quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

NÃO! NADA IRÁ FICAR COMO DANTES

O ano que todos estamos a viver(?) revelou-se de uma crueza tal, que pôs em causa, tudo aquilo que podíamos imaginar pudesse atribular-nos a vida. Provavelmente não estávamos preparados para vivenciar uma pandemia com esta dimensão. Quando nos pomos a imaginar um ser vivo de dimensões microscópicas, que pode ser vencido com uma simples saponária, pudesse ter um impacto de tal ordem que abalasse as vidas de todo e qualquer ser humano, independentemente do seu estatuto social, da sua robustez física ou de qualquer outra característica que possamos imaginar, seria algo impensável.

“Dos fracos não reza a história!” Mas esta história provou-nos que todos somos fracos, incapazes de um combate cara a cara com este inimigo por mais coragem que tenhamos. A melhor atitude que podemos usar nesta luta é: o isolamento físico, o confinamento social e meia dúzia de vulgares medidas de ordem sanitária. Com tudo isto tornamo-nos autênticos pássaros engaiolados, que quando lhes abrem a porta têm receio de sair, porque a liberdade do exterior é muito mais perigosa do que as grades que nos prendem.

O simples facto de que, cada um de nós pode ser um portador assintomático, impõe-nos o dever de consciência de evitar todo e qualquer tipo de proximidade com aqueles que nos são próximos. Isto interfere directamente com a nossa necessidade de socialização.  Separa famílias, amigos, colegas de trabalho e demais relacionamentos. Se isto para um cidadão comum, com uma estrutura familiar normal já é muito complicado, fácil é concluir que para a população mais idosa, vivendo, muitas vezes, em condições de objectiva solidão, o caso toma proporções bem mais assustadoras.

As autoridades sanitárias, pesem embora as muitas e inaceitáveis contradições, estabeleceram medidas indispensáveis e rigorosas na fase inicial da pandemia, através de um combate musculado. Numa fase posterior, muitas dessas decisões foram tomadas, a reboque dos acontecimentos e com decisões iguais no tratamento de situações diferentes, e decisões diferentes para acontecimentos semelhantes. Muito se falou na segunda fase, mas pelos visto, ela apareceu sem que um planeamento eficaz tivesse sido preparado com alguma coerência.

 Se é certo que, pelo menos numa fase inicial, ninguém estaria preparado para lutar com um inimigo desconhecido, muito mais podia ter sido feito e preparado, para esta segunda vaga. Sempre que sobre este quadro nos questionamos, nasce a ambígua circunstância de que, por um lado a lei obriga-nos a ficar em casa, a recolher obrigatório, a cercas sanitárias, à proibição de saída do concelho, mas por outro, deixam ao livre arbítrio de cada um, a toma da vacina - a mais aguardada e eficaz panaceia de combate a esta pandemia. Pior do que isso, é que muitas das vítimas que recorreram aos cuidados de saúde, se viram privados da companhia, do carinho e do apoio dos familiares, por demasiado tempo. Muitos deles, acabaram os seus dias, isolados numa cama de hospital, de uma forma solitária e pouco digna. O sofrimento que isto pode provocar aos entes queridos, irá certamente ter repercussões que ninguém poderá imaginar,

Uma característica do ser humano é a sua iminente necessidade dos relacionamentos. São em primeiro lugar, entre os membros do agregado familiar, do grupo de amigos próximos, e todos com quem partilhamos relações de proximidade. E foi isso que a pandemia nos tem impedido de realizar. A celebrações tradicionais, os aniversários, os casamentos e, até mesmo os funerais só são permitidos a um restrito número de acompanhantes. Os encontros de amigos foram-nos de todo vedados e, mesmo em situações fortuitas, há que garantir um certo distanciamento social.

Se o ano de 2020 trouxe a cada um de nós uma série de desagradáveis surpresas, os tempos que se aproximam, não nos vão trazer melhores dias. Se, como esperamos, a vacinação pode representar uma réstia de esperança no controlo sanitário, a crise social que, fatalmente, nos irás atingir, poderá ter consequências que irão perdurar por muitos e muitos anos. Para além disso, as relações sociais, como até aqui as entendíamos, seja por receio ou por obrigação de consciência, nunca mais irão ser as mesmas.

Sou um optimista por natureza e convicção, mas não consigo subscrever a teoria que “tudo vai ficar bem.” Não! Nada irá ficar como dantes. Este problema não é um problema nacional. Ele estende-se a nível universal. Um país com graves assimetrias sociais, com uma enorme dependência externa, assolado com graves problemas internos, vai ter muitas dificuldades em resolver todos estes dilemas em tempo útil. O politicamente correcto recomenda-nos uma adaptação ao “novo normal”. Gostava muito de estar enganado e que, rapidamente, pudéssemos voltar à normalidade de que estávamos habituados. Receio bem que não.

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