Segundo os entendidos, o valor da
História reside na capacidade de nos conectar com o passado, de nos fornecer
ferramentas para compreender o presente, e de nos orientar para o futuro. Ou seja,
encontrar no passado os ensinamentos para o projectarmos o futuro não praticando
os erros então cometidos.
No rescaldo destas eleições, encontramos
dois factos políticos de uma relevância extraordinária e de contornos, que nem
os mais avisados, poderiam antever: uma subida considerável do CHEGA, roubando
votos a toda a esquerda(?), e a estrondosa derrota do PS. Se no caso do CHEGA
se pode estabelecer alguma relação com o que se passa, um pouco por toda a
Europa, já no caso do PS, os problemas parecem ser uma consequência de diversas
razões. Alguns apontam para a desastrosa liderança de Pedro Nuno Santos, por
arrogância, incompetência e ao radicalismo a que ele tentou fugir, mas que
nunca fugiu dele. Tudo isto pode ser verdade, mas seria injusto atribuir a
Pedro Nuno Santos toda a responsabilidade desta pesada derrota.
Na nossa modestíssima opinião, o
desaire socialista tem um responsável de PESO – António Costa. Pode dizer-se
que ele já nem liderava o partido, mas mesmo isso não o iliba dos erros
cometidos no passado. É bom lembrar que António Costa chega à liderança do partido,
derrubando um antigo líder. Acusando-o de as vitórias obtidas sobre o governo do
tenebroso Pedro Passos Coelho, soarem a “poucochinho”. Para logo a seguir
perder umas eleições para o mesmo PPC. Este facto obriga-o (para salvar a pele,
e o seu futuro político), a quebrar algumas linhas vermelhas, traçadas pelo
histórico Mário Soares, na recusa de qualquer entendimento com o PCP. Foi
António Costa que quebrou essa regra, por puro egoísmo, e afirmava sentir-se
orgulhoso de ter derrubado esse muro.
Pedro Nuno Santos foi, por
consequência, o senhor que se segue. Não está isento de culpas, mas estas
residem, fundamentalmente, mais nas suas idiossincrasias pessoais, do que nos princípios
políticos que defendeu. As palavras de Alexandra Leitão de que “a estabilidade,
progresso e democracia com liberdade e justiça social só podiam ser
alcançadas com um voto no PS”, demonstra isto mesmo. É exactamente neste
contexto que é imperioso olhar para o passado, e tirar os devidos ensinamentos.
O PS teve sempre os melhores
resultados eleitorais quando se posicionou ao centro. A sua deriva à esquerda, iniciada
por António Costa e continuada por Pedro Nuno Santos parecem, de alguma forma,
confirmar uma das explicações para o desaire eleitoral. É certo que a formação
da “geringonça” e a maioria absoluta conseguida, parecem contrariar este
raciocínio. No entanto, o exemplo do desaparecimento do Partido Socialista
Francês podia ser um sinal de aviso para meditar.
A ascensão de partidos populistas
da direita radical (Front Nactonal e o Rassemblement National, em
França, Fratelli d'Italia em Itália e o Vox em Espanha), foi
obtida pela abordagem populista de temas que eram incómodos à esquerda, mas
representavam as preocupações do eleitor comum. Para consolidarem as conquistas
atingidas e alcançarem uma posição cimeira, bastou-lhes suavizarem o discurso.
Em 2017, a antiga candidata
presidencial socialista Ségolène Royal, defendia que as disputas internas são
responsáveis pela decadência socialista. “Os eleitores já não aguentam (...)
os franceses querem que, quando os partidos existem, pelo menos se entendam
entre si e não mostrem essas divisões”. É precisamente isto que o PS
persiste em não reconhecer. Não aprender com os ensinamentos da História, e não
reconhecer que os tempos mudaram, tal como a conjuntura político-partidária
também mudou. Não reconhecer o óbvio, só pode contribuir para um desastre ainda
maior.
A mais que provável indigitação
de José Luís Carneiro como o novo líder do PS, aponta exactamente na
reorientação do PS ao centro. A questão é saber se não se justificaria, antes
de uma indigitação acelerada, uma profunda reflexão sobre as razões que
conduziram à situação actual. O PS é importante demais no nosso sistema
democrático. Ignorar as razões do último desastre eleitoral, é condicionar o
futuro de um partido com história e, eventualmente caminhar para se tornar
irrelevante.





