Marta Temido foi sempre uma
ministra que na sua acção congregou amores e ódios. Exerceu o seu mandato de
uma forma presumida, nada dialogante e, sobretudo, muito focada na sua verdade
sem dar ouvidos a nada nem a ninguém. Tinha uma visão do que era o SNS
orientada por questões meramente ideológicas, sem dar atenção às razões de mera
gestão prática de um sector gigantesco, e que envolve uma miríade de problemas
e fragilidades. Tem muitos defensores indefectíveis, que não se cansam de tecer
loas à sua boa governação, sacrifício e tenacidade. Sobretudo quando lhe
atribuem o grande mérito de ter conduzido a luta contra a pandemia e o sucesso
desse trabalho. E muito dele se deveu à bem-sucedida intervenção ao nível da
vacinação de gouveia e Melo. Eu sou dos que não me incluo nesse grupo.
A luta contra a pandemia foi um
sucesso porque se concentraram todos os meios do SNS no seu combate, deixando de
fora todas as patologias que por essa circunstância não desapareceram. É no
mínimo injusto para todos aqueles profissionais, que prescindiram de todo o
conforto e comodidade e se disponibilizaram para tratar do seu semelhante.
Refiro-me naturalmente a médicos, enfermeiros, auxiliares, bombeiros, forças de
segurança, apenas para referir os mais importantes. Sem o seu contributo, o
sucesso português não teria sido alcançado. No entanto, os louros deste sucesso
capitalizou-o Marta Temido.
Muitas foram as polémicas
protagonizadas pela ministra demissionária: Foi também uma ministra que foi
muito pouco dialogante com todos os profissionais do SNS. Manteve uma luta
destemida para reverter todas as parcerias com os privados, mesmo nos casos em
que estes apresentavam melhores índices de rentabilidade que no público.
Recusou-se a negociar com os enfermeiros, quando estes estavam em greve,
alegando que era como “privilegiar o criminoso”. Numa entrevista a uma
TV afirmou, com total insensibilidade que o que era necessário “enterrar os
mortos e cuidar dos vivos”. A sua
insensibilidade levou-a a afirmar que o SNS precisava de “médicos mais
resilientes”. Também, é da sua autoria uma proposta que penalizava os médicos
que realizassem interrupções voluntárias de gravidez. Também não se coibiu de
telefonar a directores hospitalares a pedir cancelamento de férias dos
profissionais de saúde.
É esta ministra que recebeu a
simpatia de muitos portugueses, e o próprio PS estendeu-lhe a passadeira
vermelha, entregou-lhe o cartão partidário, tendo mesmo sido apontada como uma possível
sucessora de António Costa.
É também esta ministra que,
perante o caos em que vive actualmente o SNS, atribui as culpas a decisões
tomadas nos anos 80. Como se a contratação de 30.000 profissionais de saúde e
vultuosos investimentos no sector, não apontassem para uma gestão ruinosa do
sector, apesar deste esforço.
António Costa vinha revelando há
já algum tempo algum distanciamento da ministra. Toda a gente percebe que o
problema principal do SNS é um problema de gestão de meios e de recursos, que
manifestamente Marta Temido revelou uma absoluta incapacidade de resolver. Se no
passado o primeiro-ministro respaldou sempre a sua ministra, desta vez aceitou,
sem pestanejar, o seu pedido de demissão – sintomático! Só não se percebe muito
bem, porque vai manter uma ministra desgastada e incompetente, a tomar conta
dos destinos de um sector a viver momentos tão conturbados!
Por tudo isto, a demissão de
Marta Temido peca por tardia. Há muito que já não tinha condições para exercer
o seu mandato. Será tempo de calçar as pantufas e ouvir o hino da
Intersindical, como ela tanto gosta.
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