Que o 25 de Abril seja uma data
para assinalar, disso parece não haver a mais pequena dúvida, mas faze-lo da
forma habitual e bafienta, numa série de longos discursos, cheios de lugares
comuns, não me parece a forma mais digna de honrar aquele dia, determinante
para a instituição do processo democrático no nosso país. Particularmente numa
altura como a que agora vivemos, em que o país se encontra em “estado de emergência”,
realizar uma sessão parlamentar naqueles moldes é, do nosso ponto de vista, um
desrespeito áquilo que foi imposto ao povo português.
A minha geração sabe o que é que
foi o 25 de Abril. Sabe e conheceu o antigo regime. Sabe, com maior ou menor
exactidão, as motivações que orientaram os capitães. Sabe também da forma tortuosa
como alguma ideias que orientaram aqueles nobres lutadores, foram desvirtuadas
e por pouco não se chegou a um regime muito idêntico ao anterior, apenas que de
sinal contrário. Mas se perguntarmos a nova geração se revê na fórmula adoptada
para as comemorações oficiais daquela efeméride, duvido muito que ela lhes diga
alguma coisa e muito menos os motive para uma participação mais activa no
processo democrático.
Por isso, insistir numa fórmula
estafada, numa absolutamente excepcional, apesar de destinada a um número limitado
de participantes, não me parece a melhor opção. Sabemos que muitos destes convidados,
pela sua idade, representam uma faixa da população de alto risco para o COVID
19. Numa altura em que se pede á população que cumpra as determinações de um
confinamento e afastamento social. Quando se impede que os católicos festejarem uma data de
enorme significado para eles. Quando se limita o número de pessoas numa farmácia
ou num supermercado. Quando se insiste com os portugueses para que fiquem em
casa e respeitem as orientações confinamento social, como medida de carácter
sanitário. Quando se impedem alguns empresários de continuarem a sua
actividade, para evitar situações de aglomeração. Não faz muito sentido, as
comemorações nos moldes em que vão ser efectuadas. Com um pouco de imaginação
seria possível, fazer outra coisa mais consentânea com o momento presente. Não
porque a data não o mereça, mas porque o formato, representa uma contradição
com aquilo que, numa altura de “estado de emergência” se pede ao cidadão, e
muito bem.
Ferro Rodrigues não conseguiu
evitar a sua falta de isenção, depois de um parlamentar ter defendido
exactamente isto. A sua intervenção após
aquele discurso, configurou o papel de representante da maioria que lhe fica
muito mal, o que também não admira. Um parlamentar dar voz a uma ideia de
sentido contrário da maioria parlamentar, não constitui a violação de qualquer princípio
regimental ou democrático. O papel do presidente da AR era respeitar este
princípio e não emitir uma opinião, cujo resultado não depende da sua vontade.
Uma vez mais esteve mal, dando assim argumentos a intervenções populistas, por
desrespeito a um preceito inalienável da democracia, a liberdade de expressão.
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