Conheço o Dr. João Bosco da Mota Amaral
há já muitos anos. Nem sempre estive de acordo com as suas decisões e prática
política, mas tenho que reconhecer o seu valioso contributo para o processo
autonómico açoriano. Foi sempre alguém que se distinguiu, desde os tempos de
estudante no Liceu Nacional de Ponta Delgada. Também de evidenciou como estudante
universitário, fez parte da Ala Liberal, foi fundador do PPD, foi Presidente do
Governo Regional dos Açores, foi eleito deputado e Presidente da Assembleia da
República, foi colaborador de muitos jornais e revistas, apenas para falar nos
cargos mais importantes que desempenhou ao longo dos tempos. Há já alguns anos
que se retirou da vida política activa, mas não deixou de estar activo como
cidadão. Ou seja, é alguém, cujo curriculum fala por si mesmo. A sua disponibilidade
para se candidatar a representar no Parlamento europeu a sua região, só pode
merecer a nossa total compreensão.
O Dr. Rui Rio, por muito que se esforce,
só com muita dificuldade pode ambicionar, ter o prestígio e um percurso,
político comparável ao do Dr. Mota Amaral.
O problema da exclusão do um
candidato às Europeias que represente os Açores, não pode ser visto apenas,
numa lógica partidária ou pessoal. O problema não é de ordem pessoal. O Dr.
Mota Amaral não será pessoalmente afectado por este gesto autoritário, de alguém
que não compreende, nem os limites da autonomia e da própria democracia, por
quem o visado tanto se bateu; nem tão pouco, a irracionalidade de atribuir ao,
eventualmente, eleito pela região madeirense a responsabilidade de representar
os açorianos!
O que é grave é que os Açores e
as suas gentes se sentem, desprezados, marginalizados e muito longe dos tempos
em que o PSD, no Açores ganhava sucessivos desafios eleitorais com maioria
absoluta. Aí, o Dr. Mota Amaral, era sistematicamente venerado, pelo prestígio
que estas vitórias, conferiam ao partido no seu todo. Os tiques de centralismo
e de arrogância autoritária, emanados desta decisão, não auguram nada de bom,
nem para a Região Autónoma dos Açores e, muito provavelmente, com a muito previsível
derrota que o Dr. Rui Rio irá sofrer nos embates eleitorais que se avizinham
(vejam-se as sondagens), para o próprio PSD. E será como entregar a “arma ao
bandido”. Ou seja, dar trunfos eleitorais aos partidos que se opõem ao PSD, sem
que para isso necessitem de se esforçar muito. O próprio cabeça de lista do
partido, Dr. Paulo Rangel, quando questionado sobre esta decisão, foi notório o
seu incómodo.
A processo autonómico foi um anseio
antigo dos açorianos, lento e difícil de estabelecer. Muitos, ainda hoje não
entendem nem aceitam as dificuldades de quem vive numa região ultraperiférica, muito
em particular, aqueles que, por dever de ofício, tinham a obrigação de defender
e trabalhar no seu fortalecimento para a tão apregoada coesão nacional.
Não se admirem da resposta dos
açorianos para esta afronta. Somos talhados pelo mar e pelo basalto. Afáveis
com quem nos visita, agradecidos a quem nos ajuda, mas não esquecemos, nem os
traidores, nem quem nos trata mal.
Por convicção não tenho nem
filiação, nem simpatia partidária. A mediocridade da prática política e dos
protagonistas partidários, causa-me algum desconforto. Por isso, há já muito
tempo que, quando sou chamado a votar, o faço sempre em branco, por não me sentir
representado por nenhuma das forças concorrentes. Como açoriano e, caso
votasse, nunca seria no PSD, com certeza.
Sem comentários:
Enviar um comentário