| Porto de Ponta Delgada - Carvalho Araújo |
Corria o ano de 1965 e este açoriano, que nunca tinha largado o doce aconchego do lar e da Ilha, e aventurou-se no velhinho navio Carvalho Araújo, em direcção ao desconhecido. Vivíamos num tempo em que viajar seria um privilégio de poucos, e a necessidade de alguns para vencer a distância e o isolamento que a condição de ilhéu condenava. Foi precisamente o meu caso.
Desde sempre tive uma
inexplicável atracção pelo mundo agrícola. Provinha de uma família que não
tinha qualquer ligação à lavoura, mas as férias passadas num lugarejo chamado
de Aflitos, em casa de uma família ligada ao sector leiteiro, permitia-me
mergulhar no mundo do maneio do gado, das ordenhas, das desfolhadas, das
vindimas da apanha da castanha e, de alguma forma, em todas as lides do campo,
pelo qual me apaixonei. Quando chegou a hora de decidir, dar continuidade ao
percurso académico, a escolha do Curso de Regente Agrícola, apareceu em
primeiro lugar. Influenciado pela experiência de colegas que já cá estudavam e,
cujos depoimentos sobre a cidade e o curso facilitaram a minha escolha.
Aportei a Lisboa numa manhã em
meados de Setembro. À minha espera estavam uns tios irmãos do meu pai que me
levaram para Queluz, onde residiam. Logo no dia seguinte, apanhava um comboio
para ir conhecer a grande capital. Tudo era novo e surpreendente. A primeira
viagem de comboio, a visão do bulício de uma grande cidade, e o desconforto com
a dificuldade de me fazer entender, que o meu carregado sotaque micaelense
levantava. Mas aquele mundo novo despertava a minha curiosidade e o sentimento
de descobrir algo novo. O desejo que esta nova aventura despertava, levou-me a
calcorrear a cidade a pé. E não houve lugar icónico que eu não tenha visitado.
Surpreendido com uma realidade
substancialmente diferente da vivência num arquipélago, isolado, abandonado
pelos poderes centrais e onde a vida se desenrolava no ritmo da cadência das
ondas. Este oceano imenso que nos rodeava, apresentava-se a um ilhéu como uma
barreira intransponível em tempos de mar revolto. Mas por outro lado,
revelava-se como a porta de saída para o desconhecido ou em busca de um futuro
melhor. Esta foi a via preferencial que a diáspora açoriana encontrou, como
forma de fugir à miséria e em busca de melhores dias noutras paragens.
Felizmente não foi o meu caso.
Na última semana de Setembro,
apanhei o comboio em direcção a Santarém. Relembro o pensamento que me assolava
na altura que era o de começar uma vida nova, de forma independente e da
responsabilidade associada.
Aqui e naquele longínquo ano se
iniciou a minha aventura de vida. Aqui me formei, aqui casei, aqui fiz o meu
percurso militar. Depois de dois anos em Timor, a cumprir a comissão de serviço
militar obrigatório, aqui regressei para iniciar a minha carreira profissional. Com um regresso às origens em 1977, para
abraçar uma experiência que não deu certo, eis-me regressado à capital
ribatejana, até aos dias de hoje.
É com um sentimento de profunda
gratidão que tenho de agradecer à cidade e às suas gentes a forma como sempre
fui acolhido, acarinhado e respeitado. Tentei sempre retribuir à cidade tudo o
que me deu. Não por uma mera questão de retribuição, mas, fundamentalmente por
me fazerem sentir como mais um dos seus, e nunca um estranho.
Apesar de uma longa vivência,
tenho de confessar que, na realidade, nunca me senti um verdadeiro ribatejano,
porque nunca me consegui livrar desta marcar indelével que qualquer ilhéu traz
consigo. Houve que afirmasse: “o ilhéu pode sair da ilha, mas a ilha nunca
sai do ilhéu”. Mas é muito mais do que isso. Nas palavras de um australiano
de nascimento e açoriano de coração, que afirmou:
“Não
levam só a ilha, mas acarretam com ela séculos de história e de tradições que
insistem em transplantar como se elas tivessem raízes que pudessem medrar em
solo estrangeiro e torná-lo mais ameno, hospitaleiro, em suma, açoriano.”
in A CONDIÇÃO DE ILHÉU
J CHRYS CHRYSTELLO
Provavelmente um regresso às ilhas seria
algo que podia ver com bons olhos, sobretudo pelos laços familiares que me
ligam àquela terra. Mas por outro lado isso significaria, cortar com laços
profundos que me prendem à velha Scalabis, que tanto me deu. Onde arranjei um
grupo de amigos, que fazem parte integrante da minha vida, que me estimam e
acarinham. Deixa-me numa profunda inquietude, o de me sentir intrinsecamente ilhéu,
mas preso a um lugar que tanto me deu, como o meu porto de abrigo.
Acredito que este sentimento
possa revelar-se a muita gente como algo dúbio, inconsistente ou um pouco
indefinido. Talvez se entenda melhor esta minha angústia, neste poema da também
açoriana Natália Correia, intitulado Manhã Cinzenta:
À partida de São Miguel
Ai madrugada pálida e sombria
em que «deixei a terra de meus pais
e aquele adeus que a voz do mar trazia
dum lenço branco, a acenar no cais.
O meu veleiro - era de espuma fria -
Lavava-o o fervor dos vendavais
À passagem gritavam-me: onde vais?
Mas só o meu veleiro respondia.
Cruzei o mar em direcções diferente
Por quantas terras fui, por quantas gentes
Nesta longa viagem qua não finda
Só uma estrada resta - mais nenhuma:
Na ilha que o passado envolve em bruma,
Um lenço branco que me acena ainda...
É mesmo isso que eu sinto, cheguei ao "continente" também em meados de Setembro, em 83, mas já de avião, e cá estou, com a ilha no pensamento.
ResponderEliminarA ausência tem uma filha
Que se chama saudade
Eu sustento mãe e filha
Bem contra a minha vontade
Abraço
É isso mesmo. É um sentimento que só um ilhéu sente e difícil de explicar. A palavra açorianidade inventada por Nemésio representa isto mesmo.
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