quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

O NATAL DA MINHA INFÂNCIA

 

Nesta altura do ano, não há como não sentir a nostalgia que o Natal da nossa infância nos remete. Particularmente o Natal em São Miguel, envolvia uma série de costumes e era marcado por tradições locais, que faziam desta festa, uma verdadeira comunhão familiar. A minha mãe, enquanto foi viva, liderava este acontecimento que envolvia toda a família, já de si muito numerosa e que juntava, para além de nós, os tios e os primos. A preparação da festa propriamente dita compunha-se de uma série de rituais (muitos deles ainda permanecem), para que nada faltasse a um acontecimento que envolvia toda a gente e muito em particular a miudagem.

Pela sua singularidade, gostava de enumerar alguns:

·      OS LICORES – Todas as donas de casa, alguns meses antes procediam à elaboração de licores, que iriam servir ao ritual do “O menino mija?”, bem como todos os eventos natalícios. Eram feitos de velhas receitas passadas de geração em geração. Os licores de leite e de tangerina da minha mãe era uma especialidade;

·      A ÁRVORE DE NATAL – por volta de meados de Dezembro era hábito ir-se ao Mercado da Graça comprar a Árvore de Natal. Escolhia-se sempre uma árvore de criptoméria, o mais bonita possível e com uma altura que quase tocasse o tecto. Era montada num canto da sala e por baixo dela “armava-se” o presépio. A árvore era enfeitada com alguns adereços alusivos e com os postais de Boas Festas que iam chegando.

·      IR AO MUSGO – Pouco antes da feitura dos presépios as crianças iam à procura do musgo, da leiva e de pedra basáltica, elementos essências para “armar” e decorar o presépio;

·      O PRESÈPIO – Tentava-se que fosse bem grande porque eram muitas as representações que tinham forçosamente de aparecer: Com destaque para a Sagrada Família, da gruta de Belém, dos pastores e dos Reis Magos (em que diariamente se iam aproximando da gruta). Estavam representadas também, cenas do quotidiano da vida micaelense como: a matança do porco, o lago feito com um espelho, as cascatas(salto), a procissão, a banda da música, os foliões, os lavradores, as casinhas, os moinhos, as vacas, etc. Todos estes bonecos eram feitos de barro pintado na Lagoa e, posteriormente, eram cuidadosamente embrulhados em papel de jornal para o ano seguinte.

·      DIA DAS MONTRAS – é tradição em Ponta Delgada haver um Exposição e Concurso de Montras pelo comércio micaelense. E era também neste dia que eram inauguradas as iluminações públicas do Natal. A pequenada aproveitava para pedir ao Menino Jesus as prendinhas que gostavam. Era feita uma cartinha e depositada numa papelaria na baixa de Ponta Delgada especializada em brinquedos;

·      O TRIGO E A ERVILHACA – No dia 13 de Dezembro, dia de Santa Luzia, eram feitas “plantações” de sementes de trico e ervilhaca e pequenas taças para atingirem o tamanho ideal e serem dispostos à volta do presépio e em outros locais da casa. Este costume constitui um rito, para que nunca falte pão em casa.

·      O MENINO MIJA? – é uma tradição muito antiga e que basicamente consistia em bater-se à parte dos amigos, vizinhos e familiares, e perguntar: o Menino mija? A dona da casa convida à entrada e na mesa da sala estavam sempre: figos passados e recheados, nozes, alfarroba, amendoins e os já referidos licores. Actualmente esta tradição serve para juntar os amigos para um convívio previamente combinado e muito menos ritualizado.

·      A MISSA DO GALO – Era obrigatório toda a família participar nesta festa religiosa. E só depois é que era servida a ceia de Natal e distribuídos os presentes;

·      A CEIA DE NATAL – Não existia uma tradição rígida sobre a ceia de Natal. O bacalhau com todos era a mais usual. Na minha casa era tradição o peru assado no forno, porque a família era presenteada nesta época com os ditos perus.  Era assado por um profissional amigo da família. Os doces mais vulgares era as fatias douradas, o bolo inglês e o bolo de ananás, as rosas do Egipto, e as malassadas.

·      DIA DE REIS – No dia de Reis, faziam-se deslocar os Reis Magos para junto da Gruta. No dia seguinte procedia-se à desmontagem e acondicionamento de todas as figuras do presépio.

·      CANTAR OS REIS - Acompanhados por instrumentos musicais, grupos de amigos e conhecidos (reiseiros) vão de casa em casa entoando cantigas em que se deseja Boas Festas e um feliz Ano Novo e se pede um donativo. São cantadas quadras alusivas à data e outras enaltecendo os donos da casa;

Nesta altura do ano o espírito natalício perdura, mas as será impossível recriar um Natal como se fazia naqueles tempos. A realidade actual torna mais difícil todo este envolvimento e sentimento de partilha e comunhão. A nostalgia do Natal em São Miguel, está profundamente enraizada nas suas tradições culturais, religiosas e sociais. É uma época para celebrar, recordar tradições antigas e entes queridos. Que este espírito nunca se perca são os meus votos de Umas Festas Felizes a todos os que visitam este Blog.

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