quinta-feira, 21 de maio de 2020

AS PRESIDENCIAIS DO NOSSO DESCONTENTAMENTO


As eleições presidenciais pelo seu carácter universalista, representam aquilo que a democracia tem de mais puro. – a eleição de alguém, que em nome individual, se sujeita ao escrutínio popular. Tenho por isso, votado de forma consciente e responsável em todos os momentos que a escolha do mais alto representante da nação teve lugar. Algumas vezes tive a noção de que o meu voto fez todo o sentido. Outras, porém, tenho a consciência de ter contribuído para colocar naquele lugar alguém que, pelo mau uso que fez do poder que lhe foi democraticamente atribuído, causou-me uma enorme desilusão. Marcelo Rebelo de Sousa é um exemplo disso mesmo.
Na sua primeira eleição dei-lhe o meu voto por entender que era o candidato mais bem posicionado para representar todos os portugueses. Tinha uma visão moderada para a solução dos momentos difíceis porque o país passava; era um brilhante académico, com uma vasta experiência política e partidária e alguém que granjeava uma considerável aceitação popular.
Alternativamente disputava estas eleições com um candidato de enorme craveira intelectual e humanista, mas que se encostou a uma esquerda, com a qual eu não me identifico.
Marcelo Rebelo de Sousa imprimiu ao seu mandato um cariz populista que conquistou rapidamente o coração dos portugueses. Por outro lado, desenvolveu com António Costa uma relação de entendimento generalizado e que permitiu que o actual governo, apesar de muitas trapalhadas pelo meio, tivesse tido uma prestação tranquila.
A ambição de Marcelo por um segundo mandato é indisfarçável. Pior do que isso, a sua incomensurável vaidade e por aquilo que é possível observar, quer ser reeleito por um score superior a todos os seus antecessores, nem que para tal tenha de vender a alma ao diabo. Todos os episódios observados, tendo como pano de fundo as próximas eleições presidências apontam nesse sentido, e secou à sua volta toas as possíveis alternativas. Ou seja, Marcelo está convencido de um resultado triunfal.
António Costa pela sai enorme argúcia política, viu que não tinha nenhum candidato à altura para que o resultado das próximas presidenciais fosse desastroso, ou pior do que isso, humilhante. Claro que o nome de Ana Gomes é referido com alguma insistência por muitos socialistas. António Costa percebe, que esta correligionária em São Bento, ele nunca teria a vida tão facilitada como a que Marcelo lhe proporcionou.
António Costa previdente como é, e antes que algum nome saltasse para a praça pública, faz aquela lamentável encenação na Auto Europa, propondo o nome de Marcelo como o candidato do PS, aparentemente sem consultar os órgãos partidários. Fê-lo na condição de primeiro ministro e não de secretário geral, o que lhe ficou muito mal. Por seu lado, Marcelo Rebelo de Sousa, que tem vindo a fazer um tabu relativamente ao anúncio de uma possível recandidatura, apressou-se a aceitar com alguma candura, tão apetecido e “inesperado” apoio. Claro que esta atitude originou uma grande agitação no seio do partido. Como seria de esperar, Manuel Alegre e a própria Ana Gomes, fizeram ouvir o seu protesto.
Penso que “a procissão ainda vai no adro”. Se a manobra de António Costa pode ter agradado a muitos socialistas, certamente haverá muitos outros que nela vêm uma traição à tradição do partido ter o seu próprio candidato. Ana Gomes disse que ia pensar sobre o assunto. Se muitos socialistas repudiam o seu desassombro, muitos há que lhe reconhecem, coragem, competência e representatividade ideológica.
A novela que teve o seu primeiro episódio na Auto Europa está aí para durar. Pelos vistos tem tudo o que uma telenovela deve ter: grame, comédia, traição, ciúme, paixão, suspense, etc. Vamos ver se o animal político que é António Costa tem a habilidade de fazer pender o final para o seu lado, ou vai ter que aceitar um candidato que não é o seu.
Também é preciso não esquecer Marcelo. Como é que ele vai lidar com todo este imbróglio. Será que os candidatos que vão aparecer, lhe vão dificultar a vitória? E como é que vai ficar a sua relação com o primeiro ministro? Neste enredo,  António Costa ainda pode ter de engolir uma Vichyssoise, mesmo sem gostar.
Nada desta trapalhada contribui para a dignificação da política e dos seus agentes. Quanto a mim, já tenho uma certeza, já sei em quem NÃO vou votar.

1 comentário:

  1. Um Senhor está feliz e o outro contente. O povo vai na corrente...
    Ora digam lá à gente, para onde vai este país?

    (Versão pimba,adaptada cá pelo "JE"!)

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