quarta-feira, 27 de março de 2024

UMA TRISTE FIGURA NA ELEIÇÃO DA 2ª FIGURA DO ESTADO


Muitos como eu, ficaram satisfeitos com os recentes resultados eleitorais. O país estava farto de ver a forma autoritária como o PS governou, e mais ainda como desbarataram a confortável maioria parlamentar que dispunham.

A AD, com um score eleitoral minoritário, teria boas razões para ser especialmente cuidadosa para conseguir um apoio parlamentar que lhe permitisse, entre outras coisas, capitalizar o excedente orçamental deixado pelo governo socialista. Todos sabemos que esse excedente foi conseguido, de forma directa pela inflação, e de forma indirecta pelas engenharias financeiras, leia-se cativações. Também não custa muito acreditar que o PS, lhes tenham perspectivado uma utilização eleitoralista para as próximas eleições europeias e autárquicas, assim o governo não tivesse caído.

Luís Montenegro, por ingenuidade ou incompetência, não conseguiu manter o mantra do “não é não”, para além do primeiro desafio político, como é o caso da eleição do presidente da Assembleia da República. Era por demais evidente, que acordos com o CHEGA, só serão para cumprir, quando isso lhes der jeito. Se o que André Ventura referiu com “acordo”, ou “entendimento”, só poderia ter algum significado se tivesse sido assumido por todos. Aliás, nada de novo num sistema parlamentar, e particularmente quando se governa em minoria. Entendimentos pontuais, não surpreendem, quando realizados de forma clara e cristalina, o que não foi o caso. Também em matéria como a eleição do presidente da Assembleia da República, só faria algum sentido com conversações prévias entre o PS e o PSD. Estes, além da maior representação parlamentar, são respeitadores das tradições parlamentares, e com isto teriam poupado o espectáculo pouco edificante a que ontem assistimos.

Vários comentadores apontavam como principal culpado André Ventura, pelas cenas pouco edificantes a que ontem assistimos, mas a mim parece-me que o principal culpado foi Luís Montenegro. Por ingenuidade ou inabilidade política, caiu na armadilha de escolher o parceiro errado.

Mandou o bom senso que, após três tentativas falhadas, se tivesse arranjado uma solução inovadora, ou mesmo criativa de uma presidência rotativa entre os dois principais partidos. Aparentemente esta solução vai resolver o impasse criado. Assim, Pedro Aguiar Branco, embora fragilizado, seja capaz de tomar as rédeas dos trabalhos parlamentares de forma digna. O CHEGA não lhe vai facilitar a vida, isto é mais do que evidente.

Importa ainda meditar sobre a importância no equilíbrio parlamentar que um partido como o CHEGA vai protagonizar nesta legislatura. Toda esta encenação remete-nos para um partido anti-sistema, e que só pode ser vencido, não o ignorando, e apresentando as fragilidades do populismo com propostas credíveis e negociadas com os parceiros parlamentares credíveis. Também se percebeu que o CHEGA pretende esticar a corda de forma a bloquear tudo o que lhe possa dar benefícios eleitorais. Pelos vistos, a próximo orçamento vai exigir um entendimento com o PS, sob pena de termos de ser chamados, de novo, a eleições antecipadas. E só um partido pode beneficiar deste chumbo. E já ontem foi dado o primeiro passo neste sentido.

O PSD, para quem está ávido de poder, fez asneira da grossa. Não satisfeito com isto, a primeira intervenção de Joaquim Miranda Sarmento, foi no mínimo desastrosa. Luís Montenegro tem muito a aprender deste malfadado episódio. Se não puser ordem na casa, também não é merecedor da vantagem que obteve.


terça-feira, 19 de março de 2024

ELEIÇÕES ANTECIPADAS – NINGUÉM AS QUER

 

Se na minha última publicação, logo a seguir aos resultados eleitorais, antevia como muito óbvia a possibilidade de novas eleições lá para o final do ano, passados que são alguns dias sobre esse acto, e mesmo antes de se saber exactamente quem efectivamente, teve o maior número de votos, não estou tão seguro disso. E a razão desta mudança deve-se ao facto de ter prestado alguma atenção ao que os partidos vão afirmando, e mais ainda, porque entender que, precipitar o país num outro processo eleitoral podia penalizar severamente todos os partidos. Para além do mais, enviar o país para mais um processo eleitoral é um ónus que ninguém deseja protagonizar.

Se começarmos pelo PSD, pese embora o facto de ter feito uma boa campanha, não conseguiu, apesar disso, beneficiar dum resultado muito animador. Por isso, não iria querer sujeitar-se de novo, a um plebiscito por não ser seguro que iria obter um resultado particularmente melhor do anterior.

Quanto ao PS, e levando em linha de conta o número de vozes que têm aconselhado a alguma condescendência com Luís Montenegro, porque se a iniciativa de derrubar este governo partisse do PS este seria certamente penalizado por tal iniciativa. E um outro desaire eleitoral seria desastroso para Pedro Nuno Santos.

No caso do CHEGA, embora a narrativa seja de que uma nova eleição só o podia beneficiar, não estou tão seguro disso. Até porque os 48 deputados eleitos não primam, nem pela experiência, nem pela qualidade. Ou seja, com um número tão elevado André Ventura vai forçosamente ter de se desmultiplicar, para acudir às mais do que prováveis gafes que este irão cometer. As mais do que prováveis dissidências internas serão outra face da mesma moeda. O fulgurante crescimento do partido em tão pouco tempo, pode ser apelativo para o CHEGA. Será que irá arriscar? Não sei.

No caso da Iniciativa Liberal, é talvez o caso mais difícil de perceber. No entanto, não se percebe como é que poderia lucrar se tivesse de ir de novo a votos. Esperava-se um pouco mais deste partido nas últimas Legislativas, não parece que um novo escrutínio pudesse melhorar o score anterior.

Quanto aos outros partidos mais pequenos, e levando em linha de conta, o presente desaire eleitoral, são aqueles que menos teriam a aproveitar. Embora o discurso oficial seja de grande empenhamento político, a sua crescente insignificância, é no caso presente ainda mais evidente, uma vez que na aritmética parlamentar já vão contar para muito pouco.

Claro que toda esta argumentação, assenta na percepção do que se vai ouvindo e lendo, e mesmo sem que os principais protagonistas ainda se tenham pronunciado sobre esta eventualidade. Mas não me parece que a realidade esteja muito distante deste raciocínio. Já para não falar que os eleitores demonstraram que não estar dispostos de serem usado a bel-prazer de uma classe política, que pouco fez pelo cidadão eleitor, e que não tem muito apresentar no que diz respeito às suas reais condições de vida.

Vamos aguardar!

 

terça-feira, 12 de março de 2024

A VITÒRIA DO CHEGA

 

A classe política portuguesa foi incapaz de lidar com o fenómeno CHEGA. Adoptou, invariavelmente a atitude sobranceira de desvalorizar o seu mentor, quer do ponto de vista moral, mas sobretudo do ponto de vista político. Se no primeiro caso cada um é livre de pensar, sobretudo quando estão em causa valores que defendemos; do ponto de vista político, é preciso estar atento àquilo que se observa ao nosso redor.

Sendo assim, o fracasso da governação dos partidos do “arco da governação”, estiveram sempre mais preocupadas em servir as suas clientelas, do que resolver os problemas do país e, sobretudo, os problemas das pessoas. Os últimos 8 anos de governação socialista, são disto um exemplo clamoroso. Não deve haver na história mais recente, pelo que seja do meu conhecimento, outro exemplo de uma confortável maioria parlamentar, uma muito favorável situação conjuntural, o superavit, apesar de alguns factores negativos (a inflação e as guerras na Ucrânia e em Gaza), desbaratar todo esse património, é de loucos!

Mas se isto já é mau, pior ainda é mostrar total insensibilidade aos inúmeros problemas que o país se viu confrontado. Áreas como a Justiça, a Saúde, a Ferrovia, a Habitação, a TAP, os inúmeros problemas sindicais, apenas para enumerar os mais prementes, foram sempre desvalorizadas pelo poder político. A juventude também se viu abandonada e prejudicada pelo facto de uma maior e melhor qualificação académica, não corresponder a uma esperança numa vida melhor. Se Passos Coelho não se coibiu de mandar os jovens emigrar, agora são eles que se põem a caminho sem ninguém os mandar. Talvez estejam menos piegas, ou talvez abriram os olhos.

Sociologicamente os resultados alcançados apontam para uma preferência junto das classes mais desfavorecidas, para o interior esquecido (veja-se o caso do Alentejo e Algarve), as zonas periféricas dos grandes centros urbanos e a juventude. A esquerda referia, sistematicamente que o CHEGA era financiado pelas grande e ricas famílias portuguesas, o que é verdade. Mas pelo que é possível observar nos resultados, este argumento não colou. Pedro Nuno Santos, apesar da sua impulsividade percebeu a importância do score alcançado pelo CHEGA. Quer fazer uma oposição robusta a este governo, mas parece-me bem que pelo menos irá garantir a formação do governo. O problema irá ser o orçamento, que me custa a acreditar que o PS o possa viabilizar. Por isso, o cenário de novas eleições para o princípio do próximo ano é mais do que provável. Se isto for verdade, como irão reagir os eleitores?

Estas eleições revelaram o voto de protesto a uma esquerda “caviar” que não quis perceber o que se passava à sua volta. Que fez ouvidos moucos aos protestos e que agora, parece também não querer compreender que as coisas mudaram. O CHEGA, quer se goste, quer se não goste é agora o elefante na sala. Os 48 deputados vão fazer toda a diferença quer para a direita, quer para a esquerda. Ignorar esta realidade, é dar a arma ao bandido.

A dúvida que me assola é se a nova correlação de forças tem condições para conseguir governar com alguma estabilidade. Não consigo imaginar que tipo de conversas possa haver com este partido, que se vai tornar na verdadeira charneira no parlamento, seja à direita, seja à esquerda. Ignorar a sua existência não me parece recomendável, sob pena de numas futuras e mais que prováveis eleições antecipadas, este se possa tornar na primeira ou segunda força política. Com 4 milhões de euros anuais de financiamento. Com uma presença assídua e constante nas redes sociais, independentemente da veracidade da mensagem veiculada, quem e como se vai segurar o seu crescimento? Quem souber que diga.

domingo, 10 de março de 2024

LEGISLATIVAS 2024 - UMA DERROTA ANUNCIADA

 

Fomos antecipadamente chamados a eleições legislativas porque um governo de maioria absoluta, se viu envolvido numa série de casos e casinhos; com mais de uma dezena de demissões em pouco mais de um ano, e como se isto ainda não bastasse, viu o seu primeiro-ministro sentir-se na obrigação de apresentar a sua demissão na sequência de um caso de polícia, que ocorreu num gabinete contíguo ao seu e onde estava envolvido o seu melhor amigo e seu homem de confiança!

Todas as forças políticas viram-se na necessidade de arregimentar forças e ir à luta. O PS foi a directas com dois dos seus militantes: José Luís Carneiro e Pedro Nuno Santos (PNS). É preciso referir que era voz corrente que PNS, não era a preferência de António Costa para dar continuidade ao seu projecto, para além de se ter demitido pelas broncas que protagonizou enquanto fazia parte do governo. Essas directas foram ganhas por PNS e os eleitores foram confrontados com o seguinte dilema: se PNS se demitiu por não ter cumprido as orientações do primeiro-ministro, iria servir agora como candidato nestas legislativas para alcançar aquele lugar? Mais ainda, na sequência da demissão de António Costa, este apresentou ao presidente da república como solução de continuidade e sem necessidade de eleições, o nome de Mário Centeno e não PNS. É no mínimo difícil de entender! E quase de certeza que vamos ouvir que a culpa de tal resultado, ou foi do Passos, ou da comunicação social.

Destas eleições podemos retirar algumas ilações:

Os portugueses queriam e manifestaram uma vontade de mudar. Essa mudança consubstanciou-se na penalização do PS e numa subida objectiva dos outros partidos, nomeadamente o PSD, a IL, o LIVRE e o CHEGA.

O CHEGA obteve o score que as projecções iniciais mostravam, mas mesmo assim obteve um resultado histórico e, pode agradecer isso ao PS, a António Costa, a Augusto Santos Silva e a PNS, numa repetida intenção de colar este partido ao PSD para o enfraquecer. Pelos vistos não resultou. Ninguém sabe exactamente o que este partido irá fazer, mas vamos ter certamente, uma Assembleia da República muito mais ruidosa. André Ventura conseguiu aquilo que queria. Ou seja, ser indispensável para a formação de um governo seja ele qual for!

PNS teve durante toda a campanha fez um percurso errático e reactivo, enquanto Luís Montenegro adoptou um estilo mais sereno e sem abdicar do rumo que traçou ao longo de toda a campanha. Se PNS suavizou o discurso vigoroso que o caracteriza, e cedo se apercebeu que aquilo soava a falso e, rapidamente, reverteu ao seu estilo natural. Nem o estafado mantra do Passos convenceu os indecisos. E o mote da campanha - Portugal Inteiro, vindo de quem deixou em cacos tudo onde interveio, não foi muito feliz. Teve alguma dificuldade em afastar-se do legado de António Costa, mas referia, frequentemente, que não podíamos “arrastar os pés”, uma crítica velada a esse mesmo legado.

Os partidos à esquerda, com a excepção do LIVRE, adoptaram o discurso habitual da cassete e não ofereciam nada de substancialmente diferente.

Estas legislativas representaram alguns aspectos dignos de registo especial: no facto dos portugueses não ficaram indiferentes ao que nos conduziu a este processo eleitoral, e manifestaram-se massivamente, baixando assim o nível de abstenção. Igualmente de salientar o facto de muitos jovens terem ido votar, o que também é inédito e compreensível.

Outro aspecto digno de realce é que, quer a AD, quer o PS, não conseguem formar um governo com alguma estabilidade junto do seu espectro ideológico. Isto se, o “não é não” de Luís Montenegro for para manter. au seja, destas eleições apenas houve um vencedor, todos os outros ou perderam, ou tiveram um resultado pífio. Mesmo a AD, que elegeu o maior número de deputados, vai ter muita dificuldade em governar. Qualquer arranjo te que, forçosamente de contar com o CHEGA, e isso não é bom.

Segundo diz Joaquim Aguiar: “o povo tem sempre razão, mesmo quando não sabe a razão que tem” aplica-se que nem uma luva à situação actual. Ou seja, o povo foi obrigado a ir a eleições e a forma que teve de fazer sentir o seu desagrado, foi através do voto popular numa manifesta afirmação de mudança.

Uma nota final, num sistema democrático, as eleições não servem apenas para eleger os melhores, mas fundamentalmente, para derrubar os piores. Será que desta vez faz sentido?