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| Vila de Rabo de Peixe |
Como açoriano e micaelense, a viver fora há quase sessenta anos, sou frequentemente abordado sobre notícias e acontecimentos ligados à vila de Rabo de Peixe, e nem sempre pelas melhores razões. Confesso que é algo que me deixa desconfortável, não pela exposição mediática, mas por considerar que muitas dessas críticas revelam um profundo desconhecimento daquela realidade. Seja pelo sotaque carregado dos seus habitantes, seja pelos relatos de miséria humana e social, seja pelos problemas associados ao alcoolismo consumo de drogas (potenciado pela série da Netflix “Rabo de Peixe), seja ainda pelos recentes relatos de violência infantil numa creche daquela vila.
Todos estes acontecimentos não são
uma ficção. A vila sempre foi referenciada com graves problemas sociais. A pesca,
a sua actividade económica mais importante, nem sempre permite aos pescadores
da costa norte da ilha, aventurarem-se num mar traiçoeiro e que não contribui
para um rendimento digno dos que abraçaram aquela forma de vida. A
impossibilidade da pesca empurra muitos para o conforto do álcool e das drogas.
A tradição ou consequência, é responsável por agregados familiares numerosos
que só contribuem para agravar este problema.
Mas serão assim tão diferentes do
que se passa em muitos outros lugares deste país? Será que a demolição de
barracas em Loures, que está na ordem do dia, reflecte uma situação melhor do
que a de Rabo de Peixe? O número crescente de sem-abrigos um pouco por todo o
lado é algo que salta à evidência. As tensões sociais e a criminalidade existentes
nos bairros sociais, eufemisticamente chamados de “bairros problemáticos” na
periferia dos grandes centros urbanos, são menos preocupantes do que a
realidade que se observa em Rabo de Peixe?
Com certeza que não. Os recentes
episódios registados numa creche daquela vila, apontam o dedo a quatro
funcionárias, responsáveis pelas agressões a crianças à sua guarda.
Funcionárias essas que foram suspensas por decisão judicial. Mas ninguém se
questiona, se aquela creche não tinha um responsável que durante todos estes anos
não sabia o que se passava? Responsável este que, provavelmente, tem uma
competência técnica e profissional para implementar e acompanhar os
procedimentos pedagógicos, no seio da organização que dirige? Se não viu, é porque
não estava à altura da sua responsabilidade, se viu e , é tanto ou mais
responsável do que as funcionárias.
Tudo isto nos deve levar a
questionar o estigma (marca ou sinal que leva à desaprovação social e
preconceito) que está, indelevelmente associado a Rabo de Peixe é justificado?
Ou uma razão menos prosaica, como uma maldição (acto ou efeito de amaldiçoar,
ou seja, desejar o mal a alguém ou algo) lançada sobre aquela vila e as suas
gentes?
Recuso-me a aceitar qualquer uma
destes pressupostos. A verdade, porém, é que os problemas em Rabo de Peixe,
parecem não ter fim. Os apoios concedidos noutros locais, são idênticos aos que
ali são prestados. Naturalmente que as autoridades estão preocupadas com a
situação. Provavelmente, quando falham todas as soluções consensualizadas, a
solução terá de vir de dentro. Quem vive e sente todos este problemas estará
muito mais capacitado para encontrar a melhor solução.

