segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

GOUVEIA E MELO DEIXOU-SE TENTAR?

 

Já uma vez aqui elogiei a acção do Vice-almirante Gouveia e Melo. Link Nesse escrito tive sempre o cuidado de referir aquilo que, do meu ponto de vista, não representava nada de extraordinário, apenas aplicou no desenvolvimento da sua acção aquilo que são as regras de uma boa gestão. Comunicou bem, com assertividade e clareza. Não exigiu mais meios, para além do que estavam alocados.  Foi rigoroso e exigente. Pediu responsabilidade, quando o momento assim o exigiu. Não arranjou desculpas sempre que encontrou algum revés, e encontrou alguns. Partilhou sempre com quem estava no terreno os elogios que recebia, E saiu, sem grandes alaridos. Ou seja, cumpriu uma missão, sem reclamações nem autopromoção.

Vejo com alguma estranheza aquilo que, no meu fraco entender, me parece esta indigitação para o cargo de Chefe de Estado Maior da Armada. Esta estranheza assenta em dois factores essenciais: por um lado, uma mudança de atitude do vice-almirante, quando aceitou com aparente regozijo a indigitação (e a promoção); por outro lado, o seu silêncio relativamente á sua ligação a este processo, e à exoneração “antecipada” do seu camarada Mendes Calado no cargo, e muito em particular despois deste ter afirmado que: “Não saio por vontade própria.” Também a Associação de Oficiais das Forças Armadas e Associação de Praças, consideram que estes dois oficiais não mereciam verem-se envolvidos nesta polémica.

É bom ainda recordar alguns factos essenciais ligados neste processo:

Mendes Calado ter sido um crítico da lei de programação militar; a tentativa de Mendes Godinho de substituir o CEMA, no exacto dia em que Gouveia e Melo deixa a task force; e a pronta desautorização desta decisão por Marcelo Rebelo de Sousa, que a classificou, ironicamente, suponho eu, de “equívoco”.

Marcelo também disse nessa altura, referindo-se ao envolvimento do nome de Gouveia e Melo neste processo: “O seu mérito, a sua classe, a sua categoria, dispensam o ser envolvido numa situação em que pudesse aparecer como um atropelamento de pessoas e de instituições. Não é bom para as pessoas nem para as instituições.” Afinal parece não ter sido bem assim. Nem o PR sentiu qualquer rebuço em aceitar o nome do vice-almirante para o cargo, nem este se fez rogado em aceitá-lo. Não estiveram bem nem um nem outro. Pelo menos Gouveia e Melo caiu muito na minha consideração. Mais ainda quando parece revelar alguma aproximação a uma eventual carreira política, o que no passado o havia rejeitado liminarmente. Faz-me lembrar o que dizia o meu amigo sevilhano Abarca: “todos los hombres tienen su precio. Solo necesitas saber cual!”. Também o PR não sai bem na fotografia. Exonera o CEMA, antes do tempo previsto, dá-lhe uma comenda pelos bons serviços prestados, e promove o vice-almirante para o substituir. Mas de Marcelo, espera-se tudo.

Gouveia e Melo em entrevista ao Expresso, a certo passo, afirma encontrar-se ideologicamente num centro pragmático, isto é, "uma coisas mais à esquerda, uma coisas mais à direita". Vejo esta afirmação como a disponibilidade para assumir um futuro na política, e com a conveniente equidistância das principais forças partidárias. Provavelmente nada disto corresponde à realidade e sou eu a ver fantasmas nas entrelinhas do pensamento do vice-almirante, perdão – Almirante. As actuais funções são de índole militar, mas o endeusamento que lhe tem sido feito por diversas forças políticas, pode despertar o desejo de abraçar outros voos. Vamos aguardar para ver.

sábado, 11 de dezembro de 2021

O QUE ESPERAR DAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES?

O previsível fim da Geringonça, por uma natural incompatibilidade genética, e as anunciadas eleições antecipadas, têm suscitado as maiores dúvidas na cabeça de políticos, analistas e, sobretudo, na dos eleitores. Desde a anunciada derrota (?!?) política de António Costa, ao inusitado ressurgimento político de Rui Rio, são inúmeros os cenários traçados. Na realidade parece-nos haver um evidente exagero em muitos destes cenários.

Provavelmente António Costa não vai capitalizar, como ele eventualmente previra o descontentamento pelo fim dos entendimentos feitos à esquerda, pelos descontentes desta faixa do eleitorado. Muito naturalmente, Rui Rio também não vai ser capaz de vencer a distância que o separa do PS nas intenções de votos. Como também não é certo que os novos pequenos partidos venham a ter a subida fulgurante que muitos vaticinam. No entanto, parece muito provável que PCP, BE e CDS, venham a sofrer consequências nefastas das suas recentes acções políticas, e por razões diferentes. Mesmo considerando a fidelidade do eleitorado comunista, parece que dificilmente o PCP irá escapar ao descontentamento da não viabilização de um orçamento muito favorável às pretensões comunistas. Por seu turno, o BE deve seguir uma trajectória semelhante, mesmo tratando-se de um eleitorado mais urbano e menos proletarizado. Já no caso do CDS, a mais do que provável perca de representatividade, ficará a dever-se a uma tentativa desesperada do seu líder de se agarrar a um poder que lhe fugia. Fez tudo para esse efeito, e acabou sozinho.

Apesar de uma mais do que previsível maioria das intenções de votos parecer recair sobre o PS, os sinais de nervosismo são mais do que evidentes. Multiplicam-se o ataque a tudo e a todos. As tentativas de branqueamento da acção de Eduardo Cabrita, pela sua desastrosa passagem pelo MAI, aparecem sem qualquer pudor. A dedução de acusação do Ministério Publico sobre dois ex-governantes socráticos, é vista como uma tentativa de influenciar o curso das próximas eleições.

Do lado do PSD vive-se um clima de euforia com a vitória do resistente Rui Rio, sobre Paulo Rangel. E mesmo a redução da monumental diferença nas intenções de voto para o PS, são encaradas como uma probabilidade mais do evidente. Terá sido por isto que foi negada a possibilidade de uma coligação com o CDS? O benefício que tal solução podia garantir, tendo em conta o método de Hondt, um benefício evidente. Mas tal não foi suficiente para convencer os sociais-democratas.

Os eleitores portugueses estão confrontados com muitas as dúvidas e muito poucas certezas. A probabilidade de uma reedição da Geringonça, está completamente posta de parte, penso eu. Mesmo que qualquer um dos parceiros desse um golpe de rins (e já vimos de tudo), o que é que o país ganharia com esta solução?

As declarações de António Costa quanto a uma necessidade de entendimento com o PSD, não deixam margem para dúvidas, nem uma solução de Bloco Central seria desejável, por razões óbvias. No meio de toda esta confusão, restam os dois partidos novos, IL e CHEGA, que, muito provavelmente, irão ter uma mais do que provável subida. Isto levanta outro problema, quem irá contar com a sua participação? Se no caso da IL, isto poderá ser natural, ou pelo menos pacífico, no caso do CHEGA, as coisas vão ser bem mais complicadas. Estará Rui Rio disponível para uma solução, como a encontrada nos Açores? Embora ainda não tenham ainda saído as listas, alguns nomes ventilados cheiram a requentado.

Será uma utopia aspirar ter governos estáveis, competentes e duradouros? Governos minoritários, suportados por acordos de incidência parlamentar são a norma por essa Europa a que queremos pertencer. Na verdade, o problema não está na solução. O problema parece estar nos protagonistas. Não somos pequenos apenas em termos territoriais. A nossa pequenez estende-se à forma como fazemos política. Organizamos a nossa estrutura governativa com base nas amizades e nas fidelidades. Temos um Estado grande e pesado, para dar guarida a uma infindável teia de boys. Raramente se favorecemos a competência e a experiência, e assistimos impavidamente a sermos ultrapassados por parceiros europeus, como se de uma fatalidade se tratasse.

Podíamos aproveitar as próximas eleições para dar um abanão na árvore. Há lá muita fruta podre. Se outras razões não houvesse, este poderia ser o mote para evitar o sempre crescente desinteresse das populações pêlos actos eleitorais e o consequente aumento da abstenção. Nem a bazuca nos vai salvar, se aqueles que a vão surgir vão ser os mesmos.  Estas eleições deveriam servir para emendarmos, o estado de paz podre que vivemos neste momento . Pode  não haver mais nenhuma outra oportunidade.

sábado, 4 de dezembro de 2021

CERTAMENTE UM APROVEITAMENTO POLÍTICO



Finalmente, passados seis meses, o Ministério Público, vem por fim a um lamentável processo que envolveu um ministro do actual governo. Eduardo Cabrita, no seu estilo habitual, vem comunicar ao país, numa conferência de imprensa (sem direito a perguntas), o seu pedido de exoneração do cargo de titular do MAI.

Na base do seu discurso, começa por afirmar que era um mero passageiro daquela viatura. Será? Cabrita não teria autoridade e ascendente hierárquico sobre um seu subordinado? Relativamente ao acidentado, nem uma única vez refere o seu nome, designando-o como vítima. Também relativamente ao seu motorista, nem uma palavra de solidariedade e/ou compreensão. Todo o seu discurso é um despudorado auto-elogio dos bons resultados alcançados, e nenhuma referência quando aos inúmeros “casos” do seu ministério:  SIRESP, golas inflamáveis, imigrante assassinado pelo SEF, festejos do Sporting e transferência de imigrantes para Odemira. Sobre todos estes casos, nem uma palavra     !

Por tudo isto, Eduardo Cabrita foi igual a si próprio! Revelou insensibilidade, cobardia, desresponsabilização, indecência política, falta de ética e de moral. Se apesar de tudo isto, nunca foi demitido, e sempre respaldado pelo primeiro-ministro, o seu pedido de exoneração também não causou qualquer surpresa. Isto porque, a continuidade de um ministro incómodo num governo que está a dois meses de eleições, seria um esqueleto no armário pronto a saltar fora, em tudo o que fosse debate político. Claro que António Costa, apesar de toda a fidelidade demonstrada, não iria aceitar em caso algum, essa possibilidade. E isto sim, é um caso de puro aproveitamento político.

Perante o silêncio e irritações de Eduardo Cabrita, e face à gravidade do acidente da A6, todas as perguntas eram legítimas, sejam elas de políticos ou de jornalistas. Não são um aproveitamento político, são uma obrigação dos mesmos. Mesmo a justificação de que não queria interferir nas eleições que se avizinham, é também um aproveitamento político, porque a sua continuidade iria revelar-se como um elemento tóxico para o PS. António Costa nunca negou a sua amizade com Cabrita. Só em nome dessa amizade, que o poderia considerar um excelente ministro. O problema é que agora, mantê-lo em funções até às legislativas seria uma monumental inconveniência. Não foi por um procedimento jurídico que a exoneração foi pedida, mas sim, por uma vantagem política.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA DE MOTORISTAS

 

Olhando e reflectindo sobre esta classe profissional, não posso pensar de forma diferente do que os considerar um bando de malfeitores, organizados para prejudicar pessoas de bem! De facto, se analisarmos a vida, e a praxis destes profissionais, só podemos concluir que se trata de gente de maus princípios, organizados por um propósito maléfico de prejudicar quem, imbuídos dos mais nobres valores de vivência comunitária, lhes proporcionam as melhores condições de trabalho, sem nada pedir em troca.

Foi o assim no caso do João Perna motorista de José Sócrates, que durante três anos andou a entregar “fotocópias” (adoro este eufemismo) a José Sócrates, com o intuito de o incriminar num processo de branqueamento de capitais. Estas fotocópias passavam pela sua conta bancária, não para pagar as despesas do patrão, mas tão somente para incriminar um cidadão exemplar, que desempenhou elevados cargos na administração do país, e que sempre viveu a custa do seu trabalho, para o incriminar de actos tenebrosos, num esquema que só uma mente criminosa poderia engendrar. E até o Juiz Ivo Rosa, parece estar ligado a este grupo de malfeitores, ao não levar a julgamento o dito João Perna.

Foi também o caso do motorista de José Rendeiro. Este criminoso, que se fazia passar por taxista, para dar peso ao protagonismo do seu progenitor como presidente da ANTRAL. Mesmo o seu benemérito acto de comprar um apartamento de luxo, na Quinta Patino, o qual cedeu à esposa do patrão por 210 mil euros, tinha apenas o obscuro intuito de fazer recair sobre o patrão, o propósito de o incriminar em negócios ilícitos.

Até o inocente cândido, e excelente ministro Eduardo Cabrita, se viu traído pelo seu motorista. Apesar dos insistentes e fervorosos pedidos para reduzir a velocidade de circulação na auto-estrada, este pérfido facínora manteve o modesto BMW nos 160 Kms/hora, com o propósito único de prejudicar o seu superior hierárquico, por qualquer ocorrência que pudesse vir a acontecer. Eis senão quando, um suspeito trabalhador, de colecto amarelo reflector vestido, atravessou, propositadamente a auto-estrada, para dar sustentação ao perverso esquema de incriminar o ministro esquema. Muito provavelmente concertado com o motorista, com o único propósito de envolver ministro num provável acidente. A este, o dia não lhe correu bem. Foi atingido pelo BMW, dando corpo ao desleal plano do motorista contra o seu superior.

Entretanto acordo estremunhado deste pesadelo e dou comigo a retornar à realidade. Afinal os motoristas são pessoas de bem, e estão sempre dispostos a assumir as suas fraquezas. O ministro fez tudo o que lhe competia. Fez recair as culpas, sobre o incauto trabalhador que atravessou a auto-estrada de colete reflector vestido, e um mero carro que na berma assinalava trabalhos na via, sem pensar no papel do ministro que se deslocava para um importantíssimo evento, e não tinha nada que atravessar a via exactamente naquele momento. O que vale é que a justiça é cega, já constitui o motorista como arguido, libertando o ministro das soezes insinuações de responsabilidade neste acidente. O senhor ministro era um simples passageiro, sem qualquer tipo de autoridade sobre o seu subordinado. Quem pensar de modo diferente não passa de um maldoso inconsequente. 

Tudo isto só podia ter acontecido em sonhos. A nossa imaginação, nem a dormir deixa de fazer as mais fantasiosas elucubrações. Os motoristas são gente, séria, respeitadora e competente e sempre disponíveis a assumir as suas responsabilidades(?). Tal como os ministros, e os banqueiros.