Estamos em plena época dos
incêndios florestais, e a propósito das opiniões de muitos “especialistas”,
lembrei-me de uma afirmação de um amigo (engº silvicultor e com larga
experiência neste domínio) ter afirmado num debate sobre esta matéria: “enquanto
se ganhar dinheiro a apagar fogos florestais, estes nunca irão acabar”, o
que causou um grande desconforto no
painel que dirigia os trabalhos. Embora tenha alguma proximidade ao sector
florestal, não queria fazer esta reflexão numa base técnica, e muito menos
científica. Gostava de reflectir na óptica do cidadão comum, que olha para o
panorama como se de uma maldição se tratasse. Será tudo menos isso. E a
intervenção deste meu amigo continua a fazer todo o sentido, pelo menos para
mim, e para muito mais gente.
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Fonte: ANPCPela observação dos quadros anteriores
pode concluir-se que o panorama não é animador e revela uma tendência de
aumento. Arranjam-se milhentas explicações, na maioria dos casos pouco convincentes,
para justificar as ocorrências. Se recuarmos 50/60anos, para não se recuar mais
no tempo, fácil será concluir que a estrutura de combate aos incêndios
florestais existente na altura, era menos profissional, muito mais mal equipada.
Não havia uma estrutura de planeamento, gestão e controle em emergência (Protecção
Civil), como há hoje. Não havia o SIRESP de má memória. A estrutura de
Sapadores Florestais, era também inexistente na altura (absolutamente indispensável).
Os meios de vigilância e detecção eram
em muito menor número, e menos sofisticados. O ordenamento da floresta, era
apenas um projecto em desenvolvimento e também não pode justificar tudo (ex: o
recente incêndio do Pinhal de Leiria). Os meios aéreos disponíveis na altura,
eram muto menos numerosos e de menor capacidade de intervenção. A dificuldade
no combate, e que se prendem com a topografia, não poderá ser aceite como uma
desculpa, porque ela não se alterou. Os normativos compulsivos dos operadores
florestais na limpeza dos matos, é uma norma muito recente e penalizadora para
pequenos proprietários.
As razões das ignições não eram
muito diferentes das de hoje: ou era fogo posto, ou eram razões climáticas. As
motivações sobre o fogo posto, os principais visados eram: as celuloses e os
madeireiros. Este argumento, hoje faz muito menos sentido. Quanto às questões
de ordem climatológicas, e apesar das alterações climáticas, não explicarem
tudo, estas não serão assim tão diferentes das que se observam no passado.
Apesar de tudo isto, havia muito
menos fogos daquilo que se verificam actualmente. Os dados mais recentes
verificamos que apresentam uma tendência de subida, quer no número de ignições
quer na área ardida. E a dúvida instala-se: com mais meios, mais formação, e
uma estrutura de comando centralizada e dedicada, porque arde Portugal? O caso de
Pedrogão é, deste ponto de vista, paradigmático. Houve condições meteorológicas
adversas e excepcionais, mas também se verificou uma inexplicável (?)
incompetência na gestão da emergência. Os serviços da Protecção Civil tinham
muitos dos seus quadros, gente recentemente formada e sem qualquer experiência
operacional. O resultado foi o que foi.
Temos que ter o pragmatismo suficiente
para entender a inevitabilidade dos incêndios florestais em Portugal. Mais
difícil é encontrar justificações que expliquem o gigantismo dos números
associados, se comparados com outras realidades muito semelhantes, como é o
caso da vizinha Espanha. Todos os “especialistas”, referem que os incêndios
florestais combatem-se no período de Inverno, o que corresponde a um princípio
indiscutível. Por isso, fica a pergunta: porque ardem as nossas florestas com
esta magnitude? E lembro-me da afirmação do meu amigo. Ou seja, há muita gente
a ganhar dinheiro em apagar os fogos! A maior parte dos recursos financeiros é
aplicado no combate, em detrimento da Prevenção. Até se fala num Cartel do Fogo.
Se não vejamos:
O SIRESP foi
um investimento monumental e os resultados operacionais, têm sido desastrosos.
Os contractos
dos meios aéreos, são pouco transparentes e as opções são no mínimo, suspeitas,
como o caso dos KAMOV’s. Muita gente se questiona, por que razão a gestão e
operação dos meios aéreos não-ser uma responsabilidade da FAP?
A
promiscuidade entre empresas de venda de equipamentos de combate e alguns
elementos de corpos de operacionais de bombeiros é uma realidade que ninguém
parece querer investigar.
Porque não
criar uma força de Sapadores Florestais distribuída e dimensionada para a nossa
realidade florestal.
Muitos políticos ficam muito
incomodados, quando lhes perguntam: se os privados conseguem salvar a
floresta porque é que o Estado não o faz? “Há em Portugal modelos alternativos de prevenção e
combate aos incêndios. Esta é a história da aldeia que comprou fardas e
viaturas para combater ela própria as chamas quando a ajuda tarda, dos corpos
privativos que guardam fábricas e eucaliptais das empresas de celulose, da
corporação de sapadores criada de propósito para defender o maior tesouro
natural do país. E da máxima que todos repetem sem cessar: o investimento
compensa.”
É
preciso que este investimento seja aplicado, maioritariamente, na PREVENÇÃO. Que
a celebração dos contractos de meios de combate sejam mais transparentes e fiscalizadas
por organismo independente. Que a justiça seja célere e implacável, nos casos
de fogo posto; mas muito mais contundente nos negócios duvidosos, que envolvem
compras e manutenção de equipamentos, bem como nas contratações dos meios
aéreos. Que haja um maior protagonismo dos técnicos florestais e dos sapadores.
São eles que conhecem a floresta e com ela convivem em permanência. Nas
contratações dos responsáveis pelos organismo de operações, tenham que
demonstrar capacidade e experiência operacional, e não apenas formação académica.
Como
se pode concluir, não é preciso fazer-se muito mais. È preciso é fazer melhor. È
preciso é que haja uma vontade de resolver este flagelo, alocar para este desígnio
os mais capazes e competentes, a transparência em todas as acções necessárias e
que possam ser entendidas como duvidosas. Caso contrário, faz todo o sentido
concluir-se que: há muita gente a ganhar muito dinheiro a apagar fogos
florestais!