Quando em 2016 o PS arranjou uma solução governativa, a que mais tarde ficou conhecida por “geringonça”, considerei uma solução errada, apesar de toda a legitimidade que suportava. Errada porque assentava em três pressupostos difíceis de entender:
O primeiro, quebrou-se o mito de
um certo antagonismo ideológico entre o PS e o PCP. Este antagonismo pode ser
observado em diversas ocasiões, como no debate que opôs Mário Soares e Álvaro
Cunhal. Mesmo em vésperas dessas eleições, António Costa em debate com Gerónimo
de Sousa, se queixava disso mesmo: dos comunistas preocupavam-se mais em
combater o PS do que malhar na direita.
Mais estranha parece ainda a
ligação ao BE. Este partido, reúne no seu seio um conjunto de sensibilidades
ideológicas (trotskistas, marxistas, maoistas) que nunca se entenderam entre si
e com princípios programáticos, que não passa de um conjunto de ideias desgarradas.
Já para não falar, que se trata de uma força de extrema esquerda, que o PS
sempre contestou e rejeitou.
Finalmente este acordo foi alcançado
de uma forma algo bizarra. Ou seja, foi redigido um acordo, individualmente com
cada uma destas forças, separadamente à porta fechada e sem qualquer responsabilidade
governativa. Naturalmente, passou-se assim, por existirem profundas
divergências entre os parceiros.
Tal como se podia antever, mesmo
durante a primeira legislatura, observaram-se algumas divergências, agravadas
agora na aprovação do actual Orçamento de Estado. Quer o PCP, com uma estrutura
ideológica muito firma e um eleitorado muito fiel, quer o BE com as suas muitas
sensibilidades, perceberam que tinha muito mais a perder do que a ganhar se
persistissem num apoio continuado ao governo.
As eleições para a Assembleia
Legislativa dos Açores tiveram um desfecho semelhante ao verificado em 2016. O
partido vencedor, perde a maioria absoluta e não consegue arranjar consensos para
formar uma nova geringonça.
O PSD, afastado do poder há mais
de 20 anos, não resistiu à tentação e formar a sua própria geringonça, nem que
para isso tenha de vender à alma ao diabo. O anúncio de uma solução liderada
pelo PS, CDS e PPM, apesar da celeridade encontrada neste entendimento,
necessita de uma arranjo político suplementar, com vista a encontrar suporte
parlamentar para arregimentar os 29 deputados necessários para garantir a
estabilidade necessária. Isto só se podia concretizar com o apoio explicito de
um partido extremista como o Chega.
Esta nova “geringonça”, tal como
a outra, tem igual legitimidade, mas tem tudo para correr mal. As exigências
que cada uma destas forças vai exigir para a viabilização de uma solução
governativa estarão dependentes da satisfação de algumas exigências, não augura
nada de bom. Os Açores pela realidade socioeconómica que vive; por uma
governação desastrosa do PS nestes últimos 24 anos; com os efeitos da pandemia
e com a grave crise económica e social que já se faz sentir, vai exigir uma
enorme capacidade ao governo, e uma estabilidade política no entendimento entre
os partidos que o irão suportar. Gostava muito de estar enganado. Parece-me que
esta solução não vai durar uma legislatura completa e que a cadeira do poder
vai trazer a tentação de correr com uma estrutura da administração regional,
leiam-se - amigos, para lá colocar outra (amigos) com as cores da nova “geringonça”.
Para mim, deveria ser o partido
vencedor a formar governo e que o apoio deveria ser alcançado com arranjos
parlamentares que pudessem garantir simultaneamente, a estabilidade política
suficiente para as necessárias medidas reformistas que urge implementar. No
entanto, reconheço que os resultados eleitorais observados, essa convergência
será muito difícil de conseguir. As dificuldades qualquer um pode imaginar, mas
consequências vão ser suportada pelos mesmos, como habitualmente.
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