No mesmo dia em que ao fim de 12
anos se inicia o julgamento de José Sócrates, perde a vida num estúpido
acidente de viação uma promessa do futebol português, com apenas vinte oito
anos de idade e o seu irmão.
O contraste entre estes dois
protagonistas dos acontecimentos que marcaram o dia de hoje, não podia ser mais
contrastante. De um lado, falamos de um jovem de ascendência humilde, que
construiu a sua carreira com muita esforço e empenhamento. Foi sempre um atleta”
low profile”, sem tiques de vedeta e de quem ainda se esperava muito. Por
outro lado, temos alguém que, sem se perceber bem como, atingiu o cargo máximo da
governação do país! Fez sempre uma vida, a julgar pelos sinais exteriores de
riqueza, muito acima das condições objectivas que o cargo lhe podia garantir.
Esta triste coincidência da morte
do atleta, veio roubar o protagonismo, que José Sócrates muito provavelmente,
aspirava ter para o seu julgamento, aliás como era seu timbre. Por muitos
defeitos que lhe possam atribuir, há que reconhecer que José Sócrates era um
exímio comunicador, e aproveitava todas as oportunidades para “vender a sua
verdade”. Ainda o julgamento não tinha começado, José Sócrates arranjou uma
confusão com um funcionário judicial e teve de ser admoestado pela juíza.
De resto o que se esperava de
alguém que ocupou o cargo de primeiro-ministro, e que foi alvo de um processo
judicial, onde era acusado de uma série de crimes graves, era que aproveitasse,
tão breve quanto possível, o julgamento para provar a sua inocência. Sócrates
fez exactamente o contrário. Utilizou todos os recursos que o sistema judicial
português lhe concedia, a fim de atrasar o julgamento, até que prescrevessem a maior
parte dos crimes de que era acusado. Segundo o Jornal OBSERVADOR, José Sócrates
apresentou mais de 100 recursos e incidentes processuais. E, aparentemente, mais
de 80% deles, não tiveram provimento.
Para alguém que ocupou um dos
mais altos cargos da governação esperava-se muito mais. Esperava-se alguém que
não vivesse de “esmolas” (apoio financeiro: da mãe, do amigo Santos
Silva e do primo). “esmolas” essas que não eram de tão pouca monta.
Alguém que fazia da ostentação o seu cartão de visita. Eram os fatos Armani, eram
as férias em resorts de luxo, era a vida faustosa em Paris, eram as obras do
apartamento de luxo numa das avenidas mais badaladas da capital francesa. Eram
as “coisa de que eu gosto muito” que eram exigidas ao amigo Santos Silva.
Também se pode especular sobre a vida de um aparente conforto que tem na
Ericeira, em casa que se sabe estar em nome do seu primo José Paulo. Já para
não falar nas custas judiciais que não devem ser de pequena monta e dos
honorários dos seus advogados. Convenhamos que para quem não tem fortuna que
viveu sempre da solidariedade da mãe e do amigo, é algo difícil de engolir.
Vem tudo isto a propósito da presunção
de inocência, que é um princípio sagrado do Direito, a que toda pessoa acusada
de um crime é considerada inocente até que sua culpa seja comprovada por uma
decisão judicial transitada em julgado. Mas convenhamos que no caso do ex-primeiro-ministro,
é algo difícil de engolir, por várias razões. A primeira é que José Sócrates
não pretende ir a julgamento e provar a sua inocência. Em segundo lugar, todos
os recursos apresentados não tiveram outra intenção que não fosse atrasar o processo.
E em terceiro lugar, Sócrates nunca ter arranjado uma explicação convincente e
sustentada para o tipo de vida que alguém sem recursos conseguia garantir.
O dever de consciência leva-me a
presumir a sua inocência, mas a razão insiste em dizer exactamente o contrário.
Espero que o julgamento possa ser rápido, imparcial, mas implacável com quem
consumiu avultados recursos, pagos por todos nós. Só então conseguirei perceber
o que estava certo, se a minha consciência, se a minha razão.

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