As viagens entre as ilhas e o continente, em meados da década de sessenta do século passado, era um privilégio de muitos poucos. A generalidade dos açorianos, não tinha por hábito viajar, e mesmo aqueles por necessidade, ou para estudarem usavam o transporte marítimo como o meio de o fazer. Já existiam ligações aéreas, centralizadas na ilha de Santa Maria, mas estas estavam apenas ao alcance dos mais abastados.
A minha primeira viagem quando
parti para estudar, fi-la no paquete Carvalho Araújo, e esta primeira viagem
marítima, revelou-se uma verdadeira aventura. Era um mundo novo que se abria e totalmente
diferente daquilo a que estava habituado: a primeira separação da família, a
primeira viagem e a primeira vez que me via independente do conforto familiar.
O navio de passageiros e carga
"Carvalho Araújo", da Empresa Insulana de Navegação. Lançado à água
em 1929, dos estaleiros Cantiere Navale Trestino, destinava-se a ligar
Lisboa e os arquipélagos dos Açores e Madeira. Propulsionado a vapor, tinha 113
metros de comprimentos e deslocava 4560 toneladas, transportando 256
passageiros. Navegou entre 1930 e 1970[1].
A primeira impressão foi de uma profunda admiração pelo interior e do ambiente
que se respirava no navio. O seu interior revelava um gosto clássico, com o
recurso a madeiras nobres num estilo austero, mas mesmo assim muito agradável. A
vida a bordo cumpria um ritual entre as refeições, as simulações de emergência,
o convívio com colegas de outras ilhas, e os passeios no convés para aliviar o
desconforto dos enjoos.
Uma coisa que desde o primeiro
momento despertou a minha curiosidade, era associar a personagem que deu o nome
ao navio. Na altura, lembro de ter ouvido tratar-se de um oficial da marinha
que se distinguiu por actos de bravura. Só muito mais tarde consegui saber um
pouco mais sobre este notável marinheiro. Sabe-se que nasceu por acidente na
cidade do Porto, com ascendência da nobreza nortenha, e que se notabilizou pela
sua coragem num episódio registado em pleno oceano, durante a I Guerra Mundial.
Nessa altura, José Botelho de Carvalho Araújo, com apenas 37 anos, ao comando do caça-minas Augusto Castilho[2], tinha por missão a protecção de navios que serviam os Açores e a Madeira. No dia 14 de Outubro de 1918, acompanhava o navio de passageiros São Miguel, entre o Funchal e Ponta Delgada, quando surgiu o submarino alemão “U 139”, que atacou brutalmente o São Miguel. Num assomo de valentia, Carvalho Araújo interpôs o navio sobre o seu comando entre o submarino e o São Miguel. Foi um combate desigual entre o gigante alemão e o navio português. Carvalho Araújo sucumbiu ao comando do seu navio, ficando para sempre registada a sua heroicidade, pois pouco antes de falecer mandou içar a bandeira nacional, afirmando “Hei-de morrer como português!”
A família Bensaúde, proprietária
da Empresa Insulana de Navegação, num processo de renovação da sua frota, não
hesitou em dar o nome deste bravo marinheiro ao navio, como forma de honrar
alguém que salvou um navio da empresa, e os 200 passageiros que transportava.
[1]
Referência recolhida do Instituto Cultural de Ponta Delgada
[2] “Augusto
de Castilho”, um antigo arrastão de pesca, transformado em caça-minas Blog Pico da Vigia


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