Relembro de na minha juventude ter ainda visto na cidade de Ponta Delgada, algumas senhoras que usavam este traje estranho, conhecido por Capote e Capelo. Nessa altura já começava a cair em desuso e, eram já raras as senhoras que o usavam. O característico “Capote e Capelo” faz parte da identidade social e cultural dos Açores.
Era constituído por duas peças: uma
capa que descia dos ombros até aos pés, e um “capelo” armado que escondia o
rosto de quem o usava e que assentava sobre os ombros por uma estrutura de osso
de baleia. Eram, invariavelmente, de cor azul-escuro, ou pretos. O Capote e
Capelo era um conjunto que se herdava, passando de geração em geração, e, por
vezes, servindo toda a família. Peças obrigatórias do dote da noiva, serviam
também como traje de noivado. Por isso, para as mulheres mais pobres, a grande
ambição era possuir um Capote e Capelo. Era utilizado em todas as ilhas, com
ligeiras diferenças.
Raul Brandão, na sua obra “As Ilhas Desconhecidas”, descrevia estas figuras como “tenebrosas” uma vez que escondiam a identidade e causava algum espanto a quem via passar aqueles vultos negros. Também reconhece um aspecto prático no uso deste traje, que era permitir á senhora sair de casa sem necessidade de vestir uma roupa adequada a uma determinada circunstância. Do mesmo livro, esta deliciosa prosa: "A gente segue pelas ruas desertas, e, de vez em quando, irrompe duma porta um fantasma negro e disforme, de grande capuz pela cabeça. São quase sempre as velhas que o usam, mas as raparigas, metidas na concha deste vestuário, que pouco varia de ilha para ilha, chegam a comunicar encanto ao capote monstruoso (...) Começo a achar interesse a este fantástico negrume e resolvo que devia ser o único trajo permitido às Mulheres açorianas."
Embora seja difícil de comprovar a
sua origem, a justificação mais plausível é que tenha sido trazido pelas
famílias flamengas que povoaram as ilhas em pleno século XV e XVI. Apesar de
algumas semelhanças, também não parece haver qualquer relação entre este traje
e o “Biôco algarvio”, também conhecido como a “Burca Portuguesa”. Este parece
estar relacionado com uma herança do tempo da ocupação muçulmana do território
português.














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