É, provavelmente, uma das mais belas baladas da música açoriana contemporânea. Chamateia é uma música encomendada por Zeca Medeiros a Luis Alberto Bettencourt, autor da música e António Melo Sousa, o autor do poema, para servir de música de temática açoriana para uma novela da RTP Açores, intitulada “Balada do Atlântico”. Esta inspiradora balada reporta-nos para o viver ilhéu, ou da “condição insular”, nas palavras do seu autor, onde se alterna a dureza da vida, a saudade, os fenómenos telúricos (Sapateia), com a alegria representada pela exuberância e da beleza do meio envolvente (Chamarrita). Com o seu tom dolente e arrastado lembra o vai e vem da maresia numa qualquer praia açoriana, enquanto a sua letra, reporta-nos para ambivalência do viver açoriano entre a alegria e a tristeza, a que Vitorino Nemésio chamou de açorianidade.
“Esta
balada, que se espraia em sentimentos de alegria evocando festejos de
chamarritas dançadas em terreiros por pares enlaçados e de sapateias com os
tacos dos sapatos a baterem ritmadamente o chão, mas também de tristeza face ao
mar alto e à quietude da ilha que fazem o alento ir e vir sendo inquietação e
pranto, toca qualquer açoriano, de oriente a ocidente das ilhas, mais aqueles
que, longe, na diáspora, se consolam nos poemas e nas músicas da ilha.”[1]
No berço que a ilha encerra
Bebo as rimas desse canto,
No mar alto dessa terra
Nada a razão do meu pranto.
Mas no terreiro da vida
O jantar serve de ceia,
E mesmo a dor mais sentida
Dá lugar à Sapateia.
Ó meu bem, ó Chamarrita
Meu alento e vai e vem,
Vou embarcar nesta dança
Sapateia, ó meu bem!
Se a Sapateia não der
Pr’a acalmar minh’a alma inquieta,
Estou p’ró que der e vier
Nas voltas da Chamarrita.
Chamarrita, Sapateia
Eu quero é contradizer,
O alento desta bruma
Que às vezes me quer vencer.
Ó meu bem, ó Chamarrita
Meu alento e vai e vem,
Vou embarcar nesta dança
Sapateia, ó meu bem.
Ao
longo da sua curta existência muitos têm sido os músicos que a integraram nos
seus repertórios. A simplicidade da melodia e a perfeita harmonia entre a letra
e a música tornam-na perfeitamente adaptável a qualquer tipo de voz, ou
conjunto musical. Deixo aqui, na minha modesta opinião, uma das mais belas
interpretações desta balada, na voz de António Zambujo, acompanhado pelo coro
feminino búlagaro, Bulgarian Voices Angelite.
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