da segurança pública, do número e composição da Assembleia da República, as inúmeras e polémicas decisões judiciais, etc. Nas mesas dos cafés as discussões giram à volta dos mesmos temas e com a mesma intensidade e entusiasmo do André Ventura. Por isso, a sua eleição aconteceu porque há muitos cidadãos eleitores que se revêem neste tipo de solução política. E é isto que é preocupante!
Este candidato eleito, parece ser alguém que tem uma enorme vontade de promoção pessoal, seja à custa do que for. Foi candidato à Câmara de Loures pelo PSD que o deixou cair posteriormente, mas que na altura o promoveu. Depois tornou-se comentador desportivo, polémico e irredutível na argumentação, encontrou na CMTV, a melhor montra para chegar aos tais eleitores que constituem a audiência típica deste canal. Depois de muitas e atribuladas diligências conseguiu formar um partido à sua dimensão e imagem. Como consequência, o resultado é a sua eleição como deputado, o que lhe permite uma exposição ainda mais poderosa – o hemiciclo. Onde vai fazer aquilo que melhor sabe, arrastar a discussão para os seus terrenos.
A classe política reagiu muito mal a esta eleição, se pensarmos que aquilo que lhe convém é que falem dele, e muito. António Costa caiu na asneira de dizer que contava com todos, mas não contava com o Chega. Na primeira oportunidade, André Ventura respondeu, que ele é que não contava com o PS. Ou seja, deu-lhe a deixa que ele estava à espera. Certamente é isso que vai acontecer no Parlamento, onde vai aproveitar a exposição mediática que o lugar lhe proporciona, para expor as suas ideias.
Receio bem que André Ventura e a sua actuação, a partir de agora, vai colher muitas simpatias. Tem um discurso ardiloso, estudado, centrado num objectivo final, dizer aquilo que cai bem ao seu eleitorado. De modo que quando tiver oportunidade, vai atacar em força descredibilizando os oponentes, atribuindo-lhes a responsabilidade de tudo o que está mal, e pondo o dedo na ferida, como no caso da redução do número de deputados, na sua referência cirúrgica á deputada do PS, Isabel Moreira.
A possibilidade do aparecimento do Chega e da eleição de André Ventura foi muito desvalorizada por todos: opinion makers, poder instituído, órgãos de comunicação social, etc. A partir de agora, André Ventura ganhou espaço e legitimidade para poder ter representação em paridade com todos outros eleitos.
O que é importante não é condenar e invectivar André Ventura. Ele é fruto de um descontentamento generalizado, onde o seu discurso cai como mosca no mel. A descredibilização da classe política, a mediocridade dos agentes políticos, os incontáveis casos de corrupção, a degradação dos serviços públicos, o estado caótico do poder judicial, os compadrios, os favorecimentos, encontram nos Andrés Venturas, alguém disposto a usar estes argumentos e a lavar roupa suja, sem qualquer decoro. Por isso, receio bem que a partir de agora, e se nada disto for mudado, André Ventura e o Chega podem chegar longe.

AS DIFICULDADES DO PRÓXIMO GOVERNO


A composição do Parlamento saído destas eleições vai apresentar uma configuração diferente, tanto à esquerda, como à direita. O novo arranjo parlamentar tem, aparentemente, tornado mais difícil a formação a Geringonça II. António Costa bem se esforça com tentativas de sedução, sobretudo entre os PAN e o Livre. Já com o BE as coisas têm sido mais complicadas, apesar de uma despudorada tentativa de Catarina Martins, na sua disponibilidade para viabilizar, com algumas condições, o próximo executivo. Percebe-se porquê. Manteve a representação parlamentar, mas perdeu um número significativo de votantes. O PCP, como partido anti-sistema, já compreendeu que a ajuda que deu à Geringonça I, o prejudicou eleitoralmente e não se mostra muito disponível. Por isso, vai voltar a sua luta para a rua, usando a enorme influência que ainda tem no sector sindical. À direita, a aparente disponibilidade de Rui Rio a entendimentos pontuais, encontra uma forte oposição interna. Por tudo isto, António Costa, não só vai ter mais dificuldade na formação do seu gabinete, como vai ter um parlamento mais plural, escomprometido e estremado, pela chegada do Livre, do Iniciativa Liberal e do Chega. O quase desaparecimento do CDS e a hecatombe do PSD, vão certamente promover o aparecimento de novas lideranças, que vão querer mostrar serviço.
Prevejo que a próxima legislatura vai ser muito mais difícil de levar por diante, do que a anterior, pelas exigências de caracter social à esquerda, e reformistas à direita. A degradação generalizada dos serviços públicos, não pode esperar mais por uma intervenção urgente. A conjuntura excepcional e irrepetível de que beneficiou o último executivo, dificilmente se repetirá. A conflitualidade, não se espera que dê sinais de abrandamento. Por tudo isto, algumas nuvens ensombram, o nosso futuro próximo e o executivo não irá ter grande margem de manobra.
O Brexit vai trazer uma enorme perturbação em toda a Europa. O abrandamento das economias mais fortes (os nossos principais parceiros comerciais), vão ter um forte impacto em todo o nosso sector empresarial. Se acrescentarmos a este quadro, o facto da Espanha ir sofrer dos mesmos problemas, irá determinar manobras de concorrência, que já neste momento se fazem sentir, como por exemplo, no sector agrícola,
A posição de Donald Trump, e do mais do que previsível acordo comercial entre os Estado Unidos da América e a China, não trazem nada de bom para a economia europeia. Temos visto alguma reticência do governo chinês relativamente a este assunto, mas é inegável que a dimensão e a importância destes dois mercados, é muito apetecível de parte a parte.
Uma frágil e dependente economia como a nossa, vai ter de dar uma resposta muito firme a todas estas ameaças. Tudo isto vai acontecer muito em breve, e muito pouco sabemos das propostas dos partidos que irão suportar a Geringonça II, o que pensam sobre este assunto, e quais as suas recomendações para o país enfrentar este enorme desafio!
Mas a maior dificuldade de António Costa vai ser lidar com um parlamento, menos comprometido e muito mais plural. Mesmo se considerarmos que partidos como o Livre, O Iniciativa Liberal ou o Chega, nunca terão capacidade de mudar muita coisa, isoladamente. Mas vão, certamente, provocar um “ruído” que até agora não existia. A pluralidade de opiniões é o fundamento de uma moderna democracia. A dúvida é, se todos nós, e a classe política incluída, estaremos preparados para toda esta mudança. Mas que o próximo governo vai ter uma vida muito mais difícil, não restam dúvidas a ninguém. A forma como irá enfrentar estas dificuldades representam uma incógnita, mas que irá ter repercussões na vida de todos nós, e provavelmente, pelos piores motivos. Espero que o tempo não venha a dar-me razão.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

A ABSTENÇÃO - UMA REFLEXÃO QUE SE IMPÕE


As eleições provocaram mudanças significativas no panorama político e no nosso futuro imediato. Como habitualmente, ouvimos discursos inflamados, alguns a roçarem o ridículo, e uma vez mais, tivemos muitos vencedores (?). Também isto não surpreende ninguém. Quase todas a cantarem vitórias gloriosas, e a descaradas paradas e sedução, de parte a parte, com vista à formação da Geringonça II.  Por melhor que sejam as intenções, cheira muito a vontade indisfarçável do todos meterem a mão no pote do poder.

O mais estranho é que todos os candidatos, durante a campanha fizeram, insistentes apelos à votação, não tenham nos seus discursos, feita qualquer referência aos valores preocupantes que a Abstenção atingiu, e mais ainda, pela tendência de crescimento que não se consegue, aparentemente, reverter!
Fiz uma consulta atenta dos resultados eleitorais, no site da CNE e podemos constatar que aquela se situou nos 45.50 %. Se somarmos a este valor os votos Em Branco – 2.54 %, mais os votos Nulos – 1.74 %, pode concluir-se que 49.78 % dos portugueses decidiram por, voluntariamente, dispensar-se do exercício patriótico, de escolher os seus representantes! O aumento considerável no número de cidadãos eleitores, fruto do recenseamento automático, não explica este aumento da taxa de abstenção, relativamente às últimas legislativas – 44.1%.
Por esta razão é que os discursos inflamados de vitória, ou as desculpas esfarrapadas de um pequeno ou grande percalço eleitoral, fazerem muito pouco sentido, se considerarmos que todos os eleitos foram escolhidos apenas por 50% dos eleitores! Não está em causa a legitimidade de cada um dos eleitos, mas a sua duvidosa representatividade recomendaria, por uma questão de decoro, deveriam ter alguma contenção nos discursos.
Também no site da CNE, e fazendo a comparação com as eleições de 2015, podemos verificar, que muitos partidos, mesmo com um menor número de votos, aumentaram a sua representação parlamentar. Mais curioso ainda é que para o PS eleger 1 deputado, apenas necessitou de 17.607 votos, enquanto que o Livre para atingir o mesmo desiderato, teve que ter 55.656 votos. Para além disto, o PS com 1.866.407 de votos em 2019, conseguiu eleger 106 deputados, em 2015 para eleger 85 deputados necessitou de alcançar os 1.742.012 votos.
Esta realidade tem um lado perverso que é de manter no poder os maiores partidos, com máquinas muito mais poderosas e, não necessitando de grande esforço para a sua manutenção. Com os pequenos partidos, o caso é diametralmente oposto. Com estruturas muito débeis, com financiamentos mais difíceis de alcançar, lá vão tentando sobreviver, a este método de HONDT, difícil e injusto. É pois, com alguma satisfação que registo o aparecimento de 3 novas forças políticas no hemiciclo, apesar de todas estas dificuldades.
Vai formar-se um novo governo. Vamos, esporadicamente, ouvir falar os nossos políticos na abstenção, adoptando um ar severo e preocupado, mas na prática, tudo vai ficar como dantes.
Com vista à redução destes valores, ouvimos muito boas intenções: voto electrónico, voto em dia de semana, simultaneidade de eleições, como em muitos países nossos parceiros; o voto obrigatório, descriminação tributária a quem não votar, etc. Mas os anos sucedem-se, e continuamos a assistir a um aumento inexorável dos desencantados da política, qualquer que sejam as suas motivações, e todas elas são respeitáveis perante tal cenário. Mais incompreensível é a arrogância que observamos ao ver estes eleitos nos seus discursos inflamados quando se referem à abstenção ou à celebração da vitória. O que contrasta totalmente com a prática política posterior, onde esta questão da abstenção cai num total esquecimento.
O galopar destes números de ausência de participação cívica, deve exigir de cada um de nós uma reflexão profunda sobre as causas que determinam tal desinteresse. Provavelmente se pensarmos em fenómenos como a corrupção, o compadrio, a desresponsabilização dos políticos sobre as suas naturais (in)competências, o tratamento diferenciado entre o sector público e do privado, a degradação dos serviços públicos, o estado da justiça, são factores em que o eleitor se questiona quanto à incapacidade de, com o seu voto, terem capacidade de inverter esta tendência. O aumento exponencial dos valores da abstenção, deveria ser uma preocupação de todos os actores políticos, de que alguma coisa podia e devia ser feita, com vista a inverter esta perigosa propensão. A abstenção é a expressão máxima de protesto face ao sistema democrático em vigor.
O sr. Presidente da República devia ter, em nosso entender, um papel muito mais interventivo na sensibilização dos intervenientes políticos para que, objectivamente, alguma coisa possa ser feita para mudar esta 

POR UMA QUESTÃO E CONSCIÊNCIA


Terminadas que estão as eleições legislativas e, por estar convencido que foram das mais importantes para a consolidação da nossa Democracia, tenho que dar atenção ao que diz o Joaquim Aguiar, “o povo tem sempre razão, mesmo quando não sabe a razão que tem”.
Este foi o resultado que os portugueses escolheram, e temos mais que o aceitar, mesmo quando considerarmos, que isso não seja o melhor para o nosso viver colectivo. É esta uma condição do sistema em que vivemos. Tudo isto vem a propósito de uma série de comentários que produzi, com vista a sensibilizar os que lêem os meus escritos, para os perigos que uma maioria absoluta do PS poderia representar, numa perspectiva muito pessoal. Por outro lado, estimulei sempre que o votar seria muito importante, para evitar que uma abstenção elevada, determina um alta de representatividade dos eleitos. Ou seja, vamos ter um executivo eleito com toda a legitimidade, mas com uma representatividade de apenas por pouco mais de 50% dos eleitores, o que é pena. De evidenciar, o aparecimento de novos partidos, o que vem trazer alguma juventude, ideias novas e, a pulverização daquilo que alguns estabelecem como a dicotomia entre a esquerda e a direita.
Escrevi e publiquei uma série de desabafos, no exercício de um direito que me assiste enquanto cidadão, convicto da razão que tenho, e no uso de um pleno direito de cidadania. Estes tiveram a simples finalidade de chamar a atenção dos riscos, em meu fraco entender, de uma maioria absoluta e, muito especialmente, do PS, considerando os tempos difíceis que se aproximam. Dispenso-me de enumerar a extensa série de objecções que suportavam este receio, por elas terem sido largamente consideradas nos meus desabafos. Tentei sempre utilizar uma linguagem muito objectiva, mas sem insultar quem quer que seja. Alguns comentários que recebi, nem sempre foram feitos da forma mais correcta e educada, mas isso é algo que quem se expõe, tem que aceitar. Estes eram mais contra a forma do que quanto ao conteúdo, especialmente ao tema abordado. O contraditório existe, e deve ser respeitado por todos, porque todos têm a sua razão.
Por uma questão de consciência, e por entender que um sistema democrático, apesar das suas imensas lacunas, ainda representa a melhor, e mais justa forna de vida em sociedade, tinha que deixar claro esta minha forma de intervenção. Esta convicção e o resultado eleitoral, não muda nada a minha forma de pensar relativamente a tudo quanto escrevi. Vamos ter um governo que, sem a tal maioria, vai fazer os seus arranjos, para sobreviver politicamente a algumas nuvens cinzentas que pairam no horizonte.
Apesar das mais prováveis alianças que podem viabilizar o futuro governo não serem do meu agrado, temos que aceitar toda a legitimidade das opções que António Costa decidir tomar. Vou, democraticamente, aceitar o governo que irá ser formado. Isso em nada irá mudar a minha opinião sobre os temas que anteriormente me bati. Sempre que aqueles valores foram beliscados, irei emitir a minha preocupação, ou negação. Este é um direito que me assiste e do qual não irei abdicar. Nestas circunstâncias, estou receptivo a todas as críticas e opiniões. Gostava que essas opiniões fossem feitas com elevação, com respeito por quem pensa de forma diferente, e que sejam sempre os factos abordados o objecto da discussão, e nunca as questões conjunturais ou circunstanciais, que invariavelmente constituem a argumentação. Que o tempo me venha convencer de que estive e estou errado, são os meus mais profundos votos.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

VOTAR EM QUEM?


Confesso que há muito tenho adoptado a opção do voto em branco, por não encontrar na oferta partidária um discurso sério e coerente, e que satisfaçam os princípios e valores porque oriento todas as opções no exercício da minha cidadania. Constato que os chamados, partidos do arco da governação (PS, PSD e CDS), se limitaram a gerir fundos e a resolver a vidinha deles e dos seus, nos últimos quarenta e tal anos.
Aproxima-se um outro um novo acto eleitoral, em que todos nós vamos ser chamados a escolher (?) quem escolhe são os partidos, os novos eleitos, para os sentarmos confortavelmente na cadeira do poder, por mais quatro anos. Assiste-nos a dúvida do que é que de novo nos irá trazer este próximo escrutínio!
A última experiência trouxe-nos uma geringonça, que apesar de toda a legitimidade democrática, foi responsável por tudo o que de bom e mau aconteceu nesta última legislatura. Devo confessar que no meu entender, o mau foi muito mais do que o bom. Esta geringonça herdou o país, liberto das enormes exigências impostas pela Troika, numa conjuntura internacional excepcionalmente favorável (preço dos combustíveis, receita do turismo e aumento das exportações) e sem uma oposição credível e actuante, conseguiu devolver os rendimentos e assim, animar a economia. Mas também é bom não esquecer o que de muito mau aconteceu nos últimos quatro anos, e que me vou dispensar de enumerar. Com um arranjo entre forças políticas, que em muitas áreas defendiam princípios opostos, lá se foram aguentando, com cedências de parte a parte, porque a tal cadeira do poder é muito apetecível, para todos, sem excepção.
Entretanto, assistimos a um imobilismo total, e á ineficácia do papel dos partidos da o posição no domínio parlamentar, que permitiu à geringonça lá ir funcionando, sem muita resistência.
Vamos ser chamados uma vez mais a cumprir o nosso dever de eleitor e devemos estar muito conscientes daquilo que vamos querer. Mas devemos ter uma convicção ainda maior, sobre aquilo que não queremos para o nosso país.
É este o meu estado de espírito neste momento crucial quanto à minha decisão. Apesar de uma enorme pulverização de partidos concorrentes (21), há partidos onde eu nunca votaria por questões meramente ideológicas: o BE, o PNR e o Chega. Existem outros, onde eu nunca votaria pela salvaguarda da minha sanidade intelectual: o PAN e o RIR. Depois existe uma miríade de pequenos partidos, e que apesar das boas intenções dos discursos, não se percebe como seria possível a implementação e sustentação das suas políticas.
Apesar de, conceptualmente o voto em branco fazer algum sentido, por questões de ordem prática desta vez vou fazer a minha escolha, com uma única preocupação, evitar que alguns acontecimentos não voltem para ensombrar as virtudes do sistema democrático. Estou a referir-me concretamente a fenómenos com a corrupção, o compadrio o nepotismo, e a incompetência, que atingiram níveis inimagináveis e inadmissíveis. Será que vamos querer mais do mesmo?
Não me esqueço também, que está iminente um período muito adverso para uma economia frágil e exposta como a nossa. A desaceleração das economias dos países do norte da Europa – nossos principais parceiros comerciais, o Brexit uma eventual crise petrolífera, não seja suficiente as contas certas (?) da geringonça, e o aparente optimismo dos discursos.
Os resultados das sondagens vão ditando os discursos de campanha, em que cada um tenta expor as fraquezas do outro, e com muitas promessas inconsistentes. Uma campanha onde se gastam milhões e onde temos a convicção de pouco esclarecimento. Resta-nos sempre a escolha do mal menor. Com uma oferta alargada, que essa escolha possa trazer uma lufada de ar fresco a esta previsível resultado eleitoral que as sondagens diariamente nos vão iludindo. Esta opção poderia trazer uma também mais alargada representação parlamentar, dificultando a tentação da formação de outras geringonças, contra-natura.
Qualquer que seja a escolha ela será boa, desde que feita em consciência por valores e princípios patrióticos, muito esquecidos e desvalorizados nos dias de hoje. No próximo dia 6, ficar em casa é que NUNCA