sexta-feira, 30 de junho de 2023

UM ADEUS AO PRESÍDIO

 

Talvez o mais correcto fosse enviar um adeus à Casa de Portugal e de Camões, mas a nossa memória colectiva associa mais facilmente o velhinho Presidio Militar de Santarém, como edifício emblemático da nossa cidade, e mais ainda, o local em que pela primeira vez, a nossa UTIS encontrou um local que conferia à sua actividade poder exercer o seu múnus com muita dignidade. É, pois, com um sentimento de alguma nostalgia que vamos largar um local onde, penso, todos nós fomos muito felizes.

O destino que as circunstâncias ditaram é, um não menos emblemático local da cidade – a ex-Escola Prática de Cavalaria. Tenho também uma ligação afectiva muito especial com este local, por ali ter terminado o meu curso de Oficial Miliciano, e onde até a data da minha mobilização para Timor, prestei o meu serviço militar. Também foi neste local que senti consolidar-se a responsabilidade de me tornar adulto, e começar a pensar na vida por um prisma em que a sensatez começava a tornar-se um imperativo, para a pouca responsabilidade que os jovens, habitualmente, trazem consigo.

Por tudo isto, esta mudança despertou em mim um misto de saudade e de esperança. Saudade de umas instalações que pareciam ter sido feitas de propósito para a finalidade que a UTIS desenvolve a sua actividade; e de esperança para que o novo local consiga oferecer, algo senão melhor, pelo menos igual ao que vamos deixar.

Estou certo de que todos os que têm responsabilidade nesta mudança, estão cientes do desafio. Por isso, e tendo em conta algo que se dizia aos cadetes quando chegavam à EPC: “ser cavaleiro não é melhor nem pior, é apenas diferente”, seja o prenúncio que vamos abrir a porta do futuro da UTIS. Ela irá confrontar-nos com uma realidade diferente certamente, à qual todos temos de nos adaptar. Vamos, todos em conjunto pugnar para que ela possa ser melhor do que aquilo que já conhecemos. Está nas nossas mãos realizar esta tarefa.

O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.

Fernando Pessoa

Nesta altura de interrupção das nossas actividades, quero desejar a todos umas excelentes férias a aguardar ansiosamente pela nossa nova casa.

 

sexta-feira, 2 de junho de 2023

A BANALIZAÇÃO DO SIS

 
Chuva Molha Parvos - HenriCartoon

Vivemos nas últimas semanas, a um triste espectáculo que envolveram um indesejado ministro da república, uma chefe de gabinete, um adjunto, um secretário de estado da presidência do conselho de ministros, uma ministra da justiça e um primeiro-ministro, para além dos serviços de informação da república – leia-se secretas! Tudo isto teve origem num lamentável episódio que envolveu um simples adjunto do dito ministro, um ajunto, que tinha o péssimo hábito de tomar notas de todas as reuniões onde participava, e eram muitas e um computador. A maioria das quais, estavam relacionadas com um Plano de Restruturação de uma Companhia Aérea, sobre a qual pendia uma CPI (comissão parlamentar de inquérito), que investigava uma indemnização milionária a uma ex-colaboradora da dita companhia. Ora o dito adjunto, na iminência de poder ser chamado à dita CPI, informou o seu superior que tinha umas notas que se tivesse de ser chamado a depor teria de as divulgar. Perante isto o ministro que assessorava, despediu-o rapidamente, e por telefone. Em face disto, o dito adjunto apressou-se a ir ao ministério recolher o malfadado PC, para recolher as tão badaladas notas das reuniões e, provavelmente, mais alguma coisa… Eis senão quando, a chefe de gabinete tenta retirar o computador ao adjunto numa cena de pancadaria, vidros partidos e uma bicicleta à mistura. Há gente que se fecha nas casas de banho e é ordenado que o ministério seja encerrado. Entretanto, o adjunto chama a PSP por se considerar refém. Chega a PSP, liberta o adjunto e ele vai para casa. Entretanto, é chamado o SIS para recuperar o PC (?), alegadamente por possuir informação classificada, que apesar disto, andava na mochila do dito adjunto quando este a transportava pelas ruas de Lisboa, sem que alguém tivesse disso dado boa conta.

Na descrição deste enredo tentei que fosse o mais breve e livre de floreados, para que tudo se possa perceber facilmente, e sem ideias pré-concebidas sobre quem tem razão em todo este processo. Apesar dos lamentáveis incidentes registados, aquilo que tem indignado e surpreendido os portugueses é o envolvimento das secretas para recuperar um PC!

Ora por causa disto, a CPI, que estava a tratar de uma coisa, tem servido para tratar de outra, na tentativa de perceber o que se havia passado naquele ministério. Os inquiridores têm tentado perceber duas coisas muito simples: primeiro - o porquê do envolvimento das secretas para executar um serviço de polícia, segundo – quem deu a ordem para tal intervenção.

Com isto temos assistido a um jogo do gato e do rato, em que do lado dos inquiridores uma tentativa de desenhar uma linha do tempo, onde se saiba as diligências efectuadas, e quem ordenou a intervenção do SIS. Como aparentemente, nada justificava a tal intervenção, vamos assistindo a uma intricada teia de argumentos em que ninguém quer assumir qualquer tipo de responsabilidade. Mas, entretanto, o chefe deste bando, arranjou, a solução milagrosa: que a chefe de gabinete, ao ter presenciado o “roubo” de um equipamento que continha material classificado, fez o que lhe competia – chamar o SIS! Diga-se que da parte do SIS, nada se sabe quanto à justificação para realizar um mero trabalho de polícia.

Ontem fiz uma analogia sobre o facto que a chefe de gabinete parecer neste caso o mexilhão… Fui apelidado de ingénuo. É provável, que eu olhe para tudo isto com um nível de exigência que devem ter os eleitos, que não está de acordo com a mediocridade que vamos observando nos ditos cujos. A banalização que atingiu a praxis e as decisões dos políticos que  nos governam, tenho alguma dificuldade em aceitar. “À mulher de César não lhe basta ser séria, tem também de parecer”, não seja mais do que um simples romantismo, próprio de um ingénuo como eu. Já não tenho idade para mudar, até porque, continuo a pensar, que tudo o que a este respeito se tem observado é uma vergonha.