Há quem diga que Santarém ficou amaldiçoada
por este episódio, descrito na página Santarém Digital: “Em 1491 morreu em Santarém o príncipe
herdeiro D. Afonso, filho único do rei D. João II e recém casado com a Infanta
D. Isabel, filha dos reis católicos de Espanha, quando corria a cavalo entre
Alfange e a Ribeira, caindo e ficando esmagado pelo animal”. Diz-se que com o desgosto, o rei
abandonou, definitivamente a cidade e que lhe lançou esta maldição, condenando-a
ao abandono, a partir daí.
Por convicção e formação,
recuso-me a aceitar esta lenda como uma fatalidade para Santaré e as suas
gentes.
Com uma localização privilegiada,
tem condições geográficas únicas, quer dum ponto de vista estratégico, quer dum
ponto de vista do seu potencial agrícola., já para não referir os séculos de
história, que se escondem nas suas vielas estreitas, testemunhas mudas do muito
que aqui se passou. É por direito próprio, a capital da mais fértil região do
país. Não será por acaso, que a cidade despertou a atenção, ao longo dos
séculos, de Fenícios, Gregos, Cartagineses, Romanos, Visigodos, Muçulmanos,
etc.
Quanto á sua posição geográfica,
Santarém encontra-se a meio do pais, com uma equidistância dos seus limites geográficos
naturais. Junto a ela passa o maior rio português, o Tejo, e a que a cidade, há
muito voltou costas. É servida pela mais importante estrutura ferroviária do
país, a Linha do Norte, embora com uma localização errada. É atravessada por
duas auto-estradas, que representam um importantíssimo eixo de distribuição
rodoviária, entre o Norte e o Sul e entre o Litoral e a zona Raiana. Com uma
proximidade da capital, não tem conseguido utilizar esta prerrogativa, como polo
catalisador, para o desenvolvimento de uma estrutura, industrial, logística e
comercial.
Todo este enquadramento
geográfico e histórico criou uma camada social proeminente, extremamente
fechada, autoconvencida da sua importância na cidade e na região, assumindo
perante a cidade, um confrangedor imobilismo.
De um ponto de vista turístico,
lamentavelmente, nada foi feito, para trazer o visitante até nós e “fazê-lo”
desfrutar do muito que a cidade, a sua história e património monumental tem
para oferecer. O que se observa é, precisamente, o oposto. Igrejas e monumentos
fechados e por vezes sem qualquer tipo de informação, relativamente à sua
história e importância. O Convento de São Francisco, normalmente utilizado para
actividades, culturais e, apesar da sua importância histórica e dignidade do
local, não apresenta um mínimo de conforto, para muitos dos eventos que ali têm lugar.
A construção do CNEMA, como
estrutura concebida para a realização de mercados agrícolas e Centro de
Exposições, nunca atingiu a sua finalidade plena.
A Feira Nacional de Agricultura,
por um atavismo incompreensível, tem vindo a perder a sua importância, devido a
dois problemas fundamentais e há muito identificados e apontados pelos
profissionais do sector: o desajustamento temporal da sua realização (em plena
época alta da actividade agrícola); e pela sua duração (qualquer feira agrícola
de renome, tem uma duração de 2/3 dias e, nunca é realizada após o 1 da Maio).
O CNEMA dispõe de condições ideais para a sua realização, mas temos observado
que os locais mais nobres daquele espaço, têm vindo a ser destinados a outras
actividades, que nada, ou muito pouco têm a ver com o sector agrícola. Esta
oportunidade perdida, foi aproveitada pela AGROGLOBAL que, em Valada, a poucos quilómetros
de Santarém, realiza um evento, que já granjeou fama dentro e fora de portas e,
na qual,: agricultores e expositores, encontram as condições ideais para a
realização de tal evento.
A Feira da Gastronomia, uma realização
que muito orgulha os escalabitanos, e que constitui uma referência e que, desde
sempre, me pareceu de muito pouca importância para a cidade propriamente dita.
Se não vejamos. É feita num espaço que, definitivamente, não foi concebido para
aquela finalidade. Os imperativos de segurança exigidos para aquele espaço e um
evento daquele tipo são, manifestamente, aquém dos mínimos exigidos. A sua centralização
num único local, é desmotivadora, para quem nos visita conhecer a cidade,
apesar dos óbvios benefícios de ordem logística. Por norma apenas um
restaurante da cidade tem representação no evento. Porque não a sua
distribuição pelos diversos locais da cidade. Para além do pagamento pelo espaço
ocupado e pelas despesas efectuadas com o alojamento dos expositores, todos os
recursos gerados, não ficam na cidade.
O centro histórico da cidade está
a passar pro um processo de desertificação clamoroso e caiu num preocupante círculo
vicioso. Não havendo gente, não há comércio e vice-versa. Tenho ouvido muita
gente culpabilizar o aparecimento do W Shopping por esta situação. Não me
parece justo. Veja-se o caso dos minimercados, que sofreram com a instalação de
muitas superfícies comerciais (Hipermercados), e que tiveram a capacidade de se
adaptar a esta nova realidade e de apresentar um serviço diferenciado. Para o
Centro histórico torna-se imperioso e urgente fazer alguma coisa, como forma de
atrair as pessoas para ali viverem. Talvez a recuperação de muitos imóveis
abandonados, como residências de estudantes, fosse uma ideia interessante. A transformação
de alguns desses edifícios em estacionamento gratuito para os residentes, e
redução de taxas municipais, fosse outra forma de atractividade e fixação de
uma população jovem.
É clamoroso o estado a que
algumas zonas da cidade se transformaram. O estado dos passeios é, para além de
uma vergonha, um verdadeiro perigo para que os utiliza, E convenhamos, com
muito pouco dinheiro, seria possível ao município resolver esta situação. Por
exemplo. o semáforo existente no início da Av. D. Afonso Henriques caiu, há
mais de dois meses. Os fios eléctricos estão enrolados no chão e uma baia a delimitar
o espaço!?!? Será que nada se pode fazer? Temo que esta seja, mais uma situação
transitória e que irá tornar-se definitiva.
Fala-se agora na requalificação
de vários espaços de Santarém. Já aqui me debrucei sobre alguns deles: A instalação
de uma Casa do Benfica numas instalações do Jardim da Liberdade Link,
A requalificação do Mercado Municipal Link
. A construção de uma Casa Mortuária no Bairro Salazar é uma ideia aberrante e
sem qualquer justificação aceitável. E, ainda, a requalificação da Av. D.
Afonso Henriques. Espero que estas intervenções sejam bem pensadas, tendo em
conta a realidade dos tempos que vivemos e que, não se tornem em mais uma
oportunidade perdida. Os escalabitanos merecem mais.
Agora que tanto se discute a
cidade, dou comigo a pensar que a tal maldição parece fazer sentido!
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