sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

AMAZING GRACE

 

“Amazing Grace” (Graça Maravilhosa) é uma música inconfundível e faz parte do repertório de muitos bons e reconhecidos artistas, e tem sido adoptada quase como um hino por várias sensibilidades cristãs. Sempre tive alguma curiosidade em tentar perceber a sua origem e quem a compôs. Ouvi em tempos contar uma história que havia sido trazida por escravos africanos como um lamento à sua condição, e que posteriormente integrada no processo de cristianização americana.

Por aquilo que consegui descobrir, existe algum resquício de verdade, mas que poderá levantar algumas dúvidas. De facto, a melodia parece ter sido composta por um ex-traficante de escravos, de seu nome John Newton. Ou seja, teria ouvido a melodia como um canto de lamento dos escravos, e que mais tarde tenha apenas acrescentado a letra com uma mensagem tão profunda perdão e redenção que toca todos os que a escutam. Penso legítimo aceitar-se que poderá haver algo de verdade nesta última explicação.

John Newton era filho de um capitão da Marinha Britânica e que almejava para o filho uma carreira militar ao serviço da coroa. Na sua adolescência John Newton revelou uma forte rebeldia que obrigou o pai a enviá-lo para um colégio interno em Inglaterra. Esta rebeldia pode ser explicada pelo facto da sua mãe, Elizabeth Seatclife, ter morrido de tuberculose quando ele tinha apenas 6 anos. Pouco tempo depois o seu pai casou-se novamente, e desse matrimónio nasce um filho. John lamentava-se da atenção do pai e da madrasta serem concentradas no seu irmão. Talvez a ausência de um amparo maternal, pode justificar a rebeldia e o inconformismo que ele sempre mostrou. Os seus mestres na adolescência referiam que ele revelava uma “insubordinação recalcitrante”.

Aos 11 anos faz a sua primeira viagem com o seu pai. E até aos 19 anos toda a sua vivência e feita no ambiente e companhia de marinheiros, onde aprendeu a arte de navegar. Findo este tempo é alistado à força na Marinha Britânica. Mais tarde, e após deixar a marinha, ele tomou parte no comércio de escravos. Numa destas viagens uma violenta tempestade fez seu navio bater violentamente e encalhar junto à costa irlandesa. No meio desta tormenta, ele implorou a Deus por misericórdia. Esse momento marcou sua conversão espiritual, mas apesar disso, continuou no comércio de escravos até 1754, quando abandonou definitivamente a vida do mar.

Até este momento crucial nunca tenha revelado qualquer convicção religiosa, mas a partir daí interessou-se por teologia. Cerca de 10 anos depois é ordenado pastor da Igreja Anglicana e começa a compor os seus hinos com o poeta William Cowper. “Amazing Grace” foi composta para ilustrar um sermão. Não existe conhecimento de que a melodia ter sido composta por ele, ou se efectivamente, teria registado de memória a melodia. Em 1835, o compositor americano William Walker deu-lhe a forma que chegou até aos nossos dias. Apesar de ser uma música originariamente inglesa, foi adoptada pelo movimento folk americano, onde ganhou a notoriedade que hoje lhe é reconhecida.

A dúvida sobre a paternidade de tão bonita melodia vai persistir por muito tempo ainda. Talvez seja esta a razão da sua aceitação universal.  Das muitas interpretações que se conhece de "Amazing Grace", as que mais gosto são as de: Aretha Franklin, Elvis Presley, Eta James, Peter Hollens, Diana Ross e Johnny Cash. Escolhi a versão deste último.


quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

O NATAL DA MINHA INFÂNCIA

 

Nesta altura do ano, não há como não sentir a nostalgia que o Natal da nossa infância nos remete. Particularmente o Natal em São Miguel, envolvia uma série de costumes e era marcado por tradições locais, que faziam desta festa, uma verdadeira comunhão familiar. A minha mãe, enquanto foi viva, liderava este acontecimento que envolvia toda a família, já de si muito numerosa e que juntava, para além de nós, os tios e os primos. A preparação da festa propriamente dita compunha-se de uma série de rituais (muitos deles ainda permanecem), para que nada faltasse a um acontecimento que envolvia toda a gente e muito em particular a miudagem.

Pela sua singularidade, gostava de enumerar alguns:

·      OS LICORES – Todas as donas de casa, alguns meses antes procediam à elaboração de licores, que iriam servir ao ritual do “O menino mija?”, bem como todos os eventos natalícios. Eram feitos de velhas receitas passadas de geração em geração. Os licores de leite e de tangerina da minha mãe era uma especialidade;

·      A ÁRVORE DE NATAL – por volta de meados de Dezembro era hábito ir-se ao Mercado da Graça comprar a Árvore de Natal. Escolhia-se sempre uma árvore de criptoméria, o mais bonita possível e com uma altura que quase tocasse o tecto. Era montada num canto da sala e por baixo dela “armava-se” o presépio. A árvore era enfeitada com alguns adereços alusivos e com os postais de Boas Festas que iam chegando.

·      IR AO MUSGO – Pouco antes da feitura dos presépios as crianças iam à procura do musgo, da leiva e de pedra basáltica, elementos essências para “armar” e decorar o presépio;

·      O PRESÈPIO – Tentava-se que fosse bem grande porque eram muitas as representações que tinham forçosamente de aparecer: Com destaque para a Sagrada Família, da gruta de Belém, dos pastores e dos Reis Magos (em que diariamente se iam aproximando da gruta). Estavam representadas também, cenas do quotidiano da vida micaelense como: a matança do porco, o lago feito com um espelho, as cascatas(salto), a procissão, a banda da música, os foliões, os lavradores, as casinhas, os moinhos, as vacas, etc. Todos estes bonecos eram feitos de barro pintado na Lagoa e, posteriormente, eram cuidadosamente embrulhados em papel de jornal para o ano seguinte.

·      DIA DAS MONTRAS – é tradição em Ponta Delgada haver um Exposição e Concurso de Montras pelo comércio micaelense. E era também neste dia que eram inauguradas as iluminações públicas do Natal. A pequenada aproveitava para pedir ao Menino Jesus as prendinhas que gostavam. Era feita uma cartinha e depositada numa papelaria na baixa de Ponta Delgada especializada em brinquedos;

·      O TRIGO E A ERVILHACA – No dia 13 de Dezembro, dia de Santa Luzia, eram feitas “plantações” de sementes de trico e ervilhaca e pequenas taças para atingirem o tamanho ideal e serem dispostos à volta do presépio e em outros locais da casa. Este costume constitui um rito, para que nunca falte pão em casa.

·      O MENINO MIJA? – é uma tradição muito antiga e que basicamente consistia em bater-se à parte dos amigos, vizinhos e familiares, e perguntar: o Menino mija? A dona da casa convida à entrada e na mesa da sala estavam sempre: figos passados e recheados, nozes, alfarroba, amendoins e os já referidos licores. Actualmente esta tradição serve para juntar os amigos para um convívio previamente combinado e muito menos ritualizado.

·      A MISSA DO GALO – Era obrigatório toda a família participar nesta festa religiosa. E só depois é que era servida a ceia de Natal e distribuídos os presentes;

·      A CEIA DE NATAL – Não existia uma tradição rígida sobre a ceia de Natal. O bacalhau com todos era a mais usual. Na minha casa era tradição o peru assado no forno, porque a família era presenteada nesta época com os ditos perus.  Era assado por um profissional amigo da família. Os doces mais vulgares era as fatias douradas, o bolo inglês e o bolo de ananás, as rosas do Egipto, e as malassadas.

·      DIA DE REIS – No dia de Reis, faziam-se deslocar os Reis Magos para junto da Gruta. No dia seguinte procedia-se à desmontagem e acondicionamento de todas as figuras do presépio.

·      CANTAR OS REIS - Acompanhados por instrumentos musicais, grupos de amigos e conhecidos (reiseiros) vão de casa em casa entoando cantigas em que se deseja Boas Festas e um feliz Ano Novo e se pede um donativo. São cantadas quadras alusivas à data e outras enaltecendo os donos da casa;

Nesta altura do ano o espírito natalício perdura, mas as será impossível recriar um Natal como se fazia naqueles tempos. A realidade actual torna mais difícil todo este envolvimento e sentimento de partilha e comunhão. A nostalgia do Natal em São Miguel, está profundamente enraizada nas suas tradições culturais, religiosas e sociais. É uma época para celebrar, recordar tradições antigas e entes queridos. Que este espírito nunca se perca são os meus votos de Umas Festas Felizes a todos os que visitam este Blog.

sábado, 16 de dezembro de 2023

PEDRO NUNO SANTOS ESTARÁ PREPARADO?

 

Pedro Nuno Santos foi a escolha do PS para disputar as próximas eleições marcadas para Março. Sabemos pela sua boca que é oriundo de uma modesta e humilde família de São João da Madeira, cujo avô era um simples sapateiro. Já o pai, um abastado industrial de calçado, não faz muitas referências, apesar de no início da sua actividade política não se coibir de se passear ao volante de um potente Maserati Quattroporte, emprestado pelo papá bem-sucedido. Também parece que comprou, e vendeu à pressa um Porshe 911, por pura incongruência partidária e ideológica.

No seu curriculum político apresenta muitas e variadas qualidades. Entre elas destaca-se a sua competência, inconformismo, combatividade e determinação. Foi também a ele que António Costa recorreu quando necessitou de arranjar uma solução para resolver o seu desaire eleitoral de 2015. Acredito que a formação da geringonça tenha sido uma criação de António Costa, mas o verdadeiro obreiro daquela solução foi Pedro Nuno Santos. Talvez por isso, agora assuma com igual determinação que, se necessitar, será uma solução para repetir. Mas esta colagem à esquerda, não o impede de agora se afirmar social-democrata! Ou não estivessem as eleições aí à porta.

Igualmente são muitos os seus defeitos, talvez até consequência das suas qualidades. Ou seja, a sua natural impulsividade impede-lhe de ter a noção das responsabilidades, e a calma e da ponderação exigidos a um estadista, coisa que manifestamente não é. Veja-se a sua precipitação na escolha da localização do aeroporto, à revelia do primeiro-ministro. Teve de passar pela humilhação pública de ter de dar o dito por não dito. Igualmente a nomeação de Miguel Frasquilho para presidente do Concelho de Administração da TAP, mereceu a reprovação de António Costa, e a decisão teve de ser revertida. A embrulhada que envolveu a demissão de Alexandra Reis (não se lembrava), e a milionária indemnização foi despachada por mensagens de WattsApp! Para alguém de origens humildes, despachar meio milhão de € por mensagem não parece muito razoável. A sua mulher Ana Catarina Gamboa, foi nomeada chefe de gabinete do secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro. Esta nomeação mereceu da parte de PNS a maior indiferença. A compra das carruagens a Espanha (carregadas de amianto), mereceram-lhe o epíteto de ministro “sucateiro”, e a solução foi apresentada como muito boa porque: “A remoção do amianto é um procedimento técnico muito fácil”! A divulgação de uma gravação de uma conversa privada com um alto cargo da Grandforce e os “mimos” trocados com o CEO da Ryanair, são mais alguns aspectos da personalidade de alguém que quer ser primeiro-ministro de Portugal. "O combate à corrupção constitui uma tarefa prioritária indeclinável do Estado", foi uma insistente afirmação de campanha. Caso para perguntar, porque não se empenhou neste combate nos anos que levou como membro do governo, ou mais recentemente como deputado?

Estou convencido que as próximas eleições vão ser disputadas de uma forma muito mediatizada e, deste ponto de vista, PNS não está à vontade num debate olhos nos olhos. Nota-se um repentismo atabalhoado nas suas respostas que lhe irá ser prejudicial nos tempos que agora se avizinham. Será que se vai furtar a debates com os seus oponentes durante a campanha, tal como fez nas eleições internas do PS. Não há intervenção na campanha em que não assuste com o “estafado” cortes nas pensões. Pelo contrário, não pestanejou ao torrar 3,2 MM de euros na TAP. E, já agora, quando os iremos recuperar?

Será que iremos ter um primeiro-ministro que irá despachar os enormes desígnios que o cargo acarreta, da mesma forma que decidiu a localização do aeroporto? Será que os despachos continuarão de ser efectuados por SMS (Short Message Service)?

Quanto ao futuro imediato e naquilo que preocupa os cidadãos: o caos no SNS, as lutas dos médicos e dos enfermeiros, a crise na habitação, o estado de carência da escola pública – NADA! Subitamente mostrou-se disponível para atender à recuperação do tempo de serviços dos professores (!?!) Para rematar, Pedro Nuno Santos também se converteu ao mantra das contas certas. Mas as contas certas que nos deram nos últimos 8 anos, foram conseguidas com as fabulosas cativações que conduziram à falência do tão apregoado Estado Social, apesar de uma conjuntura económica muito favorável, e do conforto de uma maioria absoluta. Ou então vai cumprir a promessa antiga: “… não pagamos. Ou os senhores se põem finos, ou não pagamos!”

É bom que os eleitores pensem nisto quando forem votar. Eu por mim, não tenho qualquer tipo de dúvidas.