A greve já vai no seu terceiro dia e, todos temos
consciência, que genericamente todos nós sofremos os efeitos resultantes do
exercício deste direito constitucional. Ou seja, directa ou indirectamente
sofremos porque, somos de alguma forma, prejudicados com a falta e/ou racionamento
dos combustíveis e pela afectação dos inúmeros prejuízos causados em muitos
sectores de actividade,: agricultura, hospitais, restauração, hotelaria, distribuição
alimentar, etc.
Diria mais, neste conflito, ninguém fica bem na
fotografia:
Pardal Henriques, pelas posições estremadas e
erráticas que tem tomado, apesar da defesa das legítimas reivindicações dos
motoristas que ele representa. Não muito diferentes de posições assumidas por
outros dirigentes sindicais, noutras ocasiões, não muito distantes. Fica muito mal
na indicação de violação da Requisição Civil aos motoristas, sobretudo pela desproporcionalidade
da luta.
Não fica bem a ANTRAM e o seu representante, André
Almeida pelas posições de intransigência que tomou, e ainda por não reconhecer a
injustiça que o actual vínculo dos camionistas representa. Fica ainda muito mal
pela sua reconhecida filiação partidária no PS e pela nomeação, pelo actual
executivo para dois cargos. Aqui, aparentemente, os critérios de isenção, ética
e deontologia, parecem não se aplicar.
Fica mal o executivo, por ter entrado a pés juntos
numa acção musculada, em detrimento da conciliação entre as partes. Para tal
foi nomeado o ministro Pedro Nuno Santos por ser um exímio negociador, apesar
do fracasso. Não seria mais lógico a indigitação do ministro do trabalho para
esse efeito? Fica mal o governo uma excessiva e indisfarçável proximidade e
simpatia pelas posições da ANTRAM. Qual a autoridade moral do governo, mediar
um conflito de pessoas que chegam a fazer muitas horas de trabalho diário 14-15h/dia,
quando fixou para a função pública um horário de 35 horas semanais! Ficou mal o
governo na forma como os militares foram empurrados para a responsabilidade de
motoristas eventuais de matérias perigosas, num papel que não é o deles. Ficou
por se saber qual: a formação recebida, o regime de horários e períodos de
descanso destes militares, bem como, o esquema remuneratório no desempenho desta
função e quem paga o quê. Ficou por explicar se estes militares foram retirados
das suas funções habituais de segurança, quem irá garantir o seu cumprimento.
Fica mal pela vitimização que António Costa revela e, na influência que isto
tem sobre as intenções de voto.
Ficou mal o senhor presidente da República, sempre pronto a
falar sobre tudo e mais alguma coisa, e com a banalidade habitual, exigir ação
do Governo para resolver crise dos combustíveis. Há quem diga que é por
precisar do apoio da geringonça para a sua reeleição. Não quero acreditar! Depois
de ir à boleia com um camionista e publicamente, manifestar a sua solidariedade
com os salários e a pesadíssima carga horária, acaba de aprovar um aumento de
700 € para aos juízes.
As gasolineiras mantêm sobre este assunto um
silêncio comprometedor. Uma coisa é certa, segundo alguns órgãos de comunicação
social, registou-se um aumento de 38% das suas vendas. As finanças públicas
também beneficiam, directamente, com este aumento de vendas (carga fiscal sobre
os combustíveis e IVA).
Sem criticar as medidas adoptadas pelo governo,
fico com a convicção de que os principais perdedores somos todos nós e todos os
motoristas. Tudo o mais, está confortável a ver correr o pano. Se os
transportes não forem executados, não existem despesas. As faltas de
fornecimento serão, mais tarde ou mais cedo, repostas. O governo tem sempre o
argumento de ter deitado a mão a todos os mecanismos que estavam ao seu alcance
para resolver a crise. Vamos a ver se, em futuros conflitos grevistas,
(SOFLUSA, Metro, enfermeiros, médicos, forças de segurança) os critérios de
intervenção vão ser os mesmos, quer na amplitude e extensão da requisição
civil, quer na celeridade demonstradas. Os paladinos da defesa do direito à
greve e na defesa da classe trabalhadora, estiverem, durante muito tempo, remetidos
a um silêncio ensurdecedor! Quanto ao cidadão, exigem-lhe aquilo que pedem
sempre, paga e não refiles. Da minha parte não contem com isso.
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