Nunca fui muito apologista de
greves, sejam elas quais forem. As greves dos enfermeiros, não são por isso,
uma excepção.
Esta minha posição, não é de não
reconhecer a sua legitimidade, ser um direito inalienável de qualquer
trabalhador e constitucionalmente garantido. Mas, sobretudo, por na
generalidade dos casos, não resolver os problemas em disputa, para além dos
prejuízos óbvios, que isso acarreta aos grevistas. Como segundo aspecto,
porventura, ainda mais importante é que, os principais prejudicados, serem
sempre os mais pobres, mais fracos, desprotegidos, e sem qualquer capacidade
reivindicativa.
Por isso, a greve dos enfermeiros
para mim, não representa uma excepção. O que nos causa alguma surpresa é o
facto de as forças políticas mais progressistas e defensoras deste direito, no
caso dos enfermeiros, serem total e ferozmente contra ela. Curioso este
comportamento se comparado, com a defesa intransigente, noutros cenários de greve,
nomeadamente nas incontáveis greves dos transportes (Carris, CP, Metro,
Transtejo) e professores! Todos nós nos lembramos de outras greves, também elas
“selvagens”, e o tradicional alinhamento destas forças na defesa da sua
legitimidade!
Com um SNS a rebentar pelas
costuras, os enfermeiros representam uma força indispensável e, na minha modesta
opinião, e são o verdadeiro sustentáculo, da prestação dos cuidados de saúde à
população! Se pensarmos que quem está doente, se sente duplamente fragilizado, quer
pala doença, propriamente dita, quer ainda por todas as consequências a esta
associadas. É por isso legítimo, que quem, por necessidade, tenha que recorrer
aos serviços de saúde, facilmente pode considerar esta greve de selvagem. Mas
isso não inviabiliza o enorme respeito que nutro por esta classe profissional.
O descontentamento dos enfermeiros
eu consigo entender. A sua dedicação e competência penso que é inquestionável. Há
enfermeiros, com 15 anos de carreira e dois mestrados, que ganham tanto como um
jovem profissional que, agora inicia a sua carreira. A actividade de enfermeiro
é muito desgastante; com horários de trabalho por turnos, com responsabilidades
acrescidas, por lidarem com a vida dos utentes, a exposição a factores de risco
considerável, serem os licenciados no SNS mais mal pagos, etc. A lista de é
enorme e podia continuar.
Mas voltemos aos seus mais
acérrimos detractores – a maioria de esquerda que nos governa. O discurso
recorrente é: que é uma greve selvagem
e ilegal. Porquê esta atitude,
quando tradicionalmente, estão sempre ao lado dos grevistas e apoiando
incondicionalmente as suas reivindicações? Considerar esta greve de selvagem,
ainda posso aceitar, mas de ilegal, bastava accionar os mecanismos legais em
vigor e inviabiliza-la. Já para não falar na requisição civil, um mecanismo que
o governo pode invocar, para parar tal “selvajaria”. Aparentemente, a
requisição civil, que finalmente o governo deitou mão, foi tarde e não sei se
totalmente legal, também. Vamos aguardar para ver.
Qual a razão para tal mudança de
atitude? A minha perplexidade é enorme! Ou talvez não!
Provavelmente para isso
contribuiu muito o facto de dois dos sindicatos proponentes da greve, não se
encontrarem sob a tutela das centrais sindicais, afectas a estas forças de
esquerda. Provavelmente, é esse alinhamento das centrais sindicais com as forças
políticas referidas, que serviu como moeda de troca para a formação da actual geringonça e o cimento que a mantém a
funcionar.
O outro argumento centra-se à
volta do crowdfounding! Que é
ilegal (?) e que, o êxito do financiamento, se devia aos privados que, de forma
macabra, viam neste financiamento uma forma de acabar com o SNS, em proveito
próprio. A realidade veio provar que isso não se verificou, pelo menos, de
forma concertada. Embora em planos diferentes, a hipocrisia de António Costa é
abissal! Ele quando concorreu à Câmara Municipal de Lisboa, também recorreu ao crowdfunding,
para financiar a sua candidatura!
Finalmente uma palavra sobre a senhora bastonária da Ordem dos
Enfermeiros. Lamentavelmente a senhora, tem uma sede de protagonismo. Fala por
tudo e por nada.
As ordens profissionais servem para definir e regulamentar o exercício
da profissão. Ao defender o direito e a legitimidade da greve dos enfermeiros,
extravasou as suas competências. Essa é uma competência dos sindicatos. A sua
actuação, prejudicou as naturais aspirações da classe.
A minha simpatia e confiança nos enfermeiros, não me deixa insensível aos
inúmeros prejuízos que estas greves têm causado. O diálogo deveria ser a
alternativa natural. Parece que este governo não estará muito disponível para
tal, sem que a argumentação utilizada me convença. Se os sindicatos em luta
fosse afecto a uma das centrais, o problema já tinha tido uma solução de
consenso. Penso eu!
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