Não deve haver ninguém em
Portugal que não possa ter este tipo de reacção quando se fala de Jerónimo de
Sousa, pese embora diferenças ideológicas que os separam. É um político que
conseguia estabelecer uma empatia natural com a generalidade das pessoas. Mesmo
quando debitava a cassete oficial dos comunistas, sabia ser cordato, revelava
polidez, lisura, simpatia, sem nunca perder a sua postura de comunista
empedernido. Dito por outras palavras, independentemente das diferenças que o
separavam da globalidade dos portugueses, penso que ele se encaixa
perfeitamente naquele princípio muito nacional de o considerar – um gajo
porreiro.
Isto faz-me lembrar um episódio
passado nno início da minha vida profissional. Um dia, na empresa onde trabalhava,
foi criado um departamento de compras. O episódio foi apresentado a alguns
responsáveis pelo administrador, salientando que tinha pensado num determinado colega
para a chefia deste novo departamento, e queria saber a opinião dos presentes
sobre o perfil do indigitado para o cargo. Genericamente todos concordavam com
a escolha, e quase todos a justificavam-na, por a dito colega ser um gajo
porreiro. O administrador, respondeu, mais ou menos isto: pobre daquele que
o melhor que os amigos têm para descrevê-lo, que é um gajo porreiro.
Por razões de saúde decidiu
deixar a liderança do PCP, e à boa maneira comunista, tudo foi tratado no mais
rígido sigilo e, com um resultado inesperado, com a indigitação de um
desconhecido funcionário do partido. Que, ao contrário do Jerónimo de Sousa,
que foi efectivamente operário, este a única actividade profissional que teve,
foi ser funcionário partidário, para além de alguma breve experiência como
padeiro e apanhador de marisco!
Apesar da simpatia e a aceitação
generalizada que Jerónimo de Sousa congrega, há quem nunca lhe desculpe a
posição que teve face à invasão da Ucrânia, nem o descalabro dos resultados
eleitorais, durante a sua vigência como secretário-geral do PCP. Foi pela mão
dele que a Geringonça viu a luz do dia (o PS só não forma governo se não
quiser), talvez o maior erro de Jerónimo de Sousa. Pela minha parte
continuo a achar que Jerónimo de Sousa personifica o proletário e romântico comunista,
coerente e respeitador dos ditames do Partido. Incapaz de mudar de opinião, por
mais evidentes que sejam as causa sem análise.
Com toda a simpatia, considero
que Jerónimo de Sousa é o típico gajo porreiro, que fiel aos seus princípios e
orientações, está nos antípodas do que defendo para mim, e mesmo assim não
deixa de merecer a minha simpatia. Até sempre camarada. Votos de uma vida longa
e feliz.

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