Do alto dos meus setenta e poucos anos dou comigo a pensar, o
que é que eu deixei à minha descendência? E sinto um misto de orgulho e pesar.
Sempre lidei mal com os sentimentos dúbios, mas aqui não consigo afastar um
deles.
Quando recebemos um filho, o sentido da responsabilidade toma
proporções de tal ordem elevadas, que a palavra que melhor define este
sentimento, é medo. Medo porque educar, não vem com nenhum livro de instruções.
Tem que ser uma experiência feita dia a dia, com base naquilo que é a nossa
percepção do mundo que nos rodeia, e a busca de sentido para que os nossos
filhos o possam enfrentar com o sentido de serem cidadãos dignos e
respeitadores da vida em comunidade, assente em dois pilares essenciais: a humildade
e a gratidão. Tudo isto assenta nos princípios e valores que nos foram
transmitidos, no meio onde formamos a nossa personalidade, e as influências que
recebemos de todos aqueles que se cruzaram no nosso caminho. Numa análise de
resultados, estou muito orgulhoso daquilo que consegui alcançar, pese embora a
natural posição de estar a falar em causa própria. E a minha maior satisfação é
o reconhecimento dos meus filhos pela educação que receberam.
Mas não posso esquecer o meu papel como cidadão activo, que
procurou ser sempre responsável e participativo na vida da comunidade onde me
radiquei. que tenta exercer as suas obrigações, com base nos mesmos princípios
e valores que adoptei na educação dos meus filhos. Nesta altura da vida, dou
comigo a questionar-me duas coisas: se os meus filhos hoje podem ter uma vida
melhor do que os pais tiveram, e que país vou deixar aos meus filhos? E aqui,
naturalmente, o sentimento é de profundo pesar. É inegável as melhorias conseguidas
para a sociedade pelo regime democrático, transformaram radicalmente, para
melhor a nossa existência enquanto povo. Que hoje, genericamente, todos vivemos
melhor, também não resta qualquer tipo de dúvida.
No entanto, as respostas aquelas duas perguntas, estão muito
longe de me deixarem tranquilo. Muito antes pelo contrário. Os jovens, a quem
nos compete entregar o testemunho, têm uma incerteza quanto ao seu futuro, como
nunca vimos até agora. Temos uma população jovem muito mais bem preparada do
que a minha geração, mas que estuda para conseguir um salário de 600/800 euros
e ainda assim, com elevada precariedade. De facto, a democracia trouxe-nos “a paz, o pão, habitação, a liberdade, etc.”.
Mas também nos trouxe: a enorme instabilidade social, o aumento do fosso entre
as classes sociais, a mediocridade de uma classe política carreirista, os
inúmeros casos de corrupção generalizada, que empurram o país para uma lógica
terceiro-mundista, a falta de perspectiva de futuro, as habilidades
contabilísticas para falsear os resultados da governação, o aumento
generalizado da nossa carga fiscal, a deterioração dos sectores da saúde,
segurança, educação e justiça; para falar apenas naquilo que tem mais visibilidade.
Mas há um aspecto que me traz enorme preocupação e que,
aparentemente, vejo muito pouco falada nos media – a nossa enorme dívida
pública. Ou seja, estes quarenta e cinco anos de democracia, serviu para deixar
a próxima geração, a responsabilidade de pagar uma dívida astronómica e para a
qual ela pouco contribuiu! Sinto-me responsável, porque foi a minha geração que
permitiu tal estado de coisas. Foi a minha geração que exerceu o seu papel,
escolhendo sempre o voto útil, como o menor dos pecados e, o resultado é aquilo
que se pode ver!. Foi a minha geração que se sentiu incapaz de dizer basta ao compadrio
de uma classe política que tratou primeiro de si, antes de pensar no bem comum.
Foi a minha geração que acha normal e democraticamente justificável, aceitar um
governo com uma grande parte de figuras de um executivo anterior, que além de ter
levado o país à bancarrota, viu o seu líder a braços com a justiça e a quem são
imputados 31 crimes. Foi
a minha geração que tornou possível a inversão de um princípio de que os filhos
ajudavam os pais na velhice. O que verificamos é uma geração, sem horizontes,
com empregos de miséria, sem perspectivas de futuro e que para iniciarem uma
vida independente, não o podem fazer sem a ajuda dos pais.
Por isso, a Dívida Pública,
é algo que estes mesmos jovens vão ter de pagar, num cenário de baixos
salários, e de grande precariedade laboral e de grande instabilidade social.
Temos que convir que se trata de um “testamento” muito cruel. O acto de
contrição que agora apresento, mais não é do que o reconhecimento, da
responsabilidade que assumo completamente. Mea Culpa!
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