A Assembleia da República decidiu
não realizar o debate solicitado pelo partido Chega. O presidente da AR
empenhou-se uma forma muito entusiástica para que tal acontecesse. Penso que foi
uma oportunidade perdida. Não pela proposta da castração química, porque essa,
segundo a opinião de vários especialistas, é inconstitucional e, como tal,
correspondia a um nado-morto. Mas sobretudo, para tratar e debater um assunto
que é sério, preocupante e que a Justiça, repetidamente, tem dado um tratamento
demasiado brando e incompreensível. Ainda uma outra razão, a discussão deste
tema, seria uma oportunidade para demonstrar a André Ventura, das fragilidades
da sua proposta. Pelo contrário, muito se tem dito sobre o “receio” dos parlamentares,
dum confronto directo com o representante do Chega. Ferro Rodrigues e o seu
empenhamento nesta reserva, tem sido particularmente visado, por factos ligados
ao seu passado recente. A segunda figura do Estado devia poupar-se ou ser poupado
a este lamentável espectáculo.
O assunto da pedofilia e dos
crimes sexuais praticados com crianças, representam algo que perturba cada um
nós, naquilo que nos é mais sagrado: os nossos filhos e netos. A racionalidade
é algo que podemos expressar numa análise fria e distante desta temática. Mas
quando o problema nos surge de perto, qualquer um é capa de reagir de forma reactiva,
irracional e despropositada, especialmente se sentir que a justiça e o estado
fazem mal o seu papel.
A sensação de que a justiça é
demasiado condescendente com os predadores sexuais permitindo, inclusivamente,
que indivíduos condenados voltem ao ambiente onde os crimes foram praticados, é
inaceitável. Naturalmente, os sistemas: judicial e prisional não estão
preparados para a actuarem de forma célere e vigorosa para um efectivo controlo
deste tipo de comportamento desviante. Exactamente por isso, é que, não debater
o assunto, vem ainda exacerbar mais os intuitos populistas, que forças como o
Chega, não hesitam em deitar mão.
A premência que os sucessivos
casos levantam suscitam à sociedade uma grande e legítima preocupação, o que
justificaria, por si mesmo, um profundo e alargado debate. Virar as costas a esta
discussão parece ter sido uma oportunidade perdida. Cada novo caso observado,
vai dar trunfos a André Ventura, para dizer: eu bem avisei.
Demoram em perceber a estratégia da criatura...
ResponderEliminar