Não nutro nenhuma simpatia especial por André
Ventura, pelo CHEGA, nem pelo discurso agressivo, incoerente, populista e destituído de
conteúdo. No entanto, o CHEGA constitui-se como um epifenómeno, que materializa
na sua prática política o descontentamento latente na sociedade, relativamente
aos inúmeros sacrifícios que as populações têm sido sujeitas. Fenómenos como a
corrupção, a insegurança, os fluxos migratórios e a sua associação directa a actos terroristas.
Talvez por isto mesmo, o discurso simplista assenta nos valores do
nacionalismo, da (in)segurança, do racismo e da xenofobia, encontrem eco em
muitas camadas da população que sentem de forma directa alguns destas realidades.
Se pensarmos bem, as linhas e
força deste parlamentar, assentam em duas ou três ideias: a insegurança e o medo com ela relacionada, os migrantes e os fenómenos associados ao terrorismo, a descredibilização
das instituições e um nacionalismo primário. Um discurso agressivo, populista e
demagógico, encontram eco em muitos dos nossos concidadãos. Para tal utiliza
tudo o que tem à mão. As facturas dos coletes anti bala, a sua participação na
marcha das forças da ordem às portas do Parlamento, são disso prova inequívoca.
Ou seja, aproveitando o descontentamento das forças de segurança, deitou mão de
uma fake news, para fazer passar o discurso.
O CHEGA apoia-se numa bem urdida
estratégia comunicacional, explorando exaustivamente as redes sociais, pela permeabilidade
dos seus utilizadores a tudo o que seja bombástico, sem o mínimo critério de aprofundar
a origem e a verdade da notícia. Vão alimentando a ideia de um herói forte,
corajoso e desafiante, sempre pronto para confrontação, desenvolvida com um
único propósito: que se fala muito dele. Bem ou mal, pouco interessa.
Este marketing político tem
atingido os seus objectivos. Raro é o dia que os diversos órgãos de comunicação
social (OCS), não lhe dediquem parte do seu tempo e espaço. Tudo aquilo que o
CHEGA e o André Ventura pretende – que se fale deles.
A recente ingénua e desastrada intervenção
de Ferro Rodrigues, nos trabalhos no hemiciclo, vieram atirar gasolina para a
fogueira. Assim, este incidente está a ser aproveitado até à exaustão e, permitir
a André Ventura explorar outro filão que tanto lhe agrada, a vitimização! Se não
é admissível aceitar todos estes exageros a André Ventura, o Presidente da AR,
não pode descer ao nível do arruaceiro e entrar em confrontação directa com ele.
A democracia não é perfeita e concede-lhe toda a legitimidade de intervir e da
forma que melhor o entender. E convínhamos. a palavra vergonha e vergonhosos,
utilizada naquele contexto não era ofensiva, no nosso modesto entender. Por isso, a intervenção
de Ferro Rodrigues representa tudo aquilo que não deveria ter sido feito.
Com isto não pretendo aceitar resignadamente, que este tipo este de intervenção política seja ignorada e, muito menos desvalorizada. É um
fenómeno crescente, preocupante e transversal. Importa equacionar as causas que
estão na sua origem e desenvolver um combate assente num contraditório
inteligente, responsável e que tenha a capacidade de desmontar as falácias utilizadas.
Dar-lhe espaço vital, é contribuir para a estratégia montada. É descer à
boçalidade e alimentar esta fogueira. E, é precisamente isto que tem sido feito
por opinion makers, OCS, políticos, e demais intervenientes. O CHEGA e André
Ventura agradecem.
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