quarta-feira, 25 de março de 2020

A AGRICULTURA PORTUGUESA MERECIA MUITO MAIS



Vivemos todos uma situação que será, muito provavelmente, a mais grave das nossas vidas. O país foi obrigado a adoptar o isolamento social como a forma mais elementar de combater este flagelo. Ou seja, temos um país retido em casa; e com uma profunda alteração da nossa vivência em sociedade. A estrutura produtiva do país foi severamente alterada: muitas das actividades não essenciais foram compulsivamente encerradas. Todos aqueles que possam trabalhar a partir de casa é-lhe pedido que o façam. Existem em oposição, muitas outras actividades que são essenciais, e que têm de continuar na sua quase normalidade, porque a vida continua e tem de continuar.
A magnitude desta catástrofe é de tal ordem, que certamente, ninguém tem uma ideia precisa da sua dimensão e dos danos que irão afectar objectivamente a vida de todos nós. Nesta conformidade, o apelo à solidariedade tem sido o discurso dominante dos principais responsáveis da gestão desta crise. Temos que entender que, se muitas estão obrigados a um confinamento domiciliário, muitos há, que têm que continuar a dar o seu contributo, para que todas as actividades essenciais, possam continuar a produzir com a normalidade possível.
É com base nesta premissa solidária que os responsáveis, nos seus discursos de ocasião, não se cansam de enaltecer o contributo destes trabalhadores, e muito bem. De facto, a abnegação dos profissionais de saúde, que estão na linha da frente e expostos a um risco objectivo, merece toda a nossa gratidão. Falamos também de todos aqueles que têm feito o sacrifício de trabalhar, com as condições vigentes, a manter o país a funcionar, para o bem comum. Sistematicamente são referenciados os profissionais de saúde, os elementos das IPSS’s que diariamente lidam com uma população de risco elevado, são as forças de emergência e de segurança, são os operadores de logística, são os farmacêuticos, é o comércio alimentar e sempre que possível, toda a actividade industrial e comercial. Todos eles merecem a nossa gratidão e, de alguma forma, é a eles que devemos o conforto possível, nesta reclusão a que a maioria da população está sujeita.
Uma vez mais, a agricultura e os agricultores, são excluídos nestes agradecimentos. Se os profissionais da saúde se encontram na linha da frente no combate a este inimigo invisível, poderá dizer-se que a agricultura e os agricultores, como reserva estratégica alimentar, mereciam o destaque que esta nobre actividade é, invariavelmente esquecida. E é pena! Sabendo que uma faixa importante dos agricultores portugueses são também um alvo de riso, pela avançada idade de muitos deles, isso não os impede de, diariamente, irem para o campo, porque aqui o tempo não perdoa.
O Mundo Rural que vive em simbiose com a Natureza e que se constitui como o garante da sua manutenção e preservação, contribui para garantir a produção de bens essenciais, merecia um tratamento mais digno. Sistematicamente os agricultores são considerados, como gente rude e de baixa formação académica e poluidores do meio, pela generalidade da população. Por outro lado, foram capazes, apesar disso, modernizar uma actividade que ombreio com o melhor que se faz no mundo, pela qualidade das suas produções. O “esquecimento” destes profissionais revela-se como um preconceito snob, no reconhecimento da importância que esta actividade tem para o país. O respeito e valorização do mundo rural, sem paternalismos, mas com reconhecimento pelo trabalho destes profissionais é algo que se impõe. É também com alguma estranheza que vemos as associações de classe indiferentes a este tratamento. Va-se lá saber porquê

1 comentário:

  1. Muito oportuno o alerta para este sector de fundamental importância para a produção de bens essenciais ao consumo, sobretudo num período de crise profunda. Igualmente relevante a chamada de atenção para um ainda elevado número de agricultores considerado, em função da idade, como trabalhadores "que são também alvo de #RISCO#".Os meus parabéns!
    L.B.

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