sábado, 19 de setembro de 2020

VAI FICAR TUDO BEM?

 O mundo foi confrontado com uma realidade para a qual ninguém estava preparado. A responsabilidade de tudo isto assenta num vírus minúsculo, com uma capacidade de contaminação elevadíssimo, com uma taxa de mortalidade reduzida (se comparado com outras patologias, que é controlado com água e sabão, mas que causou um alarme de nível global). Não houve um único país, por mais bem preparado que estivesse o seu sistema de saúde, que conseguisse manter em funcionamento pleno a sua estrutura produtiva.

Foi necessário serem adoptadas medidas extremas, com base no que se conhecia na altura, para tentar debelar, ou atenuar os efeitos que este vírus podia causar. Numa primeira fase, esse desconhecimento, levou as populações a aceitarem, com resignação e compreensão, todas as medidas adoptadas: o confinamento, o distanciamento social, a etiqueta sanitária e respiratória, o uso de máscara e luvas, recomendações de ventilação e higienização ambiental, medição de temperatura, redução do espaço nos transportes e em todos os lugares públicos, limitação de participantes em reuniões familiares, restrição no número e pessoas nos funerais, proibição de público em actividades desportivas, culturais e sociais,  etc. Estas medidas mais restritivas imperaram cerca de três meses para a maioria das pessoas. Os núcleos familiares viram-se repentinamente, aprisionados em casa, em alguns casos em situação de teletrabalho, com os jovens submetidos ao ensino à distância (com todos os problemas que isso causou, nomeadamente, a nível social), com as dificuldades de acesso aos bens essenciais e, principalmente, com a dificuldade do mais que necessário convívio social.

Foi imperioso instituir o estado de calamidade para que o combate fosse rápido e eficaz. Pela excepcionalidade desta medida a população aceitou, com natural submissão, a lógica e a necessidade das acções. Os transportes, escolas, comércio, restauração, cultura, desporto, comportamento social, trabalho, serviços públicos e equipamentos sociais foram seriamente afectados, com todas as consequências que isso determinou, na via das pessoas. À medida que o tempo ia passando, e a economia se ia desagradando, cedo se percebeu, que seria impossível manter a situação por muito mais tempo, pelo que impunha um regresso ´normalidade possível. Mesmo durante o período mais severo da pandemia, muitos eram os que afirmavam e pugnavam com optimismo, que “tudo vai ficar bem”! À medida que as restrições forem sendo levantadas ou atenuadas, começou a falar-se numa “nova normalidade”. Mesmo esta, foi aceite com um pacote de grande restrição, na vida das pessoas e das empresas e organizações. Ou seja, nada ia ficar como dantes, e tínhamos que aprender a viver com uma realidade substancialmente diferente, daquela a que sempre nos habituamos, apesar de nova.

A alteração dos comportamentos, foi-nos imposto pela pandemia. Coisas absolutamente banais como: dar um abraço, fazer um almoço de fim de semana com a família ou os amigos, assistir a um espectáculo, dar um abraço, frequentar um ginásio, acompanhar um ente querido, etc. foram-nos vedads. Mas se isto, com alguma disciplina, capacidade de adaptação e resiliência é possível conseguir compatibilizar com esta nova realidade. Porém, do ponto de vista emocional, pensamos que as coisas não serão assim tão fáceis. Qualquer um de nós, pode ser um transmissor assintomático desta terrível enfermidade. Ou seja, mesmo sem saber e cumprindo todas as recomendações, podemos ser um veículo disseminador. Portanto, instalou-se no subconsciente de todos nós que, pior do que a doença, é a nossa responsabilidade do mal que possamos causar a terceiros. Este sentimento determinou um isolamento voluntário das pessoas, por uma cultura do medo instalada e que receio, vá perdurar por muito tempo! Gostava de acreditar que tudo vai melhorar. Não estou seguro disso. Se os mais idosos são os mais expostos e formam o principal grupo de risco, são também, aqueles que aceitaram com mais resignação todos estes constrangimentos. Os nossos jovens que por natureza são alegres, convivem de forma mais próxima e esfusiante, menos conscientes e responsáveis, vão formar a sua personalidade com base numa cultura de uma sociedade dividida, menos fraterna e, consequentemente, mais egoísta.

Com a perspectiva de uma segunda vaga do Covid 19 que se avizinha, vêem reforçar todos estes receios. A nossa convicção é que nada vai ficar como dantes. O mundo vai necessitar, provavelmente, de muitos anos até que uma solução eficaz e definitiva possa ser encontrada e que o ser humano, consiga ultrapassar todos estes receios. Por princípio e convicção sou um optimista. Apesar disso, fica-me uma sensação de algum desânimo, sobretudo, pelas consequências que tudo isto vai acarretar para os meus filhos e netos. Como eu gostava de estar enganado E que a frase de Friedrich Nietzsche:  “O que não me mata, torna-me mais forte”, pudesse aplicar-se neste caso.

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