segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

O PAQUETE CARVALHO ARAÚJO E O HERÓI QUE LHE DEU O NOME

 

As viagens entre as ilhas e o continente, em meados da década de sessenta do século passado, era um privilégio de muitos poucos. A generalidade dos açorianos, não tinha por hábito viajar, e mesmo aqueles por necessidade, ou para estudarem usavam o transporte marítimo como o meio de o fazer. Já existiam ligações aéreas, centralizadas na ilha de Santa Maria, mas estas estavam apenas ao alcance dos mais abastados.

A minha primeira viagem quando parti para estudar, fi-la no paquete Carvalho Araújo, e esta primeira viagem marítima, revelou-se uma verdadeira aventura. Era um mundo novo que se abria e totalmente diferente daquilo a que estava habituado: a primeira separação da família, a primeira viagem e a primeira vez que me via independente do conforto familiar.

O navio de passageiros e carga "Carvalho Araújo", da Empresa Insulana de Navegação. Lançado à água em 1929, dos estaleiros Cantiere Navale Trestino, destinava-se a ligar Lisboa e os arquipélagos dos Açores e Madeira. Propulsionado a vapor, tinha 113 metros de comprimentos e deslocava 4560 toneladas, transportando 256 passageiros. Navegou entre 1930 e 1970[1]. A primeira impressão foi de uma profunda admiração pelo interior e do ambiente que se respirava no navio. O seu interior revelava um gosto clássico, com o recurso a madeiras nobres num estilo austero, mas mesmo assim muito agradável. A vida a bordo cumpria um ritual entre as refeições, as simulações de emergência, o convívio com colegas de outras ilhas, e os passeios no convés para aliviar o desconforto dos enjoos.

Uma coisa que desde o primeiro momento despertou a minha curiosidade, era associar a personagem que deu o nome ao navio. Na altura, lembro de ter ouvido tratar-se de um oficial da marinha que se distinguiu por actos de bravura. Só muito mais tarde consegui saber um pouco mais sobre este notável marinheiro. Sabe-se que nasceu por acidente na cidade do Porto, com ascendência da nobreza nortenha, e que se notabilizou pela sua coragem num episódio registado em pleno oceano, durante a I Guerra Mundial.


Nessa altura, José Botelho de Carvalho Araújo, com apenas 37 anos, ao comando do caça-minas Augusto Castilho[2], tinha por missão a protecção de navios que serviam os Açores e a Madeira. No dia 14 de Outubro de 1918, acompanhava o navio de passageiros São Miguel, entre o Funchal e Ponta Delgada, quando surgiu o submarino alemão “U 139”, que atacou brutalmente o São Miguel. Num assomo de valentia, Carvalho Araújo interpôs o navio sobre o seu comando entre o submarino e o São Miguel. Foi um combate desigual entre o gigante alemão e o navio português. Carvalho Araújo sucumbiu ao comando do seu navio, ficando para sempre registada a sua heroicidade, pois pouco antes de falecer mandou içar a bandeira nacional, afirmando “Hei-de morrer como português!”

A família Bensaúde, proprietária da Empresa Insulana de Navegação, num processo de renovação da sua frota, não hesitou em dar o nome deste bravo marinheiro ao navio, como forma de honrar alguém que salvou um navio da empresa, e os 200 passageiros que transportava.

 



[1] Referência recolhida do Instituto Cultural de Ponta Delgada

[2] “Augusto de Castilho”, um antigo arrastão de pesca, transformado em caça-minas Blog Pico da Vigia

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

ERMIDA DE NOSSA SENHORA DA PAZ

 

A ermida de Nossa Senhora da Paz tornou-se num local de visita obrigatória, principalmente depois do grande incremento do turismo registado nos últimos anos. Estou convencido que esta escolha se deve muito mais pela soberba vista que este local tem sobre a sede do Concelho de Vila Franca do Campo e do Ilhéu da Vila; do que pelas motivações religiosas que estiveram na origem do culto da Senhora da Paz.

O templo actual terá sido construído em meados do século XVIII, sobre um templo primitivo e associado a uma lenda. Reza essa lenda que naquele monte, os pastores para se abrigarem do mau tempo se teriam recolhido ao abrigo de uma gruta. Nessa gruta encontraram uma imagem da Virgem Maria. Surpreendidos com o achado, terão levado a imagem para a igreja matriz de Vila Franca do Campo para que a entidade eclesiástica lhe desse o devido destino. Para grande espanto, no dia seguinte encontraram a mesma imagem, na mesma gruta. Voltaram a entregá-la ao pároco, mas a cena repetiu-se por vários dias. Este acontecimento foi interpretado como a vontade da Virgem, que Lhe construíssem um templo naquele local. O povo uniu-se e decidiu começar a construção num local mais baixo e mais abrigado para onde transportaram os materiais. No dia seguinte encontraram o local intocado e os materiais colocados junto da gruta. Foi neste local que foi erigido o templo primitivo em 1522. Em meados do século XX foi construída a escada monumental a fim de permitir um aceso mais cómodo à ermida. É precisamente no adro desta ermida que pode se pode admirar uma vista deslumbrante.

A 1 de Janeiro de 2025 a Ermida de Nossa Senhora da Paz vai ser elevada à categoria de Santuário, numa cerimónia presidida pelo Bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, no dia em que se festeja o Dia Mundial da Paz.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

A MAIS DE 1 ANO DE DISTÂNCIA AS PRESIDENCIAIS JÁ MEXEM!

 

Um país que não prima pela sua capacidade de planear o que quer que seja, teima em discutir até à exaustão, e com uma antecedência difícil de entender o tema da próximas Eleições Presidenciais. Foi assim no caso do Orçamento de Estado para 2024, como é a discussão à volta das eleições presidenciais, que só irão ter lugar em Janeiro de 2026! Mais, ainda não se sabe exactamente quem irá concorrer, quais os apoios que terão, e se estão dispostos em aceitar este desafio, particularmente os que aparecem mais bem cotados nas sondagens.

Por outro lado, também existem protocandidatos que, sem anunciar essa intenção, disfarçam muito mal a sua disponibilidade. São os casos de o Almirante Gouveia e Melo, António José Seguro, Augusto Santos Silva, Mário Centeno, Luís Marques Mendes, e mais recentemente Pedro Santana Lopes. Ainda há que levar em conta existência de nomes que são sempre “presidenciáveis”, ou “candidatos naturais”, na óptica dos partidos políticos, ou dos seus militantes. Nomes como António Vitorino, António Guterres, e mesmo António Costa, são disso um exemplo paradigmático.

Ainda existem outros candidatos, oriundos de áreas partidárias de menor expressão eleitoral e que apenas usam esta oportunidade para evidenciar os valores que defendem.

O debate sobre um tema que irá acontecer a uma distância temporal de mais de um ano, atira para um lugar secundário as eleições autárquicas, que irão ter lugar no final de 2025, e que que diz muito mais ao eleitor pela sua proximidade espacial. As televisões e os seus comentadores têm explorado esta temática de forma contínua e repetitiva.

As sondagens, a esta distância temporal, mostram um facto curioso: dão a sua maior expressão a dois candidatos; Almirante Gouveia e Melo e Pedro Passos Coelho. Nenhum deles admitiu essa possibilidade e, pelos vistos, não pretendem fazê-lo proximamente. Também qualquer um deles está afastado do ambiente partidário instituído, e um deles é militar, o que o torna aos olhos de alguns como um candidato maldito. Do outro lado estão os presidenciáveis dos partidos do arco da governação, que vão atirando nomes para cima da mesa. Quase todos eles recebem uma baixa aceitação do eleitorado. Ou seja, os candidatos que recebem maior acolhimento não são escolhas objectivas dos partidos, e nem sabemos se estão disponíveis para se candidatarem. Pelo contrário, todos os que já manifestaram a sua disponibilidade, recebem intenções de votos muito baixa para as suas legítimas aspirações.

Nesta conjuntura, o eleitor parece confiar a sua intenção de votos a alguém que lhe diz alguma coisa (a sua acção no caso das vacinas), mesmo quando se desconhecem o seu pensamento político (Almirante Gouveia e Melo), ou Pedro Passos Coelho pelo seu passado recente num momento particularmente difícil que o país viveu (governou sob a intervenção da Troika). Muita água ainda vai passar por debaixo das pontes até ao dia das presidenciais, e muito ainda vamos ouvir do pensamento dos putativos candidatos. Era bom alguma serenidade no ecossistema comunicacional, até que possamos formar uma opinião sustentada nas intenções dos candidatos para o exercício do cargo. Até lá, qualquer “boca”, além de extemporânea, não é fundamentada no pensamento objectivo de nenhum candidato.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

JOSÉ SÓCRATES IGUAL A SI PRÓPRIO

 

“Fazer o mal e a caramunha”, costuma o povo dizer quando alguém faz alguma coisa que causa prejuízo e depois queixa-se!

José Sócrates foi sempre alguém que ao longo da sua vida, teve um comportamento que a sociedade condena – viver muito acima das suas capacidades, sem que lhe sejam conhecidos proveitos que o justifiquem. Se isto é condenável a um cidadão comum, quando se trata de um político democraticamente eleito e, com um cargo de elevada responsabilidade institucional, torna-se inadmissível.

As suspeitas sobre a sua ligação a uma série de casos suspeitos, acompanharam todo o seu percurso político, desde o tempo em que era um simples deputado na Assembleia da República. Só para enumerar os mais badalados: o aterro sanitário da Cova da Beira, o caso Freeport, a trapalhada que envolveu a sua Licenciatura, as suas lutas para silenciar a comunicação social não alinhada, os projectos das casas da Guarda, os casos Face Oculta e Tagus Park, a sua ligação à Octapharma e ao Grupo BES.

Nunca se coibiu de levar uma vida sumptuosa, dificilmente acomodável aos rendimentos de um ministro da república. Da compra a preço de saldo do apartamento da Rua Brancamp, às férias em resort de luxo; dos fatos de grife, à mansão de Paris, são disto um exemplo elucidativo. Cada um pode fazer a vida que bem lhe aprouver, mas a sua argumentação para o justificar são difíceis de aceitar pelo mais benevolente espectador. As suas despesas ou eram suportadas pelo amigo Santos Silva, ou pela venda dos apartamentos da mãe, ou por uma hipotética herança de um tio volframista! Admitindo que tudo isto fosse verdade, será que podemos admitir de quem foi primeiro-ministro de um país democrático, possa viver às custas de alguém, e que ache isto um comportamento normal e aceitável?

A contas com a Justiça desde a altura em que foi detido há 10 anos para justificar alguns dos casos em que há suspeita do seu envolvimento, José Sócrates nunca procurou aceitar o seu julgamento como forma de provar a sua verdade. Pelo contrário, tem sistematicamente usado um verdadeiro carrocel de recursos e incidentes processuais, a maior parte deles não aceites pela Justiça, por forma a atrasar o julgamento. Também ninguém compreende como é que alguém a viver à custa de amigos, pode fazer face às custas judiciais e aos honorários dos advogados.

Até os seus correligionários mais próximos: António Costa, Augusto Santos Silva, Pedro Silva Pereira, João Galamba viraram-lhe as costas. Quem não se lembra das romagens à prisão de Évora? Sintomático! Ou então não têm argumentos para defender este seu comportamento. Os seja, todos aqueles que lhe eram próximos e, que estavam distraídos enquanto as coisas aconteciam, acoitaram-se à sombra do poder que ele lhes garantia, mostram-se agora amnésicos. Resta-lhe o apoio do amigo Lula da Silva, vá se lá saber porquê?

terça-feira, 19 de novembro de 2024

1000 DIAS DE GUERRA - SLAVA UKRAINI

 

Completam-se hoje 1000 dias que um país independente e soberano, a Ucrânia, foi invadido pela segunda potencia mundial (?). Também foi afirmado que no espaço de 48 horas as tropas russas entrariam em Kiev! Passados que são os tais 1000 dias, o que se verifica foi uma superioridade dessa tal potência, por um substancial número de combatentes, e pelo recurso a um vastíssimo manancial de armamento bélico. Mesmo assim, apenas conseguiu ocupar 20% do território ucraniano. Convenhamos que é manifestamente pouco para as promessas iniciais.

A Federação Russa utilizou neste conflito toda a sua capacidade bélica. Deitou mão a armamento iraniano e norte coreano, para além de 10.000 soldados norte-coreanos para a região ocupada de Kursk. Mesmo a perante a passividade de todo o mundo ocidental, os ucranianos foram defendendo a sua pátria de forma corajosa e com os escassos meios disponíveis. Muitas foram as promessas, mas muitas mais foram as reservas impostas à Ucrânia, pelo receio de escalar o conflito. Todos nos lembramos das reservas à cedência dos carros de combate, dos mísseis de médio e longo alcance e dos F-16. Será caso para dizer  “de promessas está o inferno cheio”.

Finalmente Jorge Biden, a dois meses de deixar a presidência dos Estados Unidos, autorizou a utilização, em território russo, dos misseis de longo alcance, em condições que ninguém ainda percebeu bem. Os ucranianos aproveitaram a oportunidade e bombardearam instalações militares na cidade russa de Bryasnk. Foi o pretexto para Vladimir Putin assinar um decreto que permite o uso de armas nucleares.

Nestas circunstâncias é legítimo perguntar quem está a escalar o conflito? A Ucrânia não pode deixar de aproveitar esta oportunidade, mesmo considerando que a possibilidade de envolvimento de outras potências regionais, às ambições imperialistas de Vladimir Putin. Ou seja, a Europa que foi capaz de viver em paz durante 70 anos após a II Guerra Mundial, vê às suas portas um conflito que não para de crescer. Mais do que a paz, conseguiu instituir e viver em democracia, e promover os princípios de solidariedade entre as nações.

De um lado temos um país invasor, que não se coíbe de atacar instalações civis como: escolas, hospitais, igrejas, teatros, prédios de apartamentos, etc. Recorre a armamento e homens em armas, cedidas por países fantoches, e acusamos a Ucrânia de escalar o conflito. Viola princípios consignados nas convenções internacionais sobre a guerra, como foi o massacre de Bucha, um verdadeiro crime contra a humanidade.

Neste dia em que passam 1000 dias sobre a invasão, queria deixar este escrito pelo enorme respeito e profunda admiração por este povo sofredor, que resiste estoicamente em condições de manifesta inferioridade. Glória à Ucrânia e aos seus heróis - Slava Ukraini

 

domingo, 17 de novembro de 2024

A HERANÇA ARMADILHADA DE ANTÓNIO COSTA

 

Por diversas vezes afirmei aqui a minha discordância da prática política de António Costa. Continuo a achá-lo um político intelectualmente desonesto e, até mesmo maquiavélico relativamente aos seus opositores. Mesmo em relação a alguns dos seus correligionários percebe-se que actua com absoluta frieza egoísta. Por outras palavras, pensa primeiro nele, depois no partido, e só depois no país. A sua recente carta aos militantes, apenas se tratou de vingar a eleição de Pedro Nuno Santos, que objectivamente, nunca foi uma escolha sua. Serviu-se dele enquanto mentor da geringonça, mas nunca pensou nele como continuador do seu legado. Com um pensamento ardiloso, consegue antecipar momentos futuros para depois lhe dar a machadada fatal, quando a oportunidade chega – vela-se a sua relação com António José Seguro e com José Sócrates.

Vem isto a propósito das dificuldades que Montenegro vem sentido nesta sua experiência governativa. Dificuldades que acentuam alguma ingenuidade face ao que António Costa lhe deixou.

Montenegro queria marcar uma diferença na reposição de benefícios que António Costa nunca abriu mão, mesmo com saldos orçamentais positivos. E nunca o fez porque achava que ao fazê-lo iria abrir uma caixa de Pandora, quase impossível de controlar. Mesmo considerando como justificáveis os aumentos concedidos a várias classes profissionais, a coberto do superavit que Montenegro recebeu do seu antecessor, neste momento já não tem condições para satisfazer às exigências das corporações, por mais justas que elas sejam.

No SNS - Serviço Nacional de Saúde aconteceu algo semelhante. Quem quiser analisar com desprendimento o que aconteceu ao SNS durante os oito anos da gestão do PS, só pode entender que veio de mal a pior. A degradação do SNS começou com o horário das 35 horas, que tornaram ingerível o seu funcionamento. Esta necessidade traduziu-se num substancial aumento dos investimentos, e na necessidade da contratação de inúmeros quadros para suprir as necessidades. Seguiu-se a Pandemia, à qual o país respondeu como qualquer outro país comunitário, oscilando entre o muito bom e o muito mau. A desastrosa gestão de Marta Temido determinou a opção dos portugueses de recorrer aos seguros de saúde (4 milhões), como forma de obter as respostas que o SNS, não conseguia dar. António Costa imperturbável, imitou-se a fazer aquilo que sabia fazer melhor – atirar dinheiro sobre os problemas, e aguardar até que novos problemas surgissem.

Montenegro com alguma ingenuidade prometeu algo que a sua ministra da saúde sabia que não conseguia concretizar, e se não sabia, ainda é pior. Passados os tais sessenta dias prometidos, o que se vê é que o SNS está tão degradado, com inúmeras carências que vão ser precisos muitos anos para que alguma solução duradoura possa ser alcançada. O recente caso do INEM, é disto um exemplo paradigmático. Com um orçamento de 150 milhões de €, funciona da forma que se viu, porque não consegue preencher as suas necessidades em recursos humanos, ou mesmo em comprar ambulâncias. É fácil compreender que este não é um problema novo, mas foi muito mal gerido pela actual ministra da saúde e pelo primeiro-ministro. António Costa nunca teria deixado as coisas chegar até onde chegaram. Provavelmente não seria capaz de resolver o problema, mas havia de arranjar uma solução para que o assunto ficasse esquecido por algum tempo.

O voluntarismo de Montenegro de querer resolver problemas mais do que justos, esbarrou na matreirice de Costa, muito mais sabido e que não deixou passar a oportunidade de agarrar o conforto de um cargo europeu, apesar do superavit de que tanto se orgulhava. Ficamos com a sensação de que aquelas “boas contas”, eram um presente envenenado. Montenegro com este menino nos braços, não sabe como lhe mudar a fralda!

 

terça-feira, 12 de novembro de 2024

YVES DECOSTER - O PINTOR DOS CORAÇÕES

 

A viver em São Miguel há mais de 30 anos, o pintor Yves Decoster, com formação na Academia das Artes de Antuérpia, encheu a ilha de corações de Este a Oeste. Pintou o primeiro coração a pedido de uma amigo, numa casa em ruínas, e utilizou a janela como moldura. A partir daí, nunca mais parou. Utiliza casas em ruínas, muros, casas, escolas, como o elemento de suporte para a sua arte. Deambulando pelas estradas de São Miguel, é impossível não encontrarmos um registo de um coração do Yves Decoster.

Se no princípio de deveu a uma solicitação pessoal de um amigo, rapidamente começou a ser solicitado por muita gente para que deixasse na fachada das suas casas, num muro, numa ruína ou noutro suporte a sua imagem de marca. De facto, as observações destes corações e nas palavras do pintor pretendem "sensibilizar as pessoas para o amor, positivismo e alegria de viver", factor que parece encontrar resposta nos sentimentos expressos pelas pessoas quando abordam o assunto.

Segundo o jornal Público, em 2015 Decoster já havia pintado 278 corações, e o objectivo seria atingir os 365: um por cada dia do ano. Não consegui descobrir se este número foi alcançado. Isso também não penso que seja importante. A realidade é que estas criações, não deixam ninguém indiferente, e são um importante cartão de boas-vindas para São Miguel.

A razão por esta opção, segundo as palavras do artista é uma escolha adquirida pelo simbolismo que o coração pode transmitir: "o coração é o símbolo do amor pela natureza e amor pelas pessoas", “…trazer cor à vida das pessoas", "…um apelo ao amor". Muitos dos que visitam a ilha consideram, provavelmente pelo acolhimento recebido, referem que estes corações  representam um verdadeiro símbolo da Ilha.

Pela simplicidade do motivo pintado, ou por causa disto mesmo, os corações primam pela simplicidade do desenho, em que o coração ocupa o lugar central, embelezado por animais, figuras geométricas, flores e linhas limitadoras como moldura.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

DONALD TRUMP E A COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL

 

Há já alguns anos me venho interessando pelos fenómenos que envolvem o processo comunicacional e, em particular, sobre aquilo que se convencionou chamar de linguagem não verbal ou linguagem corporal.

A linguagem não verbal refere-se à comunicação que ocorre sem o uso de palavras. Ela inclui expressões faciais, gestos, postura, contacto visual, tom de voz e até o uso do espaço físico. Esses elementos podem transmitir emoções, intenções e significados que muitas vezes complementam, ou até contradizem o que é dito verbalmente. A linguagem não verbal é fundamental para a comunicação eficaz, pois ajuda a interpretar o contexto e a intenção por trás das palavras. Acresce ainda referir que muito destes sinais, ocorrem de forma reflexa e não intencional.

E há personagens que pela exuberância que adoptam quando comunicam, me levam a questionar se a linguagem corporal e não verbal adoptada durante o discurso, estão em sintonia com a mensagem que pretendem passar. É o caso de ex-Presidente Donald Trump. Quero antes de continuar, fazer uma declaração de interesse: considero o indivíduo algo estranho, ou talvez exótico aos olhos de um europeu. Se eu fosse americano, nunca votaria em tal candidato. Igualmente todo o sistema político americano, e particularmente a complexidade dos procedimentos eleitorais causam-nos alguma estranheza.

Nesta campanha eleitoral, tenho observado com alguma atenção a prestação dos dois concorrentes, no que à linguagem não verbal diz respeito. Se Kamala Harris aparece aos nossos olhos como um político “normal”, como aqueles que observamos por estas paragens; já Donald Trumpo, revela uma linguagem não verbal, bem mais complexa e difícil de desmontar. Por esta razão irei dedicar mais atenção à prestação deste candidato.

Kamala Harris apresenta um discurso simples, fluido, com ideias precisas e bem estruturadas adaptadas ao tipo de assembleia a que se dirige. Assume, invariavelmente uma atitude alegre, bem-disposta e positividade na comunicação. Toma uma postura descontraída, dá gargalhadas quando refere algo alegre, gestos e expressões sem grande amplitude apenas evidenciando, aqui e ali, uma ideia que precisa de ser evidenciada. As mãos são mantidas à frente do corpo, abertas, com movimentos simples e de amplitude mediana, raramente acima do nível dos ombros. Isto parece indicar alguém amistoso, disponível para ouvir, para aceitar, ou sem nada a esconder.

  



Donald Trump tem uma postura invariavelmente arrogante, altiva, insultuoso, narcisista, antifeminista, ofensiva e desagradável. Uma presença demasiado formal (O tema do homem do lixo, é um exemplo típico duma postura desconexa com o personagem). Não tem um discurso estruturado, utiliza uma oratória básica, salta frequentemente de tema e é muito repetitivo e tem seguidores indefectíveis no eleitorado iliterado. Mas é no domínio dos gestos, das expressões faciais e encenações, que evidencia alguns sinais que muitos classificam como verdadeiros tiques. Quem já assistiu às suas prestações pode identificar com relativa facilidade, que repete quase à exaustão uma série deles. Provavelmente como um mecanismo de defesa.  Como não se incomoda com mentira, o uso repetitivo de gesticulação pré-estudada, pode ser percebido como um meio para dar solidez com um discurso facilmente desmentido num contraditório sério, a que ele repetidamente

Alguns destes gestos iremos tentar desmontar, numa interpretação muito pessoal e certamente influenciada pela minha discordância confessa relativamente à personalidade em apreço.

1.        O OK

   



Gesto: A pinça OK entre o polegar e o indicador

Significado: Mostra convicção e controlo da sua verdade.

Este gesto, assim como o polegar levantado é repetidamente usado por Trump, e significa uma postura de convicção de quem se acha o dono da verdade. Frequentemente, o “fact check”, como se viu no recente debate na ABC News, veio repor que tanta certeza, afinal não tem correspondência com a verdade.

2.        OK + L

   



Gesto: gesto OK emparelhado com um dedo L a apontar alternadamente para cima

Significado – O polegar levantado indica concordância ou aprovação, mas também há quem considere um gesto ameaçador. Já o gesto L pode ter diferentes interpretações: na cultura anglo-saxónica é referido como perdedor (looser), mas pode ter muitos outros significados. Mas se o polegar for apontado (como uma pistola) a um indivíduo ou assistência, pode significar um gesto agressivo e de uma certa atitude de superioridade em relação aos demais. Dá ideia de quem tem a arma é que dita as leis. Por outro lado, coloca em situação de inferioridade o oponente, seja individualmente, seja a uma assistência. Trump tem usado este gesto como reforço com estes dois significados.

3. O apontar (indicador em riste)

   




Gesto: Apontar agressivamente o dedo

Significado: Pode ter diversos significados, consoante o contexto: como um sinal de autoridade e/ou advertência; pode também querer indicar reprovação ou ameaça. Este gesto está conotado com uma atitude ameaçadora de quem se sente em situação de superioridade relativamente a alguém. Pode também ser um sinal de aviso ou de reprovação. Não é à toa que o povo refere a este propósito: “Não se aponta que fica feio” e “quando se aponta um dedo a alguém, os restantes apontam para nós”.

4.Braços e as palmas abertas

 



Gesto: Abrir as palmas das mãos enquanto fala

Significado: Mostrar gesto de abertura, de convite de aceitação

Este gesto em Trump é daqueles onde parece não ser coincidente com a sua oratória. Se por um lado convida os americanos a perfilharem as suas propostas, não se coíbe de insultar aqueles que não as aprovam.

5 O Muro (parede)

 



Gesto: gesto de “fica aí” com as duas mãos juntas e a empurrar uma parede imaginária

Significado: pode significar rejeição, defesa, impedimento, bloqueio.

Há quem veja neste gesto uma formas de dar consistência a algumas das bandeiras da sua retórica: os imigrantes, a prometida deportação em massa de imigrantes ilegais, a construção do Muro na fronteira com o México. O seu discurso populista assenta muito na defesa do “nós contra eles”, e este gesto pode ser entendido como a forma de interpor uma barreira, como a única forma de garantir o slogan Make America Great Again.

Em resumo, muita da linguagem não verbal praticada por Trump parece revelar muitas incongruências e contradições. Ou seja, usa de forma repetitiva estes gestos referidos e muitas vezes mistura-os todos num mesmo tema. Também é preciso recordar que Donald Trump foi alguém que teve um programa de televisão - The Aprentice, que lhe deu um grande à vontade em frente às câmaras. Esta experiência da televisão fez de Donald Trump um verdadeiro intertainer e fez da sua prestação política uma verdadeira actuação artística. O que me leva a ficar na dúvida se todos aqueles gestos não aparecem de forma natural, e a tal contradição residir no facto de também ser aqueles que surgirem de forma preparada e ensaiada. Ou seja, mesmo que a linguagem corporal surgir espontaneamente, a maioria parece ser algo estudado e treinado, o que pode ser explicado pelo elevado índice de rejeição que tem, apesar de ter a preferência de muitos americanos.

É certo que o estudo desta temática, permite muitas interpretações pela natural subjectividade da análise. Por tudo isto, e não sendo eu um especialista, mas tão só um curioso, aceito com a maior naturalidade qualquer outra leitura que se oponha a esta minha análise.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

PEDRO NUNO SANTOS VESTE UMA FATIOTA QUE NÂO LHE ASSENTA BEM.

 

A novela do Orçamento do Estado (OE), teve ontem mais um desenvolvimento – Pedro Nuno Santos (PNS), veio finalmente, clarificar a sua posição sobre o assunto. Depois de muitas hesitações, contradições, avanços e recuos, viu-se na necessidade de vir clarificar aquilo que ainda não estava claro, no que diz respeito à posição do PS sobre este tema.

É voz corrente dizer-se que PNS tem o “aparelho” do partido todo consigo. Mas este aparelho, e apesar disso. também manifestou a sua discordância do rumo que o Partido estava a seguir, preocupados com a execução do PRR e das Eleições Autárquicas que terão lugar dentro de um ano. Mas será que este “aparelho” representa todas as sensibilidades do PS, e muito em particular a sua ala mais moderada? Pelos vistos não. Personalidades como José Luís Carneiro, Sérgio Sousa Pinto, Álvaro Beleza, Vieira da Silva, apenas para referir os mais conhecidos, foram categóricos em pôr o dedo na ferida relativamente à forma como o líder estava a conduzir a novela do OE.

A diferença na liderança do partido, mudou radicalmente em pouco mais de 6 meses. António Costa era um líder experimentado, que conhecia profundamente os meandros da política portuguesa. Era dotado de uma habilidade para lidar com situações difíceis, com uma retórica que, por antecipação resolvia as coisas em seu benefício. Exemplo disto, foi a forma como António Costa resolveu o problema de Sócrates com duas frases lapidares: “à Justiça o que é da Justiça e à política o que é da política” e “… (ele – Sócrates) vai certamente lutar pelo que acredita ser a sua verdade.”

Enquanto António Costa foi capaz de pacificar todas as tendências e sensibilidades no interior do PS, já Pedro Nuno Santos não resistiu à reprimenda de condicionar a comunicação do Partido. Como alguém dizia muito recentemente, PNS está muito mais próximo da retórica bloquista do que da tradição centrista do PS, enquanto partido charneira do nosso ecossistema político partidário.

Deixou arrastar a novela do OE por tempo infindo, contradizendo-se frequentemente, para finalmente dar a mão à palmatória aos  que desde o início recomendaram esta solução (os moderados).

Além disso, o body language não lhe assenta bem. Do discurso inflamado, ao dedo em riste na sua comunicação, transparece o desconforto de quem veste uma roupa apertada. Ou seja, fala grosso para impressionar, para depois chegar à conclusão de que assim não chega lá, e contradizer-se no final. Todos nos recordamos da sua comunicação quanto à localização do aeroporto, para ser destratado no espaço de um dia pelo primeiro-ministro. A sua célebre intervenção num congresso do PS, sobre os banqueiros alemães causou algum desconforto nas hostes socialistas! A sua práxis política parece mostrar alguém muito mais próximo das teses Bloquistas, do que das do PS. Resta saber se o partido lhe irá perdoar este comportamento errático, particularmente num momento em que o poder está noutras mãos.

Se as próximas autárquicas não lhe derem uma vitória expressiva, poderá PNS ser confrontado com uma situação idêntica á de António José Seguro. Resta-lhe pouco menos de um ano para arranjar um fato à sua medida, ou fazer uma dieta para caber no que agora veste.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

A NOVELA DO ORÇAMENTO

 

Sendo que o Orçamento do Estado (OE) é um instrumento fundamental da política de qualquer governo, não restam dúvidas a ninguém. Também é certo que com a mudança política verificada nas últimas eleições, iria determinar igualmente uma mudança nas intenções das políticas, particularmente no que diz respeito à componente fiscal. A AD e, em particular o PSD sempre se assumiu como um partido reformista, pelo que seria de esperar que a este nível, a mudança da estrutura do OE teria de reflectir isso mesmo.

Como Luís Montenegro se havia comprometido como “não é não”, elegeu como parceiro fundamental para a aprovação do seu OE o partido Socialista. Esta solução foi à partida comprometida pela posição errática de Pedro Nuno Santos.

António Costa muito mais experiente e sabido que o seu sucessor, teria provavelmente dito: “este não é o meu orçamento, mas sendo um partido responsável, o PS vai viabilizar este primeiro orçamento pela abstenção e fazer o seu trabalho na oposição”. Pedro Nuno Santos teve um discurso errático. Disse tudo e mais um par de botas. Quis dar a imagem de um político responsável, mas as suas “convicções” ideológicas, fê-lo impor linhas vermelhas, em matérias que seria muito difícil serem aceites por Luís Montenegro.

Acontece, porém, que o PS está fracturado entre uma parte mais moderada que aconselha a aprovação do OE, e uma linha mais radical que diz que o PS deveria rejeitar liminarmente este OE e sujeitar-se a eleições. Para ajudar à festa, os autarcas socialistas, estão receosos que a não aprovação do OE seria muito penalizadora para o PS nas eleições autárquicas, que irão ocorrer em 2025, e ainda na execução dos projectos do PRR a decorrer.

Neste cenário, ainda não sabemos se o OE passa ou não. Sabemos que o CHEGA, apavorado com um cenário de eleições antecipadas veio pressurosamente mostrar a sua disponibilidade para o aprovar, e assim, reivindicar o estatuto de único adulto na sala. Consequentemente, o PS vai ficar associado à inusitada viabilização do OE por um partido da extrema-direita se isto se verificar.

A perspectiva de eleições antecipadas parece não agradar a ninguém. Considerando que o PSD cedeu mais do que o PS nas negociações, mesmo levando em conta os ganhos de causa que os socialistas conseguiram pela via parlamentar, e que irão ter influência directa sobre o OE. Neste cenário, o que vai o eleitor valorizar? A dúvida que subsiste é se esse voto se traduzirá num protesto por mais um processo eleitoral, ou se uma escolha no partido mais responsável em todo este processo. Tenho mais dúvidas do que certezas!

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

PEDRO NUNO SANTOS - UM POLÍTICO DE CONVICÇÕES!

 

Pedro Nuno Santos (PNS) diz: “que prefere perder eleições a abdicar de convicções”. Estas afirmações vindas de um político irreverente e controverso não podem evitar uma sensação de alguma perplexidade!

PNS combina um misto de qualidades e defeitos numa mesma pessoa de forma equilibrada (?), segundo dizem). É voluntarioso, determinado, impulsivo, qualidades que num político têm a particularidade de congregar uma alargada quantidade de indefectíveis apoiantes, que estão dispostos a desculpar qualquer pequeno defeito que ele possa apresentar. Quando o antigo líder se pôs ao fresco, para outras paragens, é evidente que o cheiro a poder só pode ser imaginando ao lado do novo líder.

Acontece, porém, que esta nova etapa da vida de PNS, não se traduziu da forma que ele certamente imaginava. Ou seja, a primeira prova de fogo a que foi submetido (as últimas legislativas), não lhe correram da melhor maneira. Na verdade, os resultados deste escrutínio, vieram configurar uma inusitada composição parlamentar, com a formação de três blocos distintos: a extrema-esquerda, extrema-direita, e o centro reclamado por PS e a coligação AD. Esta nova composição parlamentar, trouxe à evidência uma realidade: a coligação só pode garantir uma maioria parlamentar com a colaboração do CHEGA ou do PS.

Se recuarmos um pouco no tempo, e considerando a pressão exercida sobre Montenegro para um entendimento com o CHEGA por parte do PS foi, se quisermos, uma pedra atirada que fez ricochete. Ou seja, condicionaram Luís Montenegro a comprometer-se com o “Não é não”.

Depois de tudo isto apareceu a novela do Orçamento do Estado. Luís Montenegro só poderá ter o seu orçamento aprovado, com uma viabilização por parte do PS. Pedro Nuno Santos no sei jeito habitual, afirmou que não me peçam para aprovar um orçamento com o qual não concorda, o que é perfeitamente legítimo e compreensível. As alternativas são apenas duas, considerando que Montenegro manifestar a sua indisponibilidade para governar com duodécimos: ou um acordo com o CHEGA, ou um cenário de eleições antecipadas, que, aparentemente ninguém quer, apesar de provavelmente o menos prejudicado com tal cenário fosse o PSD.

Mas voltando às convicções de PNS, faz-me lembrar o episódio por ele protagonizado no anúncio do novo aeroporto no Montijo (o tempo deu-lhe razão). Fê-lo à revelia de António Costa (ausente do país) e por pura convicção de que aquela era a localização ideal para o novo aeroporto. No dia seguinte, teve de engolir um monumental sapo e reverter a sua decisão. Em pouco mais de dois anos, PNS parece ter aprendido a lição das convicções, só que naquela altura decidiu ficar apesar do vexame. Agora esta decidido a levar a sua convicção por diante (com alguma contestação interna). Não sei se os autarcas socialistas ficaram muito satisfeitos com tanta convicção. Não esqueçamos que estes socialistas têm eleições autárquicas no próximo ano e a execução dos projectos do PRR. Vamos aguardar para ver até onde PNS está disposto a levar as suas convicçãoes.

 

 

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

PIROGRAFIA – O que queimar?

 A pirografia é vulgarmente associada à queima de madeira. De facto, a madeira é o suporte por excelência; talvez mais por uma mera questão de tradição, do que por uma possibilidade de poder ser realizada em muitos outros materiais.

Em Portugal, que seja do meu conhecimento, a Pirografia é uma prática realizada por muito poucos, pelo menos de uma forma constante. Muito menos existe uma indústria receptiva à produção de madeira orientados para esta arte. Nos Estados Unidos onde a pirografia está muito disseminada, existe nos mercados locais um conjunto variado de peças e de tipos de madeira, especificamente preparadas para utilizção em Pirografia. No entanto, isto não pode constituir uma desculpa para não experimentar outros tipos de suporte.

Na nossa modesta opinião, e pensando exclusivamente numa das principais simpatias por esta forma de arte, reside no facto de se poder utilizar uma série vastíssima de objectos (caixas, tábuas,  cabides, tábuas de corte, bengalas, réguas, placas de sinalização, rolos de cozinha, colheres, espátulas, joias artesanais, puzzles, quadros, etc.).

Além da vasta gama de produtos em que é possível queimar, quero salientar o facto de serem objectos de uso e utilidade diária e facilmente personificáveis.

Naturalmente que, excluindo a madeira como principal e mais utilizado material, torna-se necessário considerar alguns aspectos em particular. A variação da resposta que cada material dá à queima. A escolha da técnica e temperatura a utilizar são por isso um elemento essencial.

Excluindo a madeira e o bambú, encontramos trabalhos que são feitos com muito boa qualidade nos seguintes materiais: feltro (chapéus) cabedal, osso, chifre, cabaças, papel, cartão, tecido, tela, ganga, etc. A razão para este escrito, reside no facto de seguir um Blog de uma artista americana que tem feito experiências em materiais tão inusitados como cenouras, lasanha, tortilla, mangas, melões, melancia, maçãs, etc. Para além da experiência propriamente dita, realiza alguns destes trabalhos como forma de envolver os filhos nesta brincadeira, ao mesmo tempo que os inicia na pirografia.

Por isso, o material não deve constituir um limite para a nossa criatividade. Alguns exemplos, principalmente os que realizados em alimentos podem constituir uma excelente motivo para alegrar um festa de crianças, por exemplo.

Eis alguns exemplos de trabalhos em Pirografia realizados em materiais pouco usuais:





1 - Chifre

2 - Cabaça

3 - Feltro

4 - Papel

5 - Osso

6 - Cabedal

7 - Lima

8 - Meloa

9 – Melancia

10 - Massa

11 - Rabanete

12 – Maçã

13 - Manga

14 – Nota de 1 US dólar

15 . Tortilha

16 - Lasanha

17 - Cebola

18 - Tecido

  

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

A INVASÃO DE KURSK PELOS UCRANIANOS

 

A invasão de Kursk pelos ucranianos foi uma manobra militar, que na realidade, ninguém ainda consegue identificar os objectivos. Isto não invalida que possamos reconhecer nesta operação militar tenha sido um sucesso. Foi um sucesso pelo secretismo que a envolveu, porque apanhou os russos de calças na mão, permitindo um importante número de militares presos, e ter obrigado os russos a uma manobra de desvio de forças de locais críticos na Ucrânia (Dombass), para fazer frente a esta emboscada. O número de prisioneiros (algumas centenas) e o terreno ocupado (1000 Km2), constituem um importante argumento negocial.

Representou para as autoridades russas uma grande humilhação. Uma vez mais o segundo maior e melhor exército do mundo(?), foi obrigado a engolir mais esta pesada derrota. Todos nos lembramos das declarações de responsáveis russos no início da invasão que afirmavam que em questão de dias tomavam Kiev. Também é bom lembrar a forma muito eficaz como os ucranianos com “drones” de produção própria, deram cabo da frota russa do Mar Negro. Nem o maior número de meios humanos, nem a sua superioridade em armamento e munições, conseguiram vitórias esmagadoras.

Estou crente que esta operação em Kursk, pelo menos por agora, conseguiu alcançar dois efeitos imediatos:

A necessidade de os russos estabelecerem uma operação de evacuação das populações próximas (algumas centenas de milhar), para além da humilhação interna e externa, bem como a necessidade de deslocalizar tropas de outro cenários de guerra;

Permitiu às forças ucranianas alcançar uma motivação especial, e as populações continuarem a acreditar na luta pela liberdade do país.

Acreditamos que os ucranianos não tenham com esta operação nenhuma intensão expansionista, até porque a possibilidade de êxito seria diminuta. Até agora, o secretismo da operação, e o alcance obtido pode considerar-se um êxito. No entanto, acreditamos que as forças ucranianas envolvidas irão retirar-se em breve. Ao retirarem-se irão ser recolocadas nos locais onde são mais necessárias – na frente de combate. Enquanto os russos, vão ter necessidade de repensar toda a sua estratégia de defesa fronteiriça e com isso envolver um número significativo de forças e armamento.

SLAVA UKRAINI