Já aqui escrevi que a história não se pode apagar. E é olhando para o passado que conseguimos, viver o presente, construir o futuro e, especialmente, evitar todos os erros cometidos. Isto tem ainda mais significado no caso de Otelo Saraiva de Carvalho que, num curto período da nossa vida colectiva, conseguiu congregar em si, o melhor e o pior de um herói.
Quis deixar passar algum tempo, e
mesmo assim, questionei-me sobre a utilidade deste meu escrito, por considerar
que a maioria dos defensores e/ou detractores de Otelo Saraiva de Carvalho,
assentam as suas opiniões, mais com base em convicções ideológicas, do que numa
análise serena sobre o percurso deste capitão de Abril. As opiniões plasmadas
neste blog, nunca tiveram a pretensão de influenciar o pensamento de quem quer
que seja, mas tão somente, um desabafo sobre a minha visão dos acontecimentos. Mas a quantidade de opiniões emitidas a
glorificar ou a condenar este capitão de Abril, levaram-me e fazer a minha
análise, desse período determinante das nossas vidas, neste Portugal
democrático.
O 25 de Abril apanha-me no início
da minha vida profissional, e pouco tempo depois de ter terminado o serviço
militar com uma comissão em Timor. A viagem de ida e volta para Timor,
permitiu-me conhecer vários países, e em continentes diferentes e adquirir uma
nova consciência para aquilo que via em Portugal. Trabalhava nessa altura, numa
empresa de capitais estrangeiros, com a responsabilidade de uma exploração
agrícola, algures entre Santarém e o Cartaxo. Lembro-me de, na minha roda de
amigos, termos comentado o abortado golpe do 15 de Março, como uma oportunidade
perdida, de dar à volta a um país estagnado.
Otelo é tido por muitos como o
estratega da revolução, e muitos outros (onde eu me incluo), atribuem este
desígnio a Melo Antunes, por ser um militar muito mais politizado e com uma
maior bagagem intelectual. Otelo foi por outro lado, o operacional que concebeu
e implementou um “plano de operações” vitorioso, elaborado na clandestinidade,
e arregimentando em torno de si os elementos necessário para o concretizar.
Este mérito ninguém lho pode retirar. E foi graças ao Movimento dos Capitães
que todos nós podemos viver em liberdade e num regime democrático. Esta é a
faceta heróica de Otelo Saraiva de Carvalho.
A partir deste momento, Otelo
ganhou uma importância política e militar que penso que nem ele próprio
esperaria tanto. Deslumbrou-se com o poder. Formou o COPCON - uma entidade de
poder absoluto sobre toda a estrutura militar. Deixou-se embarcar num delírio
revolucionário, conduzindo o país para muito próximo de uma guerra civil. Todos
aqueles que viveram o Verão Quente de 1975, perceberam que os ideais do Movimento
dos Capitães, não estavam a ser cumpridos. A título de exemplo, eu fazia diariamente
um percurso de 8 km numa estrada nacional, e era parado 3 vezes no caminho por “piquetes
revolucionários”, armados de bastões e correntes, sem qualquer identificação
oficial, revistavam os automóveis e não se coibiam de proferir ameaças
objectivas, sempre que demonstrássemos qualquer sentimento de incómodo perante
tal situação. Vivia em permanente sobressalto pela generalizada ocupação de
explorações agrícolas, que dia após dia aconteciam em explorações vizinhas,
apenas por serem rentáveis ou pertencentes a “contra-revolucionários”.
Não conseguiu resistir ao
chamamento político e promoveu muitas acções que, serão no mínimo, condenáveis num
país que se queria democrático. Os mandatos em branco, a sua ligação ás FP – 25
de Abril; os assassinatos políticos (cerca de uma vintena), tão condenáveis
como os cometidos pelo MDLP, e que o conduziram à sua condenação e prisão, como
mentor deste grupo terrorista. O 25 de Novembro, representou alguma esperança
de que as coisas pudessem seguir um caminho que estaria nos princípios do
Movimento dos Capitães, com o regresso dos militares aos quarteis e o retorno
aos princípios democráticos. Hoje em dia falar na importância do 25 Novembro, parece
constituir um anátema contra-revolucionário.
A amnistia que lhe foi atribuída
por Mário Soares, parece-me ter sido concedida mais como uma forma de retribuir
alguma dignidade ao operacional do 25 de Abril, do que um perdão sobre os
crimes por que foi condenado.
Por oposição, Salgueiro Maia
nunca se deslumbrou com o protagonismo no 25 de Abril. Tive o privilégio de ter
privado com ele alguns anos antes, e tenho que lhe reconhecer uma estatura
moral digna de um autêntico herói. Fico triste por verificar que Salgueiro Maia
foi ignorado, abandonado com a complacência de muitos camaradas de armas, ao
mesmo tempo que se glorifica alguém que, apesar de todo o heroísmo, teve as mãos
sujas de sangue.
A pergunta que me questiono é:
Otelo passou pela vida dos portugueses como herói, ou vilão? Sinceramente não
tenho a resposta definitiva. Faço, porém, o seguinte exercício: coloco num dos
partos da balança (do herói) o seu contributo incontornável para o sucesso da Revolução
dos Cravos e para o que ela significou, como sinal de esperança, para um jovem
com pouco mais de vinte anos. Do outro (do vilão), todos os desmandos por ele
cometidos. Não consigo ver a balança equilibrada, e o prato do vilão está muito
mais pesado, do que o prato do herói. Outros, tal como eu, têm a liberdade de
ver, exactamente, o contrário. Isso não pode fazer de cada um que defenda uma,
ou outra opinião, nem patriota, nem contra-revolucionário.
Que descanse em paz.