A edição de 2014 chegou ao fim, e
a representação portuguesa tem razões para ficarmos contentes pelos resultados
alcançados. Esta satisfação não pode ser dirigida unicamente aos atletas
medalhados, mas para todos aqueles que alcançaram uma posição de destaque numa
competição em que todos os atletas, sem excepção, dão tudo o que têm. Qualquer
um dos títulos alcançados têm por detrás muitas horas de treino, muito sacrifício
pessoal e familiar envolvidos; e também muita privação daquilo que cada um de
nós entende como os prazeres do ócio. Também a nossa posição relativa, no
ranking dos países participantes são de modo a reforçar este sentimento de
satisfação pelos resultados alcançados.
O mesmo já não se pode dizer se
nos compararmos com países da nossa dimensão, como apontava João Miguel Tavares:
“a Grécia, que tem 10 milhões de habitantes, como nós, e é um dos poucos
países da União Europeia mais pobres, tem sete medalhas. A Irlanda, que tem menos de cinco milhões de
habitantes, também tem sete medalhas, quatro de ouro. A Bélgica (11 milhões)
tem cinco. A Hungria (10 milhões) tem oito. A Suíça (nove milhões) tem sete. A
Croácia (quatro milhões) tem cinco. A Suécia (10 milhões) tem oito – e nos
últimos Jogos Olímpicos de Inverno teve mais 18”.
Se pensarmos que a modalidade que
mais nos honrou nestas olimpíadas - o ciclismo de pista, ser desconhecida para
a generalidade dos portugueses, obriga-nos a uma reflexão mais profunda. Esta
reflexão deve incidir sobre a forma como o desporto no seu todo é tratado no
nosso país. Desde logo verificamos uma diferença no tratamento entre
disciplinas como: o futebol, o basquetebol, o andebol, o ciclismo de estrada, o
rugby, apenas para referir aquelas que merecem uma maior financiamento e cobertura
mediática. Como se pode observar, nenhuma destas disciplinas esteve
representada nos Jogos Olímpicos de Paris, apesar disso!
O Desporto Escolar que deveria ter
um papel fundamental no desenvolvimento desportivo dos jovens, a par da descoberta
e encaminhamento de talentos, é algo que ninguém sabe bem se existe, e o que
faz. O desporto universitário é também algo praticamente inexistente. Quando em
muitos outros países, representam um alfobre do aparecimento de grandes talentos.
De uma maneira geral o desporto,
particularmente aquele que se pratica fora dos grandes centros urbanos, assenta
na “carolice” de meia dúzia de entusiastas que, com sacrifício pessoal e
familiar, preparam e acompanham atletas para que nada lhes falte, apesar da
exiguidade dos meios e dos financiamentos. As estruturas associativas locais
lutam com enormes dificuldades para a sua gestão corrente, muito mais para as
dificuldades de proporcionarem aos seus atletas as condições competitivas de nível
superior.
O JUDO uma modalidade que
acompanhei localmente durante alguns anos, é disto mesmo um exemplo
paradigmático. Particularmente no distrito de Santarém, temos um movimento
associativo pujante, dinâmico e preocupado. Talvez por isto mesmo, das 4
medalhas olímpicas conquistadas no Judo, dois atletas tenham tido origem em
clubes desta associação. Isto não significa que tenham melhores condições do
que outras estruturas semelhantes, muito antes pelo contrário. Significa que
para se conseguirem atletas de elite é preciso: quantidade, formação, trabalho
continuado, e competição ao mais alto nível. Mas é essencial, para além disto, que
estes organismos tenham possibilidade de planear a longo prazo – um atleta de
eleição demora uma década a conseguir atingir o topo.
A terminar, o meu profundo
respeito e admiração por todos aqueles que, com muito sacrifício nos encheram
de orgulho pelos feitos alcançados. Todos estes participantes merecem que não
se fale deles apenas durante as semanas que duram os Jogos. É preciso repensar
o desporto desde já, se queremos uma real e efectiva melhoria no desporto
nacional. A alternativa, é continuarmos a ser diariamente bombardeados com
infindáveis debates sobre futebol, tudo mais não interessa!
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