terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

O BODY LANGUAGE DE PEDRO NUNO SANTOS

 

Por razões profissionais, e por um inusitado interesse comecei a seguir o fenómeno da comunicação por volta dos anos 2000. Foi uma necessidade que me trouxe benefícios palpáveis à minha actividade, enquanto me permitiu olhar o mundo por uma perspectiva completamente diferente. Nomeadamente perceber que o discurso oral é muitas vezes contrariado pelo Body Language do palestrante. Para além do mais, há ainda a considerar que o processo comunicacional envolve todo um conjunto de factores, que contribuem de forma decisiva para o resultado – atingir eficazmente um determinado objectivo.

Esta minha apetência por este fenómeno, têm-me levado a observar com muita atenção diversas personalidades que se atravessam no nosso mundo, e onde é possível observar com algum grau de certeza que a sua linguagem não verbal, contraria muitas vezes o discurso. São disso exemplo paradigmático os casos de Donald Trump, Vladimir Putin, Jair Bolsonaro e, entre nós, o caso de André Ventura. Qualquer um destes exemplos é possível perceber nos seus discursos, que a verdade é algo que não os incomoda, e que a contradição é revelada na sua linguagem corporal. Ou seja, a intenção no discurso, é contrariada pela forma como o expressam.

O caso de Pedro Nuno Santos (PNS), apesar das diferenças dos exemplos mencionados, é muito similar no que diz respeito à mensagem que traz, e à forma como a expõe. Se começarmos pelo conteúdo, verificamos que há um certo desnorte com o mote escolhido - Portugal Inteiro que é repetido à exaustão. Se a repetição pode ser vista como corolário da lógica comicieira, já o mote não se encaixa na personagem, sobretudo se levarmos em linha de conta a sua experiência governativa: deixou em cacos tudo por onde passou: a TAP, a ferrovia e a habitação. Quanto à sua expressão não verbal, também não foi bem-aconselhado. Senão vejamos: no início da sua intervenção como candidato, começou por suavizar o discurso, tentando passar a imagem de um político calmo e seguro das suas convicções - soou a falso. No debate com LM, voltou ao seu registo natural, e marcou pontos. No entanto a sua modulação vocal é monocórdica e repetitiva, qualquer que seja a circunstância. A alteração do vestuário com a opção pela gola alta, também não colou e foi rapidamente revertida.

Todos os candidatos também têm cometido vários eros comunicacionais, mas apesar de tudo, têm sido mais naturais, ou pelo menos, apresentam um registo igual a si próprios. Os casos mais surpreendentes, ou talvez não, foram o Rui Tavares e Paulo Raimundo. No caso de PNS e, particularmente depois do desaire dos Açores, Luís Paixão Martins podia ter dado uma ajuda preciosa. Só a 10 de Março será possível aferir desta minha análise. Vamos aguardar.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

LEGISLATIVAS 2024 – UM PARADOXO ELEITORAL

 

Vamos ser chamados dentro em pouco de exercer o nosso dever de cidadania, para escolher (?) um novo elenco governativo. E o paradoxo começa exactamente no escolher! Ninguém escolhe nada. Quando muito são os partidos que escolhem um figurão para encabeçar uma lista por um determinado círculo eleitoral. Muitas vezes alguém totalmente desconhecido dos locais, com pouca ou quase nenhuma ligação à terra, e que invariavelmente, quando são eleitos vão ocupar um qualquer cargo distribuído pelo partido. Estas próximas eleições resultam de outro paradoxo. São eleições que foram antecipadas, apesar do executivo de dispor de uma confortável maioria absoluta, ter caído envolto num manto de suspeições de corrupção, por alguém muito próximo do primeiro-ministro.

Um dos candidatos a primeiro-ministro foi escolhido pelo partido para seu secretário-geral, e apresenta no seu currículo, ter-se demitido no anterior governo na sequência de uma polémica indemnização, de 500.000 €, despachada por WhattsApp! Mas se isto é assim num partido, todos os outros não oferecem um panorama mais animador.

O partido e o líder do partido mais combatido; que diz uma coisa hoje e no dia seguinte afirma o seu contrário, e que tem usado como bandeiras de campanha princípios que são objectivamente anticonstitucionais, é aquele que mais cresce nas intenções de votos!

Temos sido bombardeados com um número exagerado de debates, cujo formato é, no mínimo discutível (15minutos para cada participante). Depois seguem-se intermináveis horas de “opinadores” e especialistas, que dão umas notas obedecendo a critérios, eles próprios difíceis de compreender. Tem melhor performance o que fala mais, fala mais alto, interrompe mais, ou insulta mais! Promete-se tudo e a todos, mesmo quando essas promessas são impossíveis de encaixar do ponto de vista orçamental. Promete-se aquilo que antes se condenava.

O número de indecisos nos estudos de opinião que vão sendo conhecidos, vai aumentando a cada um que sai. Ou seja, quando mais o processo eleitoral avança, mais são os eleitores que não conseguem avaliar se a sua escolha pode ter algum significado nas suas vidas. Com pulverização do espectro partidário a escolha do eleitor parece tornar-se paradoxalmente mais complicada.

Com tanto paradoxo, corremos ainda o risco de fazermos uma boa escolha e obter o pior resultado, o que também não seria novidade.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

O CHEGA - QUEM ALIMENTOU O MONSTRO?

 

As recentes eleições nos Açores vieram uma vez mais demonstrar, e tal como se esperava, quem mais beneficiou com estado de descontentamento que se vive no país foi o CHEGA. Aliás, este é o tipo de alimento para os populismos e os radicalismos. Mas é também uma forma simplista de olhar para o problema. O crescimento deste partido, assenta em diversos factores.

O CHEGA não sendo um partido de Ideais é um partido de causas. Este fenómeno, além de muito mais cómodo, não requer muito trabalho, porque é permanentemente alimentado pelo sucessão de “casos e casinhos”, de que o nosso ambiente político partidário tem sido bastante fértil. Se juntarmos a isto um descontentamento generalizado que o português, e em particular a classe média, tem relativamente aos poderes instituídos., formam a onda em que cavalgam este tipo de organizações.

O partido Socialista tem dirigido o país nos últimos oito anos e, por vontade própria fartou-se de alimentar esta fogueira. Depois da demissão do governo, por um caso de corrupção, entendeu que a melhor forma da sua afirmação política, seria enfraquecendo o principal partido da oposição. A estratégia escolhida foi de colar o CHEGA, ao PSD. Por sua vez, o PSD sem uma liderança forte foi afastando da sua área ideológica todos aqueles que entendiam que o partido não dava a resposta que as situações impunham. Esta orientação não se alterou, mesmo quando o líder do PSD afirmou até à exaustão que “O não é não”.

Esta estratégia de enfraquecimento do PSD, fez com que Ventura, feliz e satisfeito, via o seu partido engordar. E já não só roubava votos ao PSD, como mesmo à esquerda. Imagine-se que mesmo no Alentejo profundo, feudo comunista por excelência, o CHEGA foi ganhando a simpatia dos descontentes! Recentes estudos de opinião revelam que as camadas mais jovens, normalmente arredados das questões da política nacional, vêem neste tipo de força política a resolução dos seus problemas. Pelo contrário, os ditos partidos tradicionais, arregimentam uma camada da população envelhecida e resignada com o Status Quo, seja porque não entende isto, seja porque receia a mudança.

A estratégia socialista parece não ter colhido frutos, pelo menos nos Açores. Os açorianos votaram sobretudo naquilo que não queriam. Os 24 anos de domínio socialista pelo Clã César, ainda estão muito presentes na memória dos açorianos. Os resultados destas eleições, muita gente afirma não ter nada a ver com as próximas eleições a 10 de Março, podem ter um efeito de contágio. No entanto, o panorama resultante das eleições açorianas desembocou nesta realidade: o PSD pode formar um governo minoritário. A apresentação do orçamento vai ser chumbado pelo CHEGA, a grande incógnita agora é saber a posição do PS: vota contra o orçamento ao lado do CHEGA, ou viabiliza este governo minoritário? Pelas declarações de Pedro Nuno Santos logo a seguir às eleições, não ficou muito claro que esteja disponível para mudar o discurso. O 10 de Março está aí à porta. O PSD tem a seu favor a circunstância de poder dispensar o apoio do CHEGA, para formar o próximo governo açoriano. Resta saber apenas se os resultados nos Açores poderem ou não ser replicados no Continente.

Quem alimentou o monstro – António Costa, Augusto Santos Silva e Pedro Nuno Santos colando-o ao PSD, têm agora de lidar com esta realidade. A estratégia adoptada não parece ter dado os resultados pretendidos, persistir na receita não parece ser muito aconselhável. Vamos aguardar para ver.