Há já alguns anos me venho
interessando pelos fenómenos que envolvem o processo comunicacional e, em
particular, sobre aquilo que se convencionou chamar de linguagem não verbal ou
linguagem corporal.
A linguagem não verbal refere-se
à comunicação que ocorre sem o uso de palavras. Ela inclui expressões faciais,
gestos, postura, contacto visual, tom de voz e até o uso do espaço físico.
Esses elementos podem transmitir emoções, intenções e significados que muitas
vezes complementam, ou até contradizem o que é dito verbalmente. A linguagem
não verbal é fundamental para a comunicação eficaz, pois ajuda a interpretar o
contexto e a intenção por trás das palavras. Acresce ainda referir que muito
destes sinais, ocorrem de forma reflexa e não intencional.
E há personagens que pela
exuberância que adoptam quando comunicam, me levam a questionar se a linguagem
corporal e não verbal adoptada durante o discurso, estão em sintonia com a
mensagem que pretendem passar. É o caso de ex-Presidente Donald Trump. Quero
antes de continuar, fazer uma declaração de interesse: considero o indivíduo
algo estranho, ou talvez exótico aos olhos de um europeu. Se eu fosse
americano, nunca votaria em tal candidato. Igualmente todo o sistema político
americano, e particularmente a complexidade dos procedimentos eleitorais
causam-nos alguma estranheza.
Nesta campanha eleitoral, tenho
observado com alguma atenção a prestação dos dois concorrentes, no que à
linguagem não verbal diz respeito. Se Kamala Harris aparece aos nossos olhos
como um político “normal”, como aqueles que observamos por estas paragens; já
Donald Trumpo, revela uma linguagem não verbal, bem mais complexa e difícil de
desmontar. Por esta razão irei dedicar mais atenção à prestação deste
candidato.
Kamala Harris apresenta um
discurso simples, fluido, com ideias precisas e bem estruturadas adaptadas ao
tipo de assembleia a que se dirige. Assume, invariavelmente uma atitude alegre,
bem-disposta e positividade na comunicação. Toma uma postura descontraída, dá
gargalhadas quando refere algo alegre, gestos e expressões sem grande amplitude
apenas evidenciando, aqui e ali, uma ideia que precisa de ser evidenciada. As
mãos são mantidas à frente do corpo, abertas, com movimentos simples e de
amplitude mediana, raramente acima do nível dos ombros. Isto parece indicar
alguém amistoso, disponível para ouvir, para aceitar, ou sem nada a esconder.




Donald Trump tem uma
postura invariavelmente arrogante, altiva, insultuoso, narcisista,
antifeminista, ofensiva e desagradável. Uma presença demasiado formal (O tema
do homem do lixo, é um exemplo típico duma postura desconexa com o personagem).
Não tem um discurso estruturado, utiliza uma oratória básica, salta
frequentemente de tema e é muito repetitivo e tem seguidores indefectíveis no
eleitorado iliterado. Mas é no domínio dos gestos, das expressões faciais e
encenações, que evidencia alguns sinais que muitos classificam como verdadeiros
tiques. Quem já assistiu às suas prestações pode identificar com relativa
facilidade, que repete quase à exaustão uma série deles. Provavelmente como um
mecanismo de defesa. Como não se incomoda
com mentira, o uso repetitivo de gesticulação pré-estudada, pode ser percebido
como um meio para dar solidez com um discurso facilmente desmentido num
contraditório sério, a que ele repetidamente
Alguns destes gestos iremos tentar
desmontar, numa interpretação muito pessoal e certamente influenciada pela
minha discordância confessa relativamente à personalidade em apreço.
1.
O OK
Gesto: A pinça OK entre o polegar
e o indicador
Significado: Mostra convicção e
controlo da sua verdade.
Este gesto, assim como o polegar
levantado é repetidamente usado por Trump, e significa uma postura de convicção
de quem se acha o dono da verdade. Frequentemente, o “fact check”, como
se viu no recente debate na ABC News, veio repor que tanta certeza, afinal não
tem correspondência com a verdade.
2.
OK + L
Gesto: gesto OK emparelhado com
um dedo L a apontar alternadamente para cima
Significado – O polegar levantado
indica concordância ou aprovação, mas também há quem considere um gesto
ameaçador. Já o gesto L pode ter diferentes interpretações: na cultura
anglo-saxónica é referido como perdedor (looser), mas pode ter muitos
outros significados. Mas se o polegar for apontado (como uma pistola) a um
indivíduo ou assistência, pode significar um gesto agressivo e de uma certa
atitude de superioridade em relação aos demais. Dá ideia de quem tem a arma é
que dita as leis. Por outro lado, coloca em situação de inferioridade o
oponente, seja individualmente, seja a uma assistência. Trump tem usado este
gesto como reforço com estes dois significados.
3. O apontar (indicador em riste)
Gesto: Apontar agressivamente o dedo
Significado: Pode ter diversos
significados, consoante o contexto: como um sinal de autoridade e/ou
advertência; pode também querer indicar reprovação ou ameaça. Este gesto está
conotado com uma atitude ameaçadora de quem se sente em situação de
superioridade relativamente a alguém. Pode também ser um sinal de aviso ou de
reprovação. Não é à toa que o povo refere a este propósito: “Não se aponta
que fica feio” e “quando se aponta um dedo a alguém, os restantes apontam para
nós”.
4.Braços e as palmas abertas
Gesto: Abrir as palmas das mãos enquanto fala
Significado: Mostrar gesto de abertura, de convite de
aceitação
Este gesto em Trump é daqueles
onde parece não ser coincidente com a sua oratória. Se por um lado convida os
americanos a perfilharem as suas propostas, não se coíbe de insultar aqueles
que não as aprovam.
5 O Muro (parede)
Gesto: gesto de “fica aí” com as duas mãos juntas e a
empurrar uma parede imaginária
Significado: pode significar rejeição, defesa, impedimento,
bloqueio.
Há quem veja neste gesto uma
formas de dar consistência a algumas das bandeiras da sua retórica: os
imigrantes, a prometida deportação em massa de imigrantes ilegais, a construção
do Muro na fronteira com o México. O seu discurso populista assenta muito na
defesa do “nós contra eles”, e este gesto pode ser entendido como a forma de
interpor uma barreira, como a única forma de garantir o slogan Make America
Great Again.
Em resumo, muita da linguagem não
verbal praticada por Trump parece revelar muitas incongruências e contradições.
Ou seja, usa de forma repetitiva estes gestos referidos e muitas vezes
mistura-os todos num mesmo tema. Também é preciso recordar que Donald Trump foi
alguém que teve um programa de televisão - The Aprentice, que lhe deu um grande
à vontade em frente às câmaras. Esta experiência da televisão fez de Donald
Trump um verdadeiro intertainer e fez da sua prestação política uma
verdadeira actuação artística. O que me leva a ficar na dúvida se todos aqueles
gestos não aparecem de forma natural, e a tal contradição residir no facto de também
ser aqueles que surgirem de forma preparada e ensaiada. Ou seja, mesmo que a
linguagem corporal surgir espontaneamente, a maioria parece ser algo estudado e
treinado, o que pode ser explicado pelo elevado índice de rejeição que tem,
apesar de ter a preferência de muitos americanos.
É certo que o estudo desta
temática, permite muitas interpretações pela natural subjectividade da análise.
Por tudo isto, e não sendo eu um especialista, mas tão só um curioso, aceito
com a maior naturalidade qualquer outra leitura que se oponha a esta minha
análise.